É tempo de cumprimentar e de desejar o bem, pena que não seja assim todo o ano mas, se fosse, certamente tornar-se-ia vulgar, perdendo-se talvez o misticismo e eventualmente a vontade de estar continuamente de bem com tudo e com todos, assim como a tolerância, características próprias do momento.
A todos os leitores, deixo os meus votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, oferecendo-vos a imagem simples de abertura, o presépio com as figuras inquebráveis que a minha neta terá como primeiras e poderá manusear à vontade, no primeiro Natal em que já algo percebe, podendo assim ouvir as histórias que lhe vou contando a partir de cada figura escolhida pela sua mão, aprendendo talvez a respeitá-las.
Mas não vos quero deixar sem prenda!
Por isso e atendendo a que, entre trabalho acrescido de final de período lectivo e condições climatéricas adversas, a nossa pesca parece estar longe; vou deixar-lhes o meu presente de Natal na forma de uma análise sobre as últimas quatro pescarias cujo objectivo foi: obviamente... Douradas!
Tudo começou no dia 28 de Novembro, com a pescaria contada na última entrada, da qual não resisto a colocar a foto abaixo, outra, da dupla tirada pelo João. Depois, seguiram-se outras, respectivamente nos dias 8, 12 e 13 de Dezembro; sempre com capturas no limite do peso legal mas com características diferentes, principalmente no que respeita às variáveis: pesqueiros, iscas mais produtivas, estado do mar, hora de maior intensidade de capturas e concentração de barcos em acção de pesca na zona.
No dia 8 de Dezembro fui com o Zeca e o Vira, sabendo de antemão que o pesqueiro a Sul, onde tinha pescado na última vez, estava repleto de barcos; decidimos ir para Norte, para a calma e isolamento que também fazem parte da pesca.
A sonda trabalhou, o fundo rico apareceu com marcação conhecida e, depois dos trabalhos de fundeio, iniciámos a pesca sentindo de imediato roubos conhecidos.
Entraram os Pargos de quilo e logo a seguir as "Primas", escolhendo elas unicamente o Caranguejo enquanto a eles tudo servia... Caranguejo, Sardinha e Bomboca estavam em igualdade de circunstâncias para estes "Glutões".
O barco mexia-se um pouco com as variações de vento sendo que, quando se aproximava da pedra, entravam os Pargos; e, quando se afastava, entravam as Douradas com o aspecto desta que o Vira mostra.
Considerando o que atrás referi sobre o acerto na escolha do pesqueiro, quer num dia quer no outro, imagine-se que tinha ido para outro local, sondado e encontrado o que queria, fundeando... Se as Douradas também resolvessem cair às iscas só a partir das onze e tal, num pesqueiro sem ninguém, certamente o pessoal que ia comigo iria esmorecer e deixar de acreditar que "elas" andassem por ali, embora a sonda o indicasse. A acontecer, estava meio caminho andado para o insucesso da jornada, tendo em conta que, se não acreditamos, tendemos a perder o entusiasmo e consequentemente a minimizar o empenho e o ritmo da acção de pesca.
Nada que se pareça com as fotos que se seguem, indicadoras de actividade contínua e do sucesso da pescaria do segundo dia.
O Zé Beicinho, com uma das duplas:
E eu... Também a fazer o gosto ao dedo na fase mais intensa de pesca.
Com tudo isto, continuo a dizer que, pessoalmente e em caso de ter ido a solo, procuraria outro pesqueiro, longe da multidão; certificava-me que as características de fundo, correspondiam em dureza, profundidade, configuração e marcação de peixe; e, apostava! Ainda o quero fazer este ano! Vamos ver se as condições o permitem!?
Analisando estas quatro saídas, no que à pesca de Douradas diz respeito, fico a pensar:
1. As variáveis que se mantiveram constantes foram:
- O tipo de fundo, macio e encostado ao início de um pontão;
- A profundidade, sempre entre os 63 e 66 metros. Foi onde se encontraram, embora pudesse ser mais fundo. Em profundidades inferiores, nesta altura do ano, as probabilidades de "as" encontrar costumam diminuir significativamente.
- A marcação de peixe na sonda, uma linha aí com uns 3 mm de espessura, colorida a amarelos, verdes e laranjas, encostada ao fundo, partindo do fim do pontão e alongando-se pela embeirada e terreno limpo; e, as baixadas, sempre as que já por aí tenho descrito.
- A variação das formas de iscar sempre que existissem interrupções de capturas, em determinados momentos.
- A cooperação a bordo em termos de apoio nos momentos de "empachanços", "arrochanços", ponteiras partidas, iscadas mais produtivas... Versus, cada um tentar capturar mais peixe que o parceiro do lado.
- A quantidade e qualidade das capturas que, embora variando um pouco no 2.º dia, não me parece poderem retirar-lhe o sucesso.
- Os exemplares acima de dois quilos não se capturaram, embora os tivéssemos tentando variando iscadas, subindo a baixada acima do fundo ou atirando-a para mais longe. Se calhar estavam noutro lugar, mais calmo ou, quem sabe, estivessem por ali e preferissem qualquer outra coisa que por lá estivesse.
2. As variáveis inconstantes foram:
- Em nenhum dos dias fundeei no mesmo pesqueiro, embora nos 1.º, 3.º e 4.º tenha fundeado em pesqueiros na mesma zona muito por, aqueles em que antes tinha estado, estarem ocupados.
- O Caranguejo que, no 1.º dia, partilhou em pé de igualdade o sucesso com a Sardinha, tendo esta, em alguns momentos, capturado os maiores exemplares; revelou-se nos outros dias a única isca fiável.
- No 1.º e no 2.º dia, estivemos a pescar sem outras embarcações por perto; no 3.º e no 4.º aquilo parecia um encontro de embarcações, embora respeitando distâncias de fundeios da ordem dos 100 a 200 metros.
- As horas mais produtivas que nos primeiros dias não se evidenciaram, capturando-se com alguma regularidade ao longo de todo o tempo de pesca; revelaram-se após as onze horas, nos dois últimos dias sendo que, até a esta hora, só esporadicamente entraram uma ou duas Douradas.
- Nos dois últimos dias o mar esteve com mais vaga e mais incerto em termos da intensidade do vento que nos restantes, obrigando-nos a ter maior atenção aos toques sorrateiros, à manutenção da chumbada no fundo e obrigando para tal a que acompanhássemos os movimentos da vaga com o subir e baixar da cana, dificultando consequentemente os actos de sentir e ferrar.
- A aguagem que se fez sentir nos últimos dois dias e que correspondeu, em simultâneo, a um aumento de capturas, embora antes da sua entrada já se capturasse num ritmo interessante.
- As canas parabólicas mais macias que, nos dois primeiros dias, com menos vento e vaga, provaram bem; nos restantes, com o aumento da vaga e do vento, apresentaram grandes dificuldades nas capturas face às parabólicas progressivas mais rijas.
Acabei de produzir estas reflexões! É Domingo, dia 20 de Dezembro de 2009 e interrompi a escrita para irmos jantar, eu e a minha mulher. Comemos, conversámos e, enquanto fazia o café e olhava a chuva e o frio que fazem lá fora, pensava para comigo:
Agora vou "descascar" todas aquelas variáveis de que falei! Mas, enquanto a água fervia e pensava nelas, lembrei-me que as variáveis inconstantes podem ter tido muito pouca importância para os resultados obtidos... Senão vejamos:
Escolheram-se pesqueiros diversos, zonas diferentes, houve aguagem, o mar esteve diferente, pescámos no meio da multidão e isolados mas, com toda esta diversidade de condições... Tivémos sempre sucesso; mesmo com aguagens que levavam os engodos dos outros no sentido oposto ao local onde estávamos. Então o que importou afinal?
Inclino-me sinceramente para as variáveis constantes, ou seja:
1. A escolha do pesqueiro, considerando o que as Douradas procuram nesta época do ano. Não esqueçamos que, embora diferentes, as características dos pesqueiros foram sempre as mesmas ou muito parecidas.
2. A marcação de peixe visualizada na sonda, idêntica em qualquer dos pesqueiros escolhidos.
3. As baixadas, sempre efectivas em qualquer das condições existentes. Salvaguardo neste caso que outras pudessem obter melhores resultados, mas... Não experimentámos, nem tivémos ou arranjámos tempo!
4. As variações de iscadas quando as capturas se interropiam.
5. A contínua troca de informação sobre toques e iscadas de sucesso a par com a entreajuda em momentos em que as coisas não correram bem a algum de nós.
Considerando as reflexões produzidas, pode talvez dizer-se que o conhecimento dos fundos, o conhecimento sobre os hábitos das espécies, a escolha do material adequado, a cooperação a bordo, a leitura dos sinais em acção de pesca, a prática intensa, a confiança nestes conceitos e o contínuo colocar em causa de tudo isto, excepto a cooperação a bordo; são certamente conceitos de sucesso nesta nossa actividade espectacular, na generalidade, e, na pesca às Douradas, em particular.
A reflexão sobre estes quatro dias fica por aqui, embora com o receio de que algo tenha passado ao lado mas, se passou, só têm que conversar comigo... Certamente analisaremos o que estiver omisso e completaremos esta prenda que vos ofereço com aquela insegurança que sempre se apodera de nós quando esperamos que o nosso melhor amigo(a) goste daquilo que escolhemos para ele(a), no aniversário ou no Natal.
Boa noite a todos os leitores
