quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Abram alas! Sua Excelência, a Pesca, está a chegar... Fresquinha!


Os dois "artistas" da foto acima, parecem ambos estar a rir... Será do título? Mas adiante!

Por estranho que pareça, estou a escrever a partir de Coimbra. O meu sogro vem fazer uma operação a uma vista e claro que o vim trazer e dar apoio até que o processo da dita intervenção se complete. Faz parte da vida... Momentos agradáveis e muitos outros... Nem tanto. Depende de nós aproveitar o melhor possível cada momento que ela nos traz.

Entretanto, já houve pesca e, consequentemente, espaço em aberto para a escrita.

O interregno foi grande, as informações que ficaram ao longo dele, pareciam-me por um lado, insuficientes e, por outro, pouco fidedignas. Por tal, recorri ao computador que tenho debaixo do cabelo e a algumas datas/pescarias documentadas aqui no blog, no sentido de determinar os locais de ataque para o início das hostilidades que se verificou no passado dia 20, prolongando-se por 21, 22 e 23.
A procura e testes de pesqueiros eram o que estava mais certo e, em equipa com o João Martins, iniciámos a primeira jornada, procurando os pesqueiros de terra - 20/22 mts - produtivos na última jornada, assim como em outros anos, nesta mesma época.

À chegada, tudo parecia ideal, a água estava um pouco tapada, o fundo marcava peixe, não em grande quantidade, havendo no entanto um pormenor que me deixou de sobreaviso... A temperatura da água, eventualmente por efeito da água quente que sai das turbinas da central térmica, frente a São Torpes, estava pelos 20º, coisa pouco habitual naquela zona, atendendo a que as correntes e ventos predominantes na zona, tendem a levar essas águas mais para Sul, sendo raro que andem por ali.
Não desarmámos e vá de fundeio e início da acção de pesca, verificando-se a ausência de sinais: tanto toques, quanto o habitual roubo de iscas. Insistimos durante uma meia hora mas, mantendo-se as mesmas condições, resolvemos levantar ferro e procurar outro pesqueiro na mesma zona, muito mais por teimosia com base em pescas anteriores que pelos sinais de sondagem verificados. Enquanto sondava apercebi-me entretanto que, num espaço de uns 100 metros a temperatura da água, assim como a côr desta, variavam significativamente: a temperatura, entre os 20 e os 17º; a côr, entre o azul esverdeado e o castanho escuro.
Tais variações fizeram-nos fundear na respectiva fronteira, onde parecia haver mais peixe na marcação de sonda. Certo é que, se no primeiro fundeio ainda se sentiram algumas mordidas na isca, neste, nem uma picada se verificou em mais uma meia hora efectiva de acção de pesca. Era hora de procurar outros mares e navegámos agora para os 33 metros de profundidade onde, salvo a inexistência de variações de temperatura ou côr, tudo de revelou idêntico após fundeio e quase mais uma hora de acção de pesca.
Já eram horas de almoço, não tínhamos um peixe a bordo e a coisa apresentava-se difícil, excepto o nosso entusiasmo em continuar na procura dos nossos interlocutores. Este entusiasmo fez-nos analisar e comentar sobre o que pode acontecer a muitos de nós, caso não nos mantenhamos crentes na nossa capacidade de dar com o peixe... O mais certo seria talvez ir comer e preparar a "grade". No nosso caso preferimos levantar ferro e procurar peixe mais fora, a comida viria a seu tempo; as horas é que passavam, o trabalho de fundear/levantar ferro repetia-se e peixe... Nada!

O próximo pesqueiro estava nos 50 metros, chegámos, sondámos e pessoalmente não amei a marcação de sonda, embora desconfiasse de uns pequenos sinais, muito agarrados ao fundo, por vezes indicadores de zona boa nesta época do ano. Fundeámos e iscas para baixo!

Os sorrisos começaram a delinear-se aos primeiros toques sentidos, abrindo-se de orelha a orelha quando, subidas as baixadas passados uns dois minutos, nem ponta de isca lá se encontrava. Parece que é aqui, comentámos entre nós.

O que era esperado aconteceu, Parguito daqui, mais Parguito dali, um Sargo dacolá, duas Douradas do outro lado, uma Moreia que também quis subir, as fotos adiadas para um dos grandes que haveriam de aparecer tanto a mim quanto ao João, nenhum de nós conseguindo trazê-los até ao poço do barco.
No caso do João, um eventual mau jogo entre nó demasiado apertado/embraiagem talvez com carga a mais, coadjuvados pelo esforço despendido em três ou quatro "arrochanços", precedendo rotura da madre com a ponteira de amortecimento. No meu caso, nó mal apertado no fluorcarbono, dando estralho desapertado. Em qualquer dos casos, principalmente no meu, erros pouco aceitáveis! Paciência!

A pesca terminou neste dia com um saldo de uns 8 Parguitos, ali pelo quilo; duas Douradas "aceitáveis", uma Moreia que se junto à festa e duas cabeças enormes pelos exemplares que podíamos mas não conseguimos capturar. A Sardinha, como isca, mais uma vez a provar a sua efectividade, entre Camarão e Lula. Cavalas... Nem vê-las! Onde andariam?

Como sempre a conversa sobre o dia finalizou mais esta jornada e já só pensava na que se avizinhava... Mais uma pescaria estava a preparar-se para o dia seguinte.

A campanha para o dia seguinte delineou-se ao jantar!
O Fernando Gomes, companheiro de conversas de pesca, do fórum do Porto de Abrigo, de jantares esporádicos e a quem já tinha prometido uma pescaria, juntou-se a mim para a pescaria que já estava em vistas para 21.

O dia acordou calmo, com brisa delineada de N/NW, indicadora de fundeio fácil ou quase. Saímos para o mar naquelas horas que gosto - 9.30/10.00 - procurando desta feita os mares de fora.
Questionarão os leitores: então e o pesqueiro do dia anterior? Porque não começar por aí?

As razões de não começar por aí, prendem-se com umas "manias" minhas, vejamos:

- O pesqueiro do dia anterior pode dizer-se que, devido aos resultados, passou a funcionar para mim como um eventual recurso, caso novas procuras não se verificassem positivas.
- Caso as novas procuras se registassem como positivas, os recursos de pesca aumentariam, assim como os resultados positivos para a estatística de época. Caso não funcionassem entrariam na estatística de época como resultados negativos.
- O que poderia perder? Algum combustível e algum tempo que talvez viessem a valer a pena mais tarde.

Assente nestes pressupostos; procurámos, fundeámos e pescámos fora, pelos 66 metros; tornámos a fazê-lo mais à terra e a Sul e acabámos por voltar ao pesqueiro do dia anterior que se verificou de facto um precioso recurso, adivinhando-se que qualquer dos outros não funcionou, embora tenhamos despendido à volta de uma hora de acção de pesca em cada um deles. Um, deu um Parguito e o outro um Sargo; entre muito tempo sem picadas ou com muito pouca actividade em termos de toques. Já o pesqueiro do dia anterior mostrou-se a funcionar em pleno, com todos os sinais que indiciam pesca frutuosa.

Assim que lá chegámos e após fundeio, iniciámos a acção de pesca com roubos contínuos de iscas, não se passando mais de dez minutos até à entrada do primeiro Parguito ao Fernando. Este que aqui se vê:


A coisa prometia e, embora espaçados, iam entrando uns Parguitos e alguns Sargos, cujo maior acabou por cair na minha baixada:


A coisa prometia, o peixe comia de tudo, muito rápido dando ideia que tínhamos de sofrer entre cada exemplar maior que entrava.
Iscavam-se Sardinhas à posta, às metades, rabinhos... Tudo se tentava, umas vezes pensando em apresentar a comida de forma diversa, outras, pensando em aumentar o tamanho das iscadas, tentando que se aguentassem a ponto de interessar algum exemplar maior.
Entretanto, a um interregno de roubos de isca mais demorados e em que quase não se sentia o peixe comer, capturei o que penso ter sido a causa dessa alteração, um Safio para aí com uns 5 kgs. Digo isto porque logo em seguida os roubos voltaram ao normal, mais agressivos e extremamente rápidos.

Isco com metade duma Sardinha, da cabeça para a barriga, no anzol de baixo e a metade restante, da barriga até ao rabo, no anzol de cima; a  baixada desce, chega ao fundo e tiro a folga até ao limite em que consigo dominar a sensação de estar com a chumbada no fundo, mantendo a ponteira da cana quase a direito. Sinto um pequeno toque, parecendo outro Safio, aguardo e ferro no toque seguinte, mais intenso; fico com algo preso que de imediato cabeceia e começa a fugir na direcção da aguagem que corria levemente em direcção à proa. Não à volta a dar, é um Pargo daqueles maiores, penso para comigo enquanto aguardo que o carreto comece a soltar linha o que não se faz esperar. Será que desta vez tenho tudo bem feito na montagem? Pelos vistos sim!
A luta desenvolve-se! A linha sai, depois pára, mas não o consigo tirar do fundo. Levanto a cana e ele não leva linha! Enrolo linha e ele leva outra vez, agora mais quantidade do que a já recuperada. Penso que será talvez a última vez que o faz com tanta intensidade e não me engano, pois consigo iniciar a recuperação e afasto-o finalmente do fundo. A partir daqui tudo se desenrola com mais rapidez e em pouco tempo tenho-o ao alcance do enxalavar manejado com mestria pelo Fernando. Cai no poço do barco, é contemplado e fotografado em seguida. Aqui está ele... Um lindo Pargo Dourado com 5,340grs (o mesmo da foto de abertura, mas mais sério):

Estava lá tudo: os sinais, as variações de iscas em conformidade com estes, o ritmo de pesca, o crer nas técnicas utilizadas e... com bons resultados.

No dia anterior tinham fugido dois, destes maiores, e, tanto eu quanto o Fernando, continuámos em grande ritmo, acreditando e esperando que algo mais acontecesse e... Aconteceu!

O Fernando atacou também nas iscadas grandes e, nem 15 minutos passados, foi a vez dele se entregar à luta demorada, enervante e dura, culminando com a entrada a bordo de outro Pargo, desta vez um legítimo com 3 kgs, dando origem a uma primeira foto... Para contemplação:


Seguindo-se a esta a foto - após recuperação de tanto gasto de adrenalina que acabou por transformar um homem que parece estar sempre a rir, neste pedaço de cara séria que até mete medo - esta outra, digamos, mais formal:


A pesca estava assegurada em qualidade, a quantidade interessava pouco e, mais importante ainda, tinha acontecido o que esperávamos mercê das acções que desenvolvemos. O que se pode pedir mais? Talvez exemplares ainda maiores... Esperemos que fique para a próxima.

Voltámos ao porto, não sem antes se terem capturado mais alguns peixes de bom tamanho mas cujo significado se tinha perdido por razões que nos pareceram óbvias. Maldito feitio este de se procurar sempre mais ou, no caso presente, melhor/maior.

O dia tinha sido cheio de tudo mas, algo ainda me fez sorrir e brilhar o olho... Já nem me lembrava que ainda tinha dois dias para pescar em Sines.
Mas quanto a esses, tendo em conta as variações significativas das condições de mar, no primeiro; e de técnica utilizada, no segundo; assim como, resultados pouco assinaláveis em termos de capturas, vou aproveitá-los para termo de comparação em futuras entradas.
Posso no entanto dizer-vos, ainda relativamente a estes dois dias, que talvez tenha pecado por insistência em locais e sinais cuja análise posterior, mais fria, parece revelar a necessidade da tomada de outras atitudes de procura mas, assim não aconteceu! Talvez para a próxima?!

Entretanto, fico-me por aqui, aguardando que tudo corra bem na intervenção do meu sogro e que  em breve possa tornar à conversa convosco e com aqueles exemplares que moram lá no mar.

Até lá, divirtam-se e tenham uma boa tarde.

sábado, 14 de agosto de 2010

Iscos... Histórias para reflectir.

O que é que ele está para aqui a fazer num Sábado com tempo belíssimo, em férias... O homem passou-se ou apanhou Sol a mais enquanto andou a tratar do barco!?
Serão possíveis comentários ou suposições de alguns de vós, estimados leitores!? Mas não! Sinto-me de perfeita saúde, assim como, com todas as capacidades mentais habituais, até no que concerne ao pensar a pesca.
Quanto a não estar a pescar... Deixa ver se me consigo explicar!?

Eu sou daquele tipo de pessoas que, quando atacam um bom prato de comida, deixam para o fim aquela pequena porção do que gostam mais, para que aquele gostinho perdure até que um último gole de vinho ou o cafezinho o dissipe. Verdade que durante o processo de ingestão, gosto de saborear cada pedaço como se não houvesse amanhã.

Ora, talvez mal comparado, é o que se passa comigo neste momento relativamente à vida... Digamos que estou a saborear uma refeição que se alongará por vários dias, sucedendo a vários outros dias de trabalho duro, incómodo e por agora finalizado. Isto é, depois da manutenção do barco, estou a saborear momentos com a família, passeando por algumas lojas de pesca, confraternizando com alguns amigos, pensando que a neta ainda vai passar uns dias comigo e... Olhando a pesca ao longe, esperando a oportunidade de a gozar por inteiro, coisa que parece, não demorará muito. Até lá, este é mais um momento que me está a saber bem! Vou escrever... Sobre pesca, claro!

Hoje resolvi reflectir através dos iscos, possíveis conceitos, possíveis razões... Certos, errados ou nem tanto que poderão levar às escolhas específicas de cada um de nós, considerando a técnica em uso, a época do ano, talvez resultados obtidos... Talvez? Estranho... Então não deviam ser estes a ditar as escolhas? Huuuuummmm... Temos de pensar sobre isto!
E que resultados? Capturas de "tudo o que vem à rede é peixe"? Besugos? Sarguetas? Sargos? Douradas? Pargos? Peixe pequeno? Exemplares maiores? Mais fundo? Menos fundo? Xiiii! Tanta pergunta!!!

As perguntas feitas serão pertinentes? Se sim... Como enquadrar a história que vou contar... Verídica, e penso, ainda actual para muitos de nós pescadores?
Então lá vai!

Era uma vez...

Na cidade junto ao Rio Sado, de nome Setúbal, há uns trinta anos atrás, todos os pescadores desportivos procuravam os iscos para a pesca em barco fundeado, preparando a jornada de fim de semana ou a surtida em dia útil, para aqueles que por razões diversas o conseguiam.
Alguns iscos se utilizavam: a Lula, o Casulo, o Berbigão previamente aberto e com um pingo de óleo de lata de conserva de Sardinha, mas... A Navalha ou o Lingueirão, tinham de estar presentes! Caso isto não acontecesse, já nem se acreditava na pesca.
Quanto a Camarão, Ameijoa Branca e coisas estranhas deste tipo... Nem pensar! Não apanhavam nada!

Estes conceitos sobre iscos, foram perdurando até que, por razões diversas, a Navalha e o Lingueirão começaram a rarear e a aumentar de preço em simultâneo com a apanha da Ameijola (aquela de língua vermelha) que, não se utilizando antes, se tornou no isco imprescindível seguinte.
Era um espectáculo! Qual Navalha... Qual carapuça? Já ninguém saía para a pesca sem tal isco. Nem pensar!

Era tão boa que até 1998, quando se começaram a capturar Douradas na Vereda, foi o primeiro isco utilizado com sucesso, embora rapidamente destronada pelo Caranguejo. Epá! Caranguejo? Então também apanha peixe? Afinal, andámos enganados este tempo todo!? Ah... Mas só para a época da Dourada, fora disso não é grande coisa. Ou talvez, fora dessa época já não assegurasse toques tão contínuos ou dificilmente o baldinho cheio... Sarguetas, Choupas, Besugos, uns Parguetes e tal... Melhor voltar à Ameijola!

Entretanto, outra reviravolta se deu... A Ameijola era muito procurada, já era difícil apanhar as quantidades requeridas pelos "nuestros hermanos" e, o preço subia tão vertiginosamente que se tornou  urgente encontrar outro isco imprescindível... Abram alas! Vem aí a Bomboca Brava:

Esta veio para ficar e também apanhava Douradas, embora o Caranguejo continuasse Rei! Mas, como engodo havia quem largasse sacos inteiros para o fundo.
Ainda hoje é uma das iscas que mais se usa na zona, agora já muito acompanhada de Camarão, Ameijoa Branca, Sardinha e outras, talvez derivado das influências da competição, outros pescadores, mais informação...  Parecendo decorrer da pressão deste conjunto de factores, um novo olhar para a pesca desportiva e, consequentemente o acesso a outras capturas que não sendo vulgares na maioria dos barcos de Marítimo-Turística, alteraram as pescarias daqueles, com barco próprio, mais avisados e curiosos no que concerne a experimentação de novos locais, iscas e procura de maiores exemplares.

No entanto, esta história parece falar um pouco contra nós, pescadores desportivos, no que respeita à capacidade de reflectir, experimentar e evoluir nos nossos conceitos de pesca. Talvez pela preocupação extrema em mostrar rapidamente que conseguimos capturar e insistir demasiado tempo na repetição de aplicações técnicas já conhecidas, mesmo quando se verifica que os resultados não são os melhores, preferindo atribuir os resultados menos bons à ausência de peixe ou, no caso das Marítimo-Turísticas, à incapacidade dos Mestres.
Pergunto: como é que um mestre consegue que os pescadores que vão consigo capturem determinadas espécies se, mesmo que os coloquem em zona quente para tal espécie, a maioria deles esteja a pescar com iscas e, muitas vezes, materiais completamente desadequados?
Como é que um mestre consegue que os pescadores capturem peixe quando, assim que o peixe começa a levar isca e a não ficar, toda a minha boa gente tende a pressionar para mudar de sítio ou diminui o tamanho dos anzóis e das iscas?

Não estou a culpar ou desculpar seja quem for, unicamente constato factos baseados em conversas com mestres e pescadores quer de MT, quer de barco próprio, também estes, muitas vezes, cometendo o que me parece serem erros idênticos; erros esses também por mim cometidos e que, cada vez mais, tento evitar cometer.

A presente história refere-se às minhas vivências de pesca na terra onde nasci e vivo, pretendendo com ela criar momentos de reflexão, não me passando pela cabeça criticar ou colocar em causa a  excelente qualidade daquele pessoal com quem tanto aprendi, convivi e ainda convivo.
Nada me diz que outras histórias idênticas não se tenham passado ou se passem em outros locais do nosso país onde a pesca desportiva, na sua diversidade, seja influenciada por factores desta ordem.

Voltando à analogia do meu estado de espírito com a "refeição", posso dizer-vos que estou neste momento a acabar de saborear mais um dos ingredientes que, dependendo dos Vossos comentários, poderá evoluir para uma outra "refeição" em que os iscos, suas características, funções específicas... Em cada época, relativamente a espécies diversas; poderão vir a ser o prato principal.

Até lá, um bom fim de semana a todos os leitores.

domingo, 8 de agosto de 2010

Manutenção de barco... Quando a idade obriga a cuidados suplementares!?


Mas o que é isto? Um extraterrestre ou um "Sapateiro a tocar rabecão"? Sinceramente, inclino-me mais para a segunda opção!

A "farda" com que me visto neste imagem de entrada tem história e está claro que a vou contar!

Não há muito tempo, para aí há um ano, falei-vos sobre manutenção de casco! Questionar-se-ão os leitores... Outra vez?

Ah pois... Julgavam o quê? É só navegar e pescar? Nem pensem nisso! A água salgada não descansa e quem tem barco deve ter isso em conta!

Todos os anos se têm de fazer verificações ao casco e de quando em quando fazer uma manutenção maior, muito porque as tintas têm um prazo em que são efectivas e, no caso de barcos que passam a vida dentro de água, esse prazo ronda os cinco a dez anos e, o Makaira já vive no meio aquático há oito, portanto impunha-se uma revisão à pintura, entre outras.

O tratamento inicial do casco de um barco novo para ficar na água, implica um conjunto de tarefas de pintura que devem ser extremamente cuidadosas... Não podemos esquecer que será esse tratamento a ditar a respectiva longevidade. No caso, a listagem simples de tarefas é a seguinte:

1. Lixar todo o casco com uma lixa fina, no sentido de "desvidrar" o Gel Coat inicial para que a tinta agarre bem ao casco, seguindo-se uma lavagem à pressão e secagem.

2. Aplicar 4 ou 5 camadas de primário próprio que se destina a proteger a fibra do contacto com a água salgada evitando a osmose, conhecida na gíria como o Cancro da fibra.

3. Aplicar duas camadas de tinta anti-vegetativa, destinando-se esta a evitar/diminuir a incrustação de organismos marinhos, como algas, cracas, mexilhões..., etc..

Ao longo da vida do barco, se a tinta aplicada não for daquelas indicadas para 10 anos, o barco deverá ser retirado da água anualmente e efectuado o tratamento que já documentei aqui no blog.
No caso da tinta para 10 anos, todos os anos se deverá pelo menos subir o barco e limpar alguma "nata" que sempre se agarrará.

No caso do Makaira, foi efectuado o tratamento em novo e, ao fim de oito anos na água com tratamento anual; este ano, como mandam as regras, decidi ver o casco outra vez e tratá-lo de novo. Só assim se saberá se o tratamento inicial foi bem dado, obrigando no entanto a repeti-lo de novo.
Uma coisa é certa... A "desvidragem" inicial do casco em novo, um trabalho relativamente leve, não se compara à remoção do tratamento que lhe foi aplicado, nomeadamente se esse foi bem feito. E na verdade, felizmente para o casco, foi.

Então a listagem simples dos trabalhos a desenvolver é a seguinte:

1. Lavagem para retirar organismos vivos e desincrustar as peças móveis e imóveis aplicadas no casco (hélice, veio, saídas de água e transdutor da sonda em bronze).

2. Retirar totalmente o tratamento anterior até que toda a extensão de fibra fique à vista.

3. Reparar o que aparecer. No caso da Makaira, só algumas pequenas zonas onde, eventualmente por má limpeza ou fibra mal batida no processo de fabrico, o Gel Coat se separou da fibra. Osmose... Nem um pontinho apareceu! Pfiuuu!

4. Aplicar de novo todo o tratamento que se dá em novo (ver acima).

Eu disse listagem simples, não foi? Foi pois! É que cada uma das tarefas nomeadas implica todo um conjunto de pequenas, demoradas, chatas... Sub tarefas, normalmente efectuadas debaixo do barco, em posições e com esforços que não lembram ao diabo. Nada do outro mundo! Nada que centenas ou milhares de outros donos de barcos não façam por aí fora! Mas certamente duro , chato e sempre em época quente e de férias, normalmente adequada para pescar e usufruir do barco! Mas é assim... Há que fazê-lo! Mãos à obra!

Sexta Feira, dia 23 de Julho, de 2010: subida, observação, lavagem e desincrustação do casco.

O casco à saída:


Aspecto do hélice, veio e leme:


Início da operação de lavagem e desincrustação, posição I (até nem é das piores):


Posição II (já dói, mas não é má de todo...):


O calor era muito e até sabia bem levar com alguma água. O pior estava para vir...

O que mais me preocupava era a retirada do tratamento anterior, senão vejamos: lixar toda as camadas de tinta que eu sabia ter aplicado, à mão ou com lixadeira, era algo que não queria entregar a nenhum profissional pois os preços da manutenção subiriam em flecha. Por outro lado, fazê-lo eu a solo não estava nas minhas intenções, quer pela dureza, quer pela morosidade do trabalho.
Por tal tinha falado com uma empresa de decapagem com provas dadas neste tipo de trabalho e aguardava que viessem ver do que se tratava, de modo a darem início ao trabalho que, neste caso, duraria um dia, podendo eu encetar as operações de pintura, coisa a que me destinava. Mas, não correu bem!

O homem da empresa chegou na Segunda Feira à tarde, conversámos, mirou o casco, tirou umas fotos com o telemóvel, disse-me que certamente algo se havia de arranjar, mas, o certo é que no dia seguinte me foi dito que... Ah e tal... Estamos cheios de trabalho, não dá para fazermos o serviço, não sabemos quando pode ser e coiso... Muito ao estilo português (com letra pequena por razões óbvias...).
Resultado: fiquei com a "criança" nos braços e tive de resolver também ao estilo Português, (agora com letra grande) atirando-me à tarefa e solicitando apoio ao Rebelo, um daqueles profissionais que o são mesmo!
Eu não me queria meter nestes trabalhos... Mas teve de ser!

Ora cá vai!

Este o aspecto após lavagem e desincrustação:


Faltava agora procurar o branco do casco e ver o que o tempo em contacto com o meio aquático teria produzido. Para tal era necessário lixar, lixar e ainda tornar a lixar. Ora vejam:

O início das lixadelas, começando pela parte mais fácil, a linha lateral, como que fazendo um aquecimento para o que viria a seguir.


Tudo isto sempre acompanhado do Rebelo, sem dúvida que o homem percebe da poda, ainda eu ia a meio e já ele tinha feito toda a linha lateral da zona que escolheu.


Feita a linha lateral. a coisa começou a pesar, exigindo outras posições de trabalho, como por exemplo: sentado:


À medida que se trabalhava mais fundo ou baixo exigiam-se outras posições como a de joelhos que se segue:


Outra opção possível, no caso deste atrelado... Trabalhar deitado! Ah... Abençoado Alentejo!



De vez em quando a necessidade de descansar os braços impunha-se fortemente!


Certo é que quando se iniciam estes trabalhos, a paciência, persistência e a mente direccionada para o processo, em detrimento da necessidade de rapidamente terminar a tarefa, fazem com que o trabalho se vá efectuando e, de repente, quando pensamos que nunca mais acaba, vislumbramos uma luz ao fundo do túnel, neste caso, quando começámos a ver área branca com dimensões significativas:


E, mais tarde, ambos completamente derreados, apreciávamos obra feita, com mais de meio casco limpo e já com hipótese de controlar o tempo para finalizar a limpeza total, obra mais complicada e morosa de todo o trabalho a desenvolver.


Até que chega o momento mais desejado... O casco todo limpinho, à vista. pronto a ser lavado a alta pressão, de modo a que qualquer defeito se mostre e nos permita efectuar o respectivo tratamento.


Um pormenor da zona do transdutor da sonda e da tomada de água para arrefecimento, contornadas pela lixadeira:


Também a zona onde se encontram, o hélice, veio e leme; retirados para manutenções próprias, como seja: mudar a chumaceira onde trabalha o veio naquela peça em bronze mais próxima e arranjar os pontos que fazem segurança à falange do veio, junto ao motor, por estarem degolados.


Certo é que, caso não se fizessem este tipo de manutenções, uma série de pequenos problemas, em  espaço de tempo imprevisível, poderiam transformar-se em sérias dores de cabeça e consequentemente em gastos monetários muito mais significativos.
Resumindo: há que manter! Não adianta protelar certas operações sob pena de aumentar significativamente as hipóteses de acidentes no mar e as situações de perigo de tal decorrentes. Isto no que respeita às questões mecânicas pois, quanto ao casco, uma coisa são pequenas zonas onde a camada de Gel Coat se descolou da fibra e que, descobertas pela lavagem à pressão posterior à eliminação do tratamento anterior, podem ser tratadas antes do aparecimento da osmose. Aí sim... A coisa tornar-se-ia dolorosa em tempo e dinheiro gastos.

Nesta altura, o pior já tinha passado e o início da reposição da nova pintura iniciou-se com uma primeira camada de primário preto e uma segunda de branco, antecedendo mais duas deste primário, cuja função é aderir ao casco, protegendo-o de qualquer contacto com a água salgada.


A quantidade de pequenas tarefas para efectuar a pintura é enorme!

O rolo, as luvas, o fato e óculos protectores, a mistura da tinta que, sendo de dois componentes e cara, obriga a cuidados contínuados quanto à gestão das porções de mistura e quantidades para cada aplicação, de modo a evitar estragar tinta, também ela com preços que não dão para brincar aos pintores. Isto já para não falar dos tempos de espera entre aplicações. Mas digo-vos, estimados leitores, para além da diminuição de gastos, estes não são trabalhos para entregar a profissionais em que não se confie. O ideal será informarmo-nos sobre os procedimentos, qualidades de materiais... E estarmos presentes durante as operações que, por serem chatas e morosas tendem ao facilitismo de qualquer um, mesmo profissional, o que não é o caso do Rebelo que para além de sabedor, não se poupa a esforços, tendo em conta que todos os procedimentos deverão ter lugar antes de o barco entrar na água e dando continuamente indicações sobre os mesmos a este aprendiz de pintor de cascos.

As camadas de primário já estão aplicadas, é hora das camadas de anti-vegetativo onde a côr azul já nos começa a indicar que não tarda temos a embarcação na água.

Aqui está ela.... A tal côr azul!


A primeira camada de anti-vegetativo deixa logo um outro visual, muito perto daquele final. Só a fita demarcadora da linha de pintura coloca a nota de inacabado, mas não perde pela demora.
Entretanto, a malta amiga vai passando, uns apreciando, outros perguntando, outros trocando umas palavras e até outros, vindos da pesca e pedindo-me para tirar fotos como esta:


Pois é... O Sr. João Carlos Silva a ver-me naqueles trabalhos e entre os dois tons de azul... Oh Ernesto... Tens aí máquina? É que eu não trouxe!
Tenho... Respondi!

Então tira-me lá uma fotografia a este animal!

E pronto! Tiro a foto, coloco-a aqui e atiro-me ao segundo tom de azul, enquanto aguardo que ele faça o relato, talvez lá no Porto de Abrigo... Não sei!

Finalmente, entre todos estes acontecimentos, eis que o tom de azul final aparece:


A fita já foi retirada e, não fossem os retoques nas zonas de apoio, podia dizer-se que estava terminado no que respeita a pintura mas, já não falta tudo!

Ainda o leme, o casquilho que suporta o veio e o hélice, assim como estes; serão montados no intervalos de espera da aplicação dos retoques finais de pintura.

Deixo-vos a imagem dos bronzes... Em fundo azul!


De mais perto para mais longe: O buraco onde entra o leme, o suporte do veio do hélice e, lá ao fundo à direita, o transdutor da sonda. Bronzes estes que também levarão tinta própria, após limpos com diluente específico.

E, finalmente...


... Tudo montado e pronto a entrar na água assim que se pintarem os pontos onde o barco esteve apoiado, recorrendo à grua para o elevar e deslocar uns centímetros para trás (ou frente... Dependendo dos respectivos pontos de equilíbrio).

A lista de regras e procedimentos deste tipo de manutenção é enorme, dela vos deixo algumas recomendações, aquelas que me disseram serem as mais importantes e que até ao momento deram bons resultados.

Sobre a lavagem inicial:
  • Dar-lhe início logo após a saída da água se possível. A nata mais pequena sai facilmente, já as cracas saem melhor depois de um dia ou dois no exterior.
  • Percorrer todo o casco aproximando o jacto à pressão para que qualquer problema de tinta mal agarrada, zona fraca de pintura... Se deixe ver.
  • Utilizar uma máquina de alta pressão mais potente que aquelas da lavagem automóvel. Só assim se assegura a efectividade da lavagem.
  •  Dirigir o jacto quase perpendicular à zona de lavagem.
Sobre a retirada do tratamento anterior:
  • Usar lixadeiras rotativas com discos de 60. Caso a pintura anterior esteja bem feita, só assim se poderá optimizar a relação dureza do trabalho/tempo despendido.
  • Ter cuidado ao lixar, evitando retirar o mínimo de Gel Coat. É este o primeiro protector da fibra.
  • Após toda a tinta retirada, lavar outra vez o casco à pressão, percorrendo este minuciosamente. Sem a protecção da tinta é possível que se encontrem zonas de gel mal aplicado, o que não deverá ser desprezado, procedendo-se ao seu tratamento.
  • Durante esta lavagem, não ter receio de abrir buracos no gel. Se lá estiverem, devem ser detectados, sendo esta a fronteira entre retirada do tratamento anterior e a preparação da pintura.
Sobre a pintura e sua preparação:
  • Após a última lavagem descrita, deve ser aplicada a primeira camada de primário (anti-osmose), sendo esta diluída, utilizando diluente aconselhado pelo fabricante da tinta em uso. A razão da diluição prende-se com a melhor penetração inicial no gel coat.
  • Em seguida preencher os espaços onde saltou gel, com betume próprio, respeitando os tempos de recobrimento quer da tinta, quer do betume que deverá ser lixado antes da aplicação da camada de tinta seguinte.
  • Aplicar pelo menos 4 camadas deste primário.
  • Aplicar em seguida duas camadas de anti-vegetativo.
  • Muito importante que se respeitem quer os tempos de intervalo de aplicação entre camadas, assim como o tempo de cura do primário até à entrada na água. Estas indicações encontram-se nas latas e em caso de dúvida deverá contactar-se o fabricante da tinta em uso.
  • Tentar fazer estas manutenções com tempo quente e seco.
Muito se poderá ainda dizer, mas acho que o principal está por aqui.

Numa última recomendação sobre materiais, caso se atirem para este serviço, deverão para além das tintas e diluentes, adquirir ou ter à mão alguns dos seguintes materiais:
  • Luvas plásticas, pelo menos um par por cada camada a aplicar.
  • Panos velhos. A quantidade de limpezas que temos de fazer é enorme.
  • Uma navalha para os vários tipos de cortes que se têm de efectuar.
  • Uma medida e garrafões vazios de 5 lts de água, caso o primário seja de dois componentes e a mistura tenha de se fazer a parte.
  • Uma chave de fenda para abrir as latas de tinta.
  • Máscara e óculos profissionais.
  • Chapéus ou camisolas velhas para enrolar na cabeça. protegem do Sol e dos encostos à tinta do casco.
  • Dois fatos de trabalho em papel. Um para a retirada do tratamento inicial e outro para a pintura.
  • Rolos, um por cada aplicação de camada. Estar a lavar rolos é um trabalho chato e desnecessário. Não são assim tão caros. Já o cabo para os rolos pode ser sempre o mesmo, tendo o cuidado de retirar o rolo utilizado e limpar o cabo para receber o próximo.
  • Tabuleiros, dois. Um para o primário e outro para o anti-vegetativo.
Penso que está cá quase tudo?! Se não... Digam qualquer coisa ou perguntem.

E é neste pé em que estou. Amanhã vou iniciar os acabamentos e espero, para a próxima entrada, já vos poder mostrar "outras coisas" conseguidas na minha pesca.

Até lá, boas férias e divirtam-se!

Boa tarde a todos os leitores.