domingo, 7 de abril de 2013

Em resposta ao Carlos... vamos fundear!


As condições de mar e vento parecem começar a compor-se ao fim de três semanas de chuva, mais chuva, ainda mais chuva, vento, vaga..., tudo contra. Para não variar, este Domingo em que o tempo até deu uma folga, eis senão quando, tenho actividades para acompanhar. Paciência... a minha hora de ir há-de chegar e não vale a pena pensar muito no assunto.
Entretanto um comentador aqui da página  - o Carlos, de Vila Praia de Âncora - resolveu perguntar (haja Deus...) sobre fundeio e solicitar que pormenorizasse, coisa que vou tentar, esperando que lhe sirva e, já agora, também a outro pessoal que por aqui ande.

Como sabemos, fundear um barco para pescar ao fundo não é tarefa fácil, muito devido às variáveis de vento e aguagem, ou ausência de ambas, em cada dia de pesca. Daí que, em certos dias, a manobra de fundeio pode tornar-se uma autêntica dor de cabeça para a maioria de nós, podendo muitas vezes levar à diminuição significativa do tempo útil de pesca ou até ao falhanço completo na consecução de objectivos de uma ou mais jornadas. Isto porque, ou fundeamos mal e pensamos que não há peixe, ou, verificando que não ficámos onde queríamos e embora até sintamos alguns sinais, tendemos a não confiar no pesqueiro e a nossa pesca poderá já não correr como gostaríamos, para além de, caso não aconteçam as capturas que  procurávamos, ficarmos sem saber se tal se deveu ao fundeio deficiente ou a qualquer outro factor ou variável.

Face ao referido e à solicitação do Carlos, reflectindo sobre o assunto e no sentido de passar os conceitos em que me baseio para efectuar a referida manobra, criei algumas imagens que, espero, melhorem o significado das palavras e, consequentemente, o nosso raciocínio.

Consideremos então algumas reflexões e conceitos:

O melhor posicionamento do barco será no local em que, face às condições encontradas de mar e vento, conseguimos colocar as nossas iscas, com relativo rigor, no pesqueiro que visualizámos na sonda e nos pareceu mais interessante. Não podemos esquecer que para o nosso barco ficar onde queremos, tem outra posição a encontrar... o ponto do fundo onde queremos que o ferro fique preso, permitindo a conclusão correcta  da manobra e o consequente início da acção de pesca conforme a imaginámos.
Considerando o referido, vamos ter de encontrar três posições interdependentes, correspondentes a:

A: a posição onde largar o ferro para que prenda no fundo, permitindo que o barco se posicione no ponto...
B: local onde, nas condições de mar e vento existentes, podemos colocar as linhas na água, sabendo que as nossas iscas cairão na posição submersa...
C: a zona onde caem as nossas iscas que deverá corresponder ao pesqueiro eleito.

Na imagem seguinte, apresenta-se o exemplo de um fundeio com intervenção do vento, sem aguagem, um dos mais fáceis de conseguir.


Para que se comece a ter uma ideia do aumento da dificuldade do fundeio, introduzindo outras dificuldades, vejam a imagem, com relevos de fundo idênticos, mas agora com intervenção de vento e aguagem, ambos  com o mesmo rumo, obrigando neste caso a posicionar o barco de outra forma face à beirada do pontão, de modo a que as iscas caiam no ponto C, o tal que elegemos após sondagem.


Levanta-se agora outra questão: como determinar as posições A e B que conduzirão à C pretendida, em condições diversas de mar e vento?
Para tal teremos que entender o conceito Rumo da Deriva, que podemos descrever como:
- A linha da deslocação do barco, cuja orientação determina para que ponta da Rosa dos Ventos este se deslocará, após desligado o motor e a partir do ponto em que parou completamente. Esta linha vai-se desenhando no GPS, a partir do ponto em que parámos o barco e após limparmos outras linhas de rumo que lá estejam e que possam confundir. Este rumo dependerá das seguintes condições de mar e vento:
- rumo do vento, na ausência de aguagem
- rumo da aguagem, na ausência de vento
- rumo concertado entre o vento e a aguagem, quando ambos estiverem presentes com rumos diversos, derivando o barco mais para o lado de um ou de outro, conforme a direcção e intensidade específicas.
Importa ainda referir que, havendo ao longo do dia entradas de vento ou de aguagem, quando um deles não está presente; assim como, paragens ou variações de intensidades e/ou rumos, em suas presenças; o barco mudará de posição, decorrendo de tal, alterações significativas relativamente ao local onde as nossas iscas estão a actuar (posição C). Se estas alterações vão melhorar ou piorar a nossa pesca... depende!? Uma consulta à sonda para verificar as estruturas de fundo, a profundidade e a actividade do novo pesqueiro, assim como os sinais dos toques, poderão decidir se ficamos e insistimos, ou antes, levantamos ferro e melhoramos o fundeio.

Vamos então complicar a manobra!

Para tal, observemos a próxima imagem, tendo em conta o seguinte:

- As três situações correspondem ao mesmo barco, com o ferro preso ao fundo, no mesmo ponto (A), em condições diversas de mar e vento, obrigando a posicionamentos diversos do barco (1, 2 e 3) e consequentemente à variação da posição C, aquela onde vão cair as iscas.

- As três situações identificadas, pretendem ser exemplos base passíveis de adequação conforme outros rumos e intensidades de vento e/ou aguagem que se possam verificar, sendo importante analisar tais condições, em cada jornada e atendendo até a variações ao longo da mesma.

- Relativamente às setas indicadoras de vento e aguagem, para evitar alguma confusão, as de vento, vêm do Norte e as de aguagem vão, da esquerda para a direita, para: Sul, Oeste e Norte.


Analisemos e reflictamos sobre as imagens.

Posicionamento 1 

Rumo da Deriva: Só com vento, só com aguagem ou com ambos no mesmo sentido, o rumo da deriva será apresentado no GPS, pelo segmento de recta que se irá desenhando de A para a proa do barco, posicionando-se este, centrado com o referido segmento.

Ponto C, sem aguagem: fica na vertical do barco

Ponto C, com aguagem: fica afastado da popa do barco, tanto mais longe, quanto maior for a intensidade desta.

Posicionamento 2:

Rumo da Deriva: será apresentado no GPS, pelo segmento de recta que se irá desenhando de A para a proa do barco, posicionando-se este, atravessado face ao referido segmento, com um ângulo  que poderá variar durante a jornada, na medida de possíveis variações das intensidades do vento e / ou da aguagem.

Ponto C: Vai ficar afastado do barco, no rumo da aguagem e tanto mais longe, quanto maior for a intensidade desta.

Posicionamento 3:

Rumo da Deriva: pode apresentar-se no GPS, conforme linha irregular, descrita entre o ponto A e a proa do barco, podendo também desenhar-se para o lado contrário ao que se vê na figura, dependendo da posição em que parámos o barco antes de fundear. Normalmente a linha de rumo apresentada, configura-se com intensidades idênticas de vento e aguagem e pode variar só para o rumo da aguagem, com barco atravessado a aguagem e vento, quando a intensidade da aguagem for superior à do vento ou vice-versa.
Em caso de intensidades fracas e variáveis, esta situação pode tornar-se uma dor de cabeça, atendendo a que o barco não parará quieto todo o santo dia.

Ponto C: vai ficar na linha da aguagem, tão distante quanto a intensidade desta e contribuirá para a dor de cabeça pois, face a possíveis e contínuas variações da posição do barco, ora pescamos para a proa, ora para baixo do casco, ora... etc..

Considerando as análises e reflexões produzidas, parece poder afirmar-se que:

- Depois de eleito o ponto C, após observação do Rumo da Deriva e cálculo de como o barco se posicionará, importa encontrar o ponto A, revelando-se este, talvez como o mais importante para a posição de fundeio que pretendemos. 

Que características deverá ter o ponto A?

1. Relativamente à configuração e estrutura de fundo, deverá assegurar que o ferro fique preso. Portanto terá de ter um ou vários pontões com altura suficiente para que, face às intensidades de vento e aguagem corresponda à prisão que queremos.

2. Quanto à sua localização, situar-se-à sempre contra o Rumo da Deriva, no alinhamento desta e com o afastamento necessário face às intensidades do vento e / ou da aguagem, assim como da altura da vaga, considerando que vento e aguagens mais fortes e vaga alta, obrigarão a dar mais cabo o que, consequentemente, implicará num maior afastamento entre o ponto A e o C.

Ao largar o ferro que cuidados ter para aumentarmos as hipóteses de que chegue ao fundo e, por arrastamento da deriva, se fixe no ponto A?

1. O ferro e o cabo, devem estar prévia e completamente desimpedidos a bordo para que possamos agarrar e largar, no momento que entendemos mais adequado, tanto mais importante quanto mais duras forem as condições de mar e vento.

2. Na presença de vento e aguagem, não nos podemos esquecer que a descida do ferro será afectada , na sua verticalidade, essencialmente pela aguagem, obrigando a navegar até ao ponto A, em rumo contrário ao da deriva e, para além deste, em rumo contrário ao da aguagem, atendendo a que podem não ser os mesmos.

3. Mesmo só com vento, devemos largar o ferro sempre um pouco para além do ponto A, no sentido de aumentar a segurança na eficácia da prisão do ferro e aumentando o tempo para gerirmos o soltar de cabo necessário ao posicionamento final, principalmente com maior intensidade de vento.

Outras considerações:

Encontrar mais ou menos facilmente um ponto A, depende muito do conhecimento que temos de cada zona  de fundos em que actuamos.

Se em condições adversas (aguagens contrárias, ventos fortes..., etc.) não conseguirmos posicionar-nos em determinado pesqueiro, mais vale procurar outro que conhecemos melhor ou onde as condições nos permitam maximizar o tempo útil de pesca.

Em dias daqueles muito calmos, com muito pouca deriva e com mudanças lentas e muito variáveis da posição do barco, o ideal será procurar pesqueiros cujos fundos apresentem poucas variações de profundidade e tentar que os pontos A e C, fiquem o mais perto possível um do outro, o que se pode fazer dando o mínimo de cabo possível, até porque, atendendo à pouca deriva não será necessário dar muito.
As razões desta consideração têm a ver com o seguinte:
- Se estivermos numa zona com poucas diferenças de profundidade, não corremos o risco de, ora estar a pescar numa beirada, ora no bico de um pontão alto.
- Se não houver muito cabo na água, tenderemos a manter-nos perto da zona onde queríamos estar e actuar sobre ela sem grandes afastamentos.

Caso não acertemos no fundeio ou, em determinado momento devido a alterações de vento e / ou aguagem, a posição do barco mude, devemos marcar o Rumo da Deriva, olhando a proa marcada na bússola  e verificar se o cabo está centrado com o barco ou apresenta algum ângulo, levantando o ferro de imediato e melhorando o fundeio face às verificações efectuadas. Não o fazendo, corremos o risco de ficarmos indecisos quanto à credibilidade na acção de pesca, isto porque, o nosso comportamento numa situação de descrédito sobre o pesqueiro em que actuamos, tenderá a não ser o mais correcto. Digo eu... posso estar enganado.

Sobre a questão colocada pelo Carlos, relacionada com o levantamento do ferro, informo que uso a bóia para tal e exceptuando fazê-lo com guincho, não conheço melhor forma de o fazer.
Para melhor informação sobre procedimentos para alar ferros, materiais, formatos e bóias, vou deixar-lhe aqui alguns links que poderão complementar...
- Características do ferro - Pode ajudar quanto a materiais a usar tendo em conta a proporcionalidade face a barcos de tamanhos diversos.
Descrição de materiais e manobra de alar ferro com bóia - Mais materiais e descrição escrita da manobra
Descodificação de termos (Pontões, beiradas, etc.) - Pode complementar face à utilização da sonda e compreensão dos termos.
Filme em inglês sobre a manobra de alar ferro com a bóia - Caso não se entenda a língua, as imagens parecem-me elucidativas.

Nota importante:

Por mais que se tente passar conhecimentos nesta área, só a prática de cada um poderá melhorar este tipo de acção.
Espero sinceramente ter dado um pequeno contributo que sirva de base à prática que vão ter de desenvolver para o fazerem cada vez melhor, até porque, por muito que se pratique, vai haver um ou vários dias em que por esta ou aquela razão, a coisa falha, restando-nos tentar perceber porque falhou e emendar a manobra.

Para qualquer questão estarei à disposição, na medida do possível, para analisar, reflectir e tentar convosco concluir sobre tal.

A todos os leitores desejo uma boa noite

domingo, 17 de março de 2013

O prazer de ir...


O Sol já vai alto e navego para fora, nesta Sexta Feira, 16 de Março, do ano da graça de 2013. Vou só, com um olho no rumo, enquanto revejo a disposição de todo o material a bordo, não resistindo a captar a imagem do carreto e da cana que para mim ganham vida, parecendo-me nervosos para entrar em acção. Acalmo-os, dizendo-lhes que o motor tem de aquecer antes de ir para rotações de cruzeiro e que a pressa é má conselheira, até porque, compromissos são coisa que não temos e, quanto aos peixes, o mar é como aquele café de clube de pesca onde vamos tomar um caneco e, mais cedo ou mais tarde, acabamos por encontrar um ou mais interlocutores à altura, para discutir o assunto que lá nos levou...

O dia está calmo, o mar raso e, já com o barco na sua melhor velocidade, lembro-me do Parguinho e da Dourada, capturados ontem, numa rapidinha de fim de tarde. Já marcharam cozidos com todos, alegrando os estômagos do Zé Manel, do Pedro, do Fernando e o meu, claro; lá pelo Zé Beicinho que estava com uma gripe das antigas e não pode participar, nem no jantar, nem na pescaria de hoje. As melhoras para ele e para a próxima, logo se vinga.

O GPS mostra-me que estou a chegar à zona, abrando, limpo o traçado do rumo e vou preparar o ferro para largar, enquanto deixo que se desenhe o rumo da deriva.
A sonda já está ligada, mas nem olho para ela, a zona é grande, os fundos espectaculares, o peixe costuma adorá-la nesta altura do ano e nem ponho a hipótese de não fundear por ali... é uma questão de procurar e acertar. Já lá vamos.

O ferro está pronto a largar, a isca já está cortada, as canas a postos e é hora de ver o rumo da deriva, sondar, procurar e optar pelo pesqueiro onde fundear. Faço a primeira escolha do local para largar o ferro e aí vai ele... espero que o barco se coloque e rapidamente me apercebo que não estou onde quero. Sinceramente já desconfiava... o traçado do rumo da deriva era estranho, muito devido à leve aguagem que ia para a proa do barco, quase em sentido contrário ao do vento; para além disso, deveria ter sondado mais em volta, de forma a perceber melhor os contornos de fundo, farto em pontões altos e beiradas abruptas, onde qualquer erro de fundeio concorrerá facilmente para ficarmos em cima de local pouco interessante, por demasiada pedra ou por limpo meio deserto.
À falta de melhor, converso com as canas, carretos linhas e anzóis... digo-lhes para terem calma, enquanto levanto o ferro e melhoro o fundeio, sentindo-me confortável com o fundo novo e largando-os de imediato, ao encontro daqueles com quem queremos "falar".

A "conversa" inicia-se algo tímida. No entanto, logo na segunda descida, após sentir a chegada ao fundo e elevar a pesca, para melhor sentir a sua tensão, primeira surpresa... a linha fica leve e, das duas, uma; ou perdi a chumbada, ou algum peixe se ferrou e não a deixa estar no fundo!? Enrolo rápido e lá está o peso e a consequente luta, dura e comprida, indicando talvez uma Cavala grande ou um Serrajão!?
Não me enganei... um Serrajão, com uns dois quilos e tal, sobe ao poço do Makaira e, enquanto lhe retiro o anzol e o deito delicadamente na mala térmica, já só penso na cebolada que vou comer com ele.

A acção continua e o roubo de iscas, mais ou menos rápido, é uma constante, independentemente dos tamanhos e formatos das iscadas, indicando que mais cedo ou mais tarde, alguma luta interessante acontecerá.
A pesca vai decorrendo, entre uma ou outra bolacha e uma ou outra montagem ou anzol perdidos, por arrochanço, ou por uns quantos Safios de tamanho que não quero, a engolirem o anzol e a cortarem o estralho. Insisto, e outra luta acontece, desta vez em tons avermelhados... não é um grande mas, pelas cabeçadas, também não é Parguito. Mais para cá, menos para lá, eis que entra no poço o primeiro Pargo do dia, com uns dois quilos e tal. Sinto o desenho de um sorriso e digo às canas e aos carretos: Olhem que não vale só por ele... se tinham alguma dúvida, o que acham agora da qualidade do pesqueiro? 
Vamos lá trabalhar que, ou me engano muito, ou não ficamos por aqui!?

Os toques continuam, ferro um peixe que começa a luta e logo se solta sem dar hipóteses de perceber a raça, subo a montagem já com anzóis limpos, isco de novo e torno a lançar, aguardando os toques que começam a rarear, fazendo-me pensar que algo está a acontecer... ou anda por ali peixe maior ou mudei de sítio!? Olho em torno e apercebo-me que o rumo do vento mudou e o barco, lentamente, tinha rodado sem que me apercebesse, fruto da concentração na azáfama. Liguei a sonda e esta mostra-me que já estou a pescar no deserto. Espero mais um pouco, subo as iscas e estas vêm tal e qual estavam, obrigando-me a tomar uma atitude. Mais uma vez, levanto o ferro, procuro onde largar e recoloco-me no mesmo fundo, esperando não me ter enganado quanto à sua produtividade.

A resposta veio algumas iscadas e tempo depois, primeiro pela limpeza dos anzóis e, ao fim de mais algum tempo, por um daqueles toques que obrigam a ferrar alto, seguindo-se a luta esperada, a linha a sair, mais cabeçada comprida e mais linha a sair, repetindo-se ao longo dos 80 metros de fundo a que estava a pescar e culminando com este "vermelhusco"... curto, gordo, alto de lombo e cabeçudo que, deitado, aguardou a foto para a posteridade, ao lado daquele sapato velho que não chega ao Verão de tão maltratado.


O pesqueiro a funcionar, restando saber se o tempo de pesca restante, traria mais alguma surpresa. Só a continuação da acção o poderia dizer e foi o que fiz após trocar a sofrida montagem, coçada junto ao anzol.

Iscas para baixo, anzóis para cima, variação de tamanhos, de formatos; Sardinha por base, Camarão velho e grande de vez em quando e um choco ou outro a intervalar. Já para não falar de um Besugo iscado vivo na pesca a pescar no caneiro. Tudo se tentava, ou quase tudo.

Um determinado moer, a desconfiança, a ferragem e a luta pesadona dum Safio de maior porte, talvez infrutífera, caso o fio viesse a roçar a dentuça do bicho.
Ao fim de algum tempo, continuava a subir, abri a porta do poço que dá para a plataforma de banho e continuei a puxá-lo, até que o vi, com o anzol ferrado na mandíbula superior, tudo indicando que o fio estava intacto. Deixei-o boiar, agarrei o fio desviando um pouco a cara para evitar que os anzóis ou a chumbada me viessem bater caso se soltassem de repente, esperei que a vaga colocasse o nível da água o mais perto possível da plataforma e puxei segura e insistentemente, conseguindo vencer o desnível e arrastá-lo para bordo.

A pesca estava composta, o Sol já se aproximava da linha do horizonte e após mais algumas tentativas e uns quantos peixes mais pequenos. decidi que era hora de levantar ferro e levar o Serrajão ao encontro da cebolada com pessoal amigo.

Não sem antes captar a imagem "de grupo", onde não resisti a deixar os Besugos, tão do agrado de um ou outro amigo meu que não vão certamente perder a oportunidade de sobre eles comentarem.


Um dia excelente, uma pesca bonita, sem ser grande ou excepcional, o Serrajão, de cebolada, espectacularmente cozinhado no Zé Beicinho, pela D. Lucília, e, a conversa fluente que sempre se consegue à mesa. Pedir mais... não quero, nem devo!

A todos os leitores, desejo uma boa noite e uma semana produtiva.

Até à próxima. 

domingo, 3 de março de 2013

Entender um pesqueiro versus marcas de GPS


A carta de fundos de Sines surge perante os meus olhos e, enquanto não deixo de me espantar pela  diversidade e qualidade dos mesmos, analiso os resultados algo variáveis das últimas pescarias, comparo-os com outros na mesma época do ano e nos mesmos pesqueiros e tento relacionar tudo isto com as opções tomadas em cada momento, na tentativa contínua de os melhorar, pensando, agora no sossego do "buraco" onde costumo escrever, sobre a enormidade de variáveis que rodeiam a acção de pesca e a dificuldade de as interpretar a nosso favor em cada momento de pesca.

Tais pensamentos e decorrentes reflexões, levaram-me a questões relacionadas com o entendimento de pesqueiros, tentando isolar e posteriormente conjugar os factores que poderão conduzir a uma melhor interpretação de como lidar com um determinado pesqueiro, tendo em conta as suas características e as condições de mar e vento de um determinado dia em que decidimos, face à época do ano, escolhê-lo como local para nossa acção de pesca.

Genericamente, tenho como definição de pesqueiro: "uma zona submarina em que a profundidade, textura e contornos de fundo se adequam, em determinada época, dia e momento, à concentração, permanência ou passagem da espécie ou espécies que pretendemos capturar, utilizando uma determinada técnica (fundeado, com isca morta ou viva; à deriva, com zagaia ou isca viva;…)".
Para além das características apontadas, a zona em questão, poderá ser mais ou menos extensa e portanto passível de, em função das condições de mar e vento, oferecer hipóteses diversas de localização do peixe e consequentemente de fundeios adequados a esta localização, tendo ainda em conta o rumo da deriva existente em cada dia.
Considerando o referido, um ponto de GPS que identifique a zona, funcionará sempre como o centro ou indicação da mesma e não como obrigatoriedade de fundeio preciso nas coordenadas que o definem. Quer isto dizer que ao chegarmos ao ponto deveremos, a partir dele e através da sondagem, procurar o melhor local para fundear, tendo em conta a actividade, o rumo da deriva e a possível existência de aguagem.
Normalmente, em pontões baixos em que a actividade se vê numa das beiradas, tenta-se largar o ferro na beirada contrária e deixar o barco descair mais ou menos para cima da outra onde vimos actividade, ou, caso o rumo da deriva seja contrário, tentar encontrar uma zona rija, fora da área do pontão, onde se verifiquem condições para o ferro prender e deixar o barco descair na direcção deste, de modo a que consigamos colocar as nossas iscas na zona de actividade identificada. Tudo isto sem esquecer que, havendo aguagem, o barco não deverá descair para a vertical da zona de actividade, sob pena de a corrente colocar as nossas iscas fora desta.
Analisando as duas hipóteses apontadas, prefiro quando possível, largar o ferro fora do pontão e descair para este, do que largar sobre um lado e descair para o outro, isto porque qualquer peixe daqueles que procuramos, ou já lá está, ou, tendencialmente, terá o pontão como referência para a sua aproximação, devido à comedia que anda em torno deste, sendo que as nossas iscas ficam no local certo, venha ele de onde vier. Já quando largamos o ferro numa das beiradas do pontão e descaímos para a outra, havendo aguagem, o peixe que já por lá possa estar pode não se aperceber das nossas iscas, atendendo a que a corrente poderá levar cheiros ou vibrações para fora da sua área sensorial, restando-nos aguardar que outros predadores venham procurar o local e dêem de caras com a nossas ofertas, o que tende a acontecer com aguagens leves e talvez seja mais difícil acontecer com aguagens mais fortes, em que o peixe tenderá a evitar grandes deslocamentos.
Importa referir que, não havendo aguagem, deveremos ter como único pensamento a colocação do barco, na vertical, sobre a beirada com mais e melhor actividade, independentemente do local onde se largue o ferro, sendo neste caso o vento, o principal orientador da deriva.

No caso de elevações submarinas significativas (10 ou mais metros), distribuídas por áreas extensas e em presença de aguagem, a tendência de abrigar muita comedia (peixe miúdo) e consequentemente aqueles maiores que dela se alimentam, aumentam significativamente as hipóteses de capturas de predadores que já se encontram na zona, desde que coloquemos iscas que os atraiam em género e quantidade, assim como, em zona onde lhes sintam o cheiro, as vejam ou a elas sejam atraídos devido ao frenesim do peixe miúdo que as estejam a consumir, caso tal aconteça.
O fundeio ideal face à situação anterior, sendo efectuado do pontão para a beirada do lado para onde se dirige a aguagem, poderá não ser o ideal, atendendo a que a actividade do peixe miúdo e consequentemente dos predadores se desenvolve junto ao pontão, sendo que, com um fundeio deste tipo, as iscas cairão fora da zona, tendendo a não serem detectadas, excepto no caso em que apareçam predadores em procura de comida e/ou abrigo, vindos de outros lados e, eventualmente, caso exista outro pontão perto, também com actividade e no alinhamento da aguagem.
O fundeio ideal, parece ser aquele em que conseguimos largar e prender o ferro, fora do pontão, do lado contra a aguagem, de modo a que o barco fique entre o ferro e a base do pontão, permitindo que as iscas, os seus cheiros e as vibrações causadas por ataques de peixe miúdo, por efeito da corrente, se dirijam ao encontro dos "residentes", temporários ou não.

A escrita já vai longa e, como habitual, voltei atrás, revi a conversa e pensei com os meus botões... neste momento da leitura, alguns de vós poderão estar a pensar: mas por que raio estará este fulano para aqui com esta conversa toda? Porque é que não vai direito ao assunto?

É para já!

A conversa anterior tem por base os resultados obtidos nas últimas três saídas de pesca; duas, com bons exemplares e uma de seca e quase sem peixe.

Uma das melhores, corresponde à relatada na última entrada e a outra, corresponde a esta, em que para além de um Pargo de quilo e pouco que me saiu, mais um grande que se desferrou e dois outros, também desferrados pelo Zé Beicinho, muito por tentativas de ferragens demasiado rápidas, foi ao Brás que saiu a taluda, iniciada com este Alfaquim pequeno...


... seguido deste maiorzito...


e terminando com chave de ouro, com este Pargo, perto dos 5,000kg


Parabéns Brás!

Mas voltemos à conversa.

Tanto o último relato, quanto este, foram precedidos respectivamente de duas pescarias não relatadas. A  anterior ao último relato foi mais uma tentativa em pesqueiros pelos 50/60 metros, revelando estarem estas profundidades muito pouco activas no que a peixe melhor se refere, indicando a necessidade de procurar mais fundo. Procurado e encontrado o pesqueiro, realizou-se a pescaria relatada na entrada anterior, em que o fundeio, por orientação do rumo da deriva, obrigou a fundear de fora do pontão para este, na linha de aguagem.
Na passada Quarta Feira, voltei ao pesqueiro e tanto a aguagem, quanto o rumo da deriva se verificaram opostos, indicando que deveria fundear na beirada oposta, mas, por uma questão de tentar entender melhor o pesqueiro e também porque a beirada já testada apresenta-se com um declive menos pronunciado que a oposta, decidi o fundeio colocando o barco mais ou menos no mesmo local, embora pescando do pontão para a beirada, com resultados desastrosos. O peixe nem comia.
Após uma hora e muito, de acção de pesca, resolvi levantar ferro e fundear do outro lado. Pescámos muito pouco tempo... entrou vento forte, o mar virou, o ferro saltou e tivemos que rumar a terra onde só umas Choupas e Sarguetas entraram, dando-se por terminada a pesca e confirmando uma vez mais a dificuldade de conseguir melhores exemplares à terra.
Finalmente chegámos a esta Sexta Feira, dia calmo, "mar de senhoras" e rumo ao mesmo pesqueiro, onde se verificou aguagem mais leve e actividade mais intensa na tal beirada com menos declive. Hesitei mais uma vez e tornei a fundear do pontão para a beirada na linha de aguagem, pensando que com menos corrente houvesse maior fluxo de peixe a vir de fora para o pontão. Na verdade, enganei-me!
De facto, o peixe até já picava e algumas Pataroxas deram um ar da sua graça, mas o certo é que peixe maior, nem vê-lo. Era hora de fundear do outro lado. Levantei ferro e rumei contra a aguagem e a deriva, sondando por cima do bico, cheio de actividade. Vi aparecer a beirada abrupta, caindo de repente quase para o dobro da profundidade e mostrando sempre actividade com fartura. Continuei, procurando, no fundo, um socalco conhecido para agarrar o ferro; encontrei-o e fundeei, deixando depois descair o barco até ao ponto que me pareceu ideal para largar as iscas e estas cairem perto da beirada, cabendo à aguagem fazer o seu trabalho de "divulgação".
Certo é que os toques foram logo outros, mais intensos, acabando por se conseguirem os peixes que já vos mostrei. Pena os que fugiram... então sim, tinha sido uma pescaria bem mais elucidativa. No entanto, face ao relatado, pode dizer-se que a produtividade esteve manifestamente associada aos fundeios efectuados de fora do pontão para a base deste, no rumo da aguagem; entendimento a reter como base para primeira opção de fundeio, em outras incursões a este mesmo pesqueiro ou até a outros com características idênticas. Convém no entanto estar atento, pois nada no mar e na pesca se mantém como regra. Um dia destes é possível que aconteça precisamente o contrário. Eventualmente, bastará para tal que as condições e a época sejam diferentes

Relativamente ao título desta entrada, importa referir o seguinte: imaginem que um amigo me solicita uma marca de GPS e eu lhe dou aquela onde fiz esta pescaria ou a da pescaria relatada na última entrada. Ele ruma para lá, acredita que vai pescar à séria e fundeia o barco no ponto. Se não entender o pesqueiro e as condições não forem as mesmas ou idênticas, este ponto poderá de nada lhe valer. Neste caso, ele eventualmente ficará de monco caído e eu fico talvez sujeito a... passar por mentiroso!?

Uma boa noite a todos os leitores.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A cor vermelha em pesqueiro novo!


Peixes em tons de vermelho, com olhos do tamanho de cápsulas de cerveja ou maiores... adoro!

Mas tanto ou mais que a sua captura, são os esforços que se desenvolvem na sua procura que me apaixonam, tanto em momentos menos bons, quanto em momentos de sucesso; principalmente quando esse sucesso se baseia na procura de novos fundos, no aproveitamento de condições de mar e vento ideais para explorar zonas específicas, adequadas a cada época, e, nas decisões que se tomam quanto a fundeio atendendo à actividade observada nas imagens que a sonda nos devolve, permitindo-nos operações de fundeio em que ficamos a pescar mesmo onde queríamos. Isto é, depois de analisar jornadas menos produtivas quanto a resultados, época do ano e condições de mar e vento em que foram realizadas; esperar um dia em que as condições sejam favoráveis, adequar a procura em função da análise anterior, insistir em locais desconhecidos e profundidades diferentes, até encontrar um fundo com bom aspecto, fundear bem e... ter sucesso.

Mas chega de introdução e passemos ao relato.

Este início de ano tem sido pródigo em dias que não permitem ir ao mar. Se por um lado é bom por permitir a renovação necessária, por outro, não permitindo uma regularidade de saídas, quebra o ritmo de pesca, principalmente no que se refere aos locais onde o peixe "habitualmente" pára.
A palavra entre aspas, colocada de propósito, é um perigo no que se refere à procura de peixe, muito porque os hábitos do peixe, prendendo-se essencialmente com a alimentação e em alturas específicas  com a reprodução, variarão por norma em função das deslocações do peixe alimento que, por sua vez, serão ditadas pelas condições determinadas por correntes, temperaturas e outras, existentes no meio aquático, muitas delas que não conseguimos dominar, obrigando à regularidade de saídas na procura dos locais onde possam prevalecer determinados "hábitos" de passagem de peixe, em determinada época do ano, mas no entanto sujeitas à alteração dos tais "hábitos". Valham-nos as capacidades de ter em conta estas possibilidades e de saber ler a santa sonda, para não falar naquelas de, em acção de pesca, entender as reacções do pesqueiro e proceder em conformidade, pensando sempre que estes peixes de maior porte, normalmente, não andam por lá ao monte, nem se atiram a qualquer isca ou formato de apresentação da mesma.

Das reflexões produzidas, parece poder entender-se que os tais "hábitos" normalmente verificam-se em determinadas épocas, mas de ano para ano, podem alterar-se significativamente tanto no que respeita a profundidades, quanto a zonas de pesqueiros, obrigando a uma procura contínua tendo em conta as variabilidades referidas, pior ainda em fases de transição climatérica ou nos momentos em que o peixe tende a afundar ou vir mais à terra.
Não há hipóteses de o descobrir, senão indo e experimentando em pesqueiros diversos ou procurando novos, mesmo correndo riscos de insucesso.
Em determinadas alturas deste processo de procura, poderemos dominar, durante períodos relativamente longos, os locais e tendências do peixe, sabendo que mais cedo ou mais tarde tornaremos ao processo, devido à contínua mudança de condições a que o meio aquático está sujeito.
O domínio sobre os factores apresentados e consequentes hipóteses de sucesso, tende a aumentar com a regularidade de saídas, coisa que nem sempre se consegue.

Este conjunto de factores justifica, de algum modo, resultados das últimas saídas, relativamente intervaladas, em fase de transição, correndo riscos de não capturar e chegando a esta última, Sábado, dia 16 de Fevereiro, deste ano da crise dos ladrões de 2013, em que, acompanhado dos companheiros Tózé e João Maria, resolvemos procurar novos pesqueiros, mais fundos, atendendo à época e conseguindo alguma recompensa.

Saímos pelas 08.30, quase de madrugada, para um mar calmo e estanhado, abrilhantado por uma leve brisa de Sueste, óptima para aproar o barco e mantê-lo quieto, desde que não existisse nenhuma aguagem contrária ou atravessada que fizesse variar a posição de fundeio em conjunto com possíveis variações da intensidade do vento que não eram esperadas. As condições ideais para ir procurar um pouco mais longe e mais fundo.
Navegámos para Oeste, procurando uma zona de pontões altos, ladeados por entralhados, em profundidades compreendidas entre os 80 e os 100 metros de profundidade. Chegámos, determinámos a deriva do barco e iniciámos a sondagem. Primeiro num pesqueiro já conhecido que não me agradou, tanto pelo aspecto da actividade que me pareceu essencialmente de peixe miúdo, quanto pela dificuldade, para não dizer impossibilidade de lá fundear, atendendo ao rumo da deriva. Estas condições levaram-me a alargar a procura na zona, batendo-a em rumos paralelos e perpendiculares que me levaram para bem longe do que já conhecia por ali, assim como à descoberta de um novo pesqueiro que se apresentava a jeito para o fundeio e cuja imagem de sonda me agradou, tanto pela configuração de fundo, quanto pelas imagens de actividade observadas. Era ali! Estava decidido!

Após o fundeio, percebemos que tudo estava de feição, até uma leve aguagem que corria no mesmo rumo do vento. Uma beleza... só faltava pescar, coisa que de imediato fizemos, até porque... "cheirava a peixe". Não sei explicar as condições em que a anterior expressão me vem à cabeça, mas o certo é que muitas vezes funciona, talvez quando tudo está a bater certo, como por exemplo: um dia excelente, procura nova, pesqueiro novo com muito bom aspecto, fundeio certinho, aguagem qb, estão a ver... aquela ponta de aguagem que não incomoda nada e só pode levar os cheiros e as vibrações a "quem de direito", enfim... tudo a favor.

As iscas desceram, os toques iniciaram-se, leves, discretos, sem roubos completos de iscas que se iam repondo com a velocidade permitida pelos 87 metros de profundidade.
As Pataroxas iniciaram as hostilidades, com aquele toque característico que só engana às primeiras, revelando-se depois, numa luta relativamente pesada e desinteressante. Seguiram-se os Safios, um ou outro, para o lado do pequeno, atendendo à espécie e de imediato devolvidos à procedência. Ou vinha grande, ou não vinha!

Hora e meia de pesca já decorria, quando um toque disfarçado me fez levantar a cana forte e alto, pensando  em mais um Safio mas, a cabeçada seguinte felizmente desenganou-me... Safio não corre daquela forma nem cabeceia assim. O Pargo batia forte e pesado, como é normal nestas profundidades, fomos lutando, vencendo a distância até à amura do Makaira e à foto para a posteridade, com aquele seu vermelho bonito.


As hostilidades mais sérias tinham-se iniciado, a tensão sentia-se a bordo, esperando que aquele não estivesse só e, na verdade, não estava.

As iscas repuseram-se, desceram, foram roubadas, tornaram a subir anzóis limpos, iscaram-se, desceram, mais um toque e mais um Pargo em luta. Desta vez mais pequeno, mas de bom porte, sem direito a foto imediata... não havia vagar.

Não eram passados cinco minutos e foi a vez do Tózé, com outro também mais pequeno, mas também suficiente para colocar um sorriso na face, contrastante com a cara séria que colocou para a foto.


A coisa corria bem, o "cheiro a peixe" já era real e a luta calhou desta vez ao João Maria, com bicho maior, aliás o maior que alguma vez tinha capturado na sua vida e com o qual, para além das várias futuras refeições possíveis, passou à história em imagem...


A atenção a bordo sentia-se... tudo estava concentrado e começaram a subir Safios continuamente libertados, excepto um deles, com 8,900kg que guardámos, enquanto se esperava nova entrada de Pargos, o que infelizmente não sucedeu, embora se tentassem vários formatos de iscadas, ao fundo e à chumbadinha.
As horas correram rápido, demasiado rápido, como sabemos que correm sempre que fazemos algo que gostamos, até à chegada ao porto de recreio e às imagens finais, nomeadamente a seguinte onde me encontro com os meus dois "companheiros de refeição".


Fica agora a pergunta: porque não entraram mais Pargos?

Várias hipóteses podem ser apreciadas, por exemplo:

1. Só conseguimos atrair aqueles, ou só aqueles andavam por ali!? Sinceramente duvido. O tipo de pesqueiro, a profundidade, a época do ano, a aguagem leve e a continuidade de roubo, entre outras possíveis, formavam um conjunto de factores tendentes a manter interessados ou a chamar mais "vermelhuscos".

2. Após a entrada do último Pargo, verificou-se um aumento significativo dos ataques de Safios, muitos deles tão grandes que tínhamos dificuldade em os retirar do fundo, ou cortavam os estralhos de 0,42 e 0,50mm. Agora, aqui em terra, pergunto-me se os Safios, atendendo ao seu tamanho, não terão ganho em concorrência com os Pargos, na aproximação às nossas iscas!? Isto porque só levámos Sardinha, o que, nestes pesqueiros mais fundos, pode ser um erro, atendendo a que a gulosice dos Safios por esta isca é conhecida e caso tivéssemos Caranguejo, Camarão e Lula, talvez, a ser verdade, os Pargos tivessem outras hipóteses!? Não se sabe... mas para a próxima logo se vê?

Uma pena o tempo ter piorado para este Domingo. Para todos os efeitos, foi uma pesca como se gosta, com bons exemplares e em novo pesqueiro que muito ainda terá para dar. Outros relatos se esperam dele.

Até lá, uma boa noite a todos os leitores.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Aquisição de barco... cuidados essenciais.


As condições climatéricas estão, como direi... miseráveis. Nada que se compare com a foto de abertura... infelizmente.

A montagens, anzóis e todo o resto do material, já nem sei que lhes hei-de fazer, depois de tanta preparação, manutenção, montagens, invenções e sei lá mais o quê. Portanto, venho aconchegar-me aqui, no quentinho do blogue, para tagarelar convosco, desta vez, sobre barcos, principalmente aqueles que são o meio de locomoção na prática da nossa actividade "mais que tudo".

O artigo que vos proponho, foi por mim escrito, em Junho de 2009, propositadamente para o site Porto de Abrigo e, na verdade, nunca o postei aqui. Lacuna que quero preencher, atendendo a que, segundo a informação prestada pelo serviço de estatística do blogue, tudo indica que muitos dos leitores desta página, não serão assíduos do site.

As opiniões que se transcrevem, decorrem da minha perspectiva de utilizador e da procura contínua de perceber como adquirir, tratar e usar uma embarcação, reduzindo ao mínimo os custos de manutenção e utilização, necessárias e correctas.

O momento, atendendo à crise porque se passa, é difícil para disponibilizar dinheiros. No entanto, um outro olhar, permite-nos afirmar que poderemos ter acesso a preços muito inferiores àqueles que se praticavam na altura em que o artigo foi escrito. Portanto, espero que vos sirva para procurar ou simplesmente sonhar.

O conjunto de informação que se vai desenvolver, não pretende ser um exaustivo documento sobre tipos de barcos, motores e formas de transmissão ou propulsão; antes uma informação inicial, da qual poderemos partir para questões mais profundas, podendo assim partilhar com aqueles outros que necessitarem de informação ou até aconselhamento nesta área, considerando aquisições, manutenções, licenciamentos… tendo para tal em conta as bolsas menos ou mais abonadas.
Vamos então falar de barcos!

Definição de Barco:

“Barco é um artefacto construído por um ser humano, capaz de flutuar e de se deslocar sobre a água que envolve vários princípios da física e da geometria…
Toda a construção feita em madeira, ferro, aço, fibra de vidro, alumínio ou da combinação desses e de outros materiais, com uma forma especial, servindo para transportar, pela água, pessoas ou coisas, é sinónimo de embarcação e designada de vários modos em diversas culturas. Adaptado a vários tipos de propulsão, cedo na história se percebeu que este meio de locomoção oferecia muitas vantagens”. (Wikipédia 2009)

A definição anterior precede uma evolução que permite hoje o acesso a embarcações dos mais variados tipos, propulsionadas de formas diferenciadas, com preços de conjunto variados, permitindo que, tendo uma tal opção na vida, muitos cidadãos possam aceder a um destes objectos em estado novo ou usado, mais pequeno ou maior, com mais ou menos motorização, construído com bons materiais ou nem por isso, mas que cumpra com os objectivos iniciais a que se destina.
Vamos lançar um olhar pelas características, tendo em conta tipos de cascos, motorizações, transmissões, consumos, manutenções, electrónica… um mundo complicado que tentaremos simplificar.

Tipos de Cascos:

Duma forma muito simples e sem entrar em pormenores tecnicamente mais profundos, os cascos podem caracterizar-se quanto a:

  • Tipo de deslocamento na água
  • Formato do casco.
Quanto ao tipo de deslocamento na água, podem considerar-se:

  • Cascos planantes, os que após arranque se deslocam planando sobre a água.
  • Cascos de deslizamento, os que deslizam afastando a água cuja parte do barco mergulhada empurra.
  • Deveremos ainda ter em conta os semi-planantes e de semi-deslizamento, com características intermédias das duas primeiras definições, sendo que o semi-planante, por vezes poderá andar muito perto do planante e o de semi-deslizamento, mantendo as características do casco, poderá conseguir velocidades ligeiramente superiores às do puro deslizador.
Para a caracterização seguinte, consideremos as figuras abaixo!



Quanto a formatos de cascos, temos:

  • Cascos planos ou com um V muito leve (fig. 1), principalmente utilizados em planos de águas calmas (barragens, rios…) e de características francamente planantes, rápidos e sem necessitarem de grandes motorizações.
  • Cascos em V profundo ou muito acentuado (fig. 2), ideais para mar aberto e necessitando de motorizações potentes para suportarem as suas características planantes ou semi-planantes e as velocidades que podem atingir.
  • Cascos arredondados (fig. 3), os deslizadores por natureza, sendo que  as altas motorizações só se justificarão no caso de traineiras ou barcos de trabalho normalmente transportadores de grandes cargas a velocidades reduzidas comparativamente aos outros formatos.
  • Multi-cascos, também denominados por catamarans ou trimarans (fig. 4), dependendo de possuírem 2 ou 3 cascos ligados entre si, sendo que no primeiro caso, pela oposição dos ângulos entre os cascos separados e iguais (catamarans), se poderão considerar planantes. Estes barcos são normalmente motorizados com um motor em cada casco, não necessitando de motorizações altas para atingirem velocidades significativas. Os trimarans são característicos normalmente em veleiros com um motor central, sendo que os cascos laterais têm dimensões diferentes do casco central (a imagem só dá uma ideia).

Que tipos de motores e transmissões para os cascos com deslocamentos e formatos diversos que mais nos interessam?

Vejamos as figuras seguintes:



As figuras acima representam os três tipos de motorização / transmissão mais usuais, podendo cada uma delas equipar qualquer um dos cascos referidos. Quem não viu já um bote com casco nitidamente de deslizamento ser propulsionado por um motor fora de borda (fig. A) de baixa potência ou um casco planante ou semi-planante ser propulsionado por um motor dentro de borda com transmissão por linha de veio (fig. C) que por sua vez é o mais usual em cascos de deslizamento? O mesmo já não se verifica com os motores dentro de borda com transmissão por coluna (fig. B), cuja utilização é essencialmente utilizada em cascos planantes ou, em alguns casos, semi-planantes.

Identificados minimamente os tipos de cascos e motorizações / transmissões, importa desenvolver algum raciocínio sobre as relações barco, motorização / transmissão, custos e consumos, considerando estes quatro factores como variáveis interdependentes.

Consideremos em primeiro lugar os quatro factores que parecem ser mais influentes quanto à decisão sobre a escolha/aquisição da embarcação que podemos ter, isto porque, aquela que queremos será sempre maior e melhor que a conseguida.

  • Fim a que se destina… Pesca!
  • Preço inicial do conjunto… Dependente da carteira de cada um ou de algum sacrifício superior, por amor à pesca.
  • Consumos… Compramos um barco novo ou usado, em conta, mas com uma motorização que nos obriga a andar com a bomba de combustível a reboque… E depois?
  • Custos de manutenção… Será que conseguimos suportar as manutenções anuais, os pequenos arranjos, as vistorias, os licenciamentos, os impostos…?

Reflectindo sobre os factores referidos, pode dizer-se que qualquer barco pequeno, com uma motorização mínima, permite pescar!
No entanto, num barco para a pesca e considerando a nossa evolução enquanto pescadores de embarcada, procuraremos certamente espaço para toda a tralha que necessitamos e para o desenrolar da acção de pesca, assim como, condições de segurança do casco e fiabilidade do motor, adequadas às características da zona onde queremos pescar. Estes serão os principais requisitos se o dinheiro disponível só der para pescar no estuário com um bote aberto de madeira ou fibra, para aí com uns 4 metros de comprimento e com um motor fora de borda, a 2 tempos, com uns 5 HP.
Olhamos para a bolsa e, reparando que afinal dá para mais, começamos a procurar mais velocidade, para as mudanças de pesqueiros; mais conforto, para a acção de pesca; mais comprimento e boca (largura máxima), para irmos mais longe; uma cabine, para abrigar do vento; uma caminha e uma casa de banho, para dormir e tal…; extras, para a pesca grossa, e… Em algum momento deste percurso, em que vamos percebendo o que nos é minimamente necessário versus a enormidade de oferta, o nosso olhar depara com um conjunto barco / motor com um preço ajustado.

O momento de pormenorizar chegou!

Saber o que consome o conjunto eleito… Precisa-se!

Para tal importa que continuemos na nossa linha de raciocínio, em termos genéricos, tendo em conta o seguinte:

  • Qualquer motor consome e desgasta-se tanto mais quanto maior for a rotação em que normalmente trabalhar.
  • Os factores que condicionam o trabalho contínuo em alta ou máxima rotação estão relacionados com: motorização abaixo da adequada para o barco e carga que normalmente transporte (sub-motorização) e/ou passo de hélice inadequado ao conjunto.
Para percebermos as razões, o ideal, será experimentar o barco com a carga média que normalmente transportará (pessoas, material, combustível e palamenta ou equivalente) e testar duas situações:

  • Dependendo do tipo de casco, ele atinge a velocidade de cruzeiro (velocidade em que se consegue a melhor relação entre mínimo tempo de navegação/máxima distância percorrida/mínimo gasto de combustível), no máximo, a 200 RPM antes das RPM máximas indicadas pelo fabricante ou de preferência menos.
  • Em aceleração máxima, atinge, sem ultrapassar, as RPM máximas indicadas pelo fabricante para o motor em teste.

Caso os testes descritos sejam positivos, saberemos através do primeiro que, com a carga que normalmente vamos transportar no nosso barco, ele atingirá uma velocidade de cruzeiro em rotação abaixo da máxima com alguma margem; e, através do segundo, que o peso, número de pás e passo do hélice, no seu conjunto, possibilitam explorar a melhor performance barco/motor, atendendo a que, atingem em aceleração máxima as RPM também máximas, indicadas pelo fabricante, podendo assim assegurar a adequação de potências também durante o funcionamento em RPM intermédias.
A conjugação destes resultados, sendo positivos, costuma assegurar, à partida, o melhor consumo e menor desgaste do conjunto. Não estão aqui consideradas as influências de ajudas à navegação do conjunto, como sejam o TRIM e os FLAPS, mas isso dará certamente para um outro artigo.

Considerando a análise anterior, lancemos um olhar aos consumos, mesmo parecendo óptimos!

Os consumos, em conjuntos barco/motor, costumam ser aferidos em litros/hora ou litros/milha náutica. Isto pode levar-nos a um outro raciocínio relacionado com o combustível que vamos gastar quando navegarmos com o nosso conjunto.

Suponhamos que temos um barco de casco semi-planante com um motor diesel de 200 HP e um amigo nosso tem um barco de casco de deslizamento, com um motor precisamente igual… Potência, marca, e ambos montados com transmissão por linha de veio. O tempo está bom e decidimos ir fazer o que gostamos no mesmo pesqueiro. Ambos nos deslocamos à velocidade de cruzeiro, e com os motores a trabalhar à mesma rotação, sendo que a nossa, devido ao tipo de casco, é de 18 nós (Nó ≈ Milha náutica/hora) e a dele de 12 nós, por o casco de deslizamento ser mais lento e pesado.

Sem que necessitemos de fazer contas, parece fácil concluir que embora, salvo pequenas variações, gastemos a mesma quantidade de combustível por hora, atendendo a que vamos a velocidade constante e com os motores iguais a trabalhar à mesma RPM, percorreremos o espaço em 2/3 do tempo dele. Podendo dizer-se que, gastando ambos os barcos o mesmo número de litros/hora, o nosso gastará menos 1/3 por milha que o dele, em condições de mar calmo.
Em caso de mar agreste, os consumos poderão aproximar-se, porque ele terá mais hipóteses, devido ao tipo de casco, em manter a mesma velocidade de cruzeiro e nós talvez nem tanto, embora também não trabalhemos em rotação tão alta, mas aumentando o tempo de navegação para o mesmo percurso, donde decorrerá a referida aproximação de consumos.
Os custos relacionados com consumos, considerando o raciocínio anterior poderão funcionar comparativamente, também, entre barcos que utilizem gasolina ou diesel, pela mesma razão; ou seja, embora a gasolina seja mais cara, se o barco a gasolina (normalmente com custo inicial mais baixo) for mais rápido que outro a diesel poderá, mesmo assim, ficar menos dispendioso ou com custos idênticos atendendo ao menor tempo de trabalho para os mesmos percursos.

Considerados os raciocínios quanto a consumos, numa análise simplista ao mercado de motores, duma forma muito geral, considerando potências iguais e para que possam comparar, deixamos algumas características de motores.

Preço inicial de aquisição de motores:

  • Fora de Borda a 2 tempos, o mais barato.
  • Diesel, o mais caro.
  • Fora de Borda a 4 tempos e Dentro de Borda também a 4 tempos, com coluna, a gasolina; preços intermédios, considerando os anteriores.
Duração/Desgaste:

  • Fora de Borda a 2 tempos, o menos durável.
  • Diesel, o mais durável.
  • Fora de Borda a 4 tempos e Dentro de Borda a gasolina, durações intermédias, embora com o actual avanço tecnológico, já se sinta uma aproximação aos Dentro de Borda, com linhas de veio ou coluna, a Diesel.
Custos de manutenção, por ordem crescente:

  • Foras de Borda a 4 tempos e 2 tempos.
  • Diesel com transmissão por linha de veio.
  • Dentro de Borda com transmissão por coluna, a diesel e a gasolina. Neste caso é a substituição dos foles e vedantes necessários a manter estanque o interior do barco, que encarecem bastante as manutenções. Também por estarem montados muito encostados ao fundo do barco, estes motores costumam sofrer mais com as humidades salgadas que por lá se instalam.
Importa referir que as características apontadas, boas ou menos boas, dependem muito do tratamento e cuidados que cada proprietário prestar ao seu conjunto.

Passemos então para a manutenção… Que custos para o nosso barco?

Para começar a somar terá o futuro comprador de se questionar sobre:

  • Tenho onde guardar o barco ou terei de o colocar na área do meu clube náutico ou num armazém de recolhas? Quanto custa?
  • Vou colocar na marina ou porto de recreio, qual o melhor preço?
  • Se o vou rebocar para um local meu e não tenho bola de reboque, quanto custa colocar uma?
  • Ainda no caso anterior, onde o desço e subo e a que preço?
  • Tenho o barco sempre dentro de água... qual o preço das manutenções anuais como a pintura de casco, revisão do motor, retirada e colocação na água, valor a pagar por estacionamento da área de serviço; no momento da manutenção… faço-a eu ou pago a quem faça?
  • Em que classe registo o meu barco? Quanto custa a palamenta para essa classe? Que ferros vou comprar e a que preço? E as vistorias? Vem tudo incluído no preço inicial ou pago eu? E mais tarde, quando for eu a tratar disso? Não será melhor ver o que é necessário e os respectivos preços?
  • Atendendo à pesca que faço, que electrónica vou colocar e qual o preço? Incluirá a montagem ou tenho de pagar à parte?
  • E o imposto municipal sobre veículos? Mais essa…
Caso seja um barco usado, deveremos questionar-nos da mesma forma e ver o que traz, quando foi comprado, quando foi feito ou legalizado e as condições em que se encontram todos os materiais necessários, incluindo o próprio conjunto, tentando perceber que custos ainda teremos por nossa conta.
Neste processo (compra de usado) importa ter ainda alguns cuidados:

Documentação e palamenta:

- Verificar se tudo está em ordem, assim como as datas das próximas vistorias / reposições, face à classe em que o barco está legalizado. Quanto mais próximas, mais cedo teremos dinheiro para gastar.
- Solicitar o livro do barco, caso exista, pois neste livro tem todas as indicações sobre os cuidados a ter, assim como, desenho do circuito eléctrico, diâmetros e passos de hélice, no caso das transmissões por linha de veios e outras indicações que certamente nos virão a fazer falta.

Circuito eléctrico:

- Verificar todas as inserções de cabos eléctricos, tentando descobrir verdetes e vendo se estão protegidas por vaselina ou silicone. Isto, incluíndo os cabos da bateria e as suas ligações aos bornes.
- Verificar o nível de água das baterias.
- Verificar o funcionamento do equipamento electrónico (rádio VHF, sonda, GPS, radar...) se tal equipamento existir.

Nota: caso se verifique que as ligações estão desprotegidas, com verdete e que o nível de água da bateria está baixo, aumentam significativamente as hipóteses de termos de gastar dinheiro em melhoramentos ou reparações do circuito, assim como, em baterias novas.

Outros circuitos:

- Verificar o funcionamento de bombas de água, considerando as obrigatórias por lei e outras de serventia que o barco tenha, como por exemplo: circuito de água doce, viveiro de isca viva, água salgada...
- Caso o barco tenha casa de banho mecânica ou eléctrica, verificar se funciona sem entradas de água ou, se tiver depósito de "águas negras", observar também o seu correcto funcionamento.
- Relativamente ao circuito de combustível, verificar: os pré-filtros e se possível os filtros. Se os pré-filtros estiverem sujos, importa verificar os depósitos de combustível, principalmente se o combustível for diesel, atendendo a que este cria rapidamente impurezas que poderão entupir o circuito e fazer parar o barco.
No caso de depósitos com gasóleo, deve questionar o proprietário sobre anteriores limpezas do depósito e saber quando foi a última.
Por (má) experiência própria, posso afirmar que se deve "visitar" o interior dos depósitos com diesel, pelo menos de dois em dois anos.
Não será um problema que invalide ou interfira significativamente na negociação mas, no caso do gasóleo, se não conseguir ver o interior do depósito, assim que o barco for para a sua mão, deve de imediato abrir uma "janela" no depósito, verificá-lo e limpá-lo, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, ficar no mar sem alimentação do motor.

Casco:

- Observar o estado geral do casco. Nesta primeira observação, deverá ter-se em conta se o barco está parqueado em zona coberta ou a nado. Numa ou noutra das situações consegue-se perceber, numa primeira apreciação, os cuidados que o actual dono tem tido com a embarcação, analisando para tal vários tipo de sujidades: zonas com salitre agarrado, verdetes de algas ao longo da zona do casco que se encontra fora de água (obras mortas), ferrugens por aqui e por ali, nódoas de longa duração, enfim... aquele ar desmazelado; estas, as primeiras notas que o podem colocar de sobreaviso.
- Tirar informações do barco na zona onde é conhecido, tentando perceber se foi bem tratado, se há muito não é utilizado e quem é o mecânico que normalmente trata dele, com quem se deve tentar chegar à fala lendo, nas entrelinhas se necessário, as respostas dadas.
- Observar o casco fora de água, procurando falhas de gel, estaladelas e outras imperfeições.
- Caso o barco esteja habitualmente a nado, exigir a subida e limpeza do casco, quando não se consiga ver na totalidade, com o intuito de verificar toda a extensão com calma, atenção e tempo, procurando imperfeições, desníveis e outros defeitos na pintura. Importa saber quando foi feita a última aplicação, assim como a referência das tintas utilizadas, caso pensemos avançar com o negócio, no sentido de as podermos utilizar quando a manutenção estiver a nosso cargo. Neste processo e no caso de o barco estar continuamente parqueado a nado, considerar a possibilidade de ter de aplicar o tratamento total de pintura, caso tal não tenha sido feito entre os últimos 5 a 10 anos.
- Observar o interior do casco, olhando todos os compartimentos e zonas de arrumos, procurando marcas de entradas de água. Humidades, podem ser normais; entradas de água, nunca são. Excepto nos compartimentos do interior do casco e por baixo dos motores dentro de borda, onde por vezes tem entradas de água da chuva ou lavagem, portanto águas doces. Prove a água... se for salgada, vai ter de perceber como entrou, se é hábito que tal aconteça, em que situações e se tal se poderá resolver facilmente, através de cuidados de utilização ou de alguma pequena reparação.

Motor fora de borda:

- Um motor fora de borda num parqueamento ao ar livre, em terra ou a nado, pode estar com mau aspecto exterior mas por dentro tem de "brilhar", não ter escorridos ou depósitos de óleos e estar protegido com massas e lubrificantes protectores, assim como os cabos de direcção. Direcções muito pesadas, são normalmente sinal de montagem deficiente dos cabos de direcção, inadequação destes face ao conjunto ou falência próxima dos mesmos.
- Verifique o óleo, a valvolina da caixa e os estado dos zincos e do hélice.

Motor interior com transmissão por linha de veios:

- Ir preparado para se sujar, colocar-se dentro do compartimento do motor e observar este em toda a volta, por cima e por baixo, passando a mão onde não vê, na procura de "escorridos" de óleos, águas, combustível; actuais ou antigos, perguntando ao proprietário os porquês da sua existência, de modo a poder comentá-los e entendê-los.
- Sujidades várias no motor e/ou no seu compartimento, indicam normalmente ausência de verificações regulares e consequente despreocupação do proprietário.
- Ver níveis de água do radiador, óleo do motor, valvolina da caixa de velocidades e óleo da caixa de direcção, caso esta seja hidráulica, assim como os cabos da mesma e a facilidade em movê-la. Caso os níveis estejam baixos, fica mais uma indicação sobre o tratamento a que possivelmente o barco tem sido sujeito.
- Observar a zona onde o veio encontra a sua vedação ao interior do barco - Pocim - e verificar se está bem vedado, principalmente, depois de terminar teste (obrigatório) de navegação.

Motor interior com transmissão por coluna ou Z-Drive:

- As mesmas análises que se aconselharam para o anterior, excepto no que respeita ao pocim que neste caso não existe.
- Observar o estado dos foles da coluna, tentando perceber se a borracha  está ressequida, sendo neste caso essencial saber quando foram trocados pela última vez.
- Verificar a vedação da zona onde a coluna está aplicada no casco.

Outros cuidados obrigatórios:

Zincos e Hélices:

- Verificar os zincos que, no caso dos motores fora de borda e nos dentro de borda com coluna, estão à vista e no caso dos dentro de borda com transmissão por linha de veio obrigam, na maioria das situações, a tirar o barco da água para os ver. Se estiverem comidos, é bom sinal porque estão a actuar, no entanto se estiverem muito gastos terão de ser substituídos, aumentando os encargos de quem compra.
- Ainda sobre os zincos, muitos motores dentro de borda, dependendo da marca e referência, têm um zinco no interior do motor que deve ser verificado, pois caso tenha desaparecido por completo, pode indicar que existam partes essenciais do motor que possam estar corroídas.
- Verificar o estado dos hélices que também, no caso dos motores com transmissão por linha de veio, obrigam a subir o barco para verificação, o que neste caso é extremamente importante atendendo ao preço destes hélices, normalmente em bronze e de valor muito superior aos dos outros tipos de transmissão. Portanto se o hélice em bronze mostrar falhas ou corrosão do tipo de forçar à mão e partir, melhor mesmo é ajustar o valor da negociação tendo isso em conta.

- Navegar com o barco, tentando perceber se corresponde ao referido no que respeita a velocidade de cruzeiro, de modo a entender se esta será a mais adequada, face ao conjunto barco / motor, para o que pretendemos da embarcação. Evitar adquirir embarcações sub-motorizadas pois tenderão sempre a  diminuir a eficácia do conjunto; em alguns casos, a navegações deficientes; a gastar mais combustível e a diminuir a duração do motor.

Muito importante: leve um mecânico da sua confiança, tanto para analisar o conjunto em seco, quanto em navegação. Apontem o que vos pareceu, observem tudo, coloquem as questões que acharem pertinentes ao proprietário e comentem depois, entre vós, sem a presença dele. A conversa tenderá a ser mais franca e liberta de interrupções de quem, tendencialmente, tudo quererá justificar.

Importa ainda referir que quem vai procurar um barco usado, não pode esperar por um novo, pode sim, evitar adquirir uma dor de cabeça ou várias, caso o barco, mesmo barato, esteja em mau estado, ou antes, conseguir uma embarcação a bom preço e em boas condições, salvo um ou outro problema de fácil resolução.

Considerando tudo o que foi por aqui desenvolvido, temos agora uma base para começar a procurar e, eventualmente, tomar decisões.

No mercado nacional e nas embarcações que utilizamos na pesca lúdica, as relações barcos/motores mais adoptadas e possivelmente testadas, parecem ser as seguintes:

  • Barcos com características planantes ou semi-planantes até 6/6,5 metros, são normalmente montados com motores fora de borda a 2 ou 4 tempos, a gasolina.
  • Nos barcos maiores que 6,5 metros, com características semi-planantes ou até planantes, recorre-se normalmente a montagens de motores dentro de borda, normalmente a diesel, com transmissão por coluna ou linha de veio. Hoje em dia, com a evolução dos fora de borda a 4 tempos, a gasolina, já se vêem por cá barcos de 7,5 metros e até algo maiores equipados com estes, podendo tal opção não significar  um aumento da despesa, atendendo à diminuta manutenção destes motores, significativamente inferior às dos motores dentro de borda.
  • Nos cascos de deslizamento, sem dúvida que a motorização mais usual, para não dizer única, é mesmo o motor dentro de borda com transmissão por linha de veio. Excepção feita a botes entre os 4 e 6 metros ou até um pouco mais, onde se montam motores fora de borda de baixa potência.
Companheiros... é procurar, verificar e decidir!

Espera-se que o presente artigo permita, mais que não seja, dar aos leitores algumas ferramentas para uma primeira abordagem à aquisição deste meio de locomoção com o qual a nossa pesca ganhará outro sentido.

Muito fica por dizer e analisar no que a barcos e motores diz respeito. Em caso de dúvidas ou incorrecções, estou por aqui e o que não souber pergunto ou indico quem possa responder.

Revisão, melhoramento e actualização do artigo: "Barcos: o nosso meio de locomoção", escrito e publicado por Ernesto Lima, em 13 de Junho de 2009, no site Porto de Abrigo  actualmente desactivado.