quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Segurança na pesca embarcada... Conhecimento, Competência e Bom Senso


A escrita anda um pouco ao lado... não por falta de pesca ou vontade de escrever, talvez mais por me sentir obrigado a artigos que correspondam tecnicamente ao que já escrevi por aqui, mostrando-vos o caminho percorrido na procura de maiores peixes.
Na verdade, tal percurso tem-se desenvolvido de forma algo irregular, sendo que os exemplares de 2 e 3 kg e até alguns maiores têm aparecido por aqui e por ali, assim como as Douradas, por insistência, já deram um ar da sua graça, enquanto se deslocam para os locais de desova, como é usual nesta época, sem que me tenha lembrado de tirar algumas fotos, em momentos essenciais para a documentação das capturas e de algum modo travando também a vontade de escrever na altura certa. Mas não se desespere, nem se pense que estou parado, pois, lá para o fim do artigo, como remate, logo vos deixarei uns peixes.

Entretanto e porque a onda de segurança, devido ao tal decreto "dos coletes", se vai arrastando, vou conversar convosco sobre segurança a bordo. Não unicamente acerca daquela obrigatória por lei, mas sobre aquela outra a que gosto de chamar de "Conhecimento, Competência e Bom Senso", relacionada com a nossa pesca e com a navegação, adquirida com estudo, com prática a custas próprias, ou, reconhecendo e aprendendo com os saberes de pescadores mais experientes e que encaram a segurança sem leveza.
Importa ainda referir que por muito que pratiquemos uma navegação e uma acção de pesca, responsáveis e seguras, devemos estar sempre atentos, pois tudo o que achamos conseguir prever nunca eliminará totalmente os acidentes, antes diminuirá  a sua gravidade ou as hipóteses de que se produzam, sendo que este é um assunto que daria para escrever um livro... grande e sempre incompleto. Mas, vamos lá tentar sistematizar o melhor possível.

O Conhecimento... as Competências:

Quem governa um barco, em qualquer situação - lúdica, profissional, mais ou menos perto da costa... - tem obrigatoriamente de ter conhecimentos alargados a vários níveis e dominá-los efectivamente no exercício das suas práticas, considerando sempre a imprevisibilidade de situações que o mar sempre pode tornar reais. Para tal deverá, na minha opinião, passo a passo, percorrer um caminho do menos para o mais perigoso, medindo muito bem os riscos que poderá correr, versus as suas capacidades de, em cada momento, lhes fazer frente.
Estudar, aplicar, melhorar com os erros ou sucessos, estudar mais, aplicar de novo... e assim sucessivamente, num ciclo evolutivo consciente e interminável, é, sem dúvida, o caminho a percorrer. Aliás idêntico a qualquer processo evolutivo, em qualquer área, sendo que, mesmo que diminuídas, as possibilidades de acidente grave ou morte estarão sempre presentes.

No percurso apontado e relativamente aos domínios essenciais onde conhecimentos e competências deverão ser adquiridos, vamos considerar os seguintes:

A. Condições climatéricas

B. Conjunto barco, motor e palamenta

C. Meios de salvação e telecomunicações

D. Acção de Pesca

Sobre os quatro domínios referidos, e embora se vá falar especificamente de cada um, é evidente que são interdependentes, atendendo a que, para um determinado tipo de pesca que se pretenda praticar, a saída para o mar e os pesqueiros a escolher, dependerão do conjunto barco e motor que temos, da sua categoria de navegação, respectivos meios de salvação e rádio comunicações, e, das condições climatéricas que se apresentem no dia em que decidimos sair para o mar.

Considerando o referido obrigo-me a cumprir, à cabeça, as seguintes regras:

a) Nunca sair para o mar no limite, ou perto do limite da embarcação, face às condições climatéricas que se apresentem e mesmo até quando verifico que o estado do tempo vai tornar o acto de pescar muito desconfortável.
b) Nunca sair sem verificar minimamente o funcionamento adequado do conjunto barco/motor/palamenta.
c) Voltar de imediato para o porto, caso se verifique o mau funcionamento de um elemento essencial à segurança, principalmente se as condições climatéricas não forem as melhores. Isto porque, a falência de um elemento deste tipo, poderá facilmente iniciar uma cadeia de outras falências e consequentemente o acidente.
Por exemplo: se perder o ferro principal e ficar só com o de segurança, ou continuo a pescar à deriva, ou volto para o porto. Não arrisco perder a única coisa que imobilizará o barco, em caso de, por qualquer razão, o motor me falhar.
d) Manter o funcionamento adequado de todos os elementos... barco, motor, palamenta, instrumentação electrónica e de comunicações.

As condições climatéricas:

Actualmente, como a maioria de nós sabe, as previsões meteorológicas são cada vez mais fiáveis e o acesso a este tipo de informação através da net, é fácil e bastante fidedigno, atrevendo-me a dizer que, salvo raras excepções, só vai para o mar sujeito a mau tempo quem quiser. Normalmente isto acontece quando a vontade de pescar se sobrepõe ao receio de a "coisa" engrossar e, em alguns casos, ao Bom Senso. Quem não souber consultar a net, deverá procurar quem o saiba, podendo assim minorar os perigos que pode correr na presença de más condições de mar e vento.

Desde sites relativamente simples de interpretar, como o Windguru, na minha opinião ideal para a normal pesca embarcada em barco fundeado ou à deriva, em área de classe 4 e até um pouco para além desta, a outros mais complicados que permitem observar e interpretar as condições de mar e ventos, em zonas mais afastadas da costa, temos à nossa disposição um conjunto de informação importante que face à nossa capacidade de interpretação nos permitem escolher o dia ideal para irmos pescar nesses lugares, ou verificar a dificuldade/impossibilidade de, em determinado dia, exercermos a nossa actividade nos locais que pretendemos ou até de sair para o mar.
Pessoalmente, uso principalmente o Windguru, com o cuidado de entender o que me apresenta, tendo em conta algumas variações decorrentes muitas vezes de estados climatéricos mal definidos que na zona onde normalmente actuo podem apresentar-se um pouco diferentes do que se vê no site.
Na zona de Sines, por exemplo, quando no site referido se apresentam ventos continuados, do quadrante Norte, na ordem dos 10 a 12 nós que à partida parecem inofensivos, acontece muitas vezes, serem muito mais fortes e, caso a vaga se mostre atravessada ao vento, com alturas da ordem dos 1,5 a 2 metros, mesmo com períodos de mais de 10 segundos, estão, na maioria das vezes, asseguradas condições muito boas para ficar em terra sossegadinho, sob pena de pescas extremamente desconfortáveis e que num caso de avaria complicarão fortemente as resoluções de qualquer problema.

Num outro exemplo, relativamente às duas fotos que a seguir se apresentam, o Windguru dava indicações de alguma chuva, pouca, diminuição da vaga e muito pouco vento, sendo que se verificou o mar calmo, com alguma chuva como se vê nesta saída do porto...


... que, passado algum tempo, se transformou na calmaria que se segue e num excelente dia de mar e de pesca, tal como se lia no site.


A nossa capacidade de interpretação da informação fornecida decorre claramente da verificação in loco daquilo que vimos no site e, na nossa impossibilidade, por algum amigo que por lá esteja, contribuindo assim para, cada vez mais, sabermos utilizar a informação lida, no sentido da segurança, conforto e efectividade das nossas saídas.
Por tal, é meu hábito, em dias de condições mal definidas, mesmo não estando em Sines, telefonar para amigos de lá para me dizerem como estão as condições, de forma a compará-las com o que o Windguru me apresenta. Claro que por vezes podemos arriscar um pouco, mas atentos e sem pruridos quanto a tomar decisões do tipo: não me está a agradar e vou-me já embora porque "há mais marés que marinheiros".
O mar, segundo os mais avisados, é um dos maiores cemitérios de gente valente.

Mas, muito sinceramente, nada como um dia com vento qb, pouca vaga e já agora um pouquinho de Sol. Nestes dias, a beleza, o conforto, a qualidade e quantidade de escolhas de pesqueiros, a maior certeza de fundeio e o prazer de exercer o acto de pescar em segurança, contribuem fortemente para nos sentirmos abençoados por poder estar no mar e consequentemente para os resultados da pescaria, independentemente de alguns conceitos que apontam para melhores resultados em dias de mar mau, coisa que, podendo ser verdade, até agora não me convenceu.


Conjunto barco motor e palamenta:

Se há domínios onde até poderemos ter algumas desculpas, poucas, relativamente a capacidades de interpretação da informação, no caso do nosso barco, motor e palamenta, as ditas desculpas não são aceitáveis.
Por tal, a verificação dos níveis de fluidos, correias de ventoinha do alternador e bombas, escorridos suspeitos do motor e seus elementos, sujidade nos filtros decantadores de combustível, entradas de água salgada por aqui e por ali e até se possível, quando o barco está a nado, verificar, no caso de barcos com transmissão por linha de veios, se nada se enrolou no veio e no hélice na nossa ausência; são acções essenciais que, não garantido que se verifiquem outros problemas, prevêem à partida os que possam ser causados caso se verifiquem algumas destas situações à primeira vista.
Quanto a comportamento em navegação e considerando velocidades diversas... a aceleração, a desaceleração, a manobra, as reacções com vaga de frente, de través, de popa, com cachão grosso, com vaga larga, a posição em que se coloca quando em deriva, o barulho correcto do motor, outros barulhos normais..., são características que temos a obrigação de dominar quase de olhos fechados, no sentido de assegurarmos uma governação segura, tanto para nós, quanto para os companheiros que connosco vão, por cujas vidas somos responsáveis, assim como para podermos identificar rapidamente qualquer anomalia que também possa colocar em causa a segurança a bordo na ida para o mar, nas operações de fundear e alar ferro e na volta ao porto. Quanto maiores forem as nossas capacidades neste domínio, mais libertos ficaremos para resolver com eficácia qualquer situação inesperada, sempre passível de acontecer, em quaisquer condições e em qualquer momento fora da segurança do porto.
Relativamente ao comportamento, quando fundeado, devemos conhecer, como reage o nosso barco, principalmente em situação de vaga atravessada, de modo a mantermos uma postura, sentado ou em pé, que minimize desequilíbrios e desconfortos que tais movimentos costumam produzir, tanto no que respeita à vaga normalmente existente, quanto àquela criada pela passagem de barcos grandes, à qual devemos estar atentos, no sentido de nos salvaguardarmos de balanços inesperados e podermos avisar os nossos companheiros, eventualmente distraídos em acção de pesca, do que vai acontecer.

Relativamente a deslocamentos dentro de barco fundeado, nomeadamente quando este está a mover-se ao sabor da vaga, deveremos fazê-los agarrados aos varandins, se possível, sempre com as pernas afastadas e semi flectidas para melhor nos equilibrarmos ou reagirmos a qualquer balanço que possa provocar desequilíbrios inesperados. Já no que se refere a deslocamentos de companheiros com o barco em andamento, estes nunca deverão ser efectuados sem que o mestre da embarcação tenha conhecimento dos mesmos, sendo preferível que não se verifiquem.
Em navegação, deverá o mestre evitar a todo o custo manobras bruscas - mudanças de velocidade e de rumo - sem prévio aviso aos companheiros a bordo.
Quanto a deslocamentos do mestre, largando o leme, só deverão acontecer com o barco parado, ou se houver um companheiro a bordo que o conduza a baixa velocidade enquanto tal acontece.
Nas manobras de saída do fundeadouro ou amarração e chegada aos mesmos, deverá ser libertado o espaço para a efectuação das mesmas, cabendo tais trabalhos ao mestre, marinheiro ou companheiro conhecedor indicado pelo mestre. Num barco não há democracia, só respeito e quem manda ou decide é o mestre, ou na impossibilidade deste, quem saiba manobrar a embarcação.

As operações de fundear e alar ferro, são outros momentos em que a segurança pode ser colocada em causa, principalmente se não se estiver perfeitamente familiarizado, respectivamente, com o comportamento do barco em situação de deriva ou com a manobra.
Ao largar ferro, o cabo fica à superfície e o barco, enquanto se posiciona, não pode de forma alguma, derivar para cima deste, sob pena de se enrolar no hélice. Este tipo de acidente, normalmente de fácil resolução no caso de transmissões fora de borda ou coluna, pode ser uma dor de cabeça no caso duma transmissão por linha de veios, obrigando a parar o barco e mergulhar para libertar o cabo do hélice, ou a pedir reboque, caso o mestre não consiga mergulhar para resolver o problema, sendo que para todos os efeitos terá, na maioria dos casos, de se cortar o cabo. No caso de tal acontecer na presença de condições agrestes de mar e vento, tudo se complicará, podendo facilmente provocarem-se acidentes graves, principalmente se o ferro estiver preso no fundo e enrolado no veio e hélice do motor, ficando o barco de popa à vaga e se torne difícil cortar o cabo.
Quando em situação de alar ferro, devemos ter os mesmos cuidados, ou seja, manobrar, nunca deixando o barco passar por cima do cabo, pelas razões anteriormente referidas, o que se consegue fazendo manobras largas e longe do cabo, principalmente se o estamos a fazer com o uso de bóia ou "balona", termo muito em uso para a bóia que suporta o ferro.

Os ferros e a quantidade e adequação de cabo constituem, na minha opinião, um dos mais importantes meios de segurança existentes a bordo pela razão de que, em caso de avaria da máquina, são a forma mais segura de imobilizar o barco enquanto não se resolva o problema ou chegue o socorro. Por estranho que pareça, e sem juízos de valor, em nenhuma das fiscalizações das muitas a que fui sujeito, tanto pela Polícia Marítima, quanto pela Guarda Fiscal, foram verificar se existia a bordo o obrigatório 2.º ferro.

Que ferros, que cabo e que quantidade?

Para pescar no mar o ferro mais adequado é o que se chama, na zona de Setúbal, o grampolim. Este elemento de fundeio e segurança, consta de um veio de preferência maciço, em inox ou ferro galvanizado, onde se aplicam 4 a 5 unhas nos mesmos materiais. Tem como função prender-se ao fundo aguentando o barco e libertar-se, quando puxado, endireitando as unhas que serão posteriormente levadas à mesma posição. Importa referir que, para um mesmo diâmetro de unhas, será mais difícil endireitá-las se forem mais curtas, desde que o seu comprimento assegure a prisão em condições de mar variadas.

O ferro que teremos em uso, deverá ter capacidade para aguentar o barco preso, até ao momento em que as condições de mar e vento que o endireitem e consequentemente coloquem o barco à deriva, indiquem que é hora de voltar ao porto, isto é, se este ferro não se aguentar é porque já está demasiado vento e ondulação para estarmos no mar.
O ferro que teremos como segundo ferro, deverá ser mais pesado, rijo e capaz de aguentar o barco fundeado em condições de mar adversas, servindo essencialmente como elemento de segurança e eventualmente como ferro a usar quando queremos fundear em terrenos mais macios que solicitem mais peso para que se enterre ou até umas pequenas chapas que aumentem a capacidade de prender em areia ou lodo.
Qualquer dos ferros referidos, não devem ter peso ou potência que estejam perto ou excedam a capacidade de o barco os endireitar à força de motor.

Para que tenham uma ideia de dimensões e pesos... no caso do meu barco que tem 7,35m x 2,88m, com motor dentro de borda, transmissão por linha de veios e um peso médio de 2.700kg; uso, como ferro habitual, um varão de 90cm de comprimento e 4cm de diâmetro, com unhas de 12mm de diâmetro e 45cm de comprimento.
O 2.º ferro tem a mais, um varão com os mesmos 90cm de comprimento, mas com 4,5cm de diâmetro e aplicação de chapas triangulares nas unhas que são iguais às do 1.º.

Apresento-vos os meus dois ferros:


A ambos, foram retiradas todas as rebarbas originadas pelos cortes de material, arredondadas e alisadas as pontas, para que com eles se possa lidar sem receio de cortes, encostos ou até quedas sobre os mesmos, situações em que, caso não se tomassem tais precauções, poderiam tornar-se fonte de acidentes de gravidade assinalável.  

No que respeita ao cabo, deveremos ter, pelo menos, um comprimento superior, em 2/3, à maior profundidade onde nos deslocamos ou pescamos. Isto para que possamos assegurar um fundeio efectivo, com condições de mar e vento variadas em situação de pesca ou de avaria que obrigue ao fundeio.

Quanto à espessura do cabo, uso três porções, ligadas da seguinte forma:

- Uma base de 200m, com 8mm de diâmetro; ligada a outra porção de +/- 100m, com 10mm de diâmetro; ligada por sua vez a uma ponteira de 15m, com 16mm de diâmetro.

Porquê?

- O cabo de 8mm aguenta perfeitamente o barco e as tracções para levantar o ferro, permitindo armazenar maior quantidade de cabo, atendendo à sua espessura.
- O cabo de 10mm, também pela sua espessura, é mais fácil de manusear e ainda mais resistente a tracções e abrasões, pelo que a sua quantidade é colocada na zona, no meu caso, de mais trabalho.
- O cabo de 16mm, é colocado desde o final do anterior, até ao ferro onde a possibilidade de corte aumenta significativamente quando se fundeia em pontões altos

A ligação ao ferro é feita por mãozinha protegida com sapatilho e manilha travada

O cabo é de polietileno... aquele que flutua. Quanto à cor, intervalo com brancos e verdes em cada porção, para ter a noção da quantidade de cabo largado. Este tipo de cabo é forte, relativamente barato e, por flutuar, permite um melhor controlo do seu posicionamento face ao barco, durante as manobras de alar e fundear. 

Em termos de outros barcos, maiores ou mais pequenos e considerando outras profundidades de trabalho superiores ou inferiores, deverão salvaguardar-se as devidas proporções quer de ferros, quer de cabo.

Meios de salvação, rádio comunicações e electrónica marítima:

Cada barco, face à área de navegação para que está legalmente autorizado por tamanho, características/normas nacionais, europeias e internacionais, terá obrigatoriamente a bordo um conjunto de meios de salvação e rádio comunicações adequado e com fácil acesso.
Sinceramente, concordo que todos esses meios poderão um dia ser necessários e funcionam como um seguro de vida se... quem comanda o barco e os companheiros souberem:

- Utilizá-los
- Localizá-los a bordo

Não quero com isto dizer que todas as pessoas que vão pescar em algum barco de MT ou de amigo, tenham obrigação de conhecer tudo isso, embora mal não lhes fizesse. O que quero dizer é que deverão ter noções mínimas de tal e, sem dúvida, conhecerem a localização dos meios referidos a bordo.
Esta, outra regra que sempre cumpro... quem for comigo à pesca pela primeira vez, é sempre informado da localização, pelo menos, dos coletes de salvação, da balsa, dos fumígeneos, dos extintores e da caixa de Primeiros Socorros, já que a bóia de retenida usada para lançar, no caso de "Homem ao Mar", está à vista de todos, como se vê na foto.


Para além da localização dos meios, importa colocar algumas questões, por exemplo:

- Quem já lançou um very light?
- Quem já acendeu um facho de mão?
- Quem já accionou uma lata de fumo?
- Quem já fez funcionar um extintor?
- Quem já vestiu correctamente um colete salva vidas?

Na verdade, cada um deles tem instruções de fácil leitura, mas sinceramente aconselho a que o façam, escusando-me a indicar em que situação, mas, de preferência, de forma legal e de maneira a não incendiar nada, interferir ou induzir em erro quem quer que seja.

E quanto ao rádio VHF?

Importa usar com parcimónia e de modo efectivo, falando o necessário, numa relação curto/grosso/educado, mas falando de vez em quando, cumprindo as regras e treinando para o dia em que possa vir a ser necessário dominarmos calmamente o aparelho e o que devemos fazer e dizer em situação de emergência, sendo para tal necessário ter memorizado: canais, expressões e comportamentos adequados, que me escuso de aqui referir, atendendo a que são conhecimentos que se adquirem em curso legalmente obrigatório mas, na minha opinião, muitas vezes carentes de treino continuado após curso.

Na verdade, podemos ter o barco cheio de meios de salvação e rádio comunicações, os cursos todos tirados com boa nota, mas se não treinamos e praticamos, quando precisarmos, eventualmente a coisa complica-se.

Sonda, GPS, Radar e Piloto Automático:

O uso adequado destes aparelhos, especialmente quando conectados entre si, aumenta significativamente a segurança a bordo, quando bem utilizados com esse objectivo, tendo em conta a quantidade de informação que nos avisa respectivamente de baixios, localização actualizada em cada momento, localização de outros barcos em caso de falta de visibilidade, conforto e libertação para resolução de problemas em navegação. No entanto, tal não significa que não olhemos o comportamento da vaga, em zonas de baixios, mesmo tendo a sonda ligada; não saibamos os rumos a seguir para o ponto onde nos dirigimos ou para voltar ao porto e os escolhos que podemos ter na rota, mesmo tendo o GPS a funcionar lindamente; não conduzamos com a atenção e velocidades adequadas, quando em situação de pouca visibilidade, mesmo com um bom Radar ligado; ou, abandonemos o posto de comando, sem controlo visual da navegação, porque temos um excelente Piloto Automático, conectado aos outros aparelhos.
Quando fizermos o contrário do acima sugerido, estamos a incorrer em riscos aumentados pelo excesso de confiança em navegação e, em qualquer momento, o acidente pode acontecer, apanhando-nos completamente desprevenidos.
Eu sei que é preciso ter azar, num mar tão grande, de na nossa rota se encontrar um destroço grande e duro, um contentor caído de um barco ou até qualquer outro mais pequeno, mas igualmente contundente em caso de colisão, meio submersos, não detectados pelo radar, mas que poderíamos ter visto se estivéssemos na nossa posição de governação, atentos ao mar. Mas, já aconteceu e pode tornar a acontecer. Valerá a pena arriscar?

Senhores dos nossos conhecimento, das nossas competências, prontos a aprender mais e cumprindo as regras legais e as ditadas pela aprendizagem contínua e bom senso, chegamos ao pesqueiro, fundeamos ou derivamos em segurança e iniciamos a acção de pesca, sem ou quase sem regras escritas...

Que regras estipular ou que cuidados ter?


A maior parte dos acidentes, mais ou menos graves, que tenho tido, testemunhado ou sabido que aconteceram, em situação de acção de pesca lúdica embarcada, estão muito longe de quedas à água, constando essencialmente de quedas no poço ou pancadas por aqui e por ali derivadas dos balanços do barco, cortes, anzóis espetados, picadas por espinhas de peixes diversos ou mordeduras destes aos menos avisados, mais descuidados ou apressados na acção em si.
Para muitos destes acidentes, por experiências vividas, contribuem fortemente, entre outros, os seguintes factores:

- Manuseamento deficiente de materiais
- Arrumação deficiente de malas térmicas, sacos e outros materiais a bordo
- Materiais inadequados à acção.
- Modo inadequado de transporte de materiais em navegação
- Vestuário e calçado inadequado
- Posturas em parado ou formas de locomoção, descuidadas, quando se vai à cabine ou ajudar um companheiro a outro lado do barco.
- Limpeza deficiente da superfície do poço do barco onde nos encontramos ou deslocamos, em acção de pesca ou navegação.
- Afastamento dos acessórios para subir o peixe a bordo ou libertá-lo dos anzóis, quando em presença de determinados peixes
- Desconhecimento sobre a perigosidade e forma de lidar com determinados peixes
- Falta de calma ou pressa na resolução de pequenos problemas.
- Excesso de confiança, a qualquer nível, do mestre e/ou do pescador.

Quem olhe para o conjunto de factores desfiados, até pode pensar: "este gajo é louco...", então agora vou para ali cheio de medo que me aconteça alguma coisa e tenho sempre que estar a pensar em tudo isto?
Ao que responderei: nem pensar!

Importa, quanto a mim e porque resolvi atirar-me para este escrito, chamar a atenção para tudo aquilo que já vi ser causa de acidente, complicar acerca de tal, o que já fiz, e tentar simplificar com um conjunto de regras que sigo, incutido por cada corte, cada queda..., sofridos na pele, observados ou acontecidos a outros.
Então vamos a isso...

Conceitos e regras, relacionados com materiais e arrumações a bordo:

- Deve proceder-se a uma escolha criteriosa de materiais, desde os necessários para fundear ao anzol, de modo a não ter excesso de itens a bordo e/ou materiais que pela sua inadequação possam provocar acidentes. Por exemplo, uma faca que ao ser largada, em cima de uma qualquer placa de corte de iscas, fique por norma com o gume virado para cima, não serve. Isto porque, em caso de uma reacção de apoio, derivada de um desequilíbrio provocado por balanços do barco, implicará certamente um corte profundo na mão ou área com que entrou em contacto.

- Todos os materiais deverão estar arrumados/colocados de forma a que os seus utilizadores, tenham acesso rápido, evitando baixar-se e levantar-se continuamente e com o mínimo de deslocação dentro do barco para os seleccionarem e utilizarem.

- As arrumações e colocações referidas, deverão ter como principal base de escolha o máximo desimpedimento do poço do barco e da zona em que cada um pesca, no sentido de evitar deslocações, contornando-os ou passando-lhes por cima, e, os consequentes tropeções que terão sempre consequências que não dominamos.

-  Em navegação, na ida, volta ou quando se muda de pesqueiro, os conjuntos cana/carreto, deverão sempre ser transportadas, de preferência, com os anzóis presos, sem chumbadas e colocadas em caneiros do tipo que se vê na figura...  


... na ausência destes, o transporte deverá efectuar-se de forma a que não escorreguem, caiam ou deixem sair os anzóis, contribuindo, quando não se tiverem estes cuidados, para situações do tipo: chumbadas que balançam e acertam em alguém ou alguma coisa; anzóis que se espetam por aqui, por ali ou em alguém, e, talvez ainda mais grave, suscitarem a reacção rápida e reflexa dos seus proprietários, no sentido de as salvarem, acabando eventualmente estes por ficarem sujeitos a quedas graves e a tudo o que estas possam originar.

Conceitos sobre vestuário:

- Quanto a vestuário, deverá ser leve, com elementos frescos e mais quentes, em camadas sobrepostas e fáceis de vestir ou despir, de forma a que possamos ir despindo ou vestindo, conforme as temperaturas forem subindo ou baixando ao longo do dia.
Outra condição me parece importante... deve ser minimizado o aumento de volume corporal, assim como partes muito largas ou penduradas e apetrechos do tipo corta unhas, tesouras, facas, desembuchadores..., amarrados e a caírem pendurados, sem controlo sobre as suas prisões por aqui e por ali. Até pode ser giro para a foto, mas não é funcional e, mais dia, menos dia, vai tornar-se perigoso.
Quanto a calçado, dependendo do barco, deverá ter boa aderência, ser leve, relativamente impermeável e fácil de retirar. Sapatos de desporto velhos, botas de mergulho ou Crocs de Verão ou Inverno, são os meus preferidos.
Pescar descalço ou com chinelos abertos, mesmo no Verão com mar calmo e calor, é desafiar a sorte quanto a golpes e bocados de carne a menos originados por tropeções por aqui e por ali; espinhas de peixes que se espetam devido a peixe que possa cair do anzol ou que estrebucha no convés; já para não falar de uma Moreia ou Safio que entre a bordo, entre outras inúmeras possibilidades.
O chapéu, essencial em todas as saídas, na minha opinião, deverá ser de aba larga, fresco para o Verão, quente para o Inverno e nesta última condição coadjuvado por barrete ou capuz de uma Sweet-shirt, para os dias mais frios, tapando assim o pescoço.
O impermeável, deverá adequar-se mais à protecção da água que à protecção do frio, atendendo a que a roupa por baixo, tratará desse assunto, mantendo assim vivos os conceitos de leveza e mínimo aumento de volume corporal.

Conceitos sobre postura em acção de pesca e deslocações a bordo:

- Sobre as posturas corporais, principalmente em situação de pescar em pé, de deslocações dentro do barco, execução de manobras de fundear ou alar ferro e independentemente das condições de mar e vento, deveremos ter sempre em conta o seguinte: assegurar que a nossa base de sustentação é larga e de alguma rapidez de reacção, sendo que para tal as pernas deverão estar sempre com algum afastamento entre elas, com alguma flexão ao nível dos joelhos e com um pé ligeiramente à frente do outro. Se nos habituarmos a ter estes cuidados, aumenta significativamente o nosso equilíbrio em qualquer situação surgida a bordo, principalmente quando não conseguirmos apoiar-nos em cabines, varandins ou outras pegas disponíveis para o efeito, as quais deverão ser sempre utilizadas quando existentes ao longo da deslocação que vamos fazer.

Conceitos sobre cuidados a ter na relação com as capturas:

- Ao entrarmos num barco, devemos de imediato verificar a aderência ao chão que pisamos, limpando-o ou exigindo a sua limpeza caso esteja escorregadio.
Também após a captura de determinados peixes, tanto pelas suas características, quanto pelo facto de terem libertado sangue ou outros fluidos, deveremos lavar a zona afectada e verificar se continua aderente.
Principalmente com Safios, Moreias e Raias, a limpeza da zona onde caíram e com eles lidámos vai ter de ser obrigatória devido às substâncias relativamente fluídas, viscosas e escorregadias que sempre libertam. No caso de outros peixes, pelo menos a verificação deve ser feita.

- Na lidação com as capturas, desde a subida a bordo, até à colocação na mala térmica, deveremos ter em consideração que, entre outras situações, qualquer peixe poderá provocar-nos, cortes, espinhas ou anzóis espetados, dentadas mais ou menos graves e até, em alguns casos (Peixe Aranha, Rascasso...), picadas venenosas que nos podem levar a consequências graves, impossibilitando-nos ou diminuindo-nos a capacidade de reacção para quaisquer outras situações que possam acontecer.
Para prevermos problemas deste tipo, devemos antes de mais ter à mão os seguintes materiais:
- Uma faca bem afiada, que espete, com uns 15cm de lâmina grossa, que não se feche e que ao ser largada em qualquer superfície mais ou menos plana não fique com o gume virado para cima. Uma faca deste tipo, assegura que poderemos lidar com qualquer peixe, independentemente das suas dimensões, sabendo que não parte a lâmina, não se fecha se tivermos de com ela espetar o peixe e que a nossa mão ficará com um afastamento razoável dos movimentos do peixe. Se for um pouco maior, também não se perde nada.
- Um alicate de pontas direitas ou torcidas, forte e com uns 25 ou 30cm, para retirar anzóis ou agarrar certos peixes pela boca, mantendo-os afastados de nós.
- Um pano grosso e de dimensões consideráveis que servirá para limpar o chão e para podermos envolver os peixes, enquanto lhe retiramos o anzol da boca, diminuindo as hipóteses de nos espetar espinhas ou o anzol, ao escorregar da mão. Este pano poderá ainda servir para apoio quando libertamos a linha que se prendeu ao fundo, se bem que, quando a lidar com linhas mais potentes, o uso de luvas grossas será o mais indicado. Também um outro pano com o qual limparemos as mãos continuamente, para que não escorreguem ao manusear materiais.
- Um desembuchador de anzóis, considerando a sua utilização para peixes até 1 a 1,5kg.

Na lidação com peixes mais pequenos, principalmente Sarguetas, Ganopas e Peixes Piça é aconselhável, agarrá-los após envolvidos pelo pano e retirar-lhes o anzol com a outra mão, usando ou não o alicate ou o desembuchador, conforme a situação em que vem espetado. Estes são peixes que facilmente nos espetam as suas espinhas e, no caso do Peixe Piça, por ser muito escorregadio, é usual escapar-nos da mão, espetando-nos o anzol durante esse movimento.

Quando em situação de peixes maiores, como os Safios, Moreias, Pargos, Douradas e outros, há um primeiro cuidado que sempre deveremos ter: ao chegarem à superfície e, durante a luta final, enquanto não suportados pelo enxalavar ou bicheiro, podem soltar-se ou partir a linha que, em tensão e funcionando como elástico, disparará a chumbada e anzóis para cima a uma velocidade significativa podendo provocar acidentes graves ao pescador em luta ou a outros que estejam ao lado e se ponham a jeito. Também a pescar com amostras, tal facilmente poderá acontecer, acrescendo a gravidade quando mais pesada for a amostra ou o peixe do qual esta se liberta. Portanto, tanto o pescador, quanto quem esteja a ajudar, deverão desviar a cara e os olhos da trajectória possível e estarem atentos para se defenderem desta possibilidade.
No caso dos Safios e Moreias, todos os barcos deveriam ter a bordo um bidon alto de boca larga e fechada face ao seu diâmetro máximo, onde estas espécies seriam directamente depositadas, logo que elevadas ao poço, sendo o estralho cortado. Uma acção deste tipo evitará perdas de tempo e riscos desnecessários, decorrentes das loucas movimentações, características destas espécies, assim que caem no poço de pesca.
Os Pargos, Douradas e outros, poderão ser depositados no poço, usando-se o pano grosso e o alicate para a sua libertação ou o corte do estralho caso venham embuchados.
Quando se pretenda tirar foto, é importante aguardar que percam um pouco de vida e nunca introduzir as mãos muito dentro das guelras, sob pena de cortes importantes, quando estes peixes ainda vivos afastam e apertam os opérculos e se movimentam. Caso um dia capturem um Robalo é bom que os menos informados saibam que os opérculos destes, para além do movimento, têm espinhos distribuídos ao longo da sua orla, sendo que tentar agarrá-los por aí, quando em vida e com mãos desprotegidas, equivalerá a golpes importantes.
Sobre outros peixes, haveria ainda muito a dizer acerca de cuidados de segurança, coisa que não vou fazer por aqui, tendo unicamente deixado alguma informação sobre os mais usuais, no sentido de chamar a atenção, em termos de segurança a bordo, para o conceito relacionado com a necessidade de adquirir conhecimentos sobre as espécies com que poderemos, passo a passo, vir a lidar.
Se não se conhecer determinado peixe, há que assumir e perguntar. Não vale a pena arriscar.

Conceitos relacionados com o comportamento do mestre e/ou pescador:

Não menos importantes que tudo o que atrás se falou e tendencialmente muito ligados ao conhecimento, competência e bom senso, são os conceitos sobre os comportamentos a bordo talvez os que influem mais na segurança.
O pescador e o mestre, com responsabilidades acrescidas para este último, devem comportar-se com calma, sem pressas e sem excessos de confiança ou "valentias parvas", tendo em conta que todos estão em contínua aprendizagem e que em algum momento serão confrontados com situações novas que terão de resolver, através da leitura destes imprevistos e necessária resolução com base nos conhecimentos competências e bom senso adquiridos até ao momento. Para tal importa ainda que estejam nas melhores condições físicas e psicológicas possíveis, sendo adequado:

- Não se alimentar de forma copiosa e demasiado "regada" no dia anterior
- Libertar fezes, antes de embarcar (desculpem a franqueza)
- Cumprir horas suficientes de sono
- Moderação ou ausência de consumo de álcool durante o tempo que se está no mar. Se houver um acidente, para além de lidar com ele, ter-se-à de lidar com quem quer que não esteja na posse de todas as suas faculdades físicas e mentais. Principalmente neste caso, o mestre terá responsabilidades acrescidas.

Para além de tudo isto que, pessoalmente, me obrigo a cumprir, ainda uso - por obrigatoriedade legal recente e mal grado me aumente o volume corporal e bata em tudo o que mexe ou está parado, tornando-se extremamente incómodo e na minha opinião, fonte de acidentes a bordo - o auxiliar individual de flutuação, sobre o qual já emiti opinião em artigos anteriores, não cabendo na minha visão de bom senso quando aplicado à acção de pesca lúdica embarcada, com várias pessoas a bordo e exceptuando incapacidades individuais de vários tipos, nomeadamente, não saber nadar ou estar muito pouco familiarizado com o meio aquático.


Muito fica por dizer sobre segurança, esperando no entanto que o que para aqui fui escrevendo contribua para realçar pormenores relacionados e principalmente a necessidade de ordenarmos conceitos e consequentemente melhorarmos comportamentos a exibir antes, durante e após a prática da nossa actividade

Mudando de assunto, mas muito bem comportado e cumprindo com as regras legais e as que, não estando escritas, por aqui desfiei, as pescarias foram andando desde a última entrada até este último Sábado, atacando principalmente os Pargos e Douradas que já começam a dar um ar da sua graça, caindo mais à Sardinha, ou por efeito desta, do que ao Caranguejo, deixo-vos com as imagens...

O João Martins e o seu Sargo Veado:


A Dourada do Zé Beicinho, num dia em que elas andaram por lá, pode dizer-se... com alguma regularidade.


O Zeca e uma das suas Douradas:


O Maior do dia, pela mão do Zé Beicinho:


Um dos quatro que calharam ao "Gajo do Sapato" (dois da mesma "equipa" e dois mais pequenos):


O Nuno Mira, com um Sargo de bom tamanho...


... e também com uma douradita:


Douradas que entraram, em todos os dias, já com a tarde bem lançada, permitindo olhar o Por do Sol...


Finalmente, a cereja no topo do bolo, com este Pargo Dourado, capturado pelo Tózé.


Foram boas pescas, sem serem extraordinárias, muito sofridas por via do peixe miúdo, sempre activo, obrigando-nos a usar iscas grandes de Sardinha e Caranguejo que consumiam em segundos, permitindo entradas de peixe intervaladas que compuseram caixas bonitas e sempre com condições climatéricas magnificas.

Quanto ao uso dos auxiliares individuais de flutuação, todos cumprimos com a lei, excepto no momento das fotos, em que os retirámos unicamente por questões estéticas, sendo o Zeca o único que quis mantê-lo em imagem. Considerando a falta de regulamentação, o estado do mar que se verificava e o não estarmos em acção de pesca enquanto tirávamos fotos, espera-se que daí não venha mal ao mundo!?

Sobre o assunto principal desta entrada, fica claro que, na minha opinião, importam muito mais os comportamentos responsáveis, baseados no conhecimento, competência e bom senso que aqueles ditados unicamente por algumas leis que não educam, antes nos tentam fazer sentir rapazinhos mal educados e irresponsáveis.


Boa tarde a todos os leitores

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Mundial de Pesca Embarcada de Alto Mar e... leiam por favor.


Não sou muito ligado à competição de Pesca de Alto Mar, em Barco Fundeado; mas, respeito o esforço dos atletas, dos organizadores, patrocinadores, marcas, importadores, lojistas, apoiantes, em suma, de todos aqueles que trabalham em prol da modalidade e da competição a ela ligada.

Não bastava a pouca divulgação que teve este evento, obrigando-me a uma "mea culpa" por também não ter falado no assunto por aqui; mas, eis senão quando, o jornal "Record", coloca a notícia que se segue:


Depois de ter conhecimento da mesma, através duma publicação no site Porto de Abrigo, senti necessidade de falar sobre o assunto.

Repare-se que a foto é de um momento de eventual competição de águas interiores, contra o que nada tenho, mas certamente não gostariam os pescadores presentes de ter uma imagem dum grupo de pessoal, num barco, a pescar no mar, ilustrando este seu momento.

Se repararem, as fotos estão indicadas como sendo cedidas ou pertencentes à Federação Portuguesa de Pesca Desportiva, devendo antes ter sido cedidas por, ou solicitadas a: Federação Portuguesa de Pesca Embarcada de Alto Mar.

Não faço ideia como foi isto acontecer, mas o jornalista, mesmo que não seja pescador, se tivesse com algum cuidado e atenção, veria certamente que a foto nada tem a ver com alto mar ou embarcações, pelo que me atrevo a dizer que esta notícia passa, entre outras nada boas, a seguinte imagem: quem a montou e quem a deixou publicar, são incompetentes. Talvez sim, talvez não... mal me quer, bem me quer.

Outra imagem que passa, tem a ver com a pouca importância dada à modalidade pelo dito jornal, não retirando tal, o rótulo de incompetência deixado anteriormente no ar, o qual, só falta colar definitivamente.

A notícia é pequena e rápida... ao menos podia ser ilustrada de forma profissional e competente, face à modalidade e à importância do evento para os seus praticantes que... merecem respeito como qualquer outro atleta de alta competição.

Já desabafei sobre este assunto e antes de me despedir quero deixar os meus sinceros parabéns aos Atletas Portugueses, pelo honroso segundo lugar, fruto certamente de muito trabalho, muita dedicação..., bem visíveis, atendendo às excelentes prestações a que nos têm habituado.

Boa noite a todos os leitores.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Comunicado da ANPLED e a "luz ao fundo do túnel"


Não seria honesto da minha parte, depois de toda a conversa que por aqui desenvolvi sobre o assunto da obrigatoriedade do uso dos "auxiliares de..." e à qual não retiro uma palavra, ficar agora calado e não divulgar o comunicado da ANPLED que, enquanto membro do Grupo de Trabalho, e entre outras entidades, solicitou e esteve numa reunião, no passado dia 5/Set, com o Sr. Secretário de Estado, para discussão dos assuntos relacionados com o acordo inicial, não constantes ou alterados no decreto lei 101/2013, documento que vos deixo para consulta: Comunicado da ANPLED .

Face ao referido no comunicado, importará, na minha opinião, ter em conta cinco apontamentos:

1. Parece-me razoável, caso seja de facto assim publicado
2. Espera-se que desta vez as portarias correspondam ao acordado, coisa que, atendendo ao já acontecido e etc., só vendo escrito se poderá considerar efectivo.
3. Caso tudo aconteça conforme consta do comunicado, gostaria de ver as Capitanias dos Portos que tão rapidamente arranjaram forma de ir informando as comunidades de pesca lúdica embarcada sobre o início da fiscalização, socorrendo-se da lei geral; sejam igualmente ágeis a actualizar a informação, se e logo que recebam o documento referido.
4. O comunicado, por si só, não altera nada, obrigando-nos a aguardar por informações, de preferência editais das capitanias, ou pela saída das portarias. Até um destes momentos, os "coisos" deverão ser utilizados, tal como até agora, sob pena de ficarmos sujeitos a algum percalço.
5. A quem ainda não comprou um "auxiliar de..." mais confortável (e mais caro) para se defender do desconforto, aconselha-se a aguardar pela saída de alguma das informações referidas, via Capitanias, portarias ou ainda, consultando, por escrito, o Sr. Comandante ou o Sr. Chefe da Polícia Marítima do Porto em que desenvolve a sua pesca lúdica embarcada.

Posto isto, fica o agradecimento ao Grupo de Trabalho, pelo envolvimento relacionado com a pesca em geral e com este assunto em particular.

Entretanto, fui pescar na companhia do meu amigo João Martins, meio danado e desconfortável com esta história, conseguindo alguns bons peixes, dos quais poucas fotos tirei. Nada de mais, para além de uns 5 "Parguitos", um outro igual à amostra; quatro, um tudo nada mais pequenos; e, uma Dourada de quilo e "teca".


Sobre a questão dos "auxiliares..." fico a aguardar as novas, que espero... sejam boas.

A ver se me concentro na pesca e escrevo sobre assuntos mais agradáveis.

Até lá, uma boa tarde a todos os leitores.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Diário ensombrado pelo Decreto Lei 101/2013


Dia 15 de Agosto de 2013:

Estou de férias com a minha mulher e saímos para pescar.

Olho o mar, calmo; vejo a minha cara metade a gozar esta manhã espectacular, descontraidamente sentada na caixa térmica, enquanto manobro a baixa rotação, aquecendo a máquina. Fixo os olhos na cana e no anzol já preparados para a acção de pesca e passa-me pela cabeça o famigerado Decreto Lei e o desconforto a que estaremos sujeitos quando formos obrigados a usar uns ditos "auxiliares individuais de flutuação" conforme vêm descritos, assim como, no dinheiro que terei de gastar para adquirir o tal artefacto para mim e para a família que comigo pesca muito poucas vezes no ano, mas a quem não quero sujeitar ao uso dos normais coletes de salvação, muito bons para um caso grave e certamente esporádico, mas completamente impróprios para envergar, durante a acção de um dia de pesca. Mas que raio... então não somos capazes de decidir quando usar os coletes, tendo em conta as condições de mar e vento existentes? Temos de andar com aquilo vestido em acção de pesca... porquê?
Barco fundeado, gente diversa a bordo que sabe nadar... não entendo!?

Os pensamentos já me arredavam do nosso objectivo de um dia bem passado e abandonei-os de imediato, pensando que só seria confrontado com isso daí a 10 dias, momento da entrada da lei em vigor, ou até mais tarde se não saíssem as portarias regulamentadoras. Portanto, para quê estar já a martirizar-me? Não valia a pena e... pensei no momento.

A zona de pesca eleita estava perto e, enquanto sondava na procura do pesqueiro mais interessante, começou a instalar-se uma neblina que mais tarde se definiria como nevoeiro, não muito cerrado e extremamente agradável, tanto por alguma mística que se sente quando envolvidos por ele, tanto pela temperatura que baixou àquele nível certinho de, em calções e camisola de manga curta, não se sentir frio, nem calor, só silêncio... uma delícia.

A acção de pesca propriamente dita começou, com sardinha a descer, pendurada nos anzóis em postas fartas que iam sendo consumidas, primeiro tímida... lentamente e, passado algum tempo, com uma rapidez assinalável, acontecendo a espaços a entrada de alguns peixes que foram animando a calma manhã.
Para além das Cavalas que este ano não dão descanso, uns Parguitos de quilo foram fazendo a sua entrada no poço, intervalados com um ou outro Sargo de bom tamanho, assim como uma Dourada, com perto de quilo e meio que, pela mão da Dina, minha mulher, abrilhantou a pescaria, deixando no ar o prenúncio de que algo melhor e maior poderia aparecer. Isto porque, atendendo à observação contínua em jornadas de pesca, quando para além do consumo rápido da isca se captura tal variedade de espécies, tendencialmente o pesqueiro é passível de nos dar alegrias maiores. Não me enganei!

Alguns minutos passados, com pesqueiro morno, em que nem Cavalas entravam, fazendo-me desconfiar e consequentemente concentrar na ponteira da minha cana, a Dina chama por mim e vejo a sua cana toda dobrada, seguindo-se saída importante de linha em direcção ao areal de Morgavel, indicando bicho grande que, não tendo mais que 28 metros de fundo, quando ferrado, tentou a sua sorte procurando distância do que o pressionava.
Apelei à calma, referindo que o carreto tinha a embraiagem tarada para a sua força, mas a D. Dina não quis arriscar e insistiu em passar-me a cana, coisa que acabei por aceitar, encetando uma luta que, não sendo para mim nova, se revela sempre um momento alto de uma jornada de pesca, assim como, por mais que a repitamos, nunca nos deixa indiferente, por incerteza da captura, até que o nosso interlocutor seja elevado ao poço da embarcação.
Depois da aquisição do bicho e após aceso debate sobre quem tira a foto com o peixe... os dois, quem ferrou, quem lutou e, embora eu achasse que no mínimo seríamos os dois a tirá-la, a moça achou que não e aqui estou eu, com ar de poucos amigos (talvez por via do debate), a mostrar o animal... um Pargo Dourado que se viria a verificar ter 6,000 quilos certos.


Insistimos mais uma horita, labutando no duro para tentar outra captura do tipo, mas a pesca já estava feita e voltámos ao porto, para tratar do barco. do peixe e de nós, já que a filha e a neta chegavam ao cair da tarde para passar uns dias connosco e tínhamos história para contar.

Os dias foram passando, com praia, família, brincadeira com a neta que solicita continuamente e, à noite, sempre visitava o blogue, olhando a anterior entrada - a tal sobre o Decreto Lei... - respondendo a quem comentava, tornando-se estes momentos um pouco azedos, embora necessários considerando a importância de perceber o porquê daquilo, o que as portarias virão a considerar como "exercício da pesca lúdica embarcada", em termos de período, ou o que para aí virá de definição de "auxiliares individuais de flutuação"?
Enfim... momentos menos bons, muito pela pergunta que sempre me fica: Porquê e para quê, considerando as características da actividade e o que, em termos de segurança, obrigatoriamente já temos a bordo?
Mas adiante...

Dia 22 de Agosto de 2013:

Dia do Zé Beicinho... o homem anda a trabalhar aos Domingos e pesca... nem a tem visto, pelo que combinámos que o levaria e ao Quiroga neste dia, mas só depois de trabalhar a hora do almoço, pois sem ele lá pelo restaurante, o peixe assado, sendo bom, não é bem a mesma coisa.
Resolvi ir de manhã testar uma zona onde supostamente poderiam aparecer uns "cabeçudos" e umas Douradas, atendendo à época, e, para lá me dirigi, pensando inicialmente que, se desse com peixe, lá os levaria já com pesqueiro feito.
Quando me aproximo da zona eleita, deparo com um navio de contentores fundeado, ocupando toda a zona em que pretendia sondar, escolher pesqueiro e pescar... saiu-me uma asneira que não transcrevo e veio-me logo o Decreto Lei à cabeça, como se de comida que volta à boca se tratasse. Enfim... o navio não tem culpa e havia que decidir o que fazer.
Ir para mais longe não seria uma decisão acertada, pois teria de voltar por volta das duas da tarde para ir buscar o pessoal. Voltar para mais perto era uma hipótese, mas já estava com os azeites e só havia uma forma de tal me passar... procurar pesqueiro novo sem perder os passos dados. A zona tinha um aspecto rico e algum pesqueiro com bom aspecto se havia de encontrar, contribuindo certamente a concentração na procura para me limpar a alma.

A sondagem iniciou-se, afastando-me para Oeste do navio e descrevendo linhas paralelas dos limpos para as zonas de pedra e vice-versa, tendo em conta o rumo da deriva já detectado.
Ao fim de uma meia hora, dou com um limpo aos 52 metros que passava de forma agreste para um pontão aos 43, evidenciando alguma actividade na base deste e que por estar tudo alinhado com o rumo da deriva me permitiu um fundeio quase milimétrico, largando o ferro na beirada contrária do bico e ficando a pescar mesmo em cima da base do pontão. Excelente... pensei.

A acção de pesca iniciou-se com os meus sentidos todos alerta, fruto da curiosidade que sempre me enche quanto actuo sobre um pesqueiro encontrado pela primeira vez e me testo quanto aos conhecimentos que julgo ter, fruto de muitas vitórias e não menos derrotas, sempre descascadas ao pormenor.
Certo é que o pesqueiro começou a dar um ar da sua graça, com a entrada de Safias pequenas, algumas Choupas, Carapaus azuis, intervalados com alguns momentos de espera em que as iscas levavam um pouco mais de tempo a serem consumidas, indicando talvez a proximidade de outros peixes quiçá mais interessantes.
Dois toques intermitentes, mais separados e fundos que o normal, fizeram-me ferrar alto e iniciar uma luta com peixe melhor, sem ser nenhum monstro e com um comportamento idêntico a Pargo que se revelou ser um Sargo Veado com perto de dois quilos, sem direito a foto porque se aproximava a hora de ir buscar o Zé e o Quiroga e não havia vagar.
O pesqueiro estava a dar um ar da sua graça e, a espaços, entraram mais duas Bicas, ambas com um quilo e pouco, isto já na altura em que tive de levantar ferro para vir buscar os convidados. Paciência... um dia destes volto cá e testo o pesqueiro a sério.
Perguntarão os leitores... oh homem, então se a coisa estava a dar porque não volta lá com o pessoal que vai buscar?
Ao que responderei... por duas razões!
Primeira, porque nestas alturas de marés vivas, o comportamento de um pesqueiro pode mudar de um momento para o outro, por via da entrada de aguagens, sendo que se lá estivermos poderemos continuar a trabalhá-lo e ver o que acontece. Neste caso, iria perder contacto com o pesqueiro durante perto de uma hora, tornando-se o risco de lá chegar e "levar com a cara na porta" demasiado elevado.
Segunda, porque iniciando-se esta segunda parte do dia, por volta das 15.00 horas, era importante maximizar o tempo útil de pesca e tendencialmente, face à época do ano, as hipóteses de tal acontecer, com resultados positivos e em pesqueiros mais próximos, afiguravam-se apelativas. Por tal, fui buscar o pessoal e procurei pesqueiros conhecidos ali mais perto do porto, esperando ter optado bem.
Não foi mau de todo, principalmente no segundo pesqueiro escolhido, após um primeiro que embora dando uns três Parguitos para o jantar se revelou em fim de produção, obrigando-nos a escolher pescar um pouco mais fundo e permitindo ao Zé Beicinho "tirar a barriga de misérias", com este que se revelaria o melhor exemplar do dia.


O Sol já procurava a linha do horizonte, marcando um mar estanhado que já se sabia seria alterado por ventanias nos próximos dois dias, obrigando a descanso do guerreiro e limpeza de armas, intervalados com conversa de pesca e certamente com discussão sobre o incontornável tema do momento... aquele dos números, com barra lá pelo meio. Pior que tudo... o próximo dia de pesca seria 25 de Agosto, ou seja, o dia de entrada em vigor daquela "coisa", em que atendendo a não estar ainda regulamentada pelas anunciadas portarias, pensava eu, nada se havia ainda de passar.

Mas fiquemos para já com o Pôr do Sol desta tarde magnifica, em que a expressão "auxiliares individuais de flutuação" se revela com um significado ainda mais estranho, passível de estragar a paisagem e o momento. 


24 de Agosto de 2013:

Dia de sequeiro por via do vento fresco que se fazia sentir, permitindo tratar do material, gozar a calma do porto de recreio e vir por aqui responder a comentários à entrada anterior, os quais aconselho que leiam, com especial atenção para os do Carlos Botelho que teve o cuidado de saber pormenores, junto do Sr. Comandante do Porto de Sines, sobre o que poderia acontecer no dia de entrada em vigor do Decreto Lei do meu descontentamento e que, de algum modo, explicam o que vos contarei em seguida... mas vamos por partes.

O Sol já ia alto quando acordei e o vento da manhã, já com alguma frescura, bafejou-me agradavelmente assim que abandonei a protecção da cabine, como que avisando sobre a sua disposição de se instalar para mais tarde, impossibilitando uma pesca confortável a quem entendesse desafiá-lo neste dia.
Andei por ali, tratando do material, conversando com este e aquele, tomando um café no quiosque ali perto, sempre a ver o mar e a sentir o vento, aguardando que o Sol tomasse a posição ideal que me permitiria ver melhor o ecran do computador lá no poço do barco e, de algum modo, fugindo inconscientemente à obrigação que desencadeei de falar sobre o "assunto desagradável"... não sei se me faço entender!?
Entretanto, resolvi almoçar lá pelo poço do barco, um meio frango, acompanhado de pão fresquinho e umas batatas fritas caseiras, acompanhado de uma garrafinha de Magos (0,25l)... qual manjar gourmet, em restaurante da moda.

A tarde passei-a por ali, sendo que quando já o Sol caía por cima do pontão protector, recebo um telefonema do meu amigo Fernando Fontes que sabendo das minhas intenções de ir pescar no dia seguinte (25), me informava que a Polícia Marítima tinha andado por ali em fiscalizações de barcos que tinham saído, referindo que no dia seguinte, supostamente o 1.º da entrada em vigor do "tal documento", já iriam actuar sobre a obrigatoriedade referida, e mais... tínhamos de envergar o dito cujo, desde que saíssemos até que chegássemos. Mais me sugeria o Fernando que levasse um colete auto insuflável que ele tinha (dos mais ligeiros), para que não se tornasse tão desgraçado o meu 1.º dia de contacto com esta obrigação.
Sinceramente boa gente... entrei em ebulição.
Já? Pensei para comigo. Mas então não esperam pelas portarias regulamentadoras? Qual é a pressa?

A resposta, iria tê-la no dia 26 de Agosto, mas antes, resolvi aceitar o colete do Fernando, não fosse o diabo tecê-las.

Dia 25 de Agosto:

Última saída de pesca, antes de voltar para Setúbal.

Acordo e dou de caras com o colete salva vidas que o Fernando me emprestou, o que me fez pensar de imediato em arrumar as coisas e ir embora para casa.
Pela primeira vez na minha vida de pescador fiquei sem vontade de sair para o mar, o que se agravou quando saí para o poço do barco e dei de caras com a embarcação LUISANA que, dentro do porto, saía para o mar, com todos a bordo, envergando aqueles coletes que temos na embarcação, grandes, incómodos, enormes e espelhando no rosto um misto de desconforto e incredulidade face à situação, num dia de mar calmo, considerando ainda a saída de uma barra que só em dias muito maus poderá ter algum perigo, dias esses em que ninguém sai.
Pensei de imediato... se nós que vamos pescar temos de envergar o penduricalho, logo que saímos da amarração, então porque não o têm de fazer os nautas de recreio que vão passear de barco? O perigo não é o mesmo para uns e outros?
Fiz um esforço para não desistir e fui buscar a isca, pensando que as hipóteses, para além de gritar contra, eram, para já, adaptar-me à situação ou sujeitar-me a uma coima apressada, tendo em conta que, atendendo à complexidade das nossas leis, alguma forma haveria para justificar um auto sobre uma obrigatoriedade tão recente e simultaneamente com explicação e regulamentação, no mínimo deficiente.

Tudo a postos, envergo o colete, adapto-o ao meu corpo, solto o barco da amarração e saio para uma baía calma, num dia de mar também calmo, adaptando a nova distância ao leme, logo após este se ter enfiado no colete duas ou três vezes, retirando-me o gozo habitual duma saída.
Decido-me por um pesqueiro de baixa profundidade, novo e muito perto daquele onde eu e a minha mulher tínhamos feito a pescaria no primeiro dia relatado neste pequeno diário.
O pontão sobe aos 24 metros, podendo considerar-se alto, tendo em conta a profundidade média da zona - 30 metros - tinha reparado nele na última vez, pensando na altura que teria de testá-lo, coisa que já tinha programado fazer neste dia, prevendo o mar trapalhão que poderia estar lá fora por via das ventanias dos dois dias anteriores e não me enganei... nem quanto à actividade que encontrei na beirada aos 28 metros, nem com o mar trapalhão lá de fora que contribuiu para que a maioria dos barcos que pescavam, passado pouco tempo, procurassem mares menos tormentosos.
Sondei, decidi o fundeio e andei para a proa para preparar o ferro, antes de efectuar a manobra de fundear. Nesta altura, e por estar só a bordo, pensei que o colete, aqui sim, era uma segurança, mal grado ter ficado preso no caneiro lateral quando passava para a proa, mas tudo bem, atendendo a estar a solo, seria uma adaptação aceitável.

O barco aproou ao fundeio, o cabo esticou e fiquei em cima do pesqueiro escolhido, com uma calmaria podre, num barco que nem mexia e com um colete que já me fazia calor e pesava. É verdade caros leitores, mesmo aquele mais ligeiro pesa e sente-se o peso pouco tempo depois de estarmos com ele aos ombros.
A teimosia pensada que me é peculiar, salvou-me de levantar ferro e voltar ao porto e a casa, o que, sinceramente, era a vontade que tinha. Mas decidi ficar e iniciei uma acção de pesca com uma disposição desesperante, feita de vontade de não ser vencido por um artefacto e face à delícia de actuar sobre um pesqueiro tentando capturar o que perseguia.

Iscas para baixo, anzóis limpos para cima, novo corte de iscas, medindo a distância ao tabuleiro onde o faço, evitando que o colete se encostasse e por lá se prendesse ou ficasse todo borrado de sardinha.
Os toques tinham alguma agressividade, indicando actividade interessante e a possibilidade das capturas que gostamos. Não fora a irritação latente derivada de estar a suar por todos os poros na zona de assentamento do colete, e não só, a coisa era perfeita. Mas concentrei-me na pesca... até para tentar encarar o artefacto como algo que não estava lá.
O primeiro Parguito subiu, depois um Sargo de bom tamanho, intervalados com umas Safias e Choupas, assim como com as prisões contínuas da manivela do carreto no colete, teimando em não me deixar esquecer que o tinha vestido, o que deve ser necessário, atendendo a que me poderia afogar ali no poço do barco ou que este, assim fundeado, por via das ondas enormes que não existiam se poderia virar de repente, ou ainda, por causa de algum duende mau ou macumba feita por quem não goste de mim, estava certamente em risco de me afogar, dando um trabalho desnecessário às autoridades marítimas. Por tudo isto, era bom que estivesse colocado o "coiso".
A pesca compunha-se, a agressividade dos toques estava em alta e deu-se... três toques, um pouco mais fortes e com intervalos maiores que aqueles das Safias e das Choupas, fizeram-me ferrar alto e iniciar luta dura, culminando neste Pargo, com perto de quatro quilos, cujo processo de subida a bordo, como não poderia deixar de ser, esteve comprometido pelo "auxiliar de flutuação individual" que implicou com o enxalavar, com o fio da madre que se prendeu na fivela e com um anzol de cima que nele ficou preso, já para não falar da dificuldade de tentar colocar o enxalavar, devido à maior distância a que fiquei da água derivado do aumento de volume que provoca. Sinceramente, nunca me senti tão inseguro face a acidentes dentro do barco, como neste dia de pesca que, sendo bom em termos de capturas, foi o mais desconfortável e o pior da minha vida. Mas mau, mesmo muito mau é que vou ter de me habituar a isto se quiser continuar a fazer o que gosto. Vamos ver!?

Aqui têm o animal. Sinceramente estive quase para lhe colocar o "auxiliar...", fazendo um esforço para brincar com o assunto, mas depois lembrei-me que isto é um local público e poderiam autuar-me por o ter tirado. 


A pesca continuou e entraram mais uns Sargos e um Parguito de perto de dois quilos, culminando na arca bonita que vos apresento.


Portanto, uma coisa é certa, não deixa de se conseguir pescar por causa desta nova exigência que não faço ideia de onde veio, porque veio e com que bases apareceu. Compreendia e aceitaria que, face a alguns acidentes acontecidos, obrigassem a usar "o que quer que lhe queiram chamar", durante a viagem para o pesqueiro e vice-versa, em entradas de barras e claro a todos os navegadores de recreio quando em deslocação, mas porquê só a nós pescadores lúdicos? Porquê durante a acção de pesca em que o barco está fundeado? Não compreendo, nem vejo qualquer argumento que o justifique.

Voltei para terra, suando, de colete vestido, a governar dentro da cabine, olhando o mar calmo e a entrada "perigosíssima" da barra do Porto de Sines. Fixei o Pôr do Sol e não resisti a perguntar: oh Sol... que mal fiz eu para merecer um tratamento destes?


Questionarão alguns leitores: oh homem... é assim tão mau?
Ao que responderei: é! Nomeadamente, quando fundeado em acção real de pesca. Direi mesmo, e espero enganar-me... quando em acção de pesca, não vai resolver qualquer problema de segurança e mais... vai provocar acidentes a bordo. Estamos cá para ver.

Relativamente à aplicação desta nova "grande melhoria" nas leis que regulam a Pesca Lúdica, se pensavam que ficaríamos a aguardar que saíssem portarias regulamentadoras, nomeadamente sobre características exigíveis dos "auxiliares de flutuação idividual" ou sobre o que se considera ser "... o exercício da pesca lúdica embarcada" e só depois as autoridades marítimas iniciariam a respectiva fiscalização deixando-nos mais uns tempos de descanso, desenganem-se!

Face à resposta, por escrito, do Sr. Comandante do Porto de Sines, ao meu amigo Carlos Botelho que teve o cuidado de, também por escrito, questionar sobre tal, a coisa já está resolvida.

Ora vejamos a resposta:

Caro Ernesto,
Consultei o Sr. Capitão do Porto de Sines que em razão da matéria em causa teve a amabilidade de me responder em curto lapso de tempo. Como o espaço é pequeno tentarei sumarizar.
1 – A alteração do Decreto-lei n.º 246/2000, de 29 de setembro, resultou de um grupo de trabalho no qual tiveram assento diversas entidades representativas do sector, tendo sido formalizadas algumas recomendações no sentido de implementar a obrigatoriedade do uso de coletes de salvação durante o exercício da pesca lúdica embarcada.
2 – O Decreto-lei n.º 101/2013, de 25 de julho, veio proceder à alteração, aditamento e republicação do regime jurídico da pesca lúdica aprovado pelo Decreto-lei n.º 246/2000, de 29 de setembro. A entrada em vigor das alterações preconizadas pelo DL 101/2013, de 25 de julho, conforme estabelece o seu art. 7.º opera 30 dias após a sua publicação, ou seja, dia 26 de agosto pelo que produz efeitos a partir desse mesmo dia, sendo, nesse caso obrigatória a utilização de auxiliar individual de flutuação, a partir daquela data.
3 – Relativamente à definição de auxiliar individual de flutuação, deverá entender-se como o “colete de salvação” conforme referido na Portaria n.º 1464/2002, de 14 de novembro, referente aos equipamentos e meios de salvação, decorrente da obrigação prevista no art. 18.º do Regulamento da Náutica de Recreio (DL n.º 124/2004, de 25 de maio). Relativamente às características dos mesmos, nesta fase, e enquanto não for publicada a portaria que regulamenta as condições de utilização dos auxiliares individuais de flutuação, que se aguarda para breve, dever-se-á lançar mão do único diploma legal que prevê uma definição das características que devem obedecer aqueles dispositivos, e que, na falta de norma expressa deve-se aplicar analogicamente por força do disposto no art. 10.º do Código Civil, pelo que devem cumprir as características previstas no art. 1.º da Portaria n.º 64/2011, de 3 de fevereiro, no sentido de reforçar a segurança a bordo.

Cumprimentos
Carlos Botelho
26 de Agosto de 2013 às 17:23
Para que se entenda a volta que se foi dar, no intuito de iniciar a fiscalização o mais rápido possível, deixo-vos os decretos-lei referidos e para que servem, através desta consulta efectuada pelo meu amigo João Martins. Ora vejam:

Decreto-Lei nº 124/2004, de 25 de Maio
Aprova o Regulamento da Náutica de Recreio
Decreto-Lei nº 124/2004 – artigo 18º

Portaria nº 1464/2002, de 14 de Novembro
Aprova os equipamentos das embarcações de recreio (ER) no que diz respeito aos meios de salvação e de segurança, aos aparelhos e aos meios de radiocomunicações, aos instrumentos náuticos, ao material de navegação, às publicações naúticas e aos primeiros socorros.
Portaria nº 1464/2002 – 1.2.2. do Anexo

Portaria nº 64/2011, de 3 de Fevereiro
Regulamenta as características dos auxiliares de flutuação individual e as respectivas condições de utilização
Portaria nº 64/2011 – artigo 1º

Código Civil, aprovado pelo Decreto-Lei nº 47344, de 25.Novembro.1966 (apenas o artigo 10º, que se transcreve)
Artigo 10º - Integração das lacunas da lei
1. Os casos que a lei não preveja são regulados segundo a norma aplicável aos casos análogos.
2. Há analogia sempre que no caso omisso procedam as razões justificativas da regulamentação do caso previsto na lei.
3. Na falta de caso análogo, a situação é resolvida segundo a norma que o próprio intérprete criaria, se houvesse de legislar dentro do espírito do sistema.

Abraço JM

Face ao descrito, nomeadamente no que se refere a quem se dedique à prática da pesca embarcada na área da Capitania do Porto de Sines, pode "tirar o cavalinho da chuva" quanto a esperar por eventuais portarias, os diplomas que se apresentam têm lá tudo o que é necessário para justificar um auto e consequentemente aplicar a respectiva coima, assim que o entendam, embora, até ao momento, não se tenha conhecimento de tal acto, sendo que os Srs. Agentes da Polícia Marítima têm unicamente avisado e insistido no início do uso dos tais artefactos, quer se goste ou não.

Fica-me uma questão: porquê tanta pressa?

E ainda uma dúvida: será que sobre este assunto ainda sairão portarias ou a coisa fica assim!?

No entanto, e para já, é o que temos... assim que tivermos uma cana a bordo, deixamos de ser nautas de recreio e passamos a ser pescadores lúdicos, um grupo que as autoridades marítimas não querem que morra afogado e muito menos quando esteja a pescar ou sentado a almoçar num qualquer barco fundeado. 

Pessoalmente, quero gritar: deixem-me estar sossegado a pescar!
Pelo menos isso, caramba... já não chega tudo o resto?

Digo as autoridades marítimas porque, segundo responsável da ANPLED, parece que, do Grupo de Trabalho, foram os representantes mais insistentes acerca desta questão, embora sem o acordo dos restantes. O legislador, depois, fez o resto.

Se assim foi, as minhas desculpas ao legislador por, de algum modo, o ter destratado na entrada anterior. 

Esta é a primeira vez que não me divirto a escrever por aqui, mas achei que devia falar-vos sobre o que penso do assunto e informar-vos o melhor que posso, segundo consultas e informações prestadas.

Não sei quando vou pescar. Sei unicamente que nem me apetece... espero que me passe.

Se não passar, vendo o barco e compro um Kayak, ao menos neste caso o colete, em acção de pesca ou enquanto se come qualquer coisa, faz sentido.

Uma boa noite a todos os leitores.