Algumas histórias se iniciam centradas em qualquer parte de determinada anatomia. Hoje, enquanto olhava as fotos do último acidente desta minha, pensei nela e, sentindo-a como parte do meu percurso de vida, achei que devia falar sobre e a partir do bocado em causa.
Francamente... acho-o feio, mais encarquilhado e rugoso que o dono, quase insensível na ponta por via de um corte feito a olear uma corrente de bicicleta, aí pelos meus nove anos. A carne ficou algures entre a corrente e o carreto pedaleiro, deixando o osso à flor da pele, o que cria continuamente umas pelangas duras que se cortam ao mesmo tempo que a unha, características estas que, entre outras, destinaram este meu dedo a trabalhos duros para o resto da vida, já que sensibilidade é coisa que tem pouca e a textura obriga a substituição pelo dedo médio quando em trabalhos que impliquem contactos com outras carnes ou peles mais macias, entre outros.
Já para lidar com bicharada, linhas, nós, ferramentas e afins, assim como, para enfiar em buracos seleccionados que o mereçam, não há coisa melhor! Porque é que me lembrei do Miguel Relvas quando produzi esta última afirmação? Talvez por termos andado na mesma universidade, embora eu nunca tenha tido aulas com o tal reitor e tenha papado as cadeiras todas durante quase três anos, com 28 anos de serviço efectivo e já com bacharelato feito e mesmo assim ter aprendido! Bom... mas isto não interessa!
Voltando ao meu dedo... está visto que a dureza de utilização o torna cada vez mais duro, feio, mau e tão confiante que, após todos estes anos de pesca, a última das Moreias com que lidou quis testá-lo, quando o dono o colocou a jeito, deixando-lhe mais aqueles buracos, agora já cicatrizados e que brevemente contribuirão para a já evidente fealdade do pedaço.
A Moreia aparentava ter para aí uns dois quilos e meio, vinha anzolada pela boca e com evidente má disposição que se agravou quando se soltou do anzol e caiu no poço do barco, serpenteando e mordendo em seco de cabeça levantada. Não fui buscar o alicate comprido que uso nestes casos, agarrei um curto, o primeiro que tinha à mão e fiquei à espera de a poder prender por um dos maxilares... o erro já estava cometido, a pressa de voltar a pescar agravou-o, assim como o excesso de confiança nas capacidades do meu dedo...
O alicate desceu, a Moreia levantou a cabeça e mordeu a primeira coisa que lhe chamou a atenção - o meu dedo - que escapou rápido, evitando a preensão que se seguiria caso lá ficasse, embora cortado conforme imagem de abertura.
Senti a carnes a rasgar, vi o meu sangue que encarei como imposto a pagar pelos peixes já capturados e, após agarrar a Moreia e guardá-la como previsto, atirei-me aos curativos.
Primeiro a compressão, com um pano, para estancar o sangue, depois Betadine com fartura, seguido de penso rápido. Duas luvas elásticas daquelas dos médicos, uma sobre a outra, voltaram a permitir-me pescar, de dedo espetado, posição que este conhece bem, devido à dureza de vida que tem levado, observando assim o resto da pescaria, em dia de calmaria, com nevoeiro matinal, parecendo aberto à saída do porto.
Na verdade, assim que entrámos no banco de névoa que se vê à proa, logo esta se mostrou cerrada o suficiente para obrigar à utilização do Radar e do GPS, por segurança de navegação, aparelhos estes que o meu dedo, ainda são nesta altura, conseguiu ligar, poupando o médio para outros trabalhos.
Mesmo com o acidente da minha extremidade, posso garantir-vos que este foi um dia de pesca brilhante... por tudo!
A companhia, a boa disposição e até as capturas que, não sendo nada de especial, foram acontecendo com algum ritmo, intervaladas por muito roubo de iscas, muitos testes de montagens, iscadas e sei lá mais o quê!?
Exemplares de nota, nem por isso, mas Parguitos como este do TóZé, entraram uns quantos e...
... o João Maria, conseguiu o melhor exemplar! Este que abaixo se mostra!
Comparando com pescarias anteriores, neste ano do Relvas, de subsídios voadores, de pouca pesca e consequente escrita por aqui; tudo indica que a actividade já se sente e que em breve outras maiores e melhores surpresas nos alegrarão!?
A este magnifico dia seguiram-se outros... melhores, não tão bons, mas onde a tónica foi escolher e pescar bem, sempre sentindo que a actividade e consequentes capturas dos nossos interlocutores se aproximam cada vez mais das características normais para a época.
Isso se tornou a verificar na passada quinta-feira, em que fui fazer algo que esporadicamente me faz falta e adoro... pescar a solo! Até o dedo, já sarado, se ria de tanto gozo!
Para variar, levantei-me com o Sol alto, sentindo ainda o prazer da degustação de uma Fraca de Molho, com o Zé Beicinho, ao jantar do dia anterior. Fui buscar a sardinha para iscar e beber o cafézinho da ordem, entre conversas com este e aquele, pescadores conhecidos, ouvindo as normais "bocas" relacionadas com a hora a que costumo ir para o mar, ou seja, qualquer uma, entre as dez e um quarto para o meio dia. Tudo bem... nada a que não consiga sobreviver.
O mar estava calmo, o ponteiro da temperatura do motor do Makaira, atingia lentamente os graus ideais para iniciar a aceleração até à velocidade de cruzeiro, e, o GPS ligado, já tinha o cursor no pesqueiro escolhido, indicando-me o rumo a seguir! Perfeito!
À chegada, a imagem de sonda mostrou actividade suficiente para arriscar o fundeio e atirei-me à acção de pesca, como se não houvesse amanhã.
Cana na mão, com sardinha iscada à posta; cana no caneiro, com um estralho comprido (2,5m), anzol 6/0 com sardinha iscada inteira; e, mãozinhas a pescar rápido que o roubo era frenético, sem dar descanso para manter iscas activas o que era o caso. Mesmo ao meu jeito!
Os Parguitos foram entrando, malandros, espaçados e intervalados com safios pequenos chatos e soltos na hora. O tamanho foi melhorando mas de grandes exemplares não reza a história deste dia, em que a caixa se foi compondo, como se vê abaixo.
O maior exemplar, até que me enganou, tanto por vir ferrado por fora da boca, quanto talvez, pela diferença abismal de luta, face aos companheiros já a jeito para a panela. Aqui está ele!
Certo é que a actividade nos pesqueiros começa a dar um ar de sua graça, embora os Pargos maiores não se mostrem muito interessados nas iscas, talvez por andarem atestados de pilados!? Esperemos que brevemente variem o menu ou que os ditos caranguejos cumpram com a sua função e desandem... parece praga!?
Uma coisa é certa, em conversa com pescadores profissionais de Sines, esta espécie tem estado por todo o lado, pois até nas 80 braças de água, comem bocados aos tamboris, nos aparelhos. Uma desgraça!
Se neste dia delicioso fui a solo e gostei, não foi com menos prazer que antevi o dia seguinte, em que o João Martins e os descendentes - a Susana e o Zé - me acompanhariam noutra pescaria, certamente no mesmo pesqueiro (importava testá-lo até à exaustão), onde lhes poderia passar conhecimentos enquanto usufruía da excelente companhia.
Também com eles, a hora de saída é daquelas que gosto e, se no dia anterior, só pensava em colocar linhas na água; neste dia, todos os pensamentos se dirigiam para que estivessem e pescassem bem.
Tudo correu pelo melhor... quase a papel químico em termos de capturas, com os Parguinhos pequenos, como este que a Susana mostra...
... um exemplar maior, irmão gémeo do que capturei no dia anterior, aqui apresentado pelo Zé e que sendo o seu primeiro maior, lhe abriu sorriso de orelha a orelha...
... e até um Safio com perto de 5 kg deu um ar da sua graça, coisa que não tinha acontecido antes.
Em mais um dia calmo, descontraído e com algum peixe, a imagem dos dois felizes contemplados, deixando o pai, apoiante de tempo inteiro (nem pescou...), completamente babado.
Já os dois dias que se seguiram, foram diferentes... pescas mais matutinas, menos peixe e mais enganos nos pesqueiros.
No Sábado, eu, o Vitor, o João, o Raimundo e o Pedro; no mesmo pesqueiro, quer por via da ausência de peixe, quer pelo vento que entrou; fomos obrigados a mudar para a terra.
Os Parguitos deram sinal, logo que chegámos, tanto pela mão do Pedro, quanto pela mão do João que teve a sua primeira captura "vermelha", pequena, mas primeira!
O pesqueiro mostrou-se diferente, com menos actividade, de tal forma que nem Safios apareceram.
Depois, durante todo o Santo Dia, procurámos, tentámos, mas nada mais se capturou de nota, obrigando-nos o vento a voltar ao porto mais cedo que o habitual. Tem dias assim e, ultimamente, não tem sido fácil. Mas ainda faltava um dia de pesca, desta vez com o Zé Beicinho, antes de voltar para o "descanso do guerreiro".
Saímos para a pesca, no Domingo, eu e o Zé, com novo pesqueiro em perspectiva, mais fora, já que a zona dos dias anteriores ficou pouco produtiva.
A pesca iniciou-se com bons sinais, muito roubo de iscas e perspectivas a condizer. Meia hora passada e entrou o primeiro, pequenote, logo seguido de mais um, passados uns quinze minutos.
A coisa prometia, embora em outros dias também não fosse além daquilo. Certo é que, não tinha passado meia hora e já um de 2,5 kg, entrava a bordo e outro grande se desferrava a meia água na cana do Zé.
Ficámos entusiasmados, mas, lentamente as Cavalas substituíram os Pargos e, todo o restante dia, com variantes contínuas de iscas e iscadas, nada mais entrou de jeito.
O meu dedo feio, apontou os pilados que iam passando, talvez os maiores culpados das irregularidades que se têm vindo a verificar. No entanto, tudo parece concorrer para que a coisa melhore!?
Aguardemos melhores dias!
Até lá, uma boa noite a todos os leitores!
A pesca iniciou-se com bons sinais, muito roubo de iscas e perspectivas a condizer. Meia hora passada e entrou o primeiro, pequenote, logo seguido de mais um, passados uns quinze minutos.
A coisa prometia, embora em outros dias também não fosse além daquilo. Certo é que, não tinha passado meia hora e já um de 2,5 kg, entrava a bordo e outro grande se desferrava a meia água na cana do Zé.
Ficámos entusiasmados, mas, lentamente as Cavalas substituíram os Pargos e, todo o restante dia, com variantes contínuas de iscas e iscadas, nada mais entrou de jeito.
O meu dedo feio, apontou os pilados que iam passando, talvez os maiores culpados das irregularidades que se têm vindo a verificar. No entanto, tudo parece concorrer para que a coisa melhore!?
Aguardemos melhores dias!
Até lá, uma boa noite a todos os leitores!



