Pescar... O que é?
O que quisermos que seja, é talvez a resposta que me parece a mais adequada!?
De barco, por terra, no mar, em águas interiores... Nas suas várias vertentes e técnicas... Não interessa! Importa de facto, pescar! Viver a Pesca da forma que mais nos agrade, segundo as possibilidades e condicionalismos da vida que nos permite... Pescar!
O acto em si, parece monótono... Iscar, lançar, sentir, perder, repetir... Ou, ferrar, lutar, subir o peixe e tentar de novo!
Visto assim, parece não ter grande piada mas, quando enquadramos o acto no meio em que se realiza, a solo ou com amigos; quando contemplamos os elementos naturais envolventes, percebendo ou tentando perceber o que cada gesto, cada sinal, podem significar; quando percebemos ou tentamos perceber o que cada material, posicionamento pedonal ou em embarcação, nos podem trazer de positivo ou negativo para a pesca que realizamos; quando conseguimos pescar em equipa, trocar impressões sem pensar em ser melhor que outro mas em aprender com ele, independentemente do suposto nível que possa evidenciar; e, se ainda conseguimos acabar uma jornada de pesca, sentar à mesa e, frente a um delicioso manjar, por nós capturado há para aí uma hora ou duas, analisar e concluir sobre o dia... Então pescar; parece algo que pode transcender significativamente o acto em si. Já para não falar do que nos pode enriquecer quando transpomos para a vida tais comportamentos. Se é que a vida e forma de estar de cada um, não influirão, com algum peso, a nossa forma de estar na pesca? Parece-me que sim!?
"Ah Bom!!! Olha para ele, para aqui com ideias de pesca e não sei quê... Ou apanhaste raspas, ou se não, mostra lá mas é o peixinho"!!! Poderão comentar alguns leitores!?
A verdade, no entanto, é que estas últimas três jornadas trouxeram-me tanto gozo que me apetece partilhá-lo, quer com os meus companheiros de pesca, quer com aqueles de vós a quem tal interesse. Vamos em frente!
As condições climatéricas indicavam que as passadas Quinta, Sexta e talvez Sábado, permitiriam boas saídas e, quem sabe, capturas a condizer. Importante, no entanto, era ir!
Estando lá, preparando, saindo para o mar e pescando, tudo estava em aberto. Mais que não fosse, a antecipação do que poderia acontecer já me alimentava a alma.
Quarta Feira, fim de tarde calmo, temperatura amena, chegada a Sines seguida de transporte de materiais, roupas e comida para o barco. Preparação deste e montagem de canas para o dia seguinte; tudo precedido do abandono do relógio em local longínquo. Excelente!!!
Trabalho feito, rabinho lavado e ala para o Zé Beicinho procurar as "sopas"... Um queijinho; umas azeitonas; uma saladinha de chocos com tinta, acabada de fazer; vinho da casa (Pias); tudo já na companhia do meu amigo Zeca, companheiro de sempre lá por aqueles lados e, de última hora, para a jornada de Quinta Feira. Sim... Isto de ter amigos que não se importem de dar uma ajuda nuns arranjos lá pelo barco e de andarem para a pesca em horários das onze e meia... Um quarto para a uma, não é para todos! Pessoalmente, congratulo-me por os ter!
Trabalhos realizados, saída para a pesca por volta da uma da tarde, procura de pesqueiro ali por perto tentando maximizar o tempo útil de pesca e, após as operações iniciais de sondagem e fundeio, vá de pescar!
Sinceramente, esperava mais do pesqueiro, tanto pela época, quanto pelos sinais de sondagem e toques sentidos, mas, entre um ou outro Parguito, um Sargo que tinha a medida certa para ser o meu jantar e a Bica do Zeca que se mostra em seguida...
... Nada mais conseguimos! Mas digam-me lá: quanto vale aquela paisagem da imagem de entrada, tirada durante a volta ao porto, olhando tudo, sentindo tudo... O barco, a esteira, canas, carretos... E o Sol, cujos raios teimavam ainda em espreitar por entre as nuvens deste fim de tarde? Milhões... É o que vos digo!!!
Depois... Bem, depois ainda tinha pela frente o Sargo para degustar, conversa pela noite dentro e... Mais dois dias para pescar, olhando cada momento como se de o último se tratasse. Bom... Adiante!
Os meus amigos Brás e Fernando Soeiro, chegaram por volta das oito, tão cedo... Mas tenhamos bom senso... Eu consigo ir pescando com alguma frequência, eles pescam de vez em quando! Há que ter respeito por isso e proporcionar-lhes o máximo de tempo, o que fiz com todo o gosto!
Procurámos as Douradas em pesqueiros ainda não testados nesta época, mais fundos, mais longe. Os sinais estavam lá, deu-se o fundeio e pesca para a frente.
Três pescadores, características diversas, eu e o Brás procurando as Douradas; o Fernando, procurando o peixe da sua vida! Bonito!
A sardinha e o caranguejo a descerem alternados procurando os bichos; os três pescadores olhando as iscas ou o que delas restava, respectivamente na descida e na subida, tentando perceber o que as teria roubado ou mastigado, trocando resultados, ideias... Dizendo uns aos outros o que se faria em seguida, sempre pendentes das iniciativas de cada um e de todos os resultados a bordo, até à chegada da primeira recompensa... O Fernando com este Requeime que de imediato suscitou o paladar de cada um de nós, atendendo às qualidades gastronómicas de tal exemplar, todas gostosas... Massada, escalado e grelhado, tantas outras! Tão bom que é!
Seguiu-se mais pesca! Os Parguitos e alguns dos seus irmãos mais crescidos entravam espaçados, substituindo aquelas que procurávamos. Paciência... Não entram Douradas, mas os primos não se negam.
Foram entrando espaçados, enquanto o barco circulava em volta do fundeio, fruto duma leve aguagem para Sul e da brisa fraca e inconstante em intensidade e rumo que se fez sentir ao longo de todo o dia.
Certo é que a zona provou ser passeio de Douradas que acabaram por entrar em número de três, à sardinha e quase seguidas, sendo o melhor exemplar a capturada pelo Brás que abaixo se apresenta!
Eu capturei outras duas, um pouco mais pequenas mas, assim como chegaram, também desapareceram; mal grado as várias tentativas e a atenção redobrada colocada no acto de sentir e ferrar, assim como as alterações contínuas entre iscadas de caranguejo e sardinha, deixando-me a pensar sobre as razões de tal comportamento.
Por um lado, estivemos tanto tempo por ali e nunca entraram; por outro, embora o barco tenha rodado, manteve-se tempo suficiente em cima da zona onde as capturámos para que outras entrassem. Então porque não entraram? Talvez a zona esteja a iniciar-se como zona de concentração, ou talvez não!? Veremos em outros dias!
Entretanto, o Fernando capturava mais um Pargo, também com Caranguejo.
Não parávamos de pescar e a coisa compunha-se com mais um Pargo maiorzito que entrou à minha baixada e que não fotografei na altura, sendo a figura central da composição da pesca final, conforme se pode ver, tirada que foi a foto, antes da saída do pesqueiro, uma vez mais, com o Sol já a fechar portas neste dia pequeno, fruto da Estação do ano que se aproxima e coadjuvado pela mudança de hora.
Não tenham ideias... Pesado o peixe, tínhamos 23 quilos e qualquer coisa, mesmo com o maior exemplar e sem contar com o gelo que se encontra por baixo e de cuja altura é testemunha aquela lata de refrigerante.
Mas digam lá se não é uma pesquita composta!?
O segundo dia já ia a dois terços... Ainda faltava a conversa do costume e uma canjinha de Pombo Bravo que antecederia mais uns quantos, estufados; cortesia de pessoal caçador que param lá pelo Zé e resolveram convidar-nos, a mim e ao Fernando Fontes, companheiro pescador e doente por Pescar!
Obrigado oh pessoal da caça! Um dia destes calha-me a mim dar o peixe e convidar-vos! Não perdem pela demora!
Mas a pesca não acabou por aqui... É que viemos para o porto e o encontro ocasional com o Paulo Benjamim, outro "doente", ainda deu conversa até tarde! Ora digam lá se isto é ou não pesca?
Cá para mim é... E da pesada!!!
Nasceu o terceiro dia, ameaçador, indicando que não pescaríamos até tarde, fruto da mudança de tempo esperada e já com o vento de SW entrado, avisando-nos que o Windguru tinha lá as suas razões. No entanto, a vaga de NW era baixa e espaçada e o tipo de vento assegurava-nos alguma certeza no fundeio, pois a sua costumada precisão, quanto a regularidade e intensidade, parece ser razoavelmente controlável.
Uma coisa era certa... Nada de ir para muito longe e sentidos atentos a mudanças bruscas, aconselhavam-se ao longo de toda a acção.
O que pensava, transmiti aos meus companheiros: o Nuno, o Tó Zé e o João Maria que vinham esbaforidos por pesca, embora este não se apresentasse como o melhor dos dias para colocarmos em prática tudo o que gostaríamos. Logo se veria!?
O pesqueiro escolhido, mostrava bons sinais, embora o fundeio se apresentasse com algumas dificuldades, atendendo a que, pela disposição dos fundos, a deriva do quadrante Norte seria preferível para o fundeio. Com a deriva rápida de SW existente, tornava-se difícil encontrar pedra rija e com altura que permitisse colocar o ferro e fundear a preceito.
Abreviando, no primeiro fundeio a coisa não correu bem!
Primeiro foi a bóia que levanta o ferro, calculo que por nó feito à pressa - má conselheira - se desatou e foi com o vento. Não fora o Paulo Benjamim, a pescar por perto, ter a gentileza de sair do pesqueiro e a recolher, o trabalho de içar ferro mais tarde tornar-se-ia certamente muito mais penoso. Obrigado Paulo!
Logo a seguir o ferro soltou-se do fundo, o barco saiu do pesqueiro e tivemos de reiniciar toda a manobra de fundeio. Desta vez não arrisquei, o tempo de pesca certamente que não seria muito e importava que o utilizássemos da melhor forma. Por tal, passei a pedra rija para Norte, procurando a sua base, pensando que havendo Douradas e provocando-as, elas também apareceriam deste lado e o fundeio seria certamente mais seguro largando o ferro em pedra alta e rija. Assim o fiz e pode dizer-se que, atendendo ao estado do mar, ao tempo de pesca e à nossa vontade de pescar, até que a coisa acabou por não correr mal de todo!?
Os toques iniciaram-se fracos, mas roubando as iscadas alternadas de caranguejo e sardinha. Insistiu-se nesta última, esperando que o peixe ficasse mais agressivo, o que acontecia a espaços, entrando uma Bica aqui, um Parguito ali, animando os pescadores e promovendo maior atenção na acção de pesca, enquanto o SW ia aumentando, dificultando o sentir e até a ferragem no momento certo.
A pesca desenrolou-se desta forma, sendo que os peixes que se capturavam não excediam o tamanho da Bica que o Nuno aqui mostra.
Os toques iniciaram-se fracos, mas roubando as iscadas alternadas de caranguejo e sardinha. Insistiu-se nesta última, esperando que o peixe ficasse mais agressivo, o que acontecia a espaços, entrando uma Bica aqui, um Parguito ali, animando os pescadores e promovendo maior atenção na acção de pesca, enquanto o SW ia aumentando, dificultando o sentir e até a ferragem no momento certo.
A pesca desenrolou-se desta forma, sendo que os peixes que se capturavam não excediam o tamanho da Bica que o Nuno aqui mostra.
Ou desta, capturada pelo Tó Zé:
Então, numa luta conhecida, eis que o João Maria tira a primeira Dourada, daquelas de dose. O entusiasmo aumenta com o Tó Zé a tirar mais um Parguito, acrescido com a perspectiva de entrarem mais primas. E entraram... Cabendo-me o maior exemplar. Esta que vos apresento!
No total saíram seis, antes que o aumento do vento e do cachão por ele criado nos indicasse que era hora de içar ferro e procurar a calma do porto, atendendo ao desconforto instalado que, não sendo perigoso, não contribuía para a continuidade do gosto por pescar e isso era coisa que nenhum de nós queria... Perder tal gosto!
Chegámos calmamente ao porto, por volta das 15.00 horas e a pesca continuou quando o Tó Zé pronunciou as palavras mágicas: "Olhem lá... E se tirássemos uns peixes, falássemos com o Zé Beicinho e fôssemos fazer um lanche ajantarado?"
A proposta foi aprovada por unanimidade (até parece que era difícil...), tratámos do barco, arrumámos tudo, arranjámos a Dourada grande e andámos para o Zé Beicinho, não sem antes lhe telefonar para lhe dar notícia das nossas intenções e saber se tal era possível. Tragam isso! Respondeu de imediato. Ou não fosse também pescador e não lhe desse um gozo danado aproveitar aquelas horas mais mortas para tratar de tal petisco e participar das conversas.
O bicho foi entregue e a mesa posta! A conversa fluiu e chegou o momento solene: a travessa com o petisco devidamente assado e escalado com coentrinho, alho e as batatas!? Huuuummmm...
O pormenor objecto da nossa pesca e motivo de aumento da salivação:
Os alegres comensais, com ar de quem pensa: tira lá a foto depressa que temos de comer e conversar, pois amanhã é Domingo e na Segunda pouco tempo teremos para nos lembrarmos disto.
O petisco, estava delicioso; a companhia, excelente; a conversa de topo... Como passam rápido estes momentos de pesca!?
Agora digam lá: Será que a pesca acabou quando as baixadas saíram por completo da água, ou quando, com pesar, nos despedimos com um "até à próxima"?
E os momentos que aqui passo a falar convosco... Será que também terão algo a ver com o assunto?
Deixo-vos com o relato, a reflexão, as perguntas... Esperando contribuir para a ocupação de algum do Vosso tempo livre e desejando que tenham uma boa semana.
Boa noite a todos os leitores

