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domingo, 17 de março de 2013

O prazer de ir...


O Sol já vai alto e navego para fora, nesta Sexta Feira, 16 de Março, do ano da graça de 2013. Vou só, com um olho no rumo, enquanto revejo a disposição de todo o material a bordo, não resistindo a captar a imagem do carreto e da cana que para mim ganham vida, parecendo-me nervosos para entrar em acção. Acalmo-os, dizendo-lhes que o motor tem de aquecer antes de ir para rotações de cruzeiro e que a pressa é má conselheira, até porque, compromissos são coisa que não temos e, quanto aos peixes, o mar é como aquele café de clube de pesca onde vamos tomar um caneco e, mais cedo ou mais tarde, acabamos por encontrar um ou mais interlocutores à altura, para discutir o assunto que lá nos levou...

O dia está calmo, o mar raso e, já com o barco na sua melhor velocidade, lembro-me do Parguinho e da Dourada, capturados ontem, numa rapidinha de fim de tarde. Já marcharam cozidos com todos, alegrando os estômagos do Zé Manel, do Pedro, do Fernando e o meu, claro; lá pelo Zé Beicinho que estava com uma gripe das antigas e não pode participar, nem no jantar, nem na pescaria de hoje. As melhoras para ele e para a próxima, logo se vinga.

O GPS mostra-me que estou a chegar à zona, abrando, limpo o traçado do rumo e vou preparar o ferro para largar, enquanto deixo que se desenhe o rumo da deriva.
A sonda já está ligada, mas nem olho para ela, a zona é grande, os fundos espectaculares, o peixe costuma adorá-la nesta altura do ano e nem ponho a hipótese de não fundear por ali... é uma questão de procurar e acertar. Já lá vamos.

O ferro está pronto a largar, a isca já está cortada, as canas a postos e é hora de ver o rumo da deriva, sondar, procurar e optar pelo pesqueiro onde fundear. Faço a primeira escolha do local para largar o ferro e aí vai ele... espero que o barco se coloque e rapidamente me apercebo que não estou onde quero. Sinceramente já desconfiava... o traçado do rumo da deriva era estranho, muito devido à leve aguagem que ia para a proa do barco, quase em sentido contrário ao do vento; para além disso, deveria ter sondado mais em volta, de forma a perceber melhor os contornos de fundo, farto em pontões altos e beiradas abruptas, onde qualquer erro de fundeio concorrerá facilmente para ficarmos em cima de local pouco interessante, por demasiada pedra ou por limpo meio deserto.
À falta de melhor, converso com as canas, carretos linhas e anzóis... digo-lhes para terem calma, enquanto levanto o ferro e melhoro o fundeio, sentindo-me confortável com o fundo novo e largando-os de imediato, ao encontro daqueles com quem queremos "falar".

A "conversa" inicia-se algo tímida. No entanto, logo na segunda descida, após sentir a chegada ao fundo e elevar a pesca, para melhor sentir a sua tensão, primeira surpresa... a linha fica leve e, das duas, uma; ou perdi a chumbada, ou algum peixe se ferrou e não a deixa estar no fundo!? Enrolo rápido e lá está o peso e a consequente luta, dura e comprida, indicando talvez uma Cavala grande ou um Serrajão!?
Não me enganei... um Serrajão, com uns dois quilos e tal, sobe ao poço do Makaira e, enquanto lhe retiro o anzol e o deito delicadamente na mala térmica, já só penso na cebolada que vou comer com ele.

A acção continua e o roubo de iscas, mais ou menos rápido, é uma constante, independentemente dos tamanhos e formatos das iscadas, indicando que mais cedo ou mais tarde, alguma luta interessante acontecerá.
A pesca vai decorrendo, entre uma ou outra bolacha e uma ou outra montagem ou anzol perdidos, por arrochanço, ou por uns quantos Safios de tamanho que não quero, a engolirem o anzol e a cortarem o estralho. Insisto, e outra luta acontece, desta vez em tons avermelhados... não é um grande mas, pelas cabeçadas, também não é Parguito. Mais para cá, menos para lá, eis que entra no poço o primeiro Pargo do dia, com uns dois quilos e tal. Sinto o desenho de um sorriso e digo às canas e aos carretos: Olhem que não vale só por ele... se tinham alguma dúvida, o que acham agora da qualidade do pesqueiro? 
Vamos lá trabalhar que, ou me engano muito, ou não ficamos por aqui!?

Os toques continuam, ferro um peixe que começa a luta e logo se solta sem dar hipóteses de perceber a raça, subo a montagem já com anzóis limpos, isco de novo e torno a lançar, aguardando os toques que começam a rarear, fazendo-me pensar que algo está a acontecer... ou anda por ali peixe maior ou mudei de sítio!? Olho em torno e apercebo-me que o rumo do vento mudou e o barco, lentamente, tinha rodado sem que me apercebesse, fruto da concentração na azáfama. Liguei a sonda e esta mostra-me que já estou a pescar no deserto. Espero mais um pouco, subo as iscas e estas vêm tal e qual estavam, obrigando-me a tomar uma atitude. Mais uma vez, levanto o ferro, procuro onde largar e recoloco-me no mesmo fundo, esperando não me ter enganado quanto à sua produtividade.

A resposta veio algumas iscadas e tempo depois, primeiro pela limpeza dos anzóis e, ao fim de mais algum tempo, por um daqueles toques que obrigam a ferrar alto, seguindo-se a luta esperada, a linha a sair, mais cabeçada comprida e mais linha a sair, repetindo-se ao longo dos 80 metros de fundo a que estava a pescar e culminando com este "vermelhusco"... curto, gordo, alto de lombo e cabeçudo que, deitado, aguardou a foto para a posteridade, ao lado daquele sapato velho que não chega ao Verão de tão maltratado.


O pesqueiro a funcionar, restando saber se o tempo de pesca restante, traria mais alguma surpresa. Só a continuação da acção o poderia dizer e foi o que fiz após trocar a sofrida montagem, coçada junto ao anzol.

Iscas para baixo, anzóis para cima, variação de tamanhos, de formatos; Sardinha por base, Camarão velho e grande de vez em quando e um choco ou outro a intervalar. Já para não falar de um Besugo iscado vivo na pesca a pescar no caneiro. Tudo se tentava, ou quase tudo.

Um determinado moer, a desconfiança, a ferragem e a luta pesadona dum Safio de maior porte, talvez infrutífera, caso o fio viesse a roçar a dentuça do bicho.
Ao fim de algum tempo, continuava a subir, abri a porta do poço que dá para a plataforma de banho e continuei a puxá-lo, até que o vi, com o anzol ferrado na mandíbula superior, tudo indicando que o fio estava intacto. Deixei-o boiar, agarrei o fio desviando um pouco a cara para evitar que os anzóis ou a chumbada me viessem bater caso se soltassem de repente, esperei que a vaga colocasse o nível da água o mais perto possível da plataforma e puxei segura e insistentemente, conseguindo vencer o desnível e arrastá-lo para bordo.

A pesca estava composta, o Sol já se aproximava da linha do horizonte e após mais algumas tentativas e uns quantos peixes mais pequenos. decidi que era hora de levantar ferro e levar o Serrajão ao encontro da cebolada com pessoal amigo.

Não sem antes captar a imagem "de grupo", onde não resisti a deixar os Besugos, tão do agrado de um ou outro amigo meu que não vão certamente perder a oportunidade de sobre eles comentarem.


Um dia excelente, uma pesca bonita, sem ser grande ou excepcional, o Serrajão, de cebolada, espectacularmente cozinhado no Zé Beicinho, pela D. Lucília, e, a conversa fluente que sempre se consegue à mesa. Pedir mais... não quero, nem devo!

A todos os leitores, desejo uma boa noite e uma semana produtiva.

Até à próxima. 

domingo, 3 de março de 2013

Entender um pesqueiro versus marcas de GPS


A carta de fundos de Sines surge perante os meus olhos e, enquanto não deixo de me espantar pela  diversidade e qualidade dos mesmos, analiso os resultados algo variáveis das últimas pescarias, comparo-os com outros na mesma época do ano e nos mesmos pesqueiros e tento relacionar tudo isto com as opções tomadas em cada momento, na tentativa contínua de os melhorar, pensando, agora no sossego do "buraco" onde costumo escrever, sobre a enormidade de variáveis que rodeiam a acção de pesca e a dificuldade de as interpretar a nosso favor em cada momento de pesca.

Tais pensamentos e decorrentes reflexões, levaram-me a questões relacionadas com o entendimento de pesqueiros, tentando isolar e posteriormente conjugar os factores que poderão conduzir a uma melhor interpretação de como lidar com um determinado pesqueiro, tendo em conta as suas características e as condições de mar e vento de um determinado dia em que decidimos, face à época do ano, escolhê-lo como local para nossa acção de pesca.

Genericamente, tenho como definição de pesqueiro: "uma zona submarina em que a profundidade, textura e contornos de fundo se adequam, em determinada época, dia e momento, à concentração, permanência ou passagem da espécie ou espécies que pretendemos capturar, utilizando uma determinada técnica (fundeado, com isca morta ou viva; à deriva, com zagaia ou isca viva;…)".
Para além das características apontadas, a zona em questão, poderá ser mais ou menos extensa e portanto passível de, em função das condições de mar e vento, oferecer hipóteses diversas de localização do peixe e consequentemente de fundeios adequados a esta localização, tendo ainda em conta o rumo da deriva existente em cada dia.
Considerando o referido, um ponto de GPS que identifique a zona, funcionará sempre como o centro ou indicação da mesma e não como obrigatoriedade de fundeio preciso nas coordenadas que o definem. Quer isto dizer que ao chegarmos ao ponto deveremos, a partir dele e através da sondagem, procurar o melhor local para fundear, tendo em conta a actividade, o rumo da deriva e a possível existência de aguagem.
Normalmente, em pontões baixos em que a actividade se vê numa das beiradas, tenta-se largar o ferro na beirada contrária e deixar o barco descair mais ou menos para cima da outra onde vimos actividade, ou, caso o rumo da deriva seja contrário, tentar encontrar uma zona rija, fora da área do pontão, onde se verifiquem condições para o ferro prender e deixar o barco descair na direcção deste, de modo a que consigamos colocar as nossas iscas na zona de actividade identificada. Tudo isto sem esquecer que, havendo aguagem, o barco não deverá descair para a vertical da zona de actividade, sob pena de a corrente colocar as nossas iscas fora desta.
Analisando as duas hipóteses apontadas, prefiro quando possível, largar o ferro fora do pontão e descair para este, do que largar sobre um lado e descair para o outro, isto porque qualquer peixe daqueles que procuramos, ou já lá está, ou, tendencialmente, terá o pontão como referência para a sua aproximação, devido à comedia que anda em torno deste, sendo que as nossas iscas ficam no local certo, venha ele de onde vier. Já quando largamos o ferro numa das beiradas do pontão e descaímos para a outra, havendo aguagem, o peixe que já por lá possa estar pode não se aperceber das nossas iscas, atendendo a que a corrente poderá levar cheiros ou vibrações para fora da sua área sensorial, restando-nos aguardar que outros predadores venham procurar o local e dêem de caras com a nossas ofertas, o que tende a acontecer com aguagens leves e talvez seja mais difícil acontecer com aguagens mais fortes, em que o peixe tenderá a evitar grandes deslocamentos.
Importa referir que, não havendo aguagem, deveremos ter como único pensamento a colocação do barco, na vertical, sobre a beirada com mais e melhor actividade, independentemente do local onde se largue o ferro, sendo neste caso o vento, o principal orientador da deriva.

No caso de elevações submarinas significativas (10 ou mais metros), distribuídas por áreas extensas e em presença de aguagem, a tendência de abrigar muita comedia (peixe miúdo) e consequentemente aqueles maiores que dela se alimentam, aumentam significativamente as hipóteses de capturas de predadores que já se encontram na zona, desde que coloquemos iscas que os atraiam em género e quantidade, assim como, em zona onde lhes sintam o cheiro, as vejam ou a elas sejam atraídos devido ao frenesim do peixe miúdo que as estejam a consumir, caso tal aconteça.
O fundeio ideal face à situação anterior, sendo efectuado do pontão para a beirada do lado para onde se dirige a aguagem, poderá não ser o ideal, atendendo a que a actividade do peixe miúdo e consequentemente dos predadores se desenvolve junto ao pontão, sendo que, com um fundeio deste tipo, as iscas cairão fora da zona, tendendo a não serem detectadas, excepto no caso em que apareçam predadores em procura de comida e/ou abrigo, vindos de outros lados e, eventualmente, caso exista outro pontão perto, também com actividade e no alinhamento da aguagem.
O fundeio ideal, parece ser aquele em que conseguimos largar e prender o ferro, fora do pontão, do lado contra a aguagem, de modo a que o barco fique entre o ferro e a base do pontão, permitindo que as iscas, os seus cheiros e as vibrações causadas por ataques de peixe miúdo, por efeito da corrente, se dirijam ao encontro dos "residentes", temporários ou não.

A escrita já vai longa e, como habitual, voltei atrás, revi a conversa e pensei com os meus botões... neste momento da leitura, alguns de vós poderão estar a pensar: mas por que raio estará este fulano para aqui com esta conversa toda? Porque é que não vai direito ao assunto?

É para já!

A conversa anterior tem por base os resultados obtidos nas últimas três saídas de pesca; duas, com bons exemplares e uma de seca e quase sem peixe.

Uma das melhores, corresponde à relatada na última entrada e a outra, corresponde a esta, em que para além de um Pargo de quilo e pouco que me saiu, mais um grande que se desferrou e dois outros, também desferrados pelo Zé Beicinho, muito por tentativas de ferragens demasiado rápidas, foi ao Brás que saiu a taluda, iniciada com este Alfaquim pequeno...


... seguido deste maiorzito...


e terminando com chave de ouro, com este Pargo, perto dos 5,000kg


Parabéns Brás!

Mas voltemos à conversa.

Tanto o último relato, quanto este, foram precedidos respectivamente de duas pescarias não relatadas. A  anterior ao último relato foi mais uma tentativa em pesqueiros pelos 50/60 metros, revelando estarem estas profundidades muito pouco activas no que a peixe melhor se refere, indicando a necessidade de procurar mais fundo. Procurado e encontrado o pesqueiro, realizou-se a pescaria relatada na entrada anterior, em que o fundeio, por orientação do rumo da deriva, obrigou a fundear de fora do pontão para este, na linha de aguagem.
Na passada Quarta Feira, voltei ao pesqueiro e tanto a aguagem, quanto o rumo da deriva se verificaram opostos, indicando que deveria fundear na beirada oposta, mas, por uma questão de tentar entender melhor o pesqueiro e também porque a beirada já testada apresenta-se com um declive menos pronunciado que a oposta, decidi o fundeio colocando o barco mais ou menos no mesmo local, embora pescando do pontão para a beirada, com resultados desastrosos. O peixe nem comia.
Após uma hora e muito, de acção de pesca, resolvi levantar ferro e fundear do outro lado. Pescámos muito pouco tempo... entrou vento forte, o mar virou, o ferro saltou e tivemos que rumar a terra onde só umas Choupas e Sarguetas entraram, dando-se por terminada a pesca e confirmando uma vez mais a dificuldade de conseguir melhores exemplares à terra.
Finalmente chegámos a esta Sexta Feira, dia calmo, "mar de senhoras" e rumo ao mesmo pesqueiro, onde se verificou aguagem mais leve e actividade mais intensa na tal beirada com menos declive. Hesitei mais uma vez e tornei a fundear do pontão para a beirada na linha de aguagem, pensando que com menos corrente houvesse maior fluxo de peixe a vir de fora para o pontão. Na verdade, enganei-me!
De facto, o peixe até já picava e algumas Pataroxas deram um ar da sua graça, mas o certo é que peixe maior, nem vê-lo. Era hora de fundear do outro lado. Levantei ferro e rumei contra a aguagem e a deriva, sondando por cima do bico, cheio de actividade. Vi aparecer a beirada abrupta, caindo de repente quase para o dobro da profundidade e mostrando sempre actividade com fartura. Continuei, procurando, no fundo, um socalco conhecido para agarrar o ferro; encontrei-o e fundeei, deixando depois descair o barco até ao ponto que me pareceu ideal para largar as iscas e estas cairem perto da beirada, cabendo à aguagem fazer o seu trabalho de "divulgação".
Certo é que os toques foram logo outros, mais intensos, acabando por se conseguirem os peixes que já vos mostrei. Pena os que fugiram... então sim, tinha sido uma pescaria bem mais elucidativa. No entanto, face ao relatado, pode dizer-se que a produtividade esteve manifestamente associada aos fundeios efectuados de fora do pontão para a base deste, no rumo da aguagem; entendimento a reter como base para primeira opção de fundeio, em outras incursões a este mesmo pesqueiro ou até a outros com características idênticas. Convém no entanto estar atento, pois nada no mar e na pesca se mantém como regra. Um dia destes é possível que aconteça precisamente o contrário. Eventualmente, bastará para tal que as condições e a época sejam diferentes

Relativamente ao título desta entrada, importa referir o seguinte: imaginem que um amigo me solicita uma marca de GPS e eu lhe dou aquela onde fiz esta pescaria ou a da pescaria relatada na última entrada. Ele ruma para lá, acredita que vai pescar à séria e fundeia o barco no ponto. Se não entender o pesqueiro e as condições não forem as mesmas ou idênticas, este ponto poderá de nada lhe valer. Neste caso, ele eventualmente ficará de monco caído e eu fico talvez sujeito a... passar por mentiroso!?

Uma boa noite a todos os leitores.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A cor vermelha em pesqueiro novo!


Peixes em tons de vermelho, com olhos do tamanho de cápsulas de cerveja ou maiores... adoro!

Mas tanto ou mais que a sua captura, são os esforços que se desenvolvem na sua procura que me apaixonam, tanto em momentos menos bons, quanto em momentos de sucesso; principalmente quando esse sucesso se baseia na procura de novos fundos, no aproveitamento de condições de mar e vento ideais para explorar zonas específicas, adequadas a cada época, e, nas decisões que se tomam quanto a fundeio atendendo à actividade observada nas imagens que a sonda nos devolve, permitindo-nos operações de fundeio em que ficamos a pescar mesmo onde queríamos. Isto é, depois de analisar jornadas menos produtivas quanto a resultados, época do ano e condições de mar e vento em que foram realizadas; esperar um dia em que as condições sejam favoráveis, adequar a procura em função da análise anterior, insistir em locais desconhecidos e profundidades diferentes, até encontrar um fundo com bom aspecto, fundear bem e... ter sucesso.

Mas chega de introdução e passemos ao relato.

Este início de ano tem sido pródigo em dias que não permitem ir ao mar. Se por um lado é bom por permitir a renovação necessária, por outro, não permitindo uma regularidade de saídas, quebra o ritmo de pesca, principalmente no que se refere aos locais onde o peixe "habitualmente" pára.
A palavra entre aspas, colocada de propósito, é um perigo no que se refere à procura de peixe, muito porque os hábitos do peixe, prendendo-se essencialmente com a alimentação e em alturas específicas  com a reprodução, variarão por norma em função das deslocações do peixe alimento que, por sua vez, serão ditadas pelas condições determinadas por correntes, temperaturas e outras, existentes no meio aquático, muitas delas que não conseguimos dominar, obrigando à regularidade de saídas na procura dos locais onde possam prevalecer determinados "hábitos" de passagem de peixe, em determinada época do ano, mas no entanto sujeitas à alteração dos tais "hábitos". Valham-nos as capacidades de ter em conta estas possibilidades e de saber ler a santa sonda, para não falar naquelas de, em acção de pesca, entender as reacções do pesqueiro e proceder em conformidade, pensando sempre que estes peixes de maior porte, normalmente, não andam por lá ao monte, nem se atiram a qualquer isca ou formato de apresentação da mesma.

Das reflexões produzidas, parece poder entender-se que os tais "hábitos" normalmente verificam-se em determinadas épocas, mas de ano para ano, podem alterar-se significativamente tanto no que respeita a profundidades, quanto a zonas de pesqueiros, obrigando a uma procura contínua tendo em conta as variabilidades referidas, pior ainda em fases de transição climatérica ou nos momentos em que o peixe tende a afundar ou vir mais à terra.
Não há hipóteses de o descobrir, senão indo e experimentando em pesqueiros diversos ou procurando novos, mesmo correndo riscos de insucesso.
Em determinadas alturas deste processo de procura, poderemos dominar, durante períodos relativamente longos, os locais e tendências do peixe, sabendo que mais cedo ou mais tarde tornaremos ao processo, devido à contínua mudança de condições a que o meio aquático está sujeito.
O domínio sobre os factores apresentados e consequentes hipóteses de sucesso, tende a aumentar com a regularidade de saídas, coisa que nem sempre se consegue.

Este conjunto de factores justifica, de algum modo, resultados das últimas saídas, relativamente intervaladas, em fase de transição, correndo riscos de não capturar e chegando a esta última, Sábado, dia 16 de Fevereiro, deste ano da crise dos ladrões de 2013, em que, acompanhado dos companheiros Tózé e João Maria, resolvemos procurar novos pesqueiros, mais fundos, atendendo à época e conseguindo alguma recompensa.

Saímos pelas 08.30, quase de madrugada, para um mar calmo e estanhado, abrilhantado por uma leve brisa de Sueste, óptima para aproar o barco e mantê-lo quieto, desde que não existisse nenhuma aguagem contrária ou atravessada que fizesse variar a posição de fundeio em conjunto com possíveis variações da intensidade do vento que não eram esperadas. As condições ideais para ir procurar um pouco mais longe e mais fundo.
Navegámos para Oeste, procurando uma zona de pontões altos, ladeados por entralhados, em profundidades compreendidas entre os 80 e os 100 metros de profundidade. Chegámos, determinámos a deriva do barco e iniciámos a sondagem. Primeiro num pesqueiro já conhecido que não me agradou, tanto pelo aspecto da actividade que me pareceu essencialmente de peixe miúdo, quanto pela dificuldade, para não dizer impossibilidade de lá fundear, atendendo ao rumo da deriva. Estas condições levaram-me a alargar a procura na zona, batendo-a em rumos paralelos e perpendiculares que me levaram para bem longe do que já conhecia por ali, assim como à descoberta de um novo pesqueiro que se apresentava a jeito para o fundeio e cuja imagem de sonda me agradou, tanto pela configuração de fundo, quanto pelas imagens de actividade observadas. Era ali! Estava decidido!

Após o fundeio, percebemos que tudo estava de feição, até uma leve aguagem que corria no mesmo rumo do vento. Uma beleza... só faltava pescar, coisa que de imediato fizemos, até porque... "cheirava a peixe". Não sei explicar as condições em que a anterior expressão me vem à cabeça, mas o certo é que muitas vezes funciona, talvez quando tudo está a bater certo, como por exemplo: um dia excelente, procura nova, pesqueiro novo com muito bom aspecto, fundeio certinho, aguagem qb, estão a ver... aquela ponta de aguagem que não incomoda nada e só pode levar os cheiros e as vibrações a "quem de direito", enfim... tudo a favor.

As iscas desceram, os toques iniciaram-se, leves, discretos, sem roubos completos de iscas que se iam repondo com a velocidade permitida pelos 87 metros de profundidade.
As Pataroxas iniciaram as hostilidades, com aquele toque característico que só engana às primeiras, revelando-se depois, numa luta relativamente pesada e desinteressante. Seguiram-se os Safios, um ou outro, para o lado do pequeno, atendendo à espécie e de imediato devolvidos à procedência. Ou vinha grande, ou não vinha!

Hora e meia de pesca já decorria, quando um toque disfarçado me fez levantar a cana forte e alto, pensando  em mais um Safio mas, a cabeçada seguinte felizmente desenganou-me... Safio não corre daquela forma nem cabeceia assim. O Pargo batia forte e pesado, como é normal nestas profundidades, fomos lutando, vencendo a distância até à amura do Makaira e à foto para a posteridade, com aquele seu vermelho bonito.


As hostilidades mais sérias tinham-se iniciado, a tensão sentia-se a bordo, esperando que aquele não estivesse só e, na verdade, não estava.

As iscas repuseram-se, desceram, foram roubadas, tornaram a subir anzóis limpos, iscaram-se, desceram, mais um toque e mais um Pargo em luta. Desta vez mais pequeno, mas de bom porte, sem direito a foto imediata... não havia vagar.

Não eram passados cinco minutos e foi a vez do Tózé, com outro também mais pequeno, mas também suficiente para colocar um sorriso na face, contrastante com a cara séria que colocou para a foto.


A coisa corria bem, o "cheiro a peixe" já era real e a luta calhou desta vez ao João Maria, com bicho maior, aliás o maior que alguma vez tinha capturado na sua vida e com o qual, para além das várias futuras refeições possíveis, passou à história em imagem...


A atenção a bordo sentia-se... tudo estava concentrado e começaram a subir Safios continuamente libertados, excepto um deles, com 8,900kg que guardámos, enquanto se esperava nova entrada de Pargos, o que infelizmente não sucedeu, embora se tentassem vários formatos de iscadas, ao fundo e à chumbadinha.
As horas correram rápido, demasiado rápido, como sabemos que correm sempre que fazemos algo que gostamos, até à chegada ao porto de recreio e às imagens finais, nomeadamente a seguinte onde me encontro com os meus dois "companheiros de refeição".


Fica agora a pergunta: porque não entraram mais Pargos?

Várias hipóteses podem ser apreciadas, por exemplo:

1. Só conseguimos atrair aqueles, ou só aqueles andavam por ali!? Sinceramente duvido. O tipo de pesqueiro, a profundidade, a época do ano, a aguagem leve e a continuidade de roubo, entre outras possíveis, formavam um conjunto de factores tendentes a manter interessados ou a chamar mais "vermelhuscos".

2. Após a entrada do último Pargo, verificou-se um aumento significativo dos ataques de Safios, muitos deles tão grandes que tínhamos dificuldade em os retirar do fundo, ou cortavam os estralhos de 0,42 e 0,50mm. Agora, aqui em terra, pergunto-me se os Safios, atendendo ao seu tamanho, não terão ganho em concorrência com os Pargos, na aproximação às nossas iscas!? Isto porque só levámos Sardinha, o que, nestes pesqueiros mais fundos, pode ser um erro, atendendo a que a gulosice dos Safios por esta isca é conhecida e caso tivéssemos Caranguejo, Camarão e Lula, talvez, a ser verdade, os Pargos tivessem outras hipóteses!? Não se sabe... mas para a próxima logo se vê?

Uma pena o tempo ter piorado para este Domingo. Para todos os efeitos, foi uma pesca como se gosta, com bons exemplares e em novo pesqueiro que muito ainda terá para dar. Outros relatos se esperam dele.

Até lá, uma boa noite a todos os leitores.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Já cá cantam 6... anos de vida!


Seja bem aparecido... comentarão alguns de vós, senão todos!? E têm razão!

Raios partam as condições meteorológicas e mais a inspiração para escrever que me tiram!

Podia contar histórias, podia falar do anzol, da isca, do carreto, da cana e sei lá mais o quê... mas sem pescar esvai-se-me a vontade.

Quero pescar, quero escrever, mas o certo é que a dependência entre estas duas vontades, porque gosto de escrever em cima de resultados, tem estado na origem da diminuição de intervenções por aqui.
Na verdade, este foi o ano em que menos vezes pesquei e em que os resultados foram mais parcos. Ano de desencontros entre o tempo livre e a meteorologia, ano de troika, de relvas e de outros que também não merecem ter letra grande no nome. Que raio!? Valha-nos a saúde que não tem faltado. Onde é que está um bocado de madeira? knock, knock...

Valeu também pelos workshops, em que mais uma vez o blogue "saiu à rua", encontrando-se com leitores a quem se agradece a participação e consequente mais valia das intervenções produzidas, tanto na acção de Procura de Pesqueiros, Sondagem e Fundeio, quanto na das Iscas em Cada Momento... aprendi convosco e adorei!   


Falta agora o marzinho da foto de entrada, será que a chegada está perto? Talvez...

Só com ele ou até um pouco mais mexido, se podem repetir pescarias razoáveis e fotos como esta tirada no passado dia 6, onde o Zé Beicinho mostra este Parguito...


... melhor exemplar de uma boa pescaria, onde também compareceram vários "irmãos" e algumas "primas" deste animal. Refiro-me ao Pargo... claro!

O importante é que passou mais um ano e estamos cá. Pois é... o blogue faz hoje 6 anos e não podia deixar passar esta data em claro, aproveitando para reafirmar a minha vontade de continuar a pescar e convosco tagarelar sobre tal.

Quanto ao ano que passou, o que se pode dizer?
Quero querer que passou e abriu caminho para este que, convenhamos, até nem começou mal de todo. Portanto... que se lixe o 2012 e que se componham as condições climatéricas, para inovar, pescar e falar sobre tal, neste nascido 2013, com a vontade de pescar e escrever mais nos intervalos de organizações como a 3.ª Feira de Pesca de Setúbal, sobre a qual vos falarei em alguma entrada lá mais para a frente e onde certamente se criarão condições para uma vez mais nos encontrarmos ao vivo e a cores, mais que não seja para me darem nas orelhas, caso continue a faltar com a escrita.

Comemorando mais este aniversário, ergo o meu copo e brindo à Nossa Saúde e à Nossa Pesca! Tchim, tchim...

Um resto de bom dia para todos vós e... até à próxima entrada que espero esteja para breve.


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Atitudes, Iscas, Iscadas, Processos e... Algumas Capturas


Diversidade de gostos, para além de ser bonito, é coisa que não falta. Uns adoram tirar fotos colocando os peixes como se vissem mal ao longe, pessoalmente, prefiro compará-los com o meu pézinho de Cinderela, principalmente quando se proporciona um raid a solo ou, se entretanto aparecer alguém que não se importe de agarrar na máquina e fazer o boneco, gosto de os mostrar encostadinhos ao peito, ou quase... coisas do coração!

À volta de colocar a escrita em dia e por não gostar de só mostrar peixes capturados, tento olhar para trás, rever os momentos e tentar perceber as razões das capturas, no meu caso, sempre encostadas a processos de pesca que tentam minimizar a intervenção do factor sorte. Sinceramente, não me tenho dado mal e é assim o meu gosto. Certo é que, a captura deste exemplar e mais alguns peixes que o acompanharam, não as posso olhar de forma alguma como obra do acaso, antes, como resultados de um conjunto de atitudes e decorrentes acções que foram sendo adequadas aos sinais e resultados, ou falta deles, permitindo transformar uma jornada de nada, numa outra que me deixou sorriso aberto. Sorriria na mesma, mas assim a "tacha" arreganha-se de outra forma.

Não pensem que tenho estado completamente parado, não tenho é conseguido andar por aqui. Quem diria... reformei-me e os afazeres são muitos, quase todos ao sabor do meu tempo e esse é o problema... quase todos.

Não me queixo, antes, gosto de me mexer, trabalhar e sentir que faço falta, ou não sejamos todos assim!?

Mas vamos ao que interessa!

8 a 10 de Novembro, andei por Sines a resolver a questão do depósito do barco e vá de pesca, com o Brás e o João Martins, dando nos Pargos de 1,5 a 3 kgs que junto a cinco Douradas iguais a esta que o Brás mostra aqui por baixo, atingiram o peso máximo legal com alguma rapidez.


Depois, mais um interregno, interminável, até este passado fim de semana, em que voltei ao meu paraíso de pesca, pescadores e petiscos que só os Alentejanos sabem preparar. Pesca, Domingo e Segunda, aguardava-me, combinada com os meus amigos de Évora, no Domingo e pessoal de Sines, na Segunda. Estes últimos acabando à própria da hora por não poderem vir, ficando assim com a Segunda Feira a solo. Grande problema... deles claro!

No Domingo a coisa não correu bem e a culpa, como sempre, só pode ser minha!

Vários erros cometi... em primeiro lugar, não sei bem porquê, ia para o mar com a ideia de que daria facilmente com o peixe; depois, saí do primeiro pesqueiro, com peixe miúdo a roubar, mais cedo do que é normal, sendo que a partir daqui, paciência... a asneira já estava feita e o tempo que sobrava já de pouco nos valeria. Bem feita!
Todos temos os nossos dias parvos e este foi um dos meus, sendo que o mar depressa me reduziu à expressão mais simples como tão bem o sabe fazer.

Serviu-me de emenda na segunda feira, outro dia, desta vez sem a preocupação de ter amigos que sempre quero que apanhem uns peixes e com a única ideia de pescar, para além das capturas que pudesse vir a conseguir.

Eram umas 10.30 da manhã quando saí a boca do Porto de Recreio, em direcção a Sul, muito por ter verificado que, na zona das Douradas de Norte, estava por lá muita gente e não me apeteciam ajuntamentos.

Procurei um pesqueiro habitualmente frequentado pelas "moças de oiro" nesta época do ano e para lá me dirigi, observando à chegada que um daqueles navios de contentores que descarregam no cais 21, estava fundeado, aguardando descarga, mesmo em cima do pesqueiro que escolhi, coisa que não é a primeira vez que acontece. Não desarmei, aquela zona é grande e as tais "moças", por vezes espalham-se por ali.
Sondei, encontrei uma marcação interessante e fundeei, iniciando de imediato a acção de pesca.

O peixe comia pouco, uma vezes roubava no anzol de cima, outras, no anzol de baixo, iscados com Caranguejo e Sardinha, alternados em altura a cada descida, raramente completamente roubados mas sempre com sinais de terem sido mordidos. Não sabia se já lá andava peixe grande e estava indeciso ou se, pura e simplesmente, só lá habitavam as bocas pequenas que mordiam as iscas, talvez a medo!?

A acção de pesca decorria, num ritmo intenso, repondo e variando iscas e iscadas que quase sempre subiam  parcialmente comidas.
Uns toques repetidos e intervalados fizeram-me ferrar alto e o primeiro peixe, com direito a entrar na geleira, subiu a bordo aos sacões... um Sargo que dava para o jantar de dois homens feitos. Fiquei animado, pensando que talvez a coisa não se ficasse por ali.
Outra vez Caranguejo e Sardinha, mais Sardinha e Caranguejo, num sobe e desce contínuo e ininterrupto; um toque conhecido, uma ferragem alta e a pancada certa de uma Dourada pequena que teimava em ficar lá pelos fundos, mas que subi, garantindo assim o jantar pelo menos para três. Que raio... será que é agora que elas vão dar um ar da sua graça? Questionei-me!
Mas não, eram já passadas umas três horas e o pesqueiro quanto a sinais, em vez de melhorar, foi piorando até ao ponto em que as iscas quase não eram tocadas. Ainda isquei grande, não fora andar por ali "quem" não ligasse a petiscos, tornei a variar para pequeno mas, na verdade, aquilo morreu mesmo. Eram quase três da tarde e duas opções possíveis me restavam: voltar ao porto e tratar do barco, de mim e do jantar, ou procurar um pesqueiro perto, daqueles a que já por aqui chamei "fiáveis", e tentar o fim de tarde. Optei por esta última, para lá me dirigi e fundeei de novo, com sondagem e manobra rápida, frutos colhidos de tantas vezes que por lá pesquei. Melhor de tudo... os sinais oferecidos pela sondagem até que não eram nada de se deitar fora. Entusiasmei-me como se neste momento tivesse iniciado o dia. Vamos ver... disse para com os meus botões.
Iscas para baixo, agora só sardinha, e, roubo quase imediato. Gostei ainda mais.
Sardinha à posta, meia Sardinha, Sardinha à posta, Sardinha inteira, mistura com Caranguejo, outra vez Sardinha à posta..., foi de mais para um Sargo de quilo e tal que não resistiu a tanta azáfama. A coisa compunha-se!
Tiro foto, não tiro foto... não há tempo que o Sol  vai cair rápido. Logo tiro se valer a pena!
A acção não parava e outro Sargo grande entrou, fazendo-me pensar que nada tinha ainda terminado. Talvez até algo maior ainda entrasse, mesmo as Douradas que não raras vezes aparecem por ali, dentro e fora desta época. A tensão era a necessária, os sentidos todos em alerta e, mais um toque, mais uma ferragem, mais uma luta, desta vez foi um Pargo de 1,5 kg que subiu ao poço.
Penso para comigo que o pesqueiro não me enganou. Pena o Sol já estar tão baixo, mas vamos ver!?
Iscas para baixo, anzóis limpos para cima, pesca arrochada, estralho partido, novo estralho, novas iscadas, linha para baixo e... não picam ou já me roubaram e nem senti?
Aguardo um pouco, sinto como que um puxar matreiro, a seguir um só toque pequeno, curto, seco, e... arrisco a ferragem!
A cana dobra, a baixada inicialmente parece não querer sair do fundo, iniciando-se de imediato os sacões compridos levando a baixada para a proa do barco, na direcção da leve aguagem que se fazia sentir, sempre à cabeçada longa, não deixando grandes dúvidas sobre o interlocutor que venderia cara a entrada na cozinha fosse de quem fosse.
A luta prolongou-se para além do habitual, mesmo para um peixe do tamanho deste, mas o certo é que acabou por ir subindo, chegando à amura do Makaira, onde lhe meti o enxalavar, o subi a bordo e lhe tirei a foto que abre esta entrada. Pesou na minha balança, onde uma garrafa de água de litro e meio pesa 1,480 kg, uns belos 6,200kg.
Mais tarde, já no porto, um amigo pescador tirou-me a que se segue, onde o tenho perto do coração e mostro o sorriso malandro de quem não desistiu, "porfiou e matou caça"!


E foi assim meus amigos... dias diferentes, provando uma vez mais que a acção persistente e diversificada, assim como atitudes e comportamentos adequados dos pescadores face aos sinais de uma jornada, podem pesar fortemente nos resultados da mesma, dando um contributo valioso para a diminuição da intervenção do factor sorte na nossa pesca.

De tudo isto, iscas, iscadas, materias, montagens e suas aplicações ao longo de uma jornada de pesca; quero convosco trocar ideias, experiências, resultados..., ao vivo e a cores, no próximo dia 16 de Dezembro, em mais um Workshop, com enquadramento no site Porto de Abrigo e mais uma vez com o apoio do Hotel do Sado, em Setúbal, cujo título de divulgação se encontra na imagem seguinte.


Quanto aos objectivos desta acção, deixo-vos o geral, parecendo-me que tem "pano para mangas" e  tende a provocar conversa de pesca como se não houvesse amanhã. Para além disso é bonito sair do blogue e conversar convosco. Eu gosto!


Para mais informação aos interessados, cuja disponibilidade lhes permita estar presentes, podem consultar o documento com as condições de realização, programa e processo de inscrição, clicando na imagem que se encontra no topo da coluna da direita da página inicial do blogue, no site já referido no sector "Pesca Embarcada" e também na minha página do FB.
Podem ainda contactar-me telefonicamente através do n.º 96 357 91 32 ou, pelo seguinte endereço de mail.
Mais informo que o prazo de inscrições, inicialmente previsto até às 24.00 horas, do dia 5 de Dezembro, se prolonga até às 24.00 horas, do próximo dia 10 de Dezembro, no sentido de dar oportunidade aos eternos atrasados.

Por hoje fico-me por aqui, este fim de semana é capaz de haver mais pesca!? Depois conto.

Até lá, uma boa noite para todos vós.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Workshop Procurar Pesqueiros, Sondar e Fundear... Pescar / Fundamentos, pescarias e até algum azar!?


O Título, comprido e estranho... qual imperfeita introdução que nem bate certo com a foto de abertura com  mar, pôr do sol e elementos relacionados com pesca, aquela que andei a fazer pelos mares de Sines, entre os passados dias 31 de Outubro e 1 de Novembro, intervalada com uns trabalhos no barco, outros de casa e sempre com tempo razoável, não fora as chuvadas de segunda para terça e alterações de clima que variaram continuamente permitindo no entanto alguns dias de pesca com mar relativamente calmo e algumas capturas, assim como, acontecimentos mais ou menos estranhos e até menos bons.
Neste momento da conversa, penso para comigo que a maioria dos leitores estará certamente intrigada e continuará sem entender muito bem o título ou sequer onde a conversa vai dar!?
Sem problema... eu conto!

A foto de abertura, coloquei-a porque me faz lembrar uma destas jornadas, muito boa entre as outras e também por ter o condão de me relaxar enquanto penso e escrevo.

Os dias correram calmos, pescando com o João Martins, com o Zé Beicinho, mostrando aqui um dos melhores exemplares da pesca de segunda feira, em que gozava o seu último dia de férias bem merecidas...


... exemplar entre outros do mesmo tamanho que compuseram uma caixa bonita sem no entanto aparecerem aqueles maiores que sempre procuramos. Mas deu para gozar a pesca, testar outros pesqueiros, rir, conversar e até sentir que tudo funcionava.

Outros dias se aguardavam... uma quarta feira que não se sabia de dava para pescar e uma quinta feira em que me fariam companhia os meus amigos Tózé e João Maria que de vez em quando saem da cidade do Templo de Diana e da Capela dos Ossos para me fazerem companhia pelos mares de Sines.

Mas vamos falar da quarta feira, do inesperado e de acontecimentos que pode dizer-se: justificam o tal Workshop de que fala o título.

Não era para pescar neste dia, tinha até uns amigos de Setúbal que eram para vir mas não quis arriscar, atendendo à variabilidade das condições climatéricas. No entanto de manhã, ao acordar, senti a calmaria e resolvi dar uma volta pela Costa Norte para ver o mar e, eis senão quando, aquilo estava um lago, ou quase!
Procurei a Sardinha que tinha guardada, verifiquei a vivacidade dos Caranguejos que tinha a bordo, preparei os caniços e desandei para o mar na companhia das iscas e do barco!

Naveguei para Norte do Cabo de Sines procurando a zona de pesqueiros onde tínhamos apanhado os peixes na segunda feira, pensando que talvez fossem os grandes a marcar encontro à mesma hora e no mesmo local.
A sonda não me dava grande marcação, assim como na jornada anterior, o que não invalidaria uma boa pesca, isto porque um bom pesqueiro é sempre um bom pesqueiro e com mais ou menos tempo de preparação pode vir a dar frutos, mesmo quando a marcação fornecida pela sonda mostra pouca actividade. Esta, pode variar ao longo do dia nomeadamente se existir aguagem, uma constante neste pesqueiro e neste período em que lá se pescou.
Mas porque é que este é um bom pesqueiro? Eu conto!
Imaginem uma área que sobe numa extensão significativa para 58 a 63 metros navegando no rumo E/NE, partindo irregular e abruptamente dos 72 a 74 mts. Melhor ainda, a dita subida, face à aguagem que corria para Sul, estava perfeitamente orientada, neste dia, de modo a oferecer abrigo e alimentação fácil a predadores que a procurassem, descansando da luta contra a aguagem e até procurando comida na forma dos mais pequenos por lá também abrigados. Aliás, como já a tinham procurado de forma persistente e regular na jornada de pesca anterior.
A aguagem não era muito forte, pescando-se bem com chumbada de 180 g, a 72 metros de profundidade, com uma inclinação de linha entre os 60 e os 70º face ao nível da água. Uma delícia!

Os sinais começaram a acontecer, também similares aos da última jornada... o peixe comia a espaços,  consumindo continuamente alguma coisa, mas sempre deixando alguma isca (sardinha e caranguejo), indicadores de que talvez o peixe miúdo estaria muito agarrado à beirada por força da aguagem ou até comendo a medo pela proximidade de outros que lhe metiam o medo no corpo!? Não se sabe!
Aconteceu então o que me pareceu, como direi... pouco usual pelos mares de Sines.
Não tinham passado 20 minutos de estar a "trabalhar" o pesqueiro  quando, no meio daquela imensidão de mar, carregado de bons pesqueiros, já ali num raio de uma milha náutica, onde me encontrava completamente só, oiço o barulho de um barco que navega na minha direcção, se aproxima a uma distância de cumprimento, coisa que o patrão fez, e, após alguma sondagem próxima em torno do meu fundeio, larga ferro a uma distância legal, mas, quanto a mim, demasiado próxima e mesmo na linha de aguagem onde se encontravam as minhas baixadas e respectivas iscadas.
Conhecendo a zona relativamente bem, apercebi-me que aquele fundeio não ia durar muito tempo, atendendo a que me pareceu que o ferro do outro barco tinha sido largado na base da queda onde o fundo é macio e a força da aguagem faria o barco ir à garra... não me enganei!
Não eram passados uns quinze minutos e já o dito barco derivava, obrigando a nova manobra. Quanto a esta nova manobra sobre a qual não me quero alongar em conceitos mas que me pareceu "sui generis", ela acabou por poitar o tal barco a N/NE do meu e a uma distância que achei pouco aceitável, atendendo à deriva existente. Isto porque as hipóteses de o barco descair para demasiado próximo do meu fundeio e até os pescadores a bordo ficarem a pescar sobre o cabo do meu ferro, aumentaram significativamente.
Resultado... levantei ferro e procurei zona menos atribulada.
Antes de contar o que se passou no novo pesqueiro que escolhi, importa no entanto reflectir sobre o acontecido. Ora, em termos de conceitos, vejamos:
Não tenho qualquer bocado de mar que me pertença, nem quero ter!
Embora nunca o tenha feito, compreendo que, caso se tenham algumas dificuldades em perceber onde pescar, se recorra a zonas onde se encontram outros barcos. Não critico isso!
No entanto, acho que quem assim decida encontrar os seus pesqueiros, deve ter em conta o seguinte:
- Quem já lá está, nestas situações, acaba por se desconcentrar da acção de pesca pois sente necessidade de observar o que se vai passar.
- Quem já lá está, nestas situações, fica sem perceber se os sinais e os resultados não estão a acontecer devido à proximidade e até às movimentações e reboliços inerentes e, ainda, se valerá a pena continuar a apostar naquele local.
- Todo o "trabalho" já executado no pesqueiro pode assim perder-se de um momento para o outro.
- Acredito que ninguém o faça com má intenção, mas também acredito que, não tendo estas noções, os que o fazem certamente não gostariam que lhes acontecesse o mesmo.

Concluindo... prefiro de longe que se aproximem e falem comigo. Não tenho qualquer problema em dizer o que se está a passar e até indicar as melhores zonas e locais, perto de mim, onde fundear com distâncias e alinhamentos adequados para ambos e tentar uns peixes, podendo até trocar números de telemóvel e irmos acompanhando as pescas um do outro, só nos pode beneficiar.
Tenho ainda à disposição o Workshop de Pesca Embarcada com o título: "Procurar Pesqueiros, Sondar e Fundear... Pescar"!
Esta acção já realizada em Dezembro de 2011, parece-me continuar a ter fundamento e está à disposição, para quem ache necessitar dela, no dia 18 de Novembro próximo, nas condições descritas no documento a que podem aceder clicando na imagem que se encontra no canto superior direito da página inicial do blogue, logo acima da foto de um fulano de bigode. A imagem é esta:



Em caso de necessitarem de mais informações sobre o Workshop, podem contactar-me directamente através do telefone 96 357 91 32 e/ou pelo seguinte endereço de mail
Ainda sobre o workshop, mais informo que: neste momento estão inscritas 14 pessoas, o prazo de inscrição foi prolongado até ao dia 9 de Novembro e a acção realizar-se-à mesmo que não se atinjam as 20 inscrições, conforme referido no documento explicativo, no sentido de não defraudar os interessados já inscritos.

Caso os pescadores que estavam no outro barco leiam estas palavras, não quero que fiquem a pensar que  fiquei ou estou chateado com eles, longe disso. Pretendi unicamente deixar algumas notas sobre o assunto que achei pertinentes!? Talvez não sejam, mas é o que sinto e por tal o escrevo.

Mas vamos ao resto da história!

Após levantado o ferro, munido dos conhecimentos que pretendo passar e sobre eles reflectir com quem queira participar no tal Workshop; comecei a relembrar as características de toda aquela zona de pesqueiros que pessoalmente caracterizo como o "Poço das Douradas de Norte", sem desprimor para outras nomeações locais que respeito.
O nome escolhido tem as suas razões de ser... ora tirem-se notas:

Numa área relativamente oval, com mais ou menos uma milha no sentido E - W e uns três quartos de milha no sentido SE - N/NE, apresentam-se concentrações importantes de pontões, entralhados e limpos, num fundo que varia, ao centro, entre os 60 e os 70 metros, com alguns pontões também centrais que chegam aos 54 e 58 metros. Nos limites a E, NE, N, NW e W; das sondagens e pescarias feitas, encontram-se beiradas que chegam a atingir os 49 metros na sua parte mais alta, caindo mais ou menos abruptamente para os 60, 70 e mais metros, oferecendo abrigos e hipóteses de colocação do barco que permitirão direccionar a nossa pesca para todo o tipo de exemplares, sendo a zona conhecida como muito boa na época da concentração das Douradas que se avizinha. Não sei se já dá para entender porque lhe chamo como acima referi!?
A zona em questão é fértil em aguagens, sendo raro não se apresentarem ou acabarem por aparecer ao longo de qualquer jornada de pesca, acontecendo muitas vezes sermos obrigados a reposicionar o fundeio para nos mantermos no pesqueiro activo e até, coincidir a melhoria das capturas com o novo posicionamento originado pelo rodar do barco. Tudo pode acontecer por ali!
Posso até quase garantir-vos o seguinte: naquela zona e particularmente nesta altura do ano, o peixe pode estar em qualquer dos locais apontados!? Resta-nos sondar, interpretar, procurar o pesqueiro do dia, fundear e... pescar!
Com todo esta panóplia de conhecimentos sobre a zona, conseguidos com muita procura, algumas alegrias e também dissabores, decidi dirigir-me à beirada limite a N/NE que sei ter pontões a 56/58 metros que caem para os 60/65, em fundos de entralhados e limpos, considerando que a aguagem era propícia, pois, orientada que estava o fundo da beirada, colocaria talvez as minhas baixadas no "caminho certo"!?

A sonda mostrou-me os fundos, com sinais de pouca actividade muito agarrada a eles, indicadora talvez da aguagem que se mantinha. Procurei onde colocar o ferro de forma a que o barco ficasse onde calculei que, considerando a aguagem, permitiria aceder à posição onde cairiam as minhas baixadas, respectivas iscas e... vá de iniciar novo "trabalhar" de pesqueiro!

Os sinais começaram, tal e qual como no anterior fundeio, com roubos incompletos de iscas, tanto no caranguejo, quanto na sardinha, independentemente de os colocar alternadamente no anzol de baixo e no de cima. Optei por usar sardinha nos dois, durante algum tempo e, ao fim de uns 20 minutos sem qualquer captura, sinto dois toques secos com pequenos intervalos, ambos algo afundantes e... ferro alto!
A luta iniciou-se com alguma violência e peso, permitindo identificar que algo vermelho não dava tréguas no outro lado da linha.
Aqui está ele... o primeiro do dia!


As perspectivas pareciam boas. Coloquei uma cana equipada com montagem de chumbadinha a pescar "em automático" (onde é que já ouvi isto?) e continuei nesta feliz labuta, recompensada a intervalos pela cor vermelha, como se pode ver a 3/4 da pescaria, já acomodados na geleira do costume!


A pesca continuou no mesmo tom até ao seu final que se deu no limite máximo do peso legal com um maior exemplar que atingiu os 3,500 kg.


Depois veio a foto que abre esta entrada, aquela que parece não bater certa com o título, mas que parei para fazer logo após ter levantado o ferro para voltar ao porto neste dia bonito, em que só faltou um daqueles mesmo grandes para abrilhantar a arca. Não faz mal... há-de vir em outro dia!

As perspectivas para a quinta feira que já chegava pareciam boas, embora o vento se previsse mais forte e a vaga mais alta. Mesmo assim, tudo indicava que os meus amigos Tózé e João Maria seriam brindados com um outro bom dia de pesca, mas, o certo é que só no fim de cada jornada podemos ver o que acontece. O mar não nos deixa muitas vezes acertar com contas previamente feitas!

Nesta quinta feita, pode até dizer-se que, face aos acontecimentos... tudo correu bem!

A zona escolhida foi a mesma, mas, as condições de mar e vento muito diferentes, para pior!

Mais vento, vaga bem mais alta e aguagem bem mais forte, tudo indica, não nos conseguiram dar qualquer alegria, embora os sinais, muito idênticos aos dos dias anteriores, se mantivessem. Certo é que, por volta das 14.00 horas, resolvemos levantar ferro e demandar outra zona de pesqueiros, na tentativa de salvar a pescaria, mas um dissabor estava para se revelar... na viagem de transição entre pesqueiros, de repente, o Makaira, começou a perder velocidade até que o motor foi parando com todos os indícios de não lhe chegar combustível e assim se apagou sem qualquer retorno à vida, mal grado o esforço do motor de arranque e das persistentes baterias que desisti de forçar, sob pena de também ficar sem elas.
Abreviando... verificou-se já na amarração que as natas que se formam, constituídas por humidades e impurezas no gasóleo do tanque, tinham entupido o circuito até ao pré filtro e ainda não se sabe se chegaram mais longe. Nada que, esperemos bem, não se resolva com a limpeza do depósito, do circuito e troca de filtros. Já está a ser tratado, vamos ver!?

Aqui fica o agradecimento ao meu amigo Fernando Fontes que estando por perto, de imediato se prontificou a dar-me um reboque, como se vê na foto abaixo!

Obrigado Fernando!


Um agradecimento sentido, também ao pessoal do Porto de Recreio de Sines que, como habitual, de imediato se colocaram à disposição para receber e colocar a embarcação no seu lugar, onde aguarda os cuidados necessários.
Resumindo... tudo correu bem, nunca se sentiu qualquer situação de perigo, nem teve de se recorrer a apoios de monta e, tudo indica, teremos resolução para breve.

É assim a pesca... uns dias melhores, outros menos bons e sempre uma incógnita para a qual devemos estar preparados.

O acontecido sugere para breve uma entrada sobre segurança no mar, aplicada a nós pescadores de embarcada, no sentido de aproveitar acontecimentos e erros de uns, para que todos possamos sair beneficiados nas nossas aprendizagens.

Resta-me, para já, ir degustando alguns daqueles peixes capturados e despedir-me de vós com um "até breve"!

A todos os leitores, desejo uma boa noite e que tudo corra pelo melhor em pescas vindouras!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Histórias de Cabo Verde


O Pontão de Santa Maria do Sal, onde tudo acontecia e penso... deve continuar a acontecer!?
Não havia vivalma, habitante ou visitante desta zona da Ilha do Sal que não arriscasse uma visita a este local, mal-grado as hipóteses significativas de cair num dos muitos buracos que existiam nas madeiras que o formavam, desgastadas pelo mar, o vento, os pesos de pescadores, turistas, compradores de peixe, miúdos que fazem dali o seu parque infantil mergulhando ou pescando nas águas cristalinas e ajudando todos os que chegam na amanha do pescado... Atuns, Dourados, Serras (Woahoos ou Cavalas da Índia), Veleiros..., sei lá!? Tanta coisa deste tipo que por lá vi, quer nos dias em que fui pescar, quer naqueles em que o meu peso contribuiu unicamente para o desgaste das madeiras. Uma delícia!
Não sei ao certo se ainda é assim, mas se não for... é uma pena!

Pois é... já devem ter percebido que estou de sequeiro e vem aí história!? É verdade!

Esta é uma das que há muito quero contar, pelas experiências de pesca e pelo estado que mais gosto de atingir quando vou para, ou a qualquer local... fazer parte!

Por duas vezes lá estive; na primeira, com a família e amigos, apaixonei-me, usufrui e comecei a fazer parte; na segunda, fui só... posso no entanto afirmar perante vós que não me sentiria mais à vontade se estivesse na minha casa.

E, boa gente, posso ainda dizer-vos que deixei por lá uma boa parte de mim, assim como, trago sempre em algum cantinho a saudade daquela terra e daquelas gentes. Mas deixemo-nos de lamechices e vamos à história!

Corria o ano da graça de 1995, quando nos juntámos eu e os meus amigos, Eduardo e Adalberto, com as respectivas famílias e voámos para aquela terra que se verificou ter tanto de inóspito na sua paisagem, quando de viçoso nas suas gentes.
Não fomos para hotéis conhecidos ou da moda mas, através dum conhecimento dos meus sogros que são de Angola, para uma pensão, a Mar et L'Eau, mais conhecida pela nome da sua proprietária a D. Xia, mulher de luta, conhecedora da sua terra e habitantes e que nos recebeu de braços abertos, assim como os seus colaboradores, o António e o Kalu, não tardando a sermos uma família, participando em todos os acontecimentos que se foram desenrolando ao longo dos 15 dias que por lá estivemos.
Lembro-me como se fora hoje da nossa chegada, às 05.00 da manhã, com uma temperatura para calção e manga curta e com a Dona Xia ainda a pé, à nossa espera, oferecendo-nos de pronto um café do Fogo, questionando-nos sobre o que esperávamos das férias e dando-nos indicações sobre as instalações e hábitos da pensão que era também a sua casa.
Não me contive e, ainda de noite, fui tomar um banho na praia em frente, numa água cuja temperatura deveria rondar os 23/24º C.
Lembro-me também da nossa partida, em que lágrimas sentidas correram de todos os olhos, como não acreditando os respectivos cérebros que fosse possível tal separação. Como se criam tais laços em tão pouco tempo? Só mesmo entre gente que se sente a fazer parte.

Enfim... lembro-me de tudo... os jantares; a música e a dança sempre presentes; a praia, os passeios a satisfação de todos os que mergulharam e, deixei-a para o fim por razões óbvias..., a pesca!!!

Não gosto de me sentir turista e não era de forma alguma a minha vontade sair naqueles barcos de Big Game e tal... queria a coisa real, queria estar com aqueles que lá vão todos os dias, pescando artesanalmente para comer, e, com eles partilhar o mar e a pesca. Como o meu amigo Bruno no seu barco "PANDURU", assim baptizado em honra do jogador do mesmo nome que na altura defendia as cores do Sport Lisboa e Benfica, clube do qual era sócio e adepto incondicional.

Apresento-vos o meu amigo Bruno e o seu "PANDURU"...



... um barco de 5,50 m, em madeira, onde nada de essencial faltava para a pesca de qualquer dos peixes - Atuns, Esmoregais, Dourados, Serras, Veleiros..., - nem o saber deste homem que do mar vivia e penso ainda viverá!?

Ali está... encostado ao Pontão da Ilha do Sal, após descarregar as capturas do dia que, fazendo as delícias de quem por lá andava, de imediato desapareciam numa forma de negociação também supostamente artesanal, discreta e que nunca percebi, nem com tal me preocupei.

Foram dias inesquecíveis, durante os quais aprendi como fazer, respeitando e aprendendo a pesca do Bruno, assim como aprofundando laços de amizade, com ele e amigos, cujos desenvolvimentos se verificaram na minha segunda visita a esta terra.

Durante esta primeira vez, o melhor exemplar que me calhou foi este Dourado que, cozinhado pelo Kalu na pensão da D. Xia, alimentou todo o pessoal da casa.


 


O horário a percorrer nos dias em que havia pesca era, no meu sentir, algo de fabuloso e perfeitamente enquadrado no quotidiano familiar e do grupo, sem afectar ou limitar outras vontades! Ora vejam:

Por volta das oito da tarde jantava-se, sempre com música a acompanhar; seguia-se para a dança até perto das quatro da madrugada, por aqui e por ali. A esta hora a maioria dos corpos precisava descansar, rumando para a deita, enquanto eu e por vezes o Eduardo, vestíamos a roupa da pesca e calcorreávamos o caminho para o Pontão da Ilha do Sal, onde nos encontrávamos com o Bruno e seguíamos para o mar, raramente calmo, buscando os peixes e voltando pelas onze da manhã, hora limite para que o valor do peixe não baixasse devido à exposição ao calor. Nesta altura, ajudávamos o Bruno a descarregar as capturas, íamos beber umas cervejas os três e encontrar a família na praia, onde pairávamos por um bom bocado até às duas da tarde, hora de comer alguma coisa e fazer uma sesta, fugindo do calor e recuperando forças para iniciar o horário das 24 horas seguintes. Digam lá se não era um bom horário!?

Os dias passaram nesta calma irresponsável até à hora de dizer adeus à Ilha, ao pessoal da D. Xia, ao Bruno e à pesca, ficando a intenção de voltar, bem fixa nas nossas mentes. Era só esperar o dia!?

Mantivemos o contacto, alguns amigos meus de Setúbal chegaram a lá ir, por minha indicação, pescar com o Bruno e trazendo-me notícias, mas o certo é que não via forma de lá voltar; umas vezes, pelo tempo ($) que me faltava, outras, pelo trabalho que me sobrava. Até que, no Natal de 1997, tive uma das melhores prendas de que me lembro... a minha mulher e a filha, ofereceram-me um bilhete de bom preço para lá ir no Carnaval seguinte (1998). Nem queria acreditar!?

Após colocação dos pés em terra por tal surpresa, era hora de me organizar, contactar o Bruno e lembrar a pesca que ia fazer, agora com conhecimento de causa. Lembrei-me dos materiais necessários, caros por lá e por vezes difíceis de encontrar, ao contrário de cá, onde eram muito mais baratos e fáceis de adquirir. Era hora de contribuir com algo mais que amizade, embora tal não me fosse solicitado. O certo é que, quem não seja parvo de todo e observe, sabe o que poderá fazer falta.

Após informar o Bruno da decisão e de me aperceber da sua alegria e entusiasmo por tal facto, a memória começou a devolver-me imagens... do barco, dos materiais e de toda a acção de pesca, como se a tivesse vivido no dia anterior mas, para já, era preciso lembrar e adquirir os materiais.

As linhas, para pescar à mão, eram de meada. Começavam em diâmetro 120 e acabavam numa ponteira de 90 onde directamente se empatava um único anzol, daqueles nacionais, tamanho 20 e maior.
As meadas eram colocadas em enroladores, parecidos com este...

... de madeira pesada, cujo cabo teria uns 15/20 cm de comprimento e a zona de enrolamento de linha andaria pelos 40, com 25 de largura. Tudo com uma espessura de 2/3 cm... uns monstros!

A linha de 120 funcionava como madre, onde era feita uma alça que se apoiava no cabo do enrolador e sobre a qual se enrolavam uma ou duas meadas de 100 metros, sem apertar, aplicando-se no final, através de Nó de Barril, uns 20 metros de 0,90. Não se amarrava ao corpo do enrolador, porque nunca se sabia se o peixe que lá cairia não levaria a linha toda o que, prevendo-se pelo arranque inicial, permitiria ligar a tal alça a um cabo suplementar entrançado à mão e mais grosso que sempre jazia pronto num açafate próprio. Neste caso o enrolador ficaria liberto e a linha continuaria a sair até que o peixe em causa permitisse o início da contenda. Justificado está o tamanho e peso dos enroladores, assim como o pormenor de não apertar muito a linha, no sentido de facilitar a sua saída quando o peixe se ferrava e dava o primeiro arranque. Mas lá chegaremos.
Continuando no material, não poderia esquecer-me da preparação da pesca que começava na captura da isca - Carapaus e Cavalas - os primeiros, servindo de engodo e isca morta e as segundas, normalmente iscadas vivas.
Para a captura destas iscas, acção que se desenvolvia a caminho do pesqueiro, o Bruno usava anzóis nacionais, 10/12, em cuja haste aplicava fios de lã brancos para o Carapau e vermelhos para a Cavala, referindo no entanto que nós tínhamos cá no burgo aquelas pesquinhas já feitas que funcionavam melhor que as dele, o que se tinha revelado tendencialmente verdade.
Claro que, para além de várias meadas dos tamanhos referidos, equipei-me também destas tais pesquinhas e de todo o tipo de anzóis mencionados, em quantidades que ultrapassaram fortemente as necessidades de uma semana de pesca.
A cana e o carreto que também por indicação do Bruno deveria levar, pois na ida e na volta para o local mais quente de pesca, sempre se corricava e eram mais confortáveis que a linha de mão. Estes já estavam preparados, assim como algumas amostras para o efeito, nada de muito complicado, pois a acção de pesca decorreria essencialmente no sistema de barco fundeado, baixadas perto da superfície com isca e engodagem contínua.
Sentia-me preparado, o dia nunca mais chegava, mas gozava esta espera, passando mentalmente em revista as pessoas, as comidas, a música, as noites quentes, o mar, os materiais, a acção de pesca, os peixes, a roupa de pesca e a outra leve e fresca para levar..., enfim, aquilo que sabia ir encontrar e a simplicidade das necessidades, tudo ainda tão vivo na minha memória.
Nesta altura, só um pormenor estava ainda por resolver... não tinha alojamento! A pensão da D. Xia, por férias ou ausência da própria, estava encerrada e o Bruno é que andava à procura, confessando-me que não estava fácil, pois andavam por lá muitos surfistas e estavam a ocupar tudo, ao que lhe respondi: "durmo na praia, não tem problema"! Riu-se muito, retorquindo que alguma coisa se havia de arranjar e o certo é que, a dois dias da partida, já tinha um quarto só para mim, com chuveiro e casa de banho, quase no centro de Santa Maria. Melhor assim... tudo estava a postos!

Sábado antes do Carnaval de 98, pelas 20.00 horas, um fulano de bigode com uma mala e um tubo comprido, é largado nas partidas do aeroporto de Lisboa que percorre até ao Check-in, efectuando-o e aguardando a hora de entrar no avião para a Ilha do Sal, com a cabeça cheia de peixes, mar, música e evasão, observando outros passageiros para outros destinos ou quem sabe para o mesmo e pensando para com os seus botões: "será que estão tão felizes quanto eu". Não sei descrever melhor!?

A viagem de mais ou menos quatro horas, terminou às quatro e tal da manhã de Cabo Verde, no aeroporto de Espargos, a capital, onde assim que saí a porta do avião senti o ar quente e o sempre surpreendente cheiro a ilha, onde se entrecruzam os odores da terra seca com a humidade do mar, contrastando significativamente com o frio que se fazia sentir à partida de Lisboa. Tudo como era esperado, até o Bruno que me apareceu com o cumprimento habitual... "tud'ereto", assim cheguei ao edifício principal, já com o táxi que nos levaria a Santa Maria, local onde se escreveria a restante história.

Esta última etapa decorreu cheia de conversa, sobre como está este e aquele, a família, a pesca, o barco... mais história daqui... dali... lembrança dacolá. E... oh Amarelo, nome como me costumava tratar derivado do cabelo arruçado em época de Verão, "tás cansado ou ainda vamos beber umas Klebs"(marca de cerveja de Cabo Verde)?
Claro que vamos, qual cansado, qual carapuça!?

Já se sabia que o Domingo não teria pesca... a hora de chegada já não o permitia atendendo ao horário normalmente praticado pelos profissionais, mas coisa que eu não tinha era sono, a companhia era boa, só havia que curtir, logo faria uma sesta. Importante mesmo é que já lá estava, tinha conversa e garganta seca.

O quarto era singelo, mais que suficiente e, melhor que tudo, para além de estar perto do centro, estava afastado de folias e mesmo ao lado duma das melhores tascas de petiscos do Sal: "Os Bons Amigos". Comida e petiscos feitos na hora, donde se destacavam: o porco frito, os pastelinhos de Atum, a cachupa e outras comidas caseiras que faziam as delícias essencialmente dos locais, pois turista não andava muito por ali. Perfeito!!!

Como dizia o Bruno: Tu não és turista... és Português!

Já só faltava a pesca... mas não perdia pela demora! Enquanto a aguardava, fui relembrando o barco do Bruno, típico e fabricado como tantos outros para pescadores profissionais, diferindo no nome e na cor.

Cinco metros e meio de comprimento, perto de dois metros de boca, construído em madeira e com paneiros do meio para a popa, já que quem pescasse à proa teria de colocar os pés em cima das travessas, sob pena de descolar alguma tábua e fazer entrar quantidades de água, cuja "bomba", um bartedouro construído a partir de um garrafão de água de cinco litros, dificilmente conseguiria escoar antes do iminente afundanço.
A propulsão era feita por um motor Yamaha Enduro de 15 CV, a dois tempos, usado até à exaustão e cujas velas, não raramente, tinham de ser trocadas de noite, em mar aberto, com o motor em cima dos joelhos, por outras também já usadas, quando o dito se negava a trabalhar. Valia o grupo, pois a maioria dos profissionais percorriam os mesmos rumos para locais de pesca cujas distâncias entre eles permitiam perceber quando alguém precisava de ajuda e aí, ninguém ficava no mar.

Importa ainda realçar outros pormenores:

Um depósito de isca viva era instalado de raiz, construído em cimento e forrado a madeira, aplicado no centro do barco, sendo que a circulação de água se fazia através dum furo no centro do casco, orientado para a proa que, quando em movimento, fazia a água entrar por baixo, acabando por sair por um furo lateral, mais alto, na amura, assegurando assim a saída de água quando esta atingia altura para tal, assim como evitando uma possível inundação a bordo.
A foto que se segue, embora de qualidade suspeita, permite talvez dar uma ideia da coisa, vejamos:


Chamo a atenção para o depósito de isca viva, aquele quadrado, ao centro!
Outros pormenores, não menos importantes, como o ferro de fundear, aquela pedra enorme que se encordoava, amarrava ao cabo e borda fora com ela. Problema era levantá-la, não tanto pelo peso, mas pela resistência que fazia à água.
Outros materiais, como o cacete para tirar teimas a peixes mais difíceis ou o cabo em madeira onde se aplicava uma pequena ponta afiada amarrada com cabo de aço e que servia para arpoar peixes à superfície, com engodo, o caso dos Serras.
Enfim... tudo muito simples e extremamente funcional ou não o seja quase tudo o que é simples!?

Com tudo isto passaram horas e o momento tão esperado chega quase sem se dar por ele... são 4.30 da madrugada de Segunda Feira, encontrei-me com o Bruno no caminho, transportando o carrinho de mão onde se deitam o motor, o depósito de combustível, o cabo e os remos do barco; tudo o que tendencialmente poderia desaparecer se lá ficasse de um dia para o outro. Chegamos ao início do pontão, coloco-me atrás dele que já tem mais que decorado, o caminho em torno dos tais buracos que mal se vêem na escuridão e faço também eu por perceber onde se encontram, o que virei a conseguir ao terceiro dia, depois de duas noites e dois dias dando os mesmo passos. Lá estão todos... alguns já conheço, outros nem tanto, surgem sorrisos aqui e ali, conversas em Crioulo que não percebo. Sei que comentam sobre o que faço por ali, mas ainda é cedo para fazer parte. Antes terei de merecer confiança pois para alguns não passo ainda dum turista. É dar tempo ao tempo, pescando, conversando em cima de jornada feita, comendo e bebendo, tagarelando histórias, umas de cá, outras de lá... até que me aceitem como pescador e possa vir a tirar a foto abaixo, na Quinta Feira, em que todos já olhavam para mim, ora como o Português,  ora como Ernesto.


Nesta altura, já falo com toda a gente e rimos disto e daquilo, como o caso daquele homem que se vê de costas com chapéu branco de pala vermelha, compadre do Bruno, a quem trato por "compad orelha", assim como ele a mim, atendendo a brincadeiras relacionadas com os nossos pavilhões auriculares de tamanhos superiores à média e que, não raramente, eram mote de brincadeira entre nós.
À concentração matinal, seguiam-se os preparativos para a saída que começavam por ir buscar os barcos poitados na baía, algo que ficava normalmente a cargo de alguns miúdos. Depois, era descer toda a palamenta: remos, caixas, depósito de combustível e... o motor. Esta a tarefa de maior responsabilidade e atribuída unicamente a alguém fiável, pois o dono do barco sentava-se na popa e aguentava o barco junto ao pontão, o motor era descido contando com a vaga, guiado pelo dono do barco até ao painel de popa e apertado rapidamente, não fosse o diabo tecê-las. E porque conto isto? É simples caros leitores... nesta Quinta Feira, para espanto meu, do irmão do Bruno, o Luís que connosco ia também pescar e de outros presentes; o Bruno, após estar no barco, grita-me: Ernesto... amarra o motor e desce-o que já estamos atrasados.
Não pensei muito, amarrei o dito cujo, larguei-o para o vazio sustendo-o e baixando-o em seguida, dando desconto à vaga e permitindo que o Bruno o encaixasse e apertasse com a normalidade esperada. Depois, caí em mim... esta tarefa nunca se pedia a qualquer um... já fazia parte!


Todos os dias desta semana que lá estive foram muito bons, mas esta Quinta Feira foi soberba... por tudo... mar bom; isca capturada com fartura; brincadeiras de barco para barco, já ao raiar do dia; exemplares capturados; e, até o Bruno zangado comigo por no final da jornada eu não querer aceitar dinheiro da venda do peixe. Só me faltava casa em Santa Maria do Sal, de resto... já tinha muito!

Mas vamos à acção de pesca que se repetia jornada a jornada.

Saía-se ainda de noite e, após chegar à "Marca dos Carapaus", considerando caladores dados pelas luzes de terra, parava-se o barco, lançavam-se pescas de mão com madre de 0,60 e baixada de 3 estralhos, para aí de 30/35 cm de comprimento, empatando anzóis nacionais decorados na haste com fios de lã branca e, finalmente, a chumbada, feita de troços de ferro de construção, variando peso conforme a deriva do barco. Acenava-se a partir do fundo, procurando os Carapaus (Olho Largo, como lhes chamavam) na coluna de água, atirando-se estes com fervor ao branco das linhas de lã e enchendo o açafate aos saltos...  a isca para engodar e iscar, essencialmente morta, já ali estava!


Era hora de andar mais uns dez minutos e repetir o mesmo para capturar a isca viva... Cavala!
A única diferença estava na decoração das hastes dos anzóis, que passava de branco a vermelho. Destapava-se então o tubo que permitia que a água entrasse para o depósito de isca viva, assegurando vida mais longa às cavalas e que de imediato se taparia logo que o barco parasse, por razões que parecem óbvias.

Isca pronta e rumo ao local de fundeio, a zona quente onde sempre se esperavam as capturas pretendidas... Atuns, Serras, Esmoregais (tipo de Xaréu) e quem sabe outros maiores!?

Durante esta última fase da viagem que, no total, não ia além das 2/3 milhas, era tempo de corricar, cabendo-me fazê-lo com a cana e o carreto próprios que tinha levado por indicação do Bruno - cana Penn Senator e carreto da mesma marca, ambos de 50 libras - umas vezes capturava-se, outras nem tanto, mas no computo dos seis dias, usando o corrico, ainda entraram dois bons Serras e dois Atuns pequenos.

O Sol já nos sorria quando chegávamos ao local de fundeio onde, com afastamentos significativos, se viam todos os outros barcos que tinham partido à mesma hora do Pontão da Ilha do Sal também fundeados.

Largava-se a pedra já preparada para servir de ferro e enquanto o barco se fazia ao fundeio, preparavam-se os enroladores, normalmente 4, cada um com um único anzol, sendo que 3 (um por pescador) eram iscados com isca morta, tiras de Carapau cortadas em diagonal e iscadas entre a pele e a carne, tapando o anzol e, um com isca viva, Cavala, iscada pelo lombo.
As pescas eram lançadas à mão pelos bordos do barco, ficando a diferentes distâncias e consequentemente profundidades por vezes aumentadas com pequenas tiras de chumbo apertadas à linha com as mãos ou os dentes. A pesca com a Cavala viva era atirada para mais longe, evitando assim que se embaraçasse com as outras devido aos movimentos da Cavala.

Após lançadas, as linhas eram entaladas em pequenas fissuras, feitas à faca, na madeira da parte interior da borda do barco, sendo que o peixe, ao engolir a isca e fugir, era ferrado pela oposição proporcionada pelo desentalar da linha, o que acontecia com algum estrondo da madeira, substituindo assim, em simultâneo: a ferragem e o barulho da carraca do carreto. Só mesmo vendo... um espectáculo!

Linhas em acção de pesca e eis que se iniciava a engodagem de superfície, normalmente a cargo do Bruno.
Os Carapaus iam sendo cortados em pequenos pedaços e lançados ao mar em várias direcções, com um pormenor interessante nos lançamentos iniciais de engodo que por vezes se repetia noutras engodagens ao longo da jornada, caso não se estivesse a capturar.


Cá vai o pormenor interessante: para perceber se os Atuns andavam a comer na superfície, o Bruno, após cortar um Carapau inteiro e ficar só com a cabeça, retirava de uma placa de esferovite, um pequeno pedaço que introduzia através do olho, atirando-a para longe, ficando esta a boiar. Em seguida, lançava uns quantos pedaços, anteriormente cortados, de forma que caíssem em torno da cabeça. Neste momento todos parávamos para observar, sendo que muitas vezes, numa estocada rápida, algo a comia, desaparecendo de imediato e merecendo do Bruno o seguinte comentário: "os gajos estão aí e vêm comer cá acima...", seguido normalmente da atenção redobrada de todos nós sobre o comportamento das linhas. Suspense...

E então, se tudo corresse bem, a coisa dava-se!

De repente ouvia-se um estalo precedido de um pequeno ranger de madeira e a linha saía de um dos enroladores assentes no banco do barco, fazendo espirais tanto maiores, quanto maior a velocidade a que o desalmado fugia, fruto de sentir o anzol ferrado.
Quem fosse mais rápido ou estivesse mais perto, atirava-se ao enrolador agarrando-o pelo cabo com uma mão e seguindo a linha com a outra, colocando-lhe alguma pressão e tentando perceber o momento de dar luta ao bicho... normalmente quando este diminuía a velocidade da fuga. Nesta altura, já de pé, trancava-se a linha entre os dedos polegares e indicadores, estes protegidos com dedeiras, feitas a partir de câmaras de ar de bicicleta e mantendo as mãos afastadas, uma junto à cintura e a outra no limite do braço, mais forte e hábil, quase esticado. A partir daqui era hora de suar!!!

Começava-se a recuperar linha tentando as braçadas, sem nunca a enrolar em torno da mão para evitar ficar com as marcas que se viam em algumas mãos daqueles profissionais, provocadas por algum arranque rápido nessa situação e fazendo com que a linha cortasse fundo na carne. Tinha mesmo de ser com a pressão dos polegares e indicadores, sempre com a linha a fugir de vez em quando, molhada e escorregadia, tudo isto intervalando com alguma que se ia largando quando a luta a isso obrigava. Linha para lá... linha para cá, o bicho começava a dar sinais de cansaço e a descrever círculos, cabendo-nos saber quando recuperar. Normalmente, quando ao descrever o circulo se queria afastar, tentava-se aguentá-lo sem deixar sair linha, assim como, quando estava a descrevê-lo aproximando-se, era hora de recuperar as braçadas possíveis e assim sucessivamente até que se ia vencendo e se conseguia colocá-lo junto ao barco, à distância do comprimento do bicheiro que rapidamente lhe entrava pelo lombo e o encostava à borda, onde uma pancada seca do cacete, no sítio certo, permitia então subi-lo a bordo.

Estamos a falar de bichos que atingiram 40 e mais quilos, nesta Quinta Feira que quase me apetece qualificar de Santa. Isto porque ainda não eram 10.00 horas e já tínhamos capturado quatro deste tamanho, sendo que o Luís, irmão do Bruno, saltou com eles para bordo de outro barco que também já tinha uma boa conta, para rumar rápido de volta, pois quem mais cedo chegasse mais conseguiria pelo peixe, atendendo ao calor e à falta de meios de conservação do pescado.

Ficámos eu e o Bruno para continuar a luta na perspectiva de engrandecer um pouco mais este dia espectacular e profícuo. o que conseguimos com mais três bichos do mesmo quilate, antes de voltarmos à terra.

Aqui têm o Bruno com dois deles:


E chega a minha vez com o que me calhou nesta fase da pescaria, já de volta ao Pontão onde tudo acontece.


Assim que chegámos. lá estavam os gaiatos que de imediato amanharam os peixes, desaparecendo estes misteriosamente, como habitual, sem que olhos menos preocupados ou atentos a isso, se apercebessem como tal acontecia. Retiraram-lhes entretanto os buchos, limparam-nos e cortaram-nos para serem o nosso almoço, cozinhados à moda local, com arroz e picante qb. Tudo isto despertando a atenção de uns italianos que tinham ido pescar neste barco para turistas...

 

..., traziam dois Serras bebés e olhavam-nos com um misto de preocupação e não sei que mais!?

Mas isso não importava nada! Importante sim, era ir tomar um banho e seguir para o almoço de bucho de Atum... eu, o Bruno, o Compad Orelha e o Luís. Aí tagarelamos, falámos do dia, comparámos com outros, contámos histórias e bebemos cerveja como se não houvesse amanhã. Pois amanhã seria outro dia e nada nos fazia ter controlo sobre tal. Hoje que já uns anos passaram, penso que talvez a vida devesse mesmo ser assim... será que sim? Será que não? Não sei ao certo!? Mas que parece apelativo... lá isso parece!

A Sexta e o Sábado passaram a correr, arrumar tudo e voltar para Portugal, foi coisa que aconteceu rápido, muito mais do que eu gostaria.
Despedi-me do pessoal, pensando que não passaria muito tempo sem que voltássemos a pescar juntos, mas, na verdade, nunca mais nos vimos, nem nunca mais consegui voltar a Cabo Verde.
Amigos meus foram lá, pescaram com o Bruno, ainda trocámos uns telefonemas e uns escritos, mais tarde disseram-me que teria saído da Ilha do Sal rumando à Boa Vista, mas o certo é que nunca mais nos juntámos e há muito não contactamos.

Guardo todas as imagens e deixo-vos a mais importante... aquela da amizade que em tempos nos uniu e penso continuará a unir mal-grado as voltas da vida. Umas boas, outras nem tanto... é assim!


Forte abraço Bruno e amigos de Santa Maria do Sal ... onde quer que estejam!

A todos os leitores... uma boa noite enquanto espero por pescarias actuais que desvendem outros amigos, outras técnicas, outros relatos, outras histórias...