Para nós, pescadores, um dia de pesca parece ser sempre o culminar de um conjunto de desejos sobre os quais cismamos nos intervalos em que não pescamos, pensando sempre o que, como e onde, poderemos fazer para que tais desejos se tornem realidade.
O conjunto de pensamentos descritos, implicam programação que dependerá certamente dos nossos objectivos de pesca, das condições de mar e vento que se apresentarem e dos companheiros com quem vamos partilhar o dia de pesca.
Por sua vez, a programação inicialmente delineada, a época do ano e os exemplares que procuramos, determinarão as nossas opções, mais ou menos correctas, no que se refere a escolha de pesqueiros, tendo ainda em conta que algumas adaptações poderão ter lugar, ao longo do dia, dependendo dos sinais e resultados que se forem obtendo e considerando todas as outras variáveis referidas.
Quinze dias se passaram sem pesca, sempre à espreita de uma oportunidade que surgiu na Sexta Feira, 7 de Maio.
O Windguru, acompanhado ao longo da semana, acabou por “dizer” que, dos dias possíveis, considerando as minhas disponibilidades, a Sexta Feira seria a melhor hipótese.
Ora neste dia, as Provas de Aferição na escola, sem que me tivessem escolhido para aplicador, e a consequente ausência de aulas, abriram-me uma janela para a pesca e claro… Vamos embora para Sines!
Ainda mal tinha decidido a ida, quando encontrei um amigo de longa data, o João Amador, a quem há muito tinha prometido uma pesca nos “Alentejos” e que, estando de férias em conjunto com o Luís, seu genro, comigo formavam a equipa despreocupada, embora ansiosa, para uma pescaria a bordo do Makaira.
Estavam reunidas as condições que permitiam a programação, senão vejamos:
Data: 7 de Maio de 2010
Local: Sines
Objectivo: pesca ao fundo, em embarcação fundeada, procurando exemplares maiores, Pargo e Dourada de preferência.
Condições de mar esperadas: calmo até às 12.00/13.00 horas, com vento a levantar-se, moderado a fresco, a partir desta hora.
Características dos companheiros de pesca: mais familiarizados com a pesca aos diversos que com a pesca direccionada a exemplares maiores. Calmos, sem pressas e com vontade de ir a todas.
Iscas a utilizar: Sardinha como base, Camarão e Lula para percepção de toques, detecção de sinais, alternativa à Sardinha e, eventualmente, para adaptar a pesca aos companheiros, no caso de não se conseguirem exemplares maiores em tempo útil; considerando como definição deste último, aquele tempo que decorre entre o início da pesca e preparação do pesqueiro com a Sardinha, até ao momento em que os resultados comecem a indicar que dificilmente entrará peixe grande.
Caracterização da época do ano: considerando jornadas em épocas anteriores, tenho esta época como intermédia, ou seja, época do ano em que os maiores exemplares, tendendo a ainda se concentrarem por fora, poderem já correr esporadicamente os mares de terra. Problema é que mares de terra… Há muitos!
Com todos os anteriores considerandos na cabeça, arranquei para Sines na Quinta Feira à noite, após jantar, com intenções sérias de ainda beber um copo com o Zé Beicinho antes de andar para o barco, onde me esperavam as tarefas de o preparar e ao meu material de pesca, assim como, fazer pescas suplentes para exemplares maiores, prevendo a sua utilização pelos meus companheiros, assim o entendessem.
Cumpridas as tarefas referidas, foi vez de consultar os rascunhos guardados algures na minha massa cinzenta, abrir o GPS e, olhando a carta em pormenor, tentar optar pela zona a iniciar a pesca, tendo em conta:
- Os mares de terra, a Sul, com resultados muito variáveis nesta época, permitiriam pescar o dia todo mesmo quando o vento levantasse.
- Os mares mais fora, podendo oferecer mais segurança quanto a capturas, devido ao vento que se esperava, poderiam obrigar a sair mais cedo, não permitindo fazer pesqueiro, ou pior, ter de sair quando este estivesse feito.
- Os companheiros que iam comigo, assim como eu, não são pessoas que gostem de estar no mar a levar tareia.
Os anteriores pressupostos decidiram-me!
As opções de pesqueiros seriam os mares de terra, algures naquela área que mostro na carta que abre a entrada. Com mais ou menos capturas, estaria garantido um dia calmo de pesca e mais uma experiência quanto ao comportamento daqueles pesqueiros nesta época intermédia.
As pescas estavam feitas, as canas montadas, as iscas encomendadas, a opção tomada… Era chegado o momento de sossegar, olhar a noite, ouvir os sons e procurar o “vale dos lençóis”, permitindo que o relaxamento que se segue ao trabalho feito, induzisse o sono seguido, quieto, reparador… “Caí que nem tordo”!
O telemóvel tocou avisando a chegada dos meus companheiros, nesta manhã de Sexta Feira ainda calma, mas com prenúncios de vento. Buscámos as iscas, comemos e andámos para o mar, não muito longe, não muito fundo, sondando pelos 32 metros e encontrando uma marcação de peixe suficientemente interessante para um fundeio que se deu sem percalços, certinho, em cima da que parecia a melhor marcação e cumprindo com as opções tomadas.
Trabalhámos o pesqueiro com a Sardinha que, ora era comida, ora não. Intervalámos com as outras iscas (Lula e Camarão), sentindo mais agressividade dos toques neste caso, sinalizando muito peixe mas de boca pequena para os nossos anzóis.
O tempo passou, as iscas eram roubadas e os grandes não entravam; ao contrário do vento que fez a sua aparição na hora esperada, indicando a correcção das opções tomadas quanto à escolha do pesqueiro.
Entraram dois Parguitos pequenos, algumas Sarguetas e uma ou outra Choupa, enquanto o vento aumentava mais, dizendo-nos: ainda bem que não foram lá para fora… A esta hora já preparavam a volta.
A determinada altura entrou-me outro Parguito e, para variar, a Saima pequena que aqui se vê:
A esperança voltou quanto ao aparecimento de melhores exemplares mas, assim como voltou, se foi desvanecendo pela ausência de melhores toques, pouco interesse do peixe na Sardinha e consequente ausência de capturas.
O pesqueiro não estava a resultar quanto aos nossos principais objectivos, havia que mudar ou adaptar a pesca, sob pena de continuar o resto do dia, com uma ou outra entrada de peixe melhor, intervalada com muito roubo de isca, mais ou menos intenso, tornando a pesca “mole” e pouco motivadora.
Mudar de local pareceu-me pouco viável, atendendo às escolhas, limitadas pelo vento que só permitiria ir ainda mais para a terra, quando o pesqueiro onde estávamos até indicava peixe, embora não o que queríamos. Optámos por adaptar, assumindo a derrota quanto a capturas maiores e pescando aos diversos, esperando que de entre estes, alguma coisa melhorzita aparecesse.
Mudámos para anzóis mais pequenos, linhas mais finas, estralhos mais curtos e pasme-se… Pescámos aos diversos!
O Camarão e a Lula assumiram-se como actores principais pendurados nos nossos anzóis e as Choupas, Sarguetas, alguns Sargos perto do 0,5 quilo, assim como, mais uns 4 ou 5 Parguitos, começaram a entrar de forma intensa e regular nos nossos anzóis, animando o final do dia de pesca.
Aqui se vê o Amador com um exemplo de Parguito, capturado nesta 2.ª fase de pesca, adaptada às circunstâncias proporcionadas pelas condições do dia e pelas opções por nós tomadas “in extremis”.
Fazendo um balanço do dia de pesca, pode dizer-se que:
- O pesqueiro foi bem escolhido, atendendo às condições esperadas de mar e vento, permitindo-nos fazer pesqueiro e manter-mo-nos a pescar, mesmo quando o vento e a ondulação aumentaram significativamente.
- A zona, sendo habitualmente frequentada por exemplares maiores a partir deste mês, sabia-se que poderia ou não apresentar melhores resultados, atendendo a estarmos no início da época mais profícua.
- As tentativas de fazer entrar peixe maior no pesqueiro foram até mais insistentes que habitualmente, mas o facto é que não entrou ou deu qualquer sinal.
- Não se sabe se a Sardinha por ser magra embora fresquíssima, não terá tido influência negativa no chamamento dos grandes, até pelo pouco interesse que os pequenos por ela demonstraram.
- O pesqueiro revelou-se bastante interessante para quem se dedique a pescar aos diversos.
Resumindo e concluindo, pode afirmar-se que programámos, optámos e adapta-mo-nos bem, tendo em conta as condições do dia e os resultados que foram aparecendo, conseguindo um belo dia de pesca entre amigos, com capturas suficientes e de alguma qualidade, sem que, no entanto, tenhamos conseguido satisfazer os nossos desejos de maiores exemplares. Fica para outro dia!
Daqui envio um abraço ao João Amador e ao Luís que tiveram a serenidade de trabalhar e esperar os maiores, assim como, a capacidade de se adaptarem quando foi necessário. Quero ainda dizer-vos que foi uma pena não terem ficado para jantar… A Saima, escalada e grelhada na brasa, estava um espectáculo! Também isso fica para outro dia.
A todos vós que me lêem, espero que se divirtam e desejo-vos uma boa semana de trabalho.
Até outro dia!
