Mostrar mensagens com a etiqueta Relatos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Relatos. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 19 de junho de 2012

Viver... pescar... descansar!


Vivo... enquanto pesco e descanso! Quando pesco... vivo e descanso! Descanso... enquanto pesco e vivo!

Eh lá! Exclamarão alguns de vós, enquanto ouvem estas afirmações!?

Não se preocupem... também vivo enquanto estou com a família e a trabalhar! Aliás... adoro a minha família e aquilo que faço!

Mas, na verdade, imagens como a de abertura, vistas e sentidas, completam-me... pela calma, pela não existência de horas, pelo sentimento de abandono ao que der e vier e até pela desnecessária responsabilidade perante seja quem for ou o que for, pelo menos durante aqueles períodos de tempo em que consigo manter este estado de espírito.

Verdade também que, por vezes, não basta ir para onde se gostaria de estar, tem de se levar também a cabeça connosco, o que nem sempre é possível, tendo em conta o que nos rodeia, projectos ou problemas que podem não nos deixar usufruir da vida... da pesca... do descanso!

Mas uma coisa vos digo... desta última vez, usufrui de tudo a que acho ter direito e... soube bem viver... pescar... descansar!

Os dias correram, com amigos e a solo, limitações de isca, saídas tardias, retornos também eles tardios e até o pouco peixe que entrou resolveu fazê-lo tarde, talvez porque era hora, talvez por despreocupação  na procura, talvez por falta de jeito ou, quem sabe, porque habitualmente, nesta altura do ano, isto até costuma acontecer!?

Verdade... verdade... é que este ano de 2012 tem sido o ano em que menos vezes tenho pescado e, tendencialmente, esta falta de regularidade na procura e controlo de pesqueiros acaba por se pagar em formato de seca. A sorte ou o azar, poderiam ter tido influência positiva ou negativa, mas são expressões que não gosto de trazer para aqui, prefiro trabalho e processos, os que, como sabem, por falta de assiduidade não têm acontecido.

Uma outra questão adicional parece-me estar presente... principalmente no que a pesca se refere, sinto necessidade de mudar, procurar novos pesqueiros, usar outras técnicas, tomar outras atitudes..., conjunto este de alterações no meu comportamento e sentir que, por falta de tempo, preparações prévias e até por dispendiosos, me fazem hesitar nas escolhas, alterando significativamente os processos em uso e consequentemente afectando os resultados.

Alguns de vós que me lêem, estarão talvez a pensar: estavas tão bem... para quê isto tudo?

Acho que é da nossa natureza querer modificar, experimentar, melhorar..., sendo que estes momentos de transição, criam obrigatoriamente indecisões, margem para erros e situações menos positivas que, espero, depois de analisadas conduzam a mais aprendizagem.
Algo no entanto tem de ser feito à cabeça! Há que assumir o momento, sob pena de não passar disso mesmo... mais um momento!

Ora este foi sem dúvida um bom Fim de Semana! Deu para tudo, como se leu e se vê... até para capturar alguns peixes como este Sargo Veado, par de um outro que não teve direito à ribalta.



Também uns Parguitos, deram um ar da sua graça, alguns tão pequenos que nem entraram no poço do barco e foram acabar de se criar, largados com muito jeitinho.

Já o que se segue, foi para a panela!

Primeiro e único numa jornada a solo, decidida à última da hora, entrando uns quinze minutos depois de iniciar a pesca e deixando água na boca quando comecei a pensar nos outros que o poderiam acompanhar, o que de facto não aconteceu.
Também o único que entrou no início da jornada, já que nas outras, só se conseguiram alguns exemplares depois de duas ou três mudanças de pesqueiro e após as três / quatro da tarde. Pfiiiuuuuu...

Hei-lo... bonito nos seus 3,800 kg!


O controlo sobre o tempo disponível está a aumentar, a vontade de melhorar a pesca está em alta... veremos que outros momentos e resultados se vão conseguir!?

Eu depois conto!

Até lá, uma boa tarde a todos os leitores!

sexta-feira, 23 de março de 2012

Pescas entre pescas...


A saída para o mar é sempre um momento diferente, indescritível... os cheiros, as cores da manhã, a contemplação de tudo, a conversa com a campanha, as estratégias já definidas, a fé de pescador... todo um conjunto de sensações e pensamentos que se entrecruzam, colocando um sorriso nos lábios do pensador, em simultâneo com o arredar de outras ideias, outros pensamentos que, fazendo parte do dia a dia, por desagradáveis, caem em alguma "caixinha", em algum canto recôndito, de onde tornarão a sair em qualquer outro momento, qual génio da lanterna de Aladino que em vez de dar... tira!
Vá de retro Satanás! Vamos sair para a pesca!

Só vejo o mar, só penso na rota, nos pesqueiros que vou testar, nos peixes que vou perseguir... tudo o resto vale pouco... ou nada!

Olho em volta, penso em quem comigo embarca, sinto as suas ideias, as suas vontades, os seus desejos de pesca... é hoje que vai entrar aquele ou, quem sabe, aqueles!? Vamos ver!?
E, se não entrar, paciência! Eles estão no mar e a nossa hora chegará mais cedo ou mais tarde!
Importa mesmo é estar ali onde a foto de entrada nos coloca ou... mais longe!

Sinceramente, agora que as pescas se têm revelado mornas, é no acto em si que se encontra muito do que é preciso para estar bem!

Os amigos corresponderam sem desanimar perante pesqueiros de nada, outros de pouco e alguns que ao fim de algum tempo, preparação e sinais diversos; acabaram por animar, acrescentando o sal do dia... aqueles peixinhos que sempre se procuram e que se vão encontrando, como esta Dourada do João Maria...


... o Sargo Veado que gostou da meia sardinha...


... a dourada do Fernando Fontes que à mistura com uma Choupa e um Parguito de dose, acabaram por abrilhantar um jantar técnico; internacional, por ter a presença do Han, um holandês que por força da boa comida portuguesa e do acolhimento alentejano, faz do Zé Beicinho a sua casa quando não está a trabalhar.


Depois, sempre aparecem outros visitantes de monta, como este Robalo tirado pelo Zé, em desespero de causa e em outra jornada pouco activa, com correria sobre pesqueiros, sinais e toques austeros.


No entanto, algo não deve deixar-se de lado!?

Os melhores exemplares tirados, quer nestes dias do passado fim de semana, quer em outras jornadas, salvo algumas excepções, tiveram por base toques mais activos que aqueles que temos sentido nos pesqueiros percorridos nestes últimos dois meses e tal. Quer com isto dizer-se o seguinte: quando os toques de um pesqueiro se tornam mais agressivos, sentindo-se melhor, sem dúvida que a pescaria acaba por dar outros frutos. Tal, verifica-se uma vez mais se analisarmos, entre outras, aquela pesca recente em que o João Martins capturou os dois Badejos e o Pargo, assim como esta última, na qual, depois de duas tentativas infrutíferas em pesqueiros diversos, uma escolha tardia de pesqueiro completamente fora de época, nos trouxe algumas alegrias que podiam ter sido até muito superiores caso tivéssemos optado mais cedo por esta solução.
Aconteceu no passado Sábado com o Raimundo, o Victor e o Pedro; quando depois de quase quatro horas gastas em dois pesqueiros profundos, se optou por um outro, mais perto de terra e característico quanto a capturas de peixe maior, tendencialmente em época mais quente.
Certo é que, assim que poitada a embarcação, logo os toques se revelaram agressivos e consequentemente indicadores de outra pesca.
Não se perdeu pela demora!
Primeiro os Sargos, depois a Dourada de perto de dois quilos que saiu ao Victor, mais tarde este Polvo que, entrando pela mão do Raimundo, mereceu o estrelato...


... e, como cereja no topo do bolo, este Pargo Dourado, de 6,700 kg que deu um trabalho danado ao Raimundo (acho que fez umas rezas enquanto o tirava, não fora o diabo tecê-las...). Bonito, não é?


Pena o vento ter entrado, a vaga aumentado e o dia estar no fim. Quem sabe o que adiante surgiria!?

Uma coisa é certa... temos de ir, estar, curtir, pescar...; eles andam lá e cabe-nos encontrá-los, desafiá-los e subi-los a bordo, se formos capazes!?

Os tempos são para mim de trabalhos, sonhar mais a pesca que de facto ir lá, ao meio do mar, procurar os "malandros". Verdade também que estas foram pescas entre pescas, pois feira de pesca também faz falta e eu, falo... falo..., mas até gosto!

A próxima entrada está para breve e será uma descrição completa da 2ª. Feira de Pesca Lúdica e Desportiva de Setúbal, pormenorizando tudo o que por lá se vai passar e esperando encontrar-me, entre outros, com muitos daqueles que me lêem e não conheço.

Não devia ter dito isto!? Quem sabe, até lá, ainda consigo ir pescar!? Na volta não me contenho e sai pescaria!? Vamos ver!?

Boa noite a todos os leitores!

sábado, 3 de março de 2012

O pombo, os peixes e... coisas de certos pesqueiros!?


O pombo chegou... com um som de bater de asas pouco habitual e poisou na porta de acesso à popa do Makaira. Acontecimento inédito para o barco e não para mim, pois já há uns anos largos, em outro barco - o Anequim - dois companheiros deste fizeram o mesmo, em dia de nevoeiro, talvez cansados ou desorientados após longa jornada.
De imediato procurei forma de lhe colocar água e umas bolachas secas partidas, pensando que talvez precisasse, enquanto me olhava numa suposta indiferença, parecendo-me ficar muito mais preocupado quando as gaivotas que comiam as bogas que iam subindo, faziam a sua aproximação, provocando-lhe alguma inquietação derivada talvez de outros encontros pouco agradáveis.

O animal ficou por ali, aparentemente calmo, sem qualquer receio da nossa presença mesmo quando nos aproximávamos e lhe oferecíamos de comer que não aceitou e de beber que acabou por aceitar ao fim de uma boa hora de estada naquele poleiro que elegeu.

Enquanto por lá esteve, a pesca foi-se desenrolando, funda, morna e improdutiva; fazendo-me pensar sobre estes últimos três dias de pesca, trocando impressões com o João Martins, meu companheiro de todos estes dias.
Tínhamos ido no Sábado, já tarde; no Domingo, o dia inteiro, com o Zeca e o Zé Beicinho; e, nesta segunda feira, cá estávamos outra vez, talvez já cansados e até meio moles, tanto pela calmaria do dia, quanto pelos resultados que não se comparavam aos do dia anterior e nem sequer aos de Sábado que já tinham sido parcos.

Tudo isto me passava pela cabeça, enquanto me preocupava com o pombo que me parecia muito "caído" e ainda me morria de cansaço ali pelo barco, como já me tinha acontecido uma vez... história por aqui já contada.

Também as procuras e resultados destes dias, eram pensados e comentados entre nós, enquanto as iscadas desciam e os anzóis limpos subiam, umas vezes com bogas e outras sem nada. Tudo diferente do dia anterior que foi relativamente produtivo.

Enquanto o pombo descansa, vou então relatar-vos os fundamentos, as procuras e os resultados destes dias 25, 26 e 27 de Fevereiro.

Este início de ano, como tenho vindo a relatar-vos, tem sido difícil no que a capturas se refere, fazendo-me recorrer a dados de anos anteriores e lembrando-me que, à excepção do mesmo período de 2011, esta é uma época de alterações da localização dos grandes exemplares.
Certo é que, muito mar tem sido corrido e os resultados têm-se mantido baixos, tanto em qualidade, quanto em quantidade.

Os pesqueiros mais profundos têm sido, sem dúvida, aqueles que nesta altura do ano se costumam apresentar mais produtivos, sendo também mais difíceis no que respeita a fundeios e até a manutenção da pesca ao longo do dia, devido à normal existência de aguagens e à sujeição a mudanças de direcções e intensidades do vento que podem facilmente estragar a pescaria. Depois, bem... depois tem uns artistas que não gostam muito de se levantar cedo o que aliado a dias mais pequenos tende a diminuir significativamente o tempo útil de pesca. Desculpas!? Não!!! Simples constatação de factos!

Mas o pessoal é jovem e por vezes não quer pensar nestes pormenores de somenos.

O Sábado (25), já com Sol muito alto, levou-nos a pesqueiros de Verão dos mais profundos onde, ao fim de umas duas horas, só uma Dourada de quilo e pouco entrou, em pesca suportada por sinais mornos que acabaram por nos indicar mudança de pesqueiro por volta das duas da tarde, hora em que, não justificando já andar mais para fora, poitámos ali na baía, em pesqueiros bem conhecidos, onde entraram 4 Sargos daqueles quileiros e um Pargo que, de "tão grande", voltou à água!

O jantar estava assegurado e mais uma zona, testada por teimosia, tinha sido eliminada do circuito sazonal. Havia que ir mais fundo no dia seguinte, com o Zeca e o Zé Beicinho!

O Domingo nasceu calmo, com algum nevoeiro e a saída para o mar às 8,30, levando-nos a procurar as coisas de uns certos pesqueiros, difíceis e profundos e com plano estratégico delineado à mesa do restaurante do Zé Beicinho.

A sonda mostrou-nos o primeiro que se apresentou na plenitude dos seus 96 metros, onde os entralhados espalhados em torno dum pontão que subia aos 87, mostravam alguma actividade, passível de nos oferecer o que procurávamos.
Iscas para o fundo, roubos mais ou menos rápidos e Pataroxas que subiam intervaladas, fazendo o Zé pensar de imediato no molho que havia de fazer com elas. Mas, ao fim de duas horas, nada mais entrava para além de bogas, com os sinais mortiços que estas dão àquela profundidade. Era hora de prosseguir com o plano e seguir para o pesqueiro seguinte, o qual, sinceramente, é muito mais do meu gosto, no entanto, de fundeio difícil. Alegrava-me saber que tanto a aragem de Norte, como a aguagem alinhada com ela, me diziam que iria conseguir colocar o barco mesmo onde queria. Aliás, o único local deste pesqueiro onde até agora, para além de outras espécies, me entraram Pargos dignos do nome.

Chegámos e as imagens de sonda correspondiam às melhores que tinha visto naquela parede de pedra que cai dos 50 para os 82 metros, do lado Norte, o que me permitia largar ferro num socalco a 86 metros; largar cabo, ficando pelos 84; e, deixar que a aguagem nos colocasse as baixadas nos 80 / 82. Perfeito!

As iscadas chegaram ao fundo e os toques violentos indicaram-nos de imediato que a coisa ia ser dura e certamente mais produtiva; e, meus amigos, foi o dia do João Martins! Não fora uma Abrótea apanhada pelo Zeca, uma outra e um Alfaquim, ambos à volta dos dois quilos capturados por mim, acompanhados por dois safios jeitosos e o João ficava com todos os louros da pescaria.

O homem, na sua calma peculiar, para além de umas 3 Abróteas grandes que lhe saíram intervaladas, acabou por capturar os melhores exemplares que entraram a bordo.

Ora vejamos!

O primeiro Badejo, para aí com uns dois quilos:


O Zeca intervalou com esta Abrótea, como que para exemplificar o tamanho médio das que saíram.


Outra vez o João, com mais um Badejo que não parece, mas pesava 5,050 kgs.


Não satisfeito, eis que se sai com o único Pargo do dia... bonito!


O pesqueiro não enganou totalmente, excepto no que se refere aos Pargos que costumam entrar em maior número e com exemplares também maiores à mistura. Melhor que tudo, supostamente estava indicada uma zona de pesca para dias vindouros, enquanto não se aproxima o Estio e a costumada aproximação à terra "daqueles" que queremos.

O Pombo ainda está no "poleiro" e há tempo de vos falar das coisas de certos pesqueiros, aplicadas precisamente a este último onde decorreram, na segunda feira, os pensamentos que agora se transcrevem.
Neste dia, calmo, as condições não eram as mesmas... o vento teimou em soprar todo o Santo dia de Oeste / Sudoeste; jogando mal, para o fundeio, com a aguagem de Norte, igual à do dia anterior; não nos permitindo poitar no mesmo local e obrigando-nos a deslocar um pouco mais para fora. Certo é que, os sinais não foram os mesmos e as capturas... nem pensar. Aliás, muito idêntico a outras experiências no mesmo local, permitindo assumir o risco de afirmar que, se em certos pesqueiros, mais para a esquerda ou direita, a coisa acaba por se dar, neste, muitas vezes, tal não é verdade!

O Pombo bebeu água pela quarta vez, bateu asas para se testar e voou rumo a Sul, sem aviso. Momento em que resolvemos também andar para casa, não sem antes pensar que caso as condições não se apresentem de feição para ficar por ali, outros pesqueiros, talvez mais fora, terão de ser testados em próxima jornada.

Boa tarde a todos os leitores

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Histórias de Cabo Verde


O Pontão de Santa Maria do Sal, onde tudo acontecia e penso... deve continuar a acontecer!?
Não havia vivalma, habitante ou visitante desta zona da Ilha do Sal que não arriscasse uma visita a este local, mal-grado as hipóteses significativas de cair num dos muitos buracos que existiam nas madeiras que o formavam, desgastadas pelo mar, o vento, os pesos de pescadores, turistas, compradores de peixe, miúdos que fazem dali o seu parque infantil mergulhando ou pescando nas águas cristalinas e ajudando todos os que chegam na amanha do pescado... Atuns, Dourados, Serras (Woahoos ou Cavalas da Índia), Veleiros..., sei lá!? Tanta coisa deste tipo que por lá vi, quer nos dias em que fui pescar, quer naqueles em que o meu peso contribuiu unicamente para o desgaste das madeiras. Uma delícia!
Não sei ao certo se ainda é assim, mas se não for... é uma pena!

Pois é... já devem ter percebido que estou de sequeiro e vem aí história!? É verdade!

Esta é uma das que há muito quero contar, pelas experiências de pesca e pelo estado que mais gosto de atingir quando vou para, ou a qualquer local... fazer parte!

Por duas vezes lá estive; na primeira, com a família e amigos, apaixonei-me, usufrui e comecei a fazer parte; na segunda, fui só... posso no entanto afirmar perante vós que não me sentiria mais à vontade se estivesse na minha casa.

E, boa gente, posso ainda dizer-vos que deixei por lá uma boa parte de mim, assim como, trago sempre em algum cantinho a saudade daquela terra e daquelas gentes. Mas deixemo-nos de lamechices e vamos à história!

Corria o ano da graça de 1995, quando nos juntámos eu e os meus amigos, Eduardo e Adalberto, com as respectivas famílias e voámos para aquela terra que se verificou ter tanto de inóspito na sua paisagem, quando de viçoso nas suas gentes.
Não fomos para hotéis conhecidos ou da moda mas, através dum conhecimento dos meus sogros que são de Angola, para uma pensão, a Mar et L'Eau, mais conhecida pela nome da sua proprietária a D. Xia, mulher de luta, conhecedora da sua terra e habitantes e que nos recebeu de braços abertos, assim como os seus colaboradores, o António e o Kalu, não tardando a sermos uma família, participando em todos os acontecimentos que se foram desenrolando ao longo dos 15 dias que por lá estivemos.
Lembro-me como se fora hoje da nossa chegada, às 05.00 da manhã, com uma temperatura para calção e manga curta e com a Dona Xia ainda a pé, à nossa espera, oferecendo-nos de pronto um café do Fogo, questionando-nos sobre o que esperávamos das férias e dando-nos indicações sobre as instalações e hábitos da pensão que era também a sua casa.
Não me contive e, ainda de noite, fui tomar um banho na praia em frente, numa água cuja temperatura deveria rondar os 23/24º C.
Lembro-me também da nossa partida, em que lágrimas sentidas correram de todos os olhos, como não acreditando os respectivos cérebros que fosse possível tal separação. Como se criam tais laços em tão pouco tempo? Só mesmo entre gente que se sente a fazer parte.

Enfim... lembro-me de tudo... os jantares; a música e a dança sempre presentes; a praia, os passeios a satisfação de todos os que mergulharam e, deixei-a para o fim por razões óbvias..., a pesca!!!

Não gosto de me sentir turista e não era de forma alguma a minha vontade sair naqueles barcos de Big Game e tal... queria a coisa real, queria estar com aqueles que lá vão todos os dias, pescando artesanalmente para comer, e, com eles partilhar o mar e a pesca. Como o meu amigo Bruno no seu barco "PANDURU", assim baptizado em honra do jogador do mesmo nome que na altura defendia as cores do Sport Lisboa e Benfica, clube do qual era sócio e adepto incondicional.

Apresento-vos o meu amigo Bruno e o seu "PANDURU"...



... um barco de 5,50 m, em madeira, onde nada de essencial faltava para a pesca de qualquer dos peixes - Atuns, Esmoregais, Dourados, Serras, Veleiros..., - nem o saber deste homem que do mar vivia e penso ainda viverá!?

Ali está... encostado ao Pontão da Ilha do Sal, após descarregar as capturas do dia que, fazendo as delícias de quem por lá andava, de imediato desapareciam numa forma de negociação também supostamente artesanal, discreta e que nunca percebi, nem com tal me preocupei.

Foram dias inesquecíveis, durante os quais aprendi como fazer, respeitando e aprendendo a pesca do Bruno, assim como aprofundando laços de amizade, com ele e amigos, cujos desenvolvimentos se verificaram na minha segunda visita a esta terra.

Durante esta primeira vez, o melhor exemplar que me calhou foi este Dourado que, cozinhado pelo Kalu na pensão da D. Xia, alimentou todo o pessoal da casa.


 


O horário a percorrer nos dias em que havia pesca era, no meu sentir, algo de fabuloso e perfeitamente enquadrado no quotidiano familiar e do grupo, sem afectar ou limitar outras vontades! Ora vejam:

Por volta das oito da tarde jantava-se, sempre com música a acompanhar; seguia-se para a dança até perto das quatro da madrugada, por aqui e por ali. A esta hora a maioria dos corpos precisava descansar, rumando para a deita, enquanto eu e por vezes o Eduardo, vestíamos a roupa da pesca e calcorreávamos o caminho para o Pontão da Ilha do Sal, onde nos encontrávamos com o Bruno e seguíamos para o mar, raramente calmo, buscando os peixes e voltando pelas onze da manhã, hora limite para que o valor do peixe não baixasse devido à exposição ao calor. Nesta altura, ajudávamos o Bruno a descarregar as capturas, íamos beber umas cervejas os três e encontrar a família na praia, onde pairávamos por um bom bocado até às duas da tarde, hora de comer alguma coisa e fazer uma sesta, fugindo do calor e recuperando forças para iniciar o horário das 24 horas seguintes. Digam lá se não era um bom horário!?

Os dias passaram nesta calma irresponsável até à hora de dizer adeus à Ilha, ao pessoal da D. Xia, ao Bruno e à pesca, ficando a intenção de voltar, bem fixa nas nossas mentes. Era só esperar o dia!?

Mantivemos o contacto, alguns amigos meus de Setúbal chegaram a lá ir, por minha indicação, pescar com o Bruno e trazendo-me notícias, mas o certo é que não via forma de lá voltar; umas vezes, pelo tempo ($) que me faltava, outras, pelo trabalho que me sobrava. Até que, no Natal de 1997, tive uma das melhores prendas de que me lembro... a minha mulher e a filha, ofereceram-me um bilhete de bom preço para lá ir no Carnaval seguinte (1998). Nem queria acreditar!?

Após colocação dos pés em terra por tal surpresa, era hora de me organizar, contactar o Bruno e lembrar a pesca que ia fazer, agora com conhecimento de causa. Lembrei-me dos materiais necessários, caros por lá e por vezes difíceis de encontrar, ao contrário de cá, onde eram muito mais baratos e fáceis de adquirir. Era hora de contribuir com algo mais que amizade, embora tal não me fosse solicitado. O certo é que, quem não seja parvo de todo e observe, sabe o que poderá fazer falta.

Após informar o Bruno da decisão e de me aperceber da sua alegria e entusiasmo por tal facto, a memória começou a devolver-me imagens... do barco, dos materiais e de toda a acção de pesca, como se a tivesse vivido no dia anterior mas, para já, era preciso lembrar e adquirir os materiais.

As linhas, para pescar à mão, eram de meada. Começavam em diâmetro 120 e acabavam numa ponteira de 90 onde directamente se empatava um único anzol, daqueles nacionais, tamanho 20 e maior.
As meadas eram colocadas em enroladores, parecidos com este...

... de madeira pesada, cujo cabo teria uns 15/20 cm de comprimento e a zona de enrolamento de linha andaria pelos 40, com 25 de largura. Tudo com uma espessura de 2/3 cm... uns monstros!

A linha de 120 funcionava como madre, onde era feita uma alça que se apoiava no cabo do enrolador e sobre a qual se enrolavam uma ou duas meadas de 100 metros, sem apertar, aplicando-se no final, através de Nó de Barril, uns 20 metros de 0,90. Não se amarrava ao corpo do enrolador, porque nunca se sabia se o peixe que lá cairia não levaria a linha toda o que, prevendo-se pelo arranque inicial, permitiria ligar a tal alça a um cabo suplementar entrançado à mão e mais grosso que sempre jazia pronto num açafate próprio. Neste caso o enrolador ficaria liberto e a linha continuaria a sair até que o peixe em causa permitisse o início da contenda. Justificado está o tamanho e peso dos enroladores, assim como o pormenor de não apertar muito a linha, no sentido de facilitar a sua saída quando o peixe se ferrava e dava o primeiro arranque. Mas lá chegaremos.
Continuando no material, não poderia esquecer-me da preparação da pesca que começava na captura da isca - Carapaus e Cavalas - os primeiros, servindo de engodo e isca morta e as segundas, normalmente iscadas vivas.
Para a captura destas iscas, acção que se desenvolvia a caminho do pesqueiro, o Bruno usava anzóis nacionais, 10/12, em cuja haste aplicava fios de lã brancos para o Carapau e vermelhos para a Cavala, referindo no entanto que nós tínhamos cá no burgo aquelas pesquinhas já feitas que funcionavam melhor que as dele, o que se tinha revelado tendencialmente verdade.
Claro que, para além de várias meadas dos tamanhos referidos, equipei-me também destas tais pesquinhas e de todo o tipo de anzóis mencionados, em quantidades que ultrapassaram fortemente as necessidades de uma semana de pesca.
A cana e o carreto que também por indicação do Bruno deveria levar, pois na ida e na volta para o local mais quente de pesca, sempre se corricava e eram mais confortáveis que a linha de mão. Estes já estavam preparados, assim como algumas amostras para o efeito, nada de muito complicado, pois a acção de pesca decorreria essencialmente no sistema de barco fundeado, baixadas perto da superfície com isca e engodagem contínua.
Sentia-me preparado, o dia nunca mais chegava, mas gozava esta espera, passando mentalmente em revista as pessoas, as comidas, a música, as noites quentes, o mar, os materiais, a acção de pesca, os peixes, a roupa de pesca e a outra leve e fresca para levar..., enfim, aquilo que sabia ir encontrar e a simplicidade das necessidades, tudo ainda tão vivo na minha memória.
Nesta altura, só um pormenor estava ainda por resolver... não tinha alojamento! A pensão da D. Xia, por férias ou ausência da própria, estava encerrada e o Bruno é que andava à procura, confessando-me que não estava fácil, pois andavam por lá muitos surfistas e estavam a ocupar tudo, ao que lhe respondi: "durmo na praia, não tem problema"! Riu-se muito, retorquindo que alguma coisa se havia de arranjar e o certo é que, a dois dias da partida, já tinha um quarto só para mim, com chuveiro e casa de banho, quase no centro de Santa Maria. Melhor assim... tudo estava a postos!

Sábado antes do Carnaval de 98, pelas 20.00 horas, um fulano de bigode com uma mala e um tubo comprido, é largado nas partidas do aeroporto de Lisboa que percorre até ao Check-in, efectuando-o e aguardando a hora de entrar no avião para a Ilha do Sal, com a cabeça cheia de peixes, mar, música e evasão, observando outros passageiros para outros destinos ou quem sabe para o mesmo e pensando para com os seus botões: "será que estão tão felizes quanto eu". Não sei descrever melhor!?

A viagem de mais ou menos quatro horas, terminou às quatro e tal da manhã de Cabo Verde, no aeroporto de Espargos, a capital, onde assim que saí a porta do avião senti o ar quente e o sempre surpreendente cheiro a ilha, onde se entrecruzam os odores da terra seca com a humidade do mar, contrastando significativamente com o frio que se fazia sentir à partida de Lisboa. Tudo como era esperado, até o Bruno que me apareceu com o cumprimento habitual... "tud'ereto", assim cheguei ao edifício principal, já com o táxi que nos levaria a Santa Maria, local onde se escreveria a restante história.

Esta última etapa decorreu cheia de conversa, sobre como está este e aquele, a família, a pesca, o barco... mais história daqui... dali... lembrança dacolá. E... oh Amarelo, nome como me costumava tratar derivado do cabelo arruçado em época de Verão, "tás cansado ou ainda vamos beber umas Klebs"(marca de cerveja de Cabo Verde)?
Claro que vamos, qual cansado, qual carapuça!?

Já se sabia que o Domingo não teria pesca... a hora de chegada já não o permitia atendendo ao horário normalmente praticado pelos profissionais, mas coisa que eu não tinha era sono, a companhia era boa, só havia que curtir, logo faria uma sesta. Importante mesmo é que já lá estava, tinha conversa e garganta seca.

O quarto era singelo, mais que suficiente e, melhor que tudo, para além de estar perto do centro, estava afastado de folias e mesmo ao lado duma das melhores tascas de petiscos do Sal: "Os Bons Amigos". Comida e petiscos feitos na hora, donde se destacavam: o porco frito, os pastelinhos de Atum, a cachupa e outras comidas caseiras que faziam as delícias essencialmente dos locais, pois turista não andava muito por ali. Perfeito!!!

Como dizia o Bruno: Tu não és turista... és Português!

Já só faltava a pesca... mas não perdia pela demora! Enquanto a aguardava, fui relembrando o barco do Bruno, típico e fabricado como tantos outros para pescadores profissionais, diferindo no nome e na cor.

Cinco metros e meio de comprimento, perto de dois metros de boca, construído em madeira e com paneiros do meio para a popa, já que quem pescasse à proa teria de colocar os pés em cima das travessas, sob pena de descolar alguma tábua e fazer entrar quantidades de água, cuja "bomba", um bartedouro construído a partir de um garrafão de água de cinco litros, dificilmente conseguiria escoar antes do iminente afundanço.
A propulsão era feita por um motor Yamaha Enduro de 15 CV, a dois tempos, usado até à exaustão e cujas velas, não raramente, tinham de ser trocadas de noite, em mar aberto, com o motor em cima dos joelhos, por outras também já usadas, quando o dito se negava a trabalhar. Valia o grupo, pois a maioria dos profissionais percorriam os mesmos rumos para locais de pesca cujas distâncias entre eles permitiam perceber quando alguém precisava de ajuda e aí, ninguém ficava no mar.

Importa ainda realçar outros pormenores:

Um depósito de isca viva era instalado de raiz, construído em cimento e forrado a madeira, aplicado no centro do barco, sendo que a circulação de água se fazia através dum furo no centro do casco, orientado para a proa que, quando em movimento, fazia a água entrar por baixo, acabando por sair por um furo lateral, mais alto, na amura, assegurando assim a saída de água quando esta atingia altura para tal, assim como evitando uma possível inundação a bordo.
A foto que se segue, embora de qualidade suspeita, permite talvez dar uma ideia da coisa, vejamos:


Chamo a atenção para o depósito de isca viva, aquele quadrado, ao centro!
Outros pormenores, não menos importantes, como o ferro de fundear, aquela pedra enorme que se encordoava, amarrava ao cabo e borda fora com ela. Problema era levantá-la, não tanto pelo peso, mas pela resistência que fazia à água.
Outros materiais, como o cacete para tirar teimas a peixes mais difíceis ou o cabo em madeira onde se aplicava uma pequena ponta afiada amarrada com cabo de aço e que servia para arpoar peixes à superfície, com engodo, o caso dos Serras.
Enfim... tudo muito simples e extremamente funcional ou não o seja quase tudo o que é simples!?

Com tudo isto passaram horas e o momento tão esperado chega quase sem se dar por ele... são 4.30 da madrugada de Segunda Feira, encontrei-me com o Bruno no caminho, transportando o carrinho de mão onde se deitam o motor, o depósito de combustível, o cabo e os remos do barco; tudo o que tendencialmente poderia desaparecer se lá ficasse de um dia para o outro. Chegamos ao início do pontão, coloco-me atrás dele que já tem mais que decorado, o caminho em torno dos tais buracos que mal se vêem na escuridão e faço também eu por perceber onde se encontram, o que virei a conseguir ao terceiro dia, depois de duas noites e dois dias dando os mesmo passos. Lá estão todos... alguns já conheço, outros nem tanto, surgem sorrisos aqui e ali, conversas em Crioulo que não percebo. Sei que comentam sobre o que faço por ali, mas ainda é cedo para fazer parte. Antes terei de merecer confiança pois para alguns não passo ainda dum turista. É dar tempo ao tempo, pescando, conversando em cima de jornada feita, comendo e bebendo, tagarelando histórias, umas de cá, outras de lá... até que me aceitem como pescador e possa vir a tirar a foto abaixo, na Quinta Feira, em que todos já olhavam para mim, ora como o Português,  ora como Ernesto.


Nesta altura, já falo com toda a gente e rimos disto e daquilo, como o caso daquele homem que se vê de costas com chapéu branco de pala vermelha, compadre do Bruno, a quem trato por "compad orelha", assim como ele a mim, atendendo a brincadeiras relacionadas com os nossos pavilhões auriculares de tamanhos superiores à média e que, não raramente, eram mote de brincadeira entre nós.
À concentração matinal, seguiam-se os preparativos para a saída que começavam por ir buscar os barcos poitados na baía, algo que ficava normalmente a cargo de alguns miúdos. Depois, era descer toda a palamenta: remos, caixas, depósito de combustível e... o motor. Esta a tarefa de maior responsabilidade e atribuída unicamente a alguém fiável, pois o dono do barco sentava-se na popa e aguentava o barco junto ao pontão, o motor era descido contando com a vaga, guiado pelo dono do barco até ao painel de popa e apertado rapidamente, não fosse o diabo tecê-las. E porque conto isto? É simples caros leitores... nesta Quinta Feira, para espanto meu, do irmão do Bruno, o Luís que connosco ia também pescar e de outros presentes; o Bruno, após estar no barco, grita-me: Ernesto... amarra o motor e desce-o que já estamos atrasados.
Não pensei muito, amarrei o dito cujo, larguei-o para o vazio sustendo-o e baixando-o em seguida, dando desconto à vaga e permitindo que o Bruno o encaixasse e apertasse com a normalidade esperada. Depois, caí em mim... esta tarefa nunca se pedia a qualquer um... já fazia parte!


Todos os dias desta semana que lá estive foram muito bons, mas esta Quinta Feira foi soberba... por tudo... mar bom; isca capturada com fartura; brincadeiras de barco para barco, já ao raiar do dia; exemplares capturados; e, até o Bruno zangado comigo por no final da jornada eu não querer aceitar dinheiro da venda do peixe. Só me faltava casa em Santa Maria do Sal, de resto... já tinha muito!

Mas vamos à acção de pesca que se repetia jornada a jornada.

Saía-se ainda de noite e, após chegar à "Marca dos Carapaus", considerando caladores dados pelas luzes de terra, parava-se o barco, lançavam-se pescas de mão com madre de 0,60 e baixada de 3 estralhos, para aí de 30/35 cm de comprimento, empatando anzóis nacionais decorados na haste com fios de lã branca e, finalmente, a chumbada, feita de troços de ferro de construção, variando peso conforme a deriva do barco. Acenava-se a partir do fundo, procurando os Carapaus (Olho Largo, como lhes chamavam) na coluna de água, atirando-se estes com fervor ao branco das linhas de lã e enchendo o açafate aos saltos...  a isca para engodar e iscar, essencialmente morta, já ali estava!


Era hora de andar mais uns dez minutos e repetir o mesmo para capturar a isca viva... Cavala!
A única diferença estava na decoração das hastes dos anzóis, que passava de branco a vermelho. Destapava-se então o tubo que permitia que a água entrasse para o depósito de isca viva, assegurando vida mais longa às cavalas e que de imediato se taparia logo que o barco parasse, por razões que parecem óbvias.

Isca pronta e rumo ao local de fundeio, a zona quente onde sempre se esperavam as capturas pretendidas... Atuns, Serras, Esmoregais (tipo de Xaréu) e quem sabe outros maiores!?

Durante esta última fase da viagem que, no total, não ia além das 2/3 milhas, era tempo de corricar, cabendo-me fazê-lo com a cana e o carreto próprios que tinha levado por indicação do Bruno - cana Penn Senator e carreto da mesma marca, ambos de 50 libras - umas vezes capturava-se, outras nem tanto, mas no computo dos seis dias, usando o corrico, ainda entraram dois bons Serras e dois Atuns pequenos.

O Sol já nos sorria quando chegávamos ao local de fundeio onde, com afastamentos significativos, se viam todos os outros barcos que tinham partido à mesma hora do Pontão da Ilha do Sal também fundeados.

Largava-se a pedra já preparada para servir de ferro e enquanto o barco se fazia ao fundeio, preparavam-se os enroladores, normalmente 4, cada um com um único anzol, sendo que 3 (um por pescador) eram iscados com isca morta, tiras de Carapau cortadas em diagonal e iscadas entre a pele e a carne, tapando o anzol e, um com isca viva, Cavala, iscada pelo lombo.
As pescas eram lançadas à mão pelos bordos do barco, ficando a diferentes distâncias e consequentemente profundidades por vezes aumentadas com pequenas tiras de chumbo apertadas à linha com as mãos ou os dentes. A pesca com a Cavala viva era atirada para mais longe, evitando assim que se embaraçasse com as outras devido aos movimentos da Cavala.

Após lançadas, as linhas eram entaladas em pequenas fissuras, feitas à faca, na madeira da parte interior da borda do barco, sendo que o peixe, ao engolir a isca e fugir, era ferrado pela oposição proporcionada pelo desentalar da linha, o que acontecia com algum estrondo da madeira, substituindo assim, em simultâneo: a ferragem e o barulho da carraca do carreto. Só mesmo vendo... um espectáculo!

Linhas em acção de pesca e eis que se iniciava a engodagem de superfície, normalmente a cargo do Bruno.
Os Carapaus iam sendo cortados em pequenos pedaços e lançados ao mar em várias direcções, com um pormenor interessante nos lançamentos iniciais de engodo que por vezes se repetia noutras engodagens ao longo da jornada, caso não se estivesse a capturar.


Cá vai o pormenor interessante: para perceber se os Atuns andavam a comer na superfície, o Bruno, após cortar um Carapau inteiro e ficar só com a cabeça, retirava de uma placa de esferovite, um pequeno pedaço que introduzia através do olho, atirando-a para longe, ficando esta a boiar. Em seguida, lançava uns quantos pedaços, anteriormente cortados, de forma que caíssem em torno da cabeça. Neste momento todos parávamos para observar, sendo que muitas vezes, numa estocada rápida, algo a comia, desaparecendo de imediato e merecendo do Bruno o seguinte comentário: "os gajos estão aí e vêm comer cá acima...", seguido normalmente da atenção redobrada de todos nós sobre o comportamento das linhas. Suspense...

E então, se tudo corresse bem, a coisa dava-se!

De repente ouvia-se um estalo precedido de um pequeno ranger de madeira e a linha saía de um dos enroladores assentes no banco do barco, fazendo espirais tanto maiores, quanto maior a velocidade a que o desalmado fugia, fruto de sentir o anzol ferrado.
Quem fosse mais rápido ou estivesse mais perto, atirava-se ao enrolador agarrando-o pelo cabo com uma mão e seguindo a linha com a outra, colocando-lhe alguma pressão e tentando perceber o momento de dar luta ao bicho... normalmente quando este diminuía a velocidade da fuga. Nesta altura, já de pé, trancava-se a linha entre os dedos polegares e indicadores, estes protegidos com dedeiras, feitas a partir de câmaras de ar de bicicleta e mantendo as mãos afastadas, uma junto à cintura e a outra no limite do braço, mais forte e hábil, quase esticado. A partir daqui era hora de suar!!!

Começava-se a recuperar linha tentando as braçadas, sem nunca a enrolar em torno da mão para evitar ficar com as marcas que se viam em algumas mãos daqueles profissionais, provocadas por algum arranque rápido nessa situação e fazendo com que a linha cortasse fundo na carne. Tinha mesmo de ser com a pressão dos polegares e indicadores, sempre com a linha a fugir de vez em quando, molhada e escorregadia, tudo isto intervalando com alguma que se ia largando quando a luta a isso obrigava. Linha para lá... linha para cá, o bicho começava a dar sinais de cansaço e a descrever círculos, cabendo-nos saber quando recuperar. Normalmente, quando ao descrever o circulo se queria afastar, tentava-se aguentá-lo sem deixar sair linha, assim como, quando estava a descrevê-lo aproximando-se, era hora de recuperar as braçadas possíveis e assim sucessivamente até que se ia vencendo e se conseguia colocá-lo junto ao barco, à distância do comprimento do bicheiro que rapidamente lhe entrava pelo lombo e o encostava à borda, onde uma pancada seca do cacete, no sítio certo, permitia então subi-lo a bordo.

Estamos a falar de bichos que atingiram 40 e mais quilos, nesta Quinta Feira que quase me apetece qualificar de Santa. Isto porque ainda não eram 10.00 horas e já tínhamos capturado quatro deste tamanho, sendo que o Luís, irmão do Bruno, saltou com eles para bordo de outro barco que também já tinha uma boa conta, para rumar rápido de volta, pois quem mais cedo chegasse mais conseguiria pelo peixe, atendendo ao calor e à falta de meios de conservação do pescado.

Ficámos eu e o Bruno para continuar a luta na perspectiva de engrandecer um pouco mais este dia espectacular e profícuo. o que conseguimos com mais três bichos do mesmo quilate, antes de voltarmos à terra.

Aqui têm o Bruno com dois deles:


E chega a minha vez com o que me calhou nesta fase da pescaria, já de volta ao Pontão onde tudo acontece.


Assim que chegámos. lá estavam os gaiatos que de imediato amanharam os peixes, desaparecendo estes misteriosamente, como habitual, sem que olhos menos preocupados ou atentos a isso, se apercebessem como tal acontecia. Retiraram-lhes entretanto os buchos, limparam-nos e cortaram-nos para serem o nosso almoço, cozinhados à moda local, com arroz e picante qb. Tudo isto despertando a atenção de uns italianos que tinham ido pescar neste barco para turistas...

 

..., traziam dois Serras bebés e olhavam-nos com um misto de preocupação e não sei que mais!?

Mas isso não importava nada! Importante sim, era ir tomar um banho e seguir para o almoço de bucho de Atum... eu, o Bruno, o Compad Orelha e o Luís. Aí tagarelamos, falámos do dia, comparámos com outros, contámos histórias e bebemos cerveja como se não houvesse amanhã. Pois amanhã seria outro dia e nada nos fazia ter controlo sobre tal. Hoje que já uns anos passaram, penso que talvez a vida devesse mesmo ser assim... será que sim? Será que não? Não sei ao certo!? Mas que parece apelativo... lá isso parece!

A Sexta e o Sábado passaram a correr, arrumar tudo e voltar para Portugal, foi coisa que aconteceu rápido, muito mais do que eu gostaria.
Despedi-me do pessoal, pensando que não passaria muito tempo sem que voltássemos a pescar juntos, mas, na verdade, nunca mais nos vimos, nem nunca mais consegui voltar a Cabo Verde.
Amigos meus foram lá, pescaram com o Bruno, ainda trocámos uns telefonemas e uns escritos, mais tarde disseram-me que teria saído da Ilha do Sal rumando à Boa Vista, mas o certo é que nunca mais nos juntámos e há muito não contactamos.

Guardo todas as imagens e deixo-vos a mais importante... aquela da amizade que em tempos nos uniu e penso continuará a unir mal-grado as voltas da vida. Umas boas, outras nem tanto... é assim!


Forte abraço Bruno e amigos de Santa Maria do Sal ... onde quer que estejam!

A todos os leitores... uma boa noite enquanto espero por pescarias actuais que desvendem outros amigos, outras técnicas, outros relatos, outras histórias...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Não emigrei, mas não sei não!?


Pois é Pessoal... com a onda de sugestões de emigração que para aí anda e com o tempo passado sem nada escrever por aqui, na volta já muitos de vós se terão questionado: querem ver que o gajo emigrou?

Mas não, nada disso!

Sou sincero, até que me apetecia e aliás, fora a utopia, acho mesmo que devíamos era emigrar todos, talvez Austrália, Brasil, até para a China e... deixar estas aventesmas que nos governam agarradinhos ao P.., ou melhor às mordomias que procuraram e encontraram, atendendo a que, no caso da emigração geral, teriam de trabalhar para as manter!
Sonhar é bom e próprio do homem, mas na realidade não emigrei mesmo.
Em vez disso pesquei alguma coisa, andei em preparação das actividades náuticas do ano que vem e lá dinamizei a tal acção sobre Procura de Pesqueiros, Sondagem e Fundeio. Uma azáfama!

O presente escrito não será de modo algum aquilo que gosto normalmente de escrever, antes uma forma de reafirmar a vontade de não vos deixar a seco, principalmente nesta época, pouco propícia a defraudar amigos, conhecidos, família..., enfim, pessoas!
As razões da pressa com que vou fazer isto prendem-se com o Natal cá em casa, a neta em férias e um conjunto de diversos pequenos trabalhos que tenho em atraso, sendo que o tempo é pouco e a concentração e entrega na escrita vai certamente sofrer com isso. Já para não falar da falta de pesca... desde dia 8 de Dezembro que não vou ao mar, nem a Sines, o que já me está a tornar má companhia. Mas, já faltou mais; daqui a nada lá estou outra vez.

Bom... vamos ao que interessa!

Ao fim e ao cabo, até que fiz umas pesquitas nos feriados de 1 e de 8, assim como no dia 7 de Dezembro. Nada de grandes pescarias mas com alguns exemplares de nota, testemunhando uma vez mais que a procura, a sondagem, a colocação do barco no sítio certo e o trabalho de equipa a bordo; se apresentam como bons ingredientes para uma pesca com algum sucesso, assim como continuam a validar as matérias partilhadas na tal acção. Mas vamos lá às pescarias!

Dia 1 de Dezembro, o Carlos Jorge, o Paulo Palma, o outro Carlos e eu, batalhámos todo o santo dia, mas a coisa deu muito pouco, valendo este Pargo do Carlos e...


... este que a mim me saiu, já em desespero de causa!


Dia difícil, este 1 de Dezembro, com muito roubo e subidas de peixe muito intervaladas, o que tem sido uma constante nesta época da concentração de Douradas, indicando talvez um atraso nos comportamentos ou até a necessidade de alterar locais de pesca. No entanto, como a frequência de pesca, no meu caso, tem sido irregular, fica-se sem saber se na próxima não estarão por lá, pois o sinal já foi dado... sempre uma incógnita!?

Dia 7 de Dezembro, mais uma pesca intervalada, mas com um pouco mais de quantidade, nomeadamente no caso do Arménio, pois caso tivéssemos capturado como ele capturou, talvez até fossemos obrigados a sair mais cedo devido ao peso legal!? Mas é a vida!

A Dourada do Luís:


Um dos Pargos de Arménio:


E a pesca quase toda, a qual não sendo nada de deitar fora, foi bastante difícil e sofrida, nomeadamente no que respeita à irregularidade das entradas de peixe.


Ainda sobre pesca, surge-nos o dia 8, dia do pessoal da chumbadinha, com a sua calma pensada e activa, aguardando sempre aquele exemplar que acabou por aparecer pela mão do Pedro, apresentando-se como o maior que aqui se vê no passadiço, em conjunto com irmãos mais novos e algumas Primas de bom tamanho...


Uma foto da caixa onde dá para perceber que as tais primas até que eram boazitas...


... e, finalmente, o Pedro mostrando o motivo do seu orgulho do dia!


A pesca tinha terminado, até ao Natal, pois a semana seguinte destinava-se a ultimar pormenores relativos à acção anunciada para dia 17 de Dezembro, sendo que o Natal se seguiria, impedindo-me de olhar o mar a partir do Makaira. Mas tudo tem sido pesca e tudo tem valido a pena!

Completou-se o Power Point, preparou-se a sala e o suporte de papel, organizaram-se os comes e bebes e o dia chegou com 37 pescadores inscritos, número que me parece significativo quanto ao interesse do tema. Bela equipa que ali se juntou!

Deixo-vos algumas imagens do decorrer do Workshop, iniciando com um momento de trabalho:


Ainda em trabalho, perscrutando o outro lado da sala:


Um momento alto, com gente atenta que viria posteriormente a participar nas discussões e debates que não sendo os que eu esperava, foram interessantes e activos.


Momentos de convívio no exterior do Hotel do Sado, durante o intervalo para o café:


Grupinho convivendo e certamente "apanhando peixe à farta":


E  não podia deixar de vos mostrar o panorama de Setúbal que se pode vislumbrar do Hotel do Sado e que fez o deleite dos participantes.


E agora vem, não o melhor, mas sim a cereja no topo do bolo... a avaliação que passo a explicar!

Em primeiro lugar a Ficha de Avaliação, anónima e de preenchimento facultativo, com 8 itens, para serem avaliados em 4 níveis, sendo 1 e 2, negativos; e, 3 e 4, positivos.


De referir que estavam inscritos, 37 participantes, sendo que dois deles, por motivos de força maior, não puderam comparecer e 34 preencheram a ficha de avaliação, pelo que só um dos presentes, não o fez, pensa-se que por ter saído mais cedo e não se ter apercebido de tal.

Tratados que foram os resultados, elaboraram-se os quadros que se seguem:

Um primeiro quadro com a totalidade e percentagens dos níveis atribuídos, sendo que só se verificaram atribuições de níveis 3 e 4.


Um segundo quadro que apresenta a distribuição de níveis por fichas


Um terceiro quadro que apresenta a totalidade e percentagens atribuídas, face à pontuação máxima possível (136), caso todos as fichas apresentassem em todos os itens uma classificação de nível 4.


Ainda um quadro com comentários e...


... outro com sugestões, ambos solicitados individualmente em cada ficha de avaliação.


Considerando os resultados que se verificam, o ambiente em que decorreu a acção e a minha análise dos comportamentos observáveis durante o decorrer do Workshop, posso afirmar que fiquei satisfeito e dei por muito válido o tempo e entrega usados em todos os momentos, desde a preparação à execução deste trabalho que sinceramente, nem o foi... antes sim, um grande prazer!

Quando afirmei atrás que fiquei satisfeito, referi-me no passado, pois já não estou!
Isto é, estas pequenas glórias, são efémeras e já só penso em corrigir pormenores no sentido de melhorar, quer as fotos e textos apresentados, quer a forma de propor trabalho, com os objectivos de promover mais participação activa e intervenção dos participantes, em possível nova acção subordinada ao mesmo tema.

Gostaria também de saber se existem por aí outros interessados, pois facilmente se poderá colocar em marcha a acção, em condições idênticas, bastando para tal que me informem do interesse respectivo.

Relativamente aos comentários e sugestões, tudo foi tido em conta e, com a brevidade possível, se avançarão outras sugestões de temas teóricos e/ou práticos.

Não quero terminar, sem deixar alguns agradecimentos:

- Ao Hotel do Sado e à Teresa Ferreira, pelas excelentes condições proporcionadas.
- À equipa do Porto de Abrigo - www.portodeabrigo.com - que me apoiaram na preparação, recepção e secretariado; e, nomeadamente ao João Martins, pelas revisões de texto e retoques no Power Point.
- A todos os pescadores participantes, pelo envolvimento e entrega.
- E, finalmente, a todos os membros do Porto de Abrigo que, mesmo sem participarem directamente, deram o seu apoio através de comentários e/ou divulgação da acção em páginas pessoais e noutros sites onde são também membros.

Por aqui me fico, cheio de saudades da pesca (acho que para a semana a coisa já se vai dar), esperando que todos vós tenham um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de tudo o que for possível.

Boa noite a todos os leitores.