segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Informação, opções, Douradas... e alguns "primos".


O Outono invernoso está mais que instalado, agreste e molhado, oferecendo no entanto cores bonitas que vejo da janela do cantinho onde escrevo, e hoje, meus amigos, apetece-me divagar e escrever sobre as últimas pescarias, mais uma vez separadas, um mês, das anteriores.

Não está fácil voltar ao ritmo... coisas da idade!?

Considerando a Rosa dos Ventos, parece que a Norte, os meus velhotes; a Sul, os descendentes e a Este, algum trabalho, ocupam-me mais que antigamente, sem horários definidos, de tal modo que o mar e a pesca, a Oeste, para além de serem relegados para segundo plano, estão ainda sujeitos às condições climatéricas que, convenhamos, têm dado pouco descanso. Estou-me a queixar? Não Sr.! Ainda bem que os tenho a todos, sou necessário e vou pescando quando posso.

Quanto à pesca, sempre vão valendo os conhecimentos anteriores e a vontade de reflectir continuamente sobre o que se pensa saber e o que, não se sabendo, possa ser tido em conta como factor importante, podendo transformar-se em suposta sabedoria futura.

A informação parece-me um factor bastante influente no que respeita às opções na escolha de pesqueiros, em qualquer saída para o mar. No caso de saídas muito espaçadas, significando que estamos mais tempo afastados da acção, torna-se tão mais importante, quanto maior tenha sido os espaço de tempo desde a última pescaria.

Mas que informação se procura?

Tal depende dos conhecimentos que temos de épocas, zonas de pesca mais produtivas em cada uma delas, exemplares que se pretendam capturar e certamente tipos ou técnicas de pesca que pretendemos usar.

Esta é uma época do ano produtiva na pesca embarcada ao fundo, em barco fundeado. Douradas e Pargos tendem a frequentar os mesmos pesqueiros, rodeados por outras espécies de menor porte médio, como Sarguetas, Besugos, Choupas, entre outros. Não se pense, no entanto, que é chegar  a determinado ponto de GPS onde se fizeram boas pescarias em épocas anteriores, largar ferro, iscar deixar cair as baixadas lá no fundo e encher a arca. O Pai Natal está a chegar mas os peixes procuram unicamente os seus interesses, principalmente comida e/ou procriação, nos locais mais propícios e estão-se borrifando para a época festiva e para o artista principal que muito preso, agora mais pela alegria da minha neta.

A panóplia de zonas de pesqueiros já testados em épocas anteriores idênticas ou outras zonas de fundos do mesmo tipo, farão agora todo o sentido como locais a explorar, pois os peixes que procuramos poderão estar algures, em determinado ponto de uma delas... mas qual?
O que sabemos de pesca, da zona onde a exercemos e de outros pescadores, desportivos e profissionais, contribui fortemente para a capacidade de saber procurar a informação e assim conseguir responder melhor à questão anterior.

Portanto, relativamente a informação e após caracterização da época, parece-me importante recolher dados sobre:

- Profundidades e tipos de fundos onde se têm conseguido capturas
- Técnicas em uso, tanto na pesca desportiva, quanto na profissional
- Iscas mais produtivas

Para recolher informações fiáveis, importa que já tenhamos dado informação fidedigna e que sejamos conhecidos por tal, recorrendo a estes companheiros que sabemos pescam mais ou menos como nós, assim como sabermos "ler nas entrelinhas" quando conversamos com outros.
A visita a mercados que têm peixe da zona e saber o que os profissionais das várias artes andam a capturar, e como, são também dados importantes para a nossa avaliação do momento e consequente tomada de decisão sobre a escolha de pesqueiros.

A informação é portanto uma parte importante da preparação da pesca, ainda mais quando estamos afastados da acção há tempo significativo.
Aceito que aqueles de vós que não têm barco próprio possam não se preocupar muito com isso, atendendo a que, se vão em MT, confiam que o mestre saberá o que fazer. Mas, na verdade, mais e melhor informação não nos pesa e saber, também não ocupa lugar. Quem sabe um dia não venha o barco!?

Considerando o referido, que conhecimentos e informações poderão ter sido importantes para a escolha de pesqueiros das últimas saídas, nos passados dias 22 e 24 de Novembro?

Considerando a procura de exemplares de Pargos e Douradas, é importante saber-se que, nesta época, as Douradas poderão estar já em locais de desova, algumas estarão ainda em deslocação para eles, importando tentar perceber qual destas duas variáveis poderá ser no momento a mais verdadeira. Quanto aos Pargos, tendem a aparecer nas zonas onde as Douradas andam ou se concentram, talvez mais nestas últimas, ou, caso estejam em deslocação, onde se conseguem fixar por força de engodos ou das iscadas em uso.
Para tentar discernir sobre tal, procurei saber se já estavam muitos profissionais com bóias fixas e engodo em zonas onde habitualmente o fazem nesta época, principalmente para a pesca da Dourada, assim como, se outros pescadores, principalmente desportivos, a pescarem normalmente fundeados, teriam conseguido capturas e em que zonas.

No sentido de recolher as informações descritas, socorri-me de pessoal amigo, a quem por norma também dou "dicas", ficando a saber que poucos eram os profissionais a pescarem com fundeios fixos e que se tinham verificado capturas significativas de Douradas, já ovadas, e Pargos, em zonas mais baixas (+/-50m), com alguma regularidade.

Tais informações eram indicativas de que, pesasse embora poderem já existir algumas concentrações de peixe em locais de acasalamento e desova, o grosso poderia andar ainda em deslocação para estes. Considerando ainda que, nomeadamente as Douradas, por vezes se fixam durante algum tempo em certos locais de passagem, a opção foi procurar uma zona com estas características, de preferência com poucos ou nenhuns barcos fundeados, em acção de pesca.

Perguntar-me-ão... então e não se informou sobre nenhum ponto de GPS mais concreto?

Ao que responderei não, essencialmente por três razões:

1. Quem mo desse, eventualmente estaria lá a pescar ou poderia lá chegar e o ponto que lhe deu trabalho a encontrar estava ocupado.
2. As zonas de pesqueiros estão normalmente "carregadas" de pontos de GPS.
3. Tenho sonda e gosto de procurar os meus próprios pesqueiros, nas zonas quentes de cada época, de preferência com poucos ou nenhuns barcos, em acção de pesca por lá.

E foi assim que escolhi uns fundos brandos, entralhados, típicos de Douradas e Pargos, considerando a época e as informações, numa zona de 46 a 50m que já me deu muito peixe e onde há muito não pescava.

O GPS indicou-me que chegara e a sonda iniciou o seu trabalho, revelando estruturas já conhecidas e movimento de peixe agarrado ao fundo, aos 50m, na base dos pequenos pontões que raramente se elevavam aos 46.
Eleito o pesqueiro onde queria actuar com as iscas, sucedeu-se o que seria o único fundeio deste primeiro dia, após interregno, iniciado com sinais de toques tímidos a início, um pouco mais insistentes pouco tempo depois, revelando-se um pesqueiro em que sem roubos de isca muito rápidos, iam entrando exemplares de qualidade, principalmente Douradas, com alguns "primos" de porte aceitável, pese embora iscadas de Sardinha e Caranguejo que procuravam maiores.

Deixemos falar as imagens...

O Luís, com uma das suas Douradas:


O Eduardo, também dando um ar da sua graça:


O Tózé, com o maior exemplar do dia:


Ainda o Tózé, com o maior Sargo:


A foto de grupo, onde se vê que o peixe miúdo raramente se atreveu a atirar-se às iscas.


Foi um dia bonito, em que o barco não saiu do sítio até às 15.30 horas, permitindo trabalhar o pesqueiro, com a Sardinha e o Caranguejo, sendo que o peixe caía regularmente em ambas as iscas, com iscadas diversas quanto a tamanho e posicionamento dos iscos.

O Domingo, 23, surgiu meio nublado, a ameaçar chuva que não se fez rogada a partir das 12.00 horas, significando dia de espera e conversa de pesca com amigos, enquanto se aguardava pela Segunda Feira, 24, onde segundo o Windguru se esperava melhor tempo e mais uma pescaria.

Saímos por volta das 09.00, uma hora que ninguém desconfia, com um ventinho moderado de Este que se esperava cair ao longo do dia, o que se veio a verificar.

Tendo em conta as informações e resultados anteriores, era obrigatório sondar o pesqueiro onde tínhamos estado no Sábado, tendo em conta que o peixe se movimenta e, muito provavelmente, poderia não oferecer as mesmas condições, situação usual quando se verificam deslocações de peixe, nesta ou em qualquer outra época do ano.

A sonda mostrou isso mesmo... na verdade, as marcações de peixe quase não existiam no pesqueiro e mostravam-se pouco interessantes, perto e em torno deste. Havia que procurar melhor, alargando rumos na zona.

Naveguei primeiro a Norte, depois a Sul, percorrendo a zona, mas, só para Oeste, a uns 500m, se encontrou um fundo interessante que conjugava imagens de vida com estruturas interessantes, oferecendo ainda uma boa hipótese de fundeio face à deriva de leste, pois permitia largar o ferro num pontão aos 46 metros e deixar o barco cair para um fundo brando, aos 52, situado entre vários bicos de pedra com uma proximidade interessante, ou seja, nem muito perto, nem muito longe, assegurando principalmente que aqueles que procurassem comedia, a encontrariam em torno, com opção de escolha pelas nossas iscas, mais ou menos centradas entre bicos.

Talvez por estarmos numa zona mais limpa, a timidez inicial nos ataques às nossas iscas revelou-se mais prolongada que no dia anterior, mas as notas de peixe maior estavam presentes, essencialmente pelas postas de Sardinha que, quando comidas, vinham cortadas pelo meio e não mordidas em torno, este último, sinal evidente de "gaiatos" a penicar.

Após um ou outro Carapau, o primeiro exemplar subiu a bordo, eventualmente curioso por se comparar com o meu pé.


O pesqueiro, logo após, deu um ar da sua graça com a entrada de uma ou outra Sargueta e Besugos. Melhor sinal da qualidade do local, não seria de esperar, aguardando-se por tal, entradas de "gente" possante, mais cedo ou mais tarde.

Eventualmente, num caso destes, muitos companheiros nossos apostariam na pesca aos Besugos que teimavam em se ferrarem nos nossos anzóis, 4/0 e 6/0, com iscadas grandes de Sardinha e Caranguejo. Mas não eram Besugos que queríamos.

Variei, no anzol de baixo, entre iscadas de meia Sardinha e três postas que eram devoradas a espaços, trazendo um Besugo de vez em quando e falhando muitos, sempre à espera de interessar um "cliente" de maior porte, até que... a coisa acabou por se dar numa iscada de três postas que, chegada ao fundo, ao contrário de outras, esteve intocada mais tempo que o normal, fazendo-me desconfiar e ferrar,logo que senti três toques intensos e com intervalo superior àquelas tremideiras do peixe miúdo.
O "fulano" sentiu o ferro e cabeceou fundo, iniciando depois uma corrida em direcção a Porto Côvo... bonito!
Depois, com calma e entre corridas, acabou por deixar os seus 5,300 kgs tirarem foto comigo.


A coisa estava a correr bem, o pesqueiro activo, mas Douradas... nada. Só os Besugos continuavam a subir intervalados com uma ou outra Sargueta pelo meio.

A acção continuou e sai a 1.ª Dourada ao Zé Beicinho, dando uma nota de que eventualmente a hora delas tinha chegado. Esta ideia instalou-se ainda com mais pertinência nas nossas mentes quando, pouco tempo depois me sai outra, esta com direito a foto e medida...


... pensámos bem e tudo indicava que sim, mas o certo é que, para além de um Pargo de quilo e tal que saiu ao João Martins, nada mais entrou por ali. Pior ainda quando o barco rodou por via do vento Norte de fim de tarde, tirando-nos do sítio e deixando-nos com poucas perspectivas sobre refazer o fundeio, considerando o adiantado da hora.

Para todos os efeitos a pesca estava feita, o dia bem passado e a noção de que as informações retiradas, entre outros factores, valeram a pena.

Fica a foto descansada com os meus três exemplares, num dia que se espera repetir, nunca igual, mas parecido ou até melhor... porque não? 


Quanto às Douradas, tudo indica que a informação foi bem interpretada, considerando que no primeiro dia conseguimos fixá-las na zona de passagem, o que não conseguimos no segundo, ou eventualmente não estaríamos no melhor local para as fixar. Dificilmente o saberemos.

Uma coisa é certa, na próxima vez valerá talvez a pena procurar já zonas onde possam estar fixas, tanto por tal ser normal no mês de Dezembro, quanto pelo comportamento evidenciado nestes dois dias. Esperemos que seja para breve.

Até lá, uma boa tarde a todos os leitores. 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Era uma vez... um acidente de percurso


A foto que inicia esta entrada, corresponde a uma das últimas pescarias possíveis e decentes, realizada no dia 31 de Setembro passado, entre outras duas, respectivamente 30 do mesmo mês e 1 de Outubro... lá chegaremos.

O relato já vem tardio mas, num intervalo desta vida de reformado estranhamente ocupada, ao olhar para esta imagem e outras que colocarei mais à frente, recordei-me do meu percurso ligado à pesca e ao mar e de alguns acidentes que certamente contribuíram para as minhas aprendizagens nesta área e que constituem histórias, hoje, mais ou menos hilariantes, sendo que na altura nem tanto.
Por tal e antes de vos relatar estas últimas pescarias, permitidas talvez pelos ensinamentos retirados de sucessos, insucessos e outras peripécias, vou-vos contar a história do tal... acidente de percurso.

Estávamos no Inverno de 1979, quando um iniciado nas lides da Caça Submarina, na punjança dos seus quase 25 anitos, na companhia de mais seis companheiros, rolava de armas e bagagens em direcção a terras de Porto Côvo, preparado para fazer figurinhas idênticas às visíveis na imagem abaixo, preparatórias de qualquer saída para o mar nos tempos que corriam.  


Porto Côvo era nessa altura uma vila, não sei mesmo se uma aldeia, ainda não cantada pelo Rui Veloso.
Uma rua central, mais duas para cada lado, homens do mar e do campo, por aqui e por ali, olhando estes forasteiros que passavam com os "borracheiros" atrelados, ou em cima de carros de idade avançada e qualidade duvidosa, percorrendo o caminho para a praia dos pescadores onde se sabia descarregariam, montariam tudo e se fariam ao mar na procura dos Sargos, Robalos, Douradas...

Simpatizavam connosco? Tinha-se a sensação de que... nem por isso.

Os "borracheiros", eram os barcos que existiam na altura, com flutuadores, paneiros de madeira ou alumínio, mais tarde substituídos pela fibra, dando origem aos semi-rígidos que começaram a aparecer timidamente pouco tempo depois.

Os equipamentos nada tinham a ver com os actuais... fatos rijos que deixavam circular água e que gelavam, em pouco tempo, qualquer um que se desinteressasse e parasse de dar à barbatana, Barbatanas Super Jet Fin, da Beuchat, pesadas, embora o supra sumo da altura.
As armas, essas já com qualidade, também da Beuchat, as famosas Marlin, em tamanhos diversos.

Era uma azáfama... chegávamos, descarregávamos o material, o barco, o motor, montávamos estes últimos e, ao ombro, entre todos, lá colocávamos a embarcação junto à linha de água, voltando atrás para buscar caixas, armas e restantes acessórios, os quais após arrumados no barco, nos deixavam a postos para sair mar dentro.

Outra realidade muito diferente dos dias de hoje tinha a ver com as previsões meteorológicas... calculava-se que o tempo estava bom, considerando os dias anteriores, o que se dizia e dicas de algum conhecido da zona onde se ia caçar, mas na verdade nunca se sabia ao certo se conseguiríamos sair para o mar ou como voltávamos para terra... se a bem ou a mal!? Principalmente em zonas de mar aberto, como era o caso.

Considerando, as condições referidas, corriam-se riscos que hoje só corre quem quer, mas como se não bastasse, os barcos eram poucos, o dinheiro não abundava, sendo necessário um número de cabeças que pagasse as despesas e, por vezes, o número de caçadores por barco excedia obviamente o espaço e potência oferecidos por este, o que se verificou neste dia de que reza a história.

Aconteceu então que éramos sete a bordo, os quatro donos do barco, já com uns anos de caça largos e três convidados com pouca experiência, eu incluído.

Em termos de estratégia decidiu-se que em vez de entrarmos todos no barco a partir do porto de pescadores, o grosso de nós entraria na praia frente à Ilha do Pessegueiro, poupando assim alguma navegação, já que se pensava ir pescar, algo longe, para as baixas do Malhão, onde duas ou três semanas antes tínhamos conseguido, com menos pescadores (5) a quantidade de capturas que se vê na foto abaixo:


Assim pensado, dois dos donos do barco saíram para o mar em direcção à praia da ilha e todos os outros se transportaram nos carros para o mesmo local onde encheram o barco e mar com eles. Até aqui tudo bem, mal grado um aumento do vento e da vaga inesperados que entretanto se tinham começado a sentir.

O barco navegava, pesado, com os seus sete passageiros, as condições de mar e vento agravavam-se e, sensivelmente à frente da Praia dos Aivados, os companheiros donos do barco pararam para analisar a situação sugerindo que, devido às condições, que não estando más se evidenciavam difíceis para que fossemos todos até às baixas do Malhão, seria melhor que nós, os três novatos, ficássemos por ali a caçar que eles quando viessem nos recolheriam, sendo assim mais fácil e produtivo para todos, já que nos largariam numas baixas jeitosas de peixe que conheciam por ali.

Sinceramente, não me agradou e soube logo a seguir que aos meus companheiros de desdita também não, mas enfim... não quisemos estragar o dia aos donos dos carros e barco e a praia até nem era longe, pelo que colocámos os materiais suplentes nas bóias, mandámos tudo para dentro de água e lá ficámos no meio do mar, enquanto o barco se afastava com leveza.
Restava-nos dar com peixe e, talvez até, fazer uma pescaria razoável... mas o pior estava para vir.

Começámos a procurar peixe mas, na verdade, as supostas "baixas jeitosas", de jeitoso nada tinham... areia e mais areia, num deserto completamente desconhecido para nós, entretanto agitado, já que o mar e o vento continuavam a crescer sentindo-se cada vez mais a vaga que por estarmos em zona baixa já partia por aqui e por ali, levantando areia do fundo e fazendo-nos juntar, falar sobre o assunto e concluir que melhor seria optarmos pela segurança, decorrendo de tal decisão nadarmos juntos e procurar terra firme... a Praia dos Aivados mesmo ali em frente, embora a uma distância considerável.

Lá fomos nadando, levando cacetada da vaga que partia cada vez mais até nos fazer rolar sobre as lajes já muito perto da praia onde nos sentimos aliviados por chegar a salvo, à excepção de um ou outro corte no fato, seguido de arranhadela e uma ou outra peça de material perdido.
E agora, que fazer?

Ficar por ali não era solução, pois o barco não nos poderia recolher devido à vaga, optámos então por carregar com o material e ir a pé até à Praia da Ilha do Pessegueiro, onde estavam os carros, pensando esperar lá pelos outros que certamente calculariam o que teria acontecido quando vissem o estado do mar e não dessem connosco onde nos largaram.

O vento era de NW, naquele Fevereiro frio, fatos vestidos, material às costas, cintos de chumbo à cintura, onde menos incomodavam e vá de caminhar, assando as curvas das pernas do contacto com os tecidos molhados dos fatos, numa caminhada que não parecendo muito grande ainda demorou bem mais de uma hora, onde não se pouparam alguns impropérios em direcção aos fulanos que supostamente pescavam à séria nas baixas do Malhão.

Finalmente... chegámos, largámos os materiais no chão e vá de deitar na areia pensando que sem chaves dos carros, se tirássemos os fatos e nos lavássemos na água salgada, não nos poderíamos limpar e trocar de roupa, pois esta estava nos carros e o frio não era para brincar, obrigando-nos até a mexer mesmo com os fatos vestidos.

As horas foram passando, o mar não estava melhor e, mais cedo que o esperado, vimos o barco a aproximar-se para largar o mais perto da praia possível os condutores dos carros que teriam depois de nos levar e ir buscar os que levariam o barco para a praia dos pescadores em Porto Côvo, mas a coisa ainda não tinha terminado...

Estávamos tão incomodados com os fatos vestidos que assim que vimos o barco perto, fomos para a água, despimos os fatos e vá de nos lavarmos, contando que rápido teríamos os carros abertos, as toalhas à mão e roupa quente e confortável em cima dos nossos corpinhos, na hora tão maltratados, mas não!

As caras dos donos dos carros, logo que chegaram à praia, indicavam que algo tinha acontecido.

Contaram-nos então que, embora tivessem alguns Sargos, pouco tinham caçado, pois uma vaga tinha empinado o barco enquanto fundeado e atirado com tudo à água, sendo que passaram mais tempo a tentar recuperar todo o material do que em acção de caça e, pior que tudo, uma das coisas que não conseguiram recuperar tinha sido precisamente a chave do Fiat 127, aquele onde estava a minha roupinha.

Estão a ver aqui o vosso amigo, todo nu, em Fevereiro, com um frio desgraçado, de olhar incrédulo, a ouvir esta conversa depois de tudo o que se tinha passado...

Olhei para o dono do carro e disse-lhe: nem penses que vou tornar a vestir o fato e muito menos que vou ficar assim!

Fui-me à janelinha traseira do Fiat 127, aquelas que se abriam para o lado, e perante o olhar meio desconsolado, meio indeciso do seu dono, meti-lhe a faca de caça submarina, descolei-a, tirei a minha toalha, a roupinha e depois de confortavelmente vestido, proferi alguns "insultos amigos", do tipo se fossem para aqui e para ali, e fui à "reunião de resolução", onde ficou decidido que iríamos ao restaurante Cácome que nos confeccionaria os poucos peixes capturados para o jantar e eu e outro ficaríamos em Porto Côvo aguardando que fossem a Setúbal, no carro com chave, buscar a chave do 127 para nos virem buscar.

Resultado... eram quatro da manhã quando nos apanharam, a dormir na praia dos pescadores, frente a uma fogueira, meio anestesiados, tanto do frio, quanto por uns canecos a mais que nos fizeram aguentar a coisa.

Moral da história... decisões repentinas e mal pensadas, pagam-se por vezes caras, principalmente quando olhamos unicamente para o objectivo, tendo muito pouco em conta o processo para o atingir. Desta vez até pagámos barato e hoje em dia dá para rir, mas as hipóteses de consequências graves estiveram presentes em percentagens altas.

Certo é que o que não nos mata pode tornar-nos mais fortes e tudo indica que assim foi.

Depois disto nunca mais me meti em molhadas e passei a olhar para as saídas com outro sentir, pensando que mais vale não ir do que arriscar situações idênticas e considerando também que muitas vezes não são os mais experientes quem tem melhor cabeça para decisões, nomeadamente quando os mais experientes evidenciam sinais de excesso de confiança... um perigo!

Na altura não me passaria pela cabeça, estar um dia a escrever sobre isto e muito menos ter um barco, geri-lo, ir à pesca e geri-la, mas esta é uma das histórias de que me lembro quando sinto estar a facilitar em certas questões, normalmente as relacionadas com relações entre companheiros, segurança a bordo, objectivos e processos para os atingir.

E as coisas vão correndo razoavelmente bem, principalmente quando vou pescar, coisa que ultimamente não tem sido frequente, pelo que, como referi no início desta entrada, vos deixo um pequeno relato com as últimas capturas que acho válidas.

O Pargo com 3,800kg, de dia 30 de Setembro:


A caixa do mesmo dia, com mais alguns Parguitos e os Sargos que foram uma constante nos três dias:


Na foto de abertura, têm o Pargo de 4,915kg, de dia 31 de Setembro que foi acompanhado de outros dois mais pequenos e também de Sargos com fartura.

Finalmente a Dourada maior de dia 1 de Outubro, com 2,500kg...


... acompanhada por vários Sargos deste calibre...


... e também por outras quatro Douradas mais pequenas, como se vê na caixa do dia:


Estas pescarias foram todas conseguidas, a 32 metros de profundidade, numa zona de pedra rasa e entralhados e enquadraram-se perfeitamente nos comportamentos dessa zona de pesqueiros face à época do ano, embora no seu limite, deixando indícios de normalização tendo em conta as análises feitas na última entrada.

A isca mais usada, senão única, foi a sardinha à posta, meia e inteira.

A técnica mais produtiva foi ao fundo, com dois estralhos compridos e anzóis 4/0 a 6/0.
A chumbadinha capturou um único Pargo pequeno, não querendo com isto dizer que em condições mais favoráveis (maior profundidade e com aguagem), não se evidenciasse rainha. 

Ainda considerando a última entrada e tendo em conta os presentes resultados, parecem diluir-se, algumas dúvidas quanto ao comportamento dos pesqueiros, mas subsistem as relacionadas com a frequência de pesca, atendendo a que para além da manutenção anual do barco, ainda não consegui pescar outra vez.

Esperemos que as coisas normalizem... até lá, uma boa tarde a todos os leitores.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Alterações, frequência de pesca e comportamentos.


Olá a todos! Há quanto tempo…

É verdade boa gente… nunca tinha acontecido um tão longo período sem escrever, mas o certo é que a vida nem sempre corre como gostaríamos e o impensável acaba por acontecer.
Digo impensável porque de facto não me passava pela cabeça que alguma vez pudesse estar tanto tempo arredado do convívio que tenho vindo a estabelecer convosco através de alguma regularidade de escrita neste local.
O certo é que aconteceu, muito devido a menos dias de pesca que os habituais, assim como resultados a condizer com a pouca frequência de acção de pesca.

Para além de pouca pesca, e sem que tal possa ser encarado como um drama ou desculpa no que respeita a resultados, verdade também que me deixei enrolar numa quantidade de actividades pesadas, mal remuneradas e demasiado seguidas, não me permitindo pescar sossegado e sem interrupções como era hábito. Mas calma… enquanto há vida e saúde, tudo acaba por se resolver.

Não adianta escrever muito mais sobre história… a pesca está a acontecer, os resultados, embora sem grande expressão, estão a voltar e esperam-se novidades em próximos relatos. Entretanto passo a contar-vos o que se tem passado até às últimas.

Pargos e Douradas, muito poucos e de tamanhos que, para ilustrar conversa, abrem espaço a fotos como as que se seguem, em início de Abril, com umas quantas Douradas, capturadas numa água de um verde dúbio e aqui apresentadas pelo Mário Baptista…


… e pelo Zé Beicinho.



Em dia de meados de Julho, a solo, consegui o Parguito que se vê, aceitável, mas certamente neto daqueles que procuro e por vezes encontro.


Este ano de 2014, iniciado com mau tempo assinalável e aliado a  alterações de trabalho e vida, tornou-se, no meu caso, um dos mais irregulares que me lembro no que respeita a saídas de pesca, fazendo-me pensar seriamente nas relações entre regularidade de resultados, frequência de saídas de pesca e alterações comportamentais dos pescadores sujeitos a tais variáveis, assim como em alterações climáticas com eventuais consequências no que respeita ao comportamento dos nossos interlocutores – os peixes – tanto no que se refere a alimentação, quanto aos locais que frequentam, atendendo a que também estes se podem ter alterado devido às fortes tempestades do início do ano… será?

Alguns factos:

As capturas apresentadas, aconteceram em dias intervalados por outros em que nada funcionou e nem cheiro de peixes de melhor qualidade se sentiu, embora os processos normalmente com sucesso que por aqui tenho vindo a descrever, tenham sido aplicados e diversificados à exaustão.

Comentarão alguns de vós: “querias o quê… carregar todos os dias?”

Ao que responderei: nem pensar!
No entanto sentiu-se uma dificuldade, nitidamente acima da média, em conseguir resultados face às condições encontradas de sondagem, fundeio e acção de pesca, numa quantidade significativa de pesqueiros e diversificando as técnicas em uso.

Relativamente a condições de mar e vento, têm-se notado algumas alterações, como por exemplo, aguagens em locais onde antes nunca as tinha verificado, ficando a pergunta: nunca me apercebi de tal por não ter estado lá quando aconteceram ou existem de facto alterações?

Por outro lado, como já referi, este foi o ano em que pesquei de forma menos regular, quer quanto a quantidade de dias de pesca, quer quanto a estar na pesca a pensar só nessa acção, tendo sido frequente ter situações contínuas de trabalho para resolver enquanto pescava… mau para a pesca, principalmente.

Por sua vez, a dificuldade em obter resultados tende a baralhar-nos no que se refere à classificação que fazemos das zonas de pesqueiros que testamos.

Considerando o referido, depara-se-nos pelo menos uma trilogia de variáveis algo difícil de gerir:

- Alterações de condições de mar, temporárias ou não, passíveis de modificar comportamentos de alimentação e locais frequentados pelos exemplares que se perseguem.
- Diminuição de frequência nas saídas de pesca e consequente dificuldade na análise de resultados que se procuram.
- Alteração nos nossos comportamentos decorrentes da influência das duas variáveis anteriores, tendentes a fazer-nos deixar de acreditar momentaneamente em processos, pesqueiros, iscas, técnicas... que temos ou tínhamos como produtivas.

Mas deixemos falar os resultados...

12 de Julho: Um dia a solo a actuar sobre um fundo de 40 metros, fim de pedras não muito altas, início de um extenso limpo com alguns entralhados onde caíam as iscas. Um pesqueiro conhecido como frutífero nesta época, em outros anos, escolhido na mira dos Pargos grandes, após tentativas infrutíferas  em outros pesqueiros no dia anterior.
Como características do dia, apresentava uma aguagem significativa em direcção ao limpo, nunca em outras incursões observada neste pesqueiro.

Uma cana na mão com dois estralhos iscados com postas de sardinha que em poucos minutos, senão por vezes segundos, eram roubados por peixe miúdo, indicando actividade no pesqueiro e peixe que vindo do limpo procurava alimentação e abrigo junto à pedra, condições normalmente ideais para a entrada de predadores.
Monta-se uma cana com chumbadinha que se coloca em acção após uma meia hora, iscada com sardinha inteira, pretendendo outra apresentação de isca e também um tamanho de isca passível de aguentar mais tempo os ataques do peixe miúdo, em prontidão para receber interlocutor maior que se apresentasse.

O tempo vai passando, na cana com a montagem de dois estralhos, o roubo de isca é continuo, na de chumbadinha, nem tanto, embora as sardinhas inteiras acabem por desaparecer ficando unicamente a espinha, ou nada.

As Choupas dão um ar da sua graça, brilhando pela diversificação de peixe que vai chegando ao pesqueiro e, não tarda muito, entra um Parguito com perto de quilo, sinal costumeiro de coisas melhores que vão acontecer... mas nada. Durante mais de uma hora de pesca só o roubo é uma constante, Pargos, nem mais um... estranho comportamento!?

O pesqueiro continua activo, até demais, mas peixe grande nem vê-lo. Decido colocar iscadas de sardinhas inteiras e meias na pesca com dois estralhos e trabalhar com a cana da chumbadinha na mão.
Isco, lanço para longe, na direcção da aguagem, deixo sair linha livremente, mesmo depois da chumbada assentar no fundo e brinco com a sardinha, puxando e largando, até que numa das vezes vejo a linha sair mais rápido que o habitual, baixo um pouco a cana, dou à manivela e ferro... sinto o peixe que acho razoável, mas não me parece Pargo por cabecear pouco, nem Cavala grande atendendo à ausência das habituais tremideiras. Algum tempo passado e sai-me o Robalo da foto, com um pouco mais de 50cm.


Convenhamos que não sendo inédito, não é muito normal, mas aconteceu.
Lembrei-me então dos tempos de caça submarina e dos cardumes de Robalos que, ali por Sines, levavam por vezes horas a passar e insisti.

Nova sardinha, novo lançamento, vá de largar e puxar linha, subir a baixada com pouca ou nenhuma isca e insistir, até que, ao fim de meia dúzia de tentativas, outra vez quando largava linha, esta foge com maior rapidez. Dou algum tempo, ferro e tenho luta maior, indicando melhor exemplar que saiu desta vez com 4kg e umas gramas, fazendo valer os raciocínios anteriores.

Aqui o têm:


Sobre os resultados deste dia, conseguiram-se duas Choupas que foram devolvidas, alguns Carapaus para o jantar, algumas Cavalas que serviram para iscar também sem frutos, um parguito que tinha pouco mais que um quilo e os dois Robalos.

Em modo de análise, pode dizer-se que:

- O pesqueiro evidenciou os habituais sinais de que entrariam Pargos, mas decididamente enganou.
- Os inesperados Robalos, tudo indica, entraram fruto da diversificação técnica, no caso... a Chumbadinha.
- Os Pargos, possivelmente neste dia, não andariam por estas paragens, não foram atraídos pela esteira cheirosa da sardinha usada ou andaram por ali e tinham outros interesses, eventualmente vivos.

Poderão os leitores questionar: então... Robalos não prestam? Com certeza que sim... mas quantas vezes acontece isto a pescar ao fundo? E no dia seguinte... seria de apostar outra vez nesta zona procurando Pargos?

Achei que não e resolvi sair das baixas profundidades e procurar fundos mais importantes, talvez os vermelhos andassem por lá, contra o que habitualmente acontece nesta época.

13 de Julho: O dia do Zé Beicinho, em que procurámos fundo os objectos da nossa cobiça.

Lá fomos para fora, em busca de zona funda, perto de pedra alta, grandes variações de profundidade e aguagens que deixassem pescar. Encontrámos tudo!

Fundeámos lindamente, de maneira que as nossas iscas actuassem a 90 metros de profundidade, junto à beirada de um pontão que se elevava aos 60... melhor que isto, só de encomenda.

Como se tal graça não bastasse, os toques sentiam-se com alguma agressividade, indicando actividade intensa e fazendo-nos pensar: querem ver que é mesmo aqui que "eles" andam!?

A coisa prometia e o entusiasmo era grande a bordo... Fanecas, Carapaus e a Abrótea que o Zé aqui em baixo nos mostra, deram um primeiro ar de que algo ia acontecer.


Mas desenganem-se... usando as baixadas com estralhos e a Chumbadinha, capturámos 5 Abróteas destas, umas quantas fanecas e Carapaus azuis, um Parguito que nem ao quilo chegava ainda nos deu esperança, mas foi só mesmo essa que restou.

Analisando este pesqueiro, pode dizer-se que excedeu inicialmente as expectativas, atendendo aos sinais dos toques, acabando no entanto por se revelar nada produtivo em termos de Pargos, o que aliás costuma ser normal nesta época do ano.

Nesta altura dei comigo a pensar... agora que devia continuar a pesquisar, lá vou fazer outro interregno de pelo menos três semanas.

Bom... haja trabalho e saúde!

16 de Agosto: Retorno ás lides, agora com perspectivas de vários dias consecutivos de pesca e com a promessa de manter a regularidade de saídas durante alguns tempos... vamos ver!?

Os meus amigos Tózé, João Maria e Nuno Mira, fazem-me companhia neste recomeço, em que só a história recente e alguma não tão recente podem ser a base da procura, já que até as notícias de capturas lá por Sines não são nada boas.

A primeira escolha recai sobre uma zona de pesqueiros, na cota dos 45/50 metros, onde a sondagem se mostra interessante, sendo verdade que neste local e na mesma época do ano se conseguiram excelentes resultados com sondagens idênticas.

A fé é muita, mas, ao fim de uma hora e tal de acção, não se verificam melhorias na regularidade de ataque às iscas, antes o pesqueiro se torna morno e pouco credível, indicando-nos a necessidade de procurar outros fundos.

As opções eram  variadas, mas face à época do ano e ao aumento de vento esperado para a tarde, a escolha recaiu sobre um pesqueiro mais à terra, a 32 metros, garantindo assim abrigo e consequente aumento do tempo útil de pesca, caso o vento entrasse mais forte que o esperado.

A actividade revelou-se de imediato mais intensa, com muito Carapau branco e algumas Choupas a darem indicações sobre o interesse do pesqueiro, onde as iscas desapareciam rápido e os toques eram mais intensos.
A sardinha à posta aguentava-se muito pouco tempo, recorrendo-se a iscadas maiores e a filetes de cavala fresca para ter isca activa por períodos superiores. As capturas, não sendo muitas, nem enormes, foram acontecendo num ritmo relativamente espaçado, embora com momentos mais intensos, sempre por via da cavala fresca, única isca que mais tempo se aguentava face aos ataques dos "miúdos".

Entraram dois Parguitos e uma Bica, pequenos, depois foi a vez do Sargo do Tózé que aqui se apresenta... um bom exemplar, considerando a espécie.


Os Pargos mais jeitosos deram então um ar da sua graça, primeiro pela minha mão e depois pela do Nuno Mira com a captura do melhor exemplar...


... que aqui também se vê, enquadrado à la Croc, melhor entre pares. 


Nesta jornada, embora não tenham entrado exemplares maiores, pode dizer-se que o comportamento do pesqueiro foi positivo, atendendo a que os sinais e resultados convergiram e se enquadraram nos parâmetros da época, salvaguardando ainda que nunca saberemos o que aconteceria se temos pescado o dia inteiro neste pesqueiro.

17 e 18 de Agosto: Dois dias, em que fui com o meu amigo João Martins.

No dia 17 fomos directos ao segundo pesqueiro testado no dia anterior, encontrámos os mesmos sinais, mas convergência com resultados, nem vê-la. E não foi à falta de lá estarmos bastante tempo, percorrendo por excesso as horas menos e mais produtivas da jornada anterior.
Certo foi que, para além dos Carapaus, só algumas Choupas e dois Sargos razoáveis entraram, a cor vermelha, nem a vimos. Em desespero de causa, já batiam as cinco da tarde, fomos experimentar um pesqueiro mais fundo e por vezes positivamente surpreendente em fins de tarde.

O fundeio foi rápido, muito por tantas vezes já lá ter pescado. Vindo o vento do quadrante Norte, com duas passagens o ferro vai ao fundo e fica-se a pescar onde se quer sem qualquer falha... até o cabo já lá tem a marca da zona onde amarra ao cabeço.

Encontrámos aguagem significativa e peixe a comer forte na aguagem. Bom sinal... pensei para comigo.

O peixe comia rápido... Bogas monstruosas, Carapaus e Cavalas ficavam no anzol de cima, pelo que resolvi retirá-lo e ficar só com o anzol de baixo, cujo estralho aumentei para 150cm, iscando com sardinha inteira, do rabo para a barriga após cabeça retirada. Também a cana com montagem de chumbadinha foi colocada em acção com cavala, em vez de sardinha, considerando o rápido roubo por esta sofrido.

Os Carapaus entravam de vez em quando, junto com uma Choupa ou outra e só um Sargo de bom tamanho fez valer esta aposta de fundeio que resolvemos interromper dado o adiantado da hora, mas pensando que face aos sinais encontrados, este seria um pesqueiro a testar mais cedo e durante mais tempo no dia seguinte, caso não conseguíssemos capturas em outros locais.

Sobre os resultados do dia, pode dizer-se que o pesqueiro anteriormente produtivo, em condições de mar e vento e sinais idênticos, utilizando as mesmas iscas, processos e sem razões ou alterações aparentes... não resultou! Porquê?
Não faço a mínima ideia, no entanto algo se alterou.
Em contrapartida, surgiram hipóteses no segundo pesqueiro deste dia, certamente a testar com mais tempo no dia seguinte.

No dia 18, considerando os sinais e resultados verificados do dia 17, duas estratégias, entre outras, poderiam ser consideradas:

- Pescar no segundo pesqueiro a tempo inteiro.
- Testar primeiro um pesqueiro diferente e, caso os resultados não se verificassem, iniciar mais cedo a acção de pesca no segundo pesqueiro de dia 17.

Importa ainda referir que as estratégias apontadas, para além de considerarem o acontecido, não perdem nunca de vista a produtividade destas zonas, sobejamente testadas em outros anos, na mesma época, assim como a gestão do tempo útil de pesca e os gastos de combustível em deslocações mais longas e muitas vezes ainda menos produtivas, tudo indicando que nos fixemos na qualidade dos pesqueiros face às suas características de abrigo e comida e não na distância a que se encontram do porto.

A segunda estratégia foi a escolhida, muito por na maioria das vezes (e foram muitas) em que se testou o segundo pesqueiro de dia 17 a tempo inteiro, em 90% dos casos, só a partir das 15.00/16.00 horas se conseguiram bons resultados.

Resolvi então testar em primeiro lugar o pesqueiro onde em Julho tinha conseguido os tais dois Robalos, tentando perceber se as condições já eram outras e quem sabe os vermelhos por lá andassem!?
Estamos a falar de um pesqueiro, também sobejamente testado, com muitas e boas pescarias de Pargos grandes, para não falar de Douradas e Sargos legítimos, habituais frequentadores do local, ou zonas periféricas, não costumando resistir a um trabalho exaustivo com a Sardinha como isca.

Mais uma vez investimos tempo e isca, usámos camarão, cavala, para além da muita sardinha, mas embora os sinais dos toques e o roubo de iscas fossem constantes, certo é que os resultados foram parcos, resumindo-se a duas Choupas, alguns Carapaus e um Pargo pequeno que nos deixou água na boca.
Escusado será dizer que por volta das 15.00 horas já estávamos fundeados no segundo pesqueiro, cumprido a estratégia e determinados a consumar melhores resultados.

As condições apresentaram-se idênticas, para não dizer iguais às do dia anterior, inclusivamente a aguagem, em intensidade e rumo.
Uma cana na mão, com um único estralho de 150cm e anzol 6/0, iscado com sardinha inteira e uma cana com montagem de Chumbadinha a trabalhar no caneiro, por vezes também na mão, foram as armas escolhidas para desafiar a bicharada que em toques mais ou menos perceptíveis iam consumindo tudo o que se colocava nos anzóis, conseguindo-se até às seis e tal da tarde, um Sargo, um Pargo pequeno, a Dourada de quilo do meu amigo João e o maior exemplar... este Alfaquim que se estampou na sardinha inteira do meu único anzol da cana a pescar na mão com estralho de 150cm. 


O que dizer?

Os sinais e resultados observados neste último pesqueiro já muitas vezes quiseram dizer que, mais dia menos dia, ele nos vai surpreender... mas quando?

Tudo a bater certo, excepto as capturas... tem sido uma constante. E os maiores exemplares, onde raio param?

Pelos vistos tenho mesmo de mudar de zona!? No entanto, em Sines, as notícias de pessoal amigo que foi para bem mais longe, nos mesmos dias, também a pescar ao Pargo, dizem que os resultados são parecidos. Portanto há que insistir.

Dia 19 de Agosto: Os meus amigos João, Manuel e Braga vêm pescar e importa decidir para onde ir e o que fazer.
Ponho-me a pensar, em todas as zonas batidas, pensando que a fiabilidade das mesmas não justifica iniciar a pesca em qualquer delas, sendo preferível arriscar outro pesqueiro e quem sabe, à tardinha, voltar ao do Alfaquim... gostei dos toques e do que saiu, embora pouco. Nunca se sabe!?

Resolvo-me por um pesqueiro, meio esquecido, que há muito não frequento por se ter tornado durante algum tempo pouco produtivo, no entanto, considerando as características do mesmo, sabe-se que mais dia menos dia, em algum momento, nos surpreenderá positivamente.

O pesqueiro é formado por um pontão que dos 39 metros cai para os 46, no sentido Norte - Sul, alongando-se em entralhados neste mesmo sentido durante uns bons 100 metros, sendo que para o lado de terra é ladeado por pequenos pontões entre os 42 e os 45 metros. Uma delícia de fundo.

Larguei ferro um pouco para Norte dos 39 metros e dei cabo até que o barco ficou nos 46, verificando-se uma pequena mas prometedora aguagem, rumo a Sul e aos entralhados que por aí estão disseminados.

Os toques apareceram de imediato, assim como os roubos rápidos e contínuos, obrigando a trabalho árduo e ao uso, a par com a sardinha,  de cavala fresca em filetes, a única das iscas que se conseguia aguentar algum tempo no anzol, obrigando os pescadores a alguma atenção, tentando discernir toques desinteressantes, daqueles outros que podiam significar peixe mais sério que acabou por aparecer em quantidade e qualidade aceitáveis, proporcionando uma pescaria que não sendo nada de mais me pareceu agradável.

O João com o maior exemplar:


O Trio Alegre na companhia das melhores capturas conseguidas.


Algumas notas importantes sobre o dia:

- O pesqueiro, de algum modo, correspondeu em resultados aos sinais dos toques e às imagens de sonda, não me esqueço que um Pargo grande entrou à Sardinha, cabeceou e levou linha por duas vezes, acabando por cortar o estralho e fugir.
- O vento mudou e a aguagem parou, obrigando a reposicionamento do barco, após o que retornaram os sinais e foi capturado o melhor exemplar. A partir deste momento, talvez por efeito do desaparecimento da aguagem, o pesqueiro ficou morno em termos de capturas, salvaguardando-se a Dourada que o Manuel (campeão do dia) deixou passar ao lado... acontece.
- Ainda visitámos o pesqueiro do Alfaquim, onde encontrámos a forte aguagem e os roubos do dia anterior, mas Parguitos, só dois entraram e pouco mais.

À luz dos relatos e análises produzidas e tentando entender as influências da tal trilogia de variáveis, parece poder dizer-se que um pouco de cada uma delas tem contribuído para diminuir os resultados da Minha Pesca... ora vejamos.

Parece evidente que existem alterações que se espera sejam temporárias. Tal verificou-se pela inconsistência de resultados em pesqueiros diversos, considerando que aconteceram em dias seguidos com condições e sinais de toques idênticos, habitualmente fonte de sucesso e só verificáveis por uma frequência de pesca intensa.

Pode também dizer-se que a frequência de pesca tem uma influência significativa na percepção dos acontecimentos e ainda mais na presença de eventuais alterações que tudo indica se verificam.

Quanto aos processos em uso, sendo credíveis e funcionando habitualmente, encontraram dificuldades de serem aferidos face às alterações verificadas e à anterior falta de frequência de aplicação, podendo ter criado alguma confusão e dispersão nos meus comportamentos em acção de pesca.

Um factor sabemos ser constante... o peixe vive e alimenta-se no mar, em alguma hora e local de cada dia, onde nós pescadores queremos estar presentes com iscas e processos. O problema é que quanto menos vamos, menores são as hipóteses de entender essas movimentações em cada época do ano, em cada maré viva ou morta, considerando alterações de comportamento que normalmente acontecem.

Tentando concluir, parece-me importante perceber possíveis alterações, mas muito mais importante actuar sobre os pesqueiros em dias seguidos, em cada semana ou com a máxima frequência que a vida nos deixar e no caso da Minha Pesca, essa frequência sofreu este ano um abalo significativo.

Não me estou a queixar... antes a constatar o que acho serem factos.

Para já, parece que tudo vai normalizar, mas vamos ver o que a vida nos traz.

Uma boa noite a todos os leitores.

terça-feira, 25 de março de 2014

O Peixe não anda fácil, mas...


Não me canso de estar na situação da imagem de abertura, muito por só ver para a frente enquanto a máquina atinge a temperatura ideal para saltar para os habituais 18 nós de velocidade, com rumo feito à primeira zona escolhida onde quero colocar iscas na água, desafiar os peixes que gosto a morderem o que lhes apresento e a lutarem comigo.

É um momento alto do dia... tudo o que fica para trás não interessa, olho o mar, sinto-lhe o cheiro, observo-lhe o comportamento, oiço o ronronar certinho do motor e todos os outros barulhos conhecidos que me dizem estar tudo bem.
Revejo mentalmente a zona onde vou iniciar a pescaria, os seus fundos característicos, e tento adivinhar se haverá corrente e qual o seu rumo, imaginando cenários variados face às condições diversas que mentalmente vou desfiando, construindo, sabendo de antemão que só quando chegar poderei decidir o que fazer, podendo ou não acertar à primeira com o fundeio. Mas tudo isto me desafia, aguçando-me os sentidos e isolando-me de tudo o resto, em momento muito meu.

Os pensamentos continuam em torno da época do ano, exigente na procura, obrigando a pescas mais profundas, onde os cuidados relacionados com o fundeio e o esforço a desenvolver aumentam significativamente, mas se tornam obrigatórios se quisermos encontrar aqueles maiores que se procuram. Aviso o Jorge Nice, meu companheiro deste dia e dou força à máquina, sabendo que em 15 minutos estarei no pesqueiro, pronto a desvendar a posição em que o barco vai ficar para que as iscas caiam onde queremos.

Chegamos e a sonda começa de imediato a fornecer imagens conhecidas... de contornos, estruturas de fundo e da vida que por lá anda.

O fundo assemelha-se a uma montanha estreita e com algum comprimento, tipo cordilheira, mais ou menos orientado de E para W e começo a sondar as vertentes de Norte para Sul e vice versa, batendo-as em rumos paralelos.
Detecto o fundo que me parece melhor para colocar as iscas a funcionar e preciso de saber onde largar o ferro para que tal aconteça... paro completamente o barco e enquanto preparo o ferro para lançar deixo que o barco derive ao sabor do vento fraco que sinto e da corrente que ainda não sei se existe. O GPS, traça uma deriva relativamente rápida, de SE para NW, em pouco tempo, indicando pela velocidade em que o traçado se desenhou que tanto o vento fraco, quanto alguma corrente, estão mais ou menos alinhados no mesmo rumo. Perfeito... dá um fundeio giro, penso para com os meus botões. Deixei-vos curiosos? Eu explico...

Esta cordilheira, tem bicos que, dum fundo de 86 metros, sobem perto dos 50, tanto para Norte, quanto para Sul; sendo que para Norte as quedas são abruptas e até alcantiladas em grande parte da sua extensão, enquanto para Sul, são menos abruptas e a diferença de profundidades vai acontecendo em socalcos relativamente grandes e normalmente com vida.
Foi mesmo isto que a sondagem já me tinha mostrado e, procurando largar o ferro com a brevidade possível, coloquei-me em cima do bico mais alto, aproei contra o rumo da deriva (SE) e fui controlando as profundidades que caíram primeiro para os 62 metros, depois para os 72 a 76 num declive calmo e prolongado, logo a seguir para os 82 a 84 de forma também calma e, logo a seguir, abruptamente dos 84 para os 86, seguindo-se o limpo, onde após dar algum desconto larguei o ferro, esperando que corresse com a força da deriva e se fixasse no declive entre os 86 e os 84 metros, o que aconteceu.

Tal fundeio, considerando as distâncias, a corrente e a deriva, permitiam-me fazer o que queria, ou seja, colocar uma baixada com dois estralhos compridos e chumbada mais pesada a pescar no socalco dos 84 a 82 metros e explorar o dos 76 a 72, com lançamentos duma baixada à Chumbadinha, cobrindo assim várias áreas de fundo, assim como vários tipos de iscadas em formato e tamanho, já para não falar de 10 a 20 metros da coluna de água que a baixada da chumbadinha explora lentamente, após chegada da chumbada ao fundo.

Outra vantagem desta opção de fundeio, prende-se com o que se pode chamar uma "engodagem de baixada para baixada". Isto é, considerando que a de dois estralhos, com chumbada mais pesada, fica a pescar mais perto do barco e a da chumbadinha mais longe, ambas alinhadas na corrente, se o peixe miúdo começar a desfazer iscadas como a da imagem seguinte...


... ou desta outra, ainda com mais comida...


... os cheiros libertados, levados pela corrente, acabarão por chamar a atenção de predadores que estejam mais afastados e que ou encontram primeiro as iscadas acima ou muito provavelmente dão de caras com esta outra - a da chumbadinha.


Ora digam-me lá se não é possível, sabendo nós que os socalcos que referi são sem dúvida locais interessantes para aqueles que se querem esconder e atacar de surpresa os mais pequenos que se passeiam em grandes grupos pelas paredes e em torno dos bicos destas elevações submarinas, alimentando-se dos nutrientes e pequenos seres que sempre se acumulam em torno ou por cima.

Pensa-se portanto, ter sido assim que alguns Safios de bom tamanho caíram numa e noutra baixada, dois Pargos de 1,5 a 2 quilos caíram nas iscadas da de dois estralhos e, da forma que se espera e por vezes não se alcança, passadas uma 3 horas de pesca intensa e atenta, a ponteira da cana com a baixada da chumbadinha teve um breve tremelique, seguido de uma cabeçada intensa e prolongada, luta a condizer e o prémio de 6,080 kg que a seguir vos mostro, vindo directamente do socalco entre os 72 e 76 metros.

O que andaria o "pardal", por lá a fazer? Certamente achou que tinha por ali calorias para ingerir a "baixo preço"!?


E foi como aconteceu caros leitores... desta vez funcionou, tem outras que não funciona e até acontece funcionar melhor. O problema é perceber porquê!?

Sinceramente, penso que o fundeio e a colocação das iscas, são os factores mais importantes, sendo que em certos locais, dias e respectivas condições de mar e vento, a coisa pode não funcionar tão bem.

Perguntarão alguns de vós: então e não podia ter fundeado de outra forma?

Ao que responderei: Podia e até é possível que fosse mais produtivo, mas pensa-se aposta-se, testa-se, observam-se os resultados e numa próxima vez logo se vê o que nos trás o dia.

Não se preocupem... entretenham-se para já com o que por aqui pensei, vamos conversando e na próxima eu conto.

Uma boa noite a todos os leitores.

domingo, 2 de março de 2014

Matar saudades com a pesca possível...


A evasão inesperada é sempre uma boa sensação... mas, para além desta, ir para onde quer que seja sem qualquer tipo de compromisso próximo, sentindo-nos donos do nosso tempo, a solo, gozando a nossa privacidade, são para mim um conjunto de circunstâncias que marcam momentos muito próprios, quando não raros, nas nossas vidas cheias de horas, compromissos, negociações, alterações de última hora e não sei quantas mais variações aceites por força do hábito e certamente, na sua maioria, dispensáveis.
A questão é que, invariavelmente, só depois de gozados estes momentos apuramos o sentido crítico para o conjunto de chatices com que nos habituámos a viver por força das diversas relações estabelecidas como base de sobrevivência neste mundo de "homens". Mas adiante...

Se conjugado com a evasão, temos na mira a pesca, também ela sem grande preocupação com horas e depois de mais de um mês e meio sem molhar o "dito cujo", então parece que todos os sinos do carrilhão se balançam em uníssono tocando música celestial. À falta de sinos, por não caberem no carro, fizeram-me companhia o Bob Marley, os Dire Straits, a Tina Turner..., enfim, gente do meu tempo.

Resumindo... uma delícia de viagem acontecida na passada Quarta Feira, sendo que, quanto mais me aproximava de Sines, com maior intensidade os pensamentos na pesca e no mar, para além dos relacionados com a condução calma, me povoavam a "caixa dos pirolitos"... tão bom!

Relembrei pescarias nesta época do ano, respectivos pesqueiros mais produtivos, não muito afastados, recentes e mais antigos, tentando eleger face às condições de mar e vento esperadas qual o primeiro a sondar e onde eventualmente fundear caso as marcações de sonda indicassem boas hipóteses de sucesso, tirando mentalmente alguns apontamentos.

A manhã do dia seguinte, embora cinzenta, acordou calma e pelo mexer do barco na amarração, tudo indicava que a vaga lá fora já tinha diminuído para níveis de conforto interessantes.

O meu amigo João Martins chegou, ultimámos os preparativos finais e andámos para o mar, tranquilamente, aquecendo a máquina antes de ir para a velocidade de cruzeiro, enquanto trocávamos impressões sobre o primeiro pesqueiro a testar sob a égide de indecisões decorrentes das alterações que os fundos possam ter tido por via das últimas agitações marítimas, tentando enquadrar estas com as habituais movimentações dos peixes na presente época.
Certezas... não as havia, mas sabíamos ser recorrente que peixe maior nesta época, tende a estar mais fundo e consequentemente mais afastado de terra, excepção feita a Sargos e às Douradas dispersas da época de acasalamento que poderão andar mais perto de terra e em fundos menos importantes.

Decidimo-nos por uma zona de pesqueiros que não visitávamos há muito tempo, onde outras pescas de qualidade já tinham tido lugar e para lá nos dirigimos.

Os fundos aparecerem no ecrã da sonda mostrando alguma actividade, principalmente onde caíam levemente, dos 60 para os 68 metros, fazendo com que arriscássemos o fundeio para testar a zona.

As iscadas de sardinha, assentaram lá em baixo e passado pouco tempo, sem que nada o fizesse esperar, cai um parguito pequeno, seguido de um outro ainda mais pequeno que o primeiro, ambos devolvidos ao mar de imediato.
As previsões mostravam-se interessantes, fazendo-nos pensar que os avós destes primeiros "vermelhuscos" pudessem vir também a comparecer, mas, não passaram de isso mesmo... previsões!

Claro que na altura não o poderíamos saber, atendendo a que os sinais continuavam interessantes com algum roubo de iscas e a subida de umas quantas Choupas azuis de tamanho considerável, o que íamos encarando como um mal necessário até que outros maiores e de cor diferente chegassem ou se decidissem.

A nossa insistência continuou até que o pesqueiro, em vez de melhorar, piorou, atingindo um ponto em que, durante espaços cada vez maiores, já nem as iscas comiam, indicando tal comportamento que os peixes que procurávamos e mesmo aqueles que de vez em quando subiam não estavam a reagir bem ao nosso trabalho, não estavam lá ou procuraram entretanto locais mais interessantes. Eram quase duas horas da tarde e evidenciava-se a necessidade de tomar decisões.

O tempo útil de pesca é, nestes momentos, um dos factores de peso a ter em consideração, atendendo a que uma má aposta certamente colocará em causa o sucesso da pescaria obrigando-nos a equacionar por exemplo que se fizermos uma deslocação longa, gastamos tempo; se o pesqueiro onde fundearmos precisar de ser trabalhado, mais tempo ainda necessitaremos; se nos afastarmos do porto, para além do consumo de combustível, maior será o tempo a despender na volta a casa e consequentemente, caso optemos por conjugar todos os factores apontados, estaremos a diminuir significativamente o tempo em que as nossas iscas actuam no fundo.

Com base nos considerandos anteriores, resolvemos então aproximar de terra para uma outra zona onde nesta altura do ano, embora não sejam habituais as capturas de Pargos grandes, já o mesmo não se poderá dizer dos Sargos de tamanho aceitável, assim como, das Douradas que entretanto dispersaram dos locais de acasalamento.

Ferro levantado, eis que navegámos para a zona escolhida, a uma milha do porto, 52 metros de profundidade, sobejamente conhecida, onde a sondagem nos mostrou marcação digna de fundeio que rapidamente efectuámos.

Após deixarmos as iscadas chegarem ao fundo, durante algum tempo, nada aconteceu, o que não costuma ser um bom sinal neste pesqueiro, mas os dados estavam lançados e havia que aguardar.
Durante perto de uns 30 minutos nada capturámos, mas de vez em quando tínhamos uns toques interessantes que em nada se assemelhavam a peixe miúdo e que nos cortavam postas ao meio ou roubavam uma ou outra posta de Sardinha. Desconfiámos...

Certo é que, a espaços mais ou menos regulares e sem roubos de peixe miúdo, começaram a entrar Sargos, intervalados com Douradas que compuseram a caixa que vos deixamos em imagem.


Verdade que não conseguimos aqueles exemplares que sempre se procuram, mas também verdade que optámos bem considerando experiências anteriores face a épocas idênticas, fundeámos com correcção, interpretámos os toques e insistimos perante as dificuldades surgidas, conseguindo transformar mais um dia a nosso favor, sustentado pela caixa bonita e bem preenchida com que vos presenteámos.

Os peixes caíram a anzóis 5/0, tipo chinu e a isca mais produtiva foi a Sardinha, iscada conforme se pode ver na foto abaixo. 


Importa referir que, da maneira como o peixe se comportou, tudo indica que quem para ali fosse pescar com anzóis pequenos e iscas de outra qualidade que não fosse a Sardinha, eventualmente capturaria Choupas e outros peixes, mas dificilmente Sargos e Douradas na quantidade e qualidade conseguida. Isto porque, atendendo à reacção inicial, parece poder dizer-se que a Sardinha começou por fazer pesqueiro, interessando peixe de qualidade que não andaria longe. Para além disso, também iscámos com Bomboca, Camarão e Lula, sendo que as poucas Choupas que entraram, caíram nessas iscas ou em iscadas mistas onde constavam, coisa que raramente aconteceu, quer com Sargos, quer com Douradas.

Na Sexta Feira ainda fomos, ao mesmo local, muito por se perceber que o mar e o vento possivelmente não nos deixariam pescar mais por fora, nem o dia todo, o que de facto aconteceu obrigando-nos a voltar para o porto antes que batessem as duas da tarde.
Mesmo assim ainda capturámos um Alfaquim, três Douradas, dois Sargos razoáveis e duas ou três Choupas dos quais não temos fotos.

Ficam as notas também para para vossa análise e reflexão.

Um resto de bom Domingo a todos os leitores.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Portaria 14/2014, de 23 de Janeiro: O positivo e... o negativo.


Não estou nos meus melhores dias, confesso!

Aliás, estou um bocado cinzento, como a foto de abertura e, entre outras coisas, certamente a portaria em título está a contribuir para isso por várias razões possivelmente pouco válidas considerando a fome no mundo, gente sem emprego, sem saúde, sem forma de alterar o estado de coisas e tantas outras misérias que cada vez mais assistimos por esse mundo fora, razões suficientes para até achar ridículo gastar tempo a falar disto.
Portanto, acho que se torna visível que a minha vontade de abordar este tema é nula e embora contribua para que o meu colorido interior seja igual ou até mais escuro que o da da foto, acho que o devo fazer atendendo ao percurso que perante o leitores percorri desde o início destas novas alterações.

Após leitura atenta do documento, vou tentar apontar pontos positivos, negativos ou outros que não me parecem fáceis de discernir quanto a serem "carne ou peixe", justificando os meus pareceres e evitando ao máximo passar atestados de qualidade seja a quem for.

Salvaguardo desde já que nunca concordei com os pressupostos da lei desde que este processo se iniciou com o Decreto-lei n.º 246/2000, de 29 de Setembro e com as portarias que lhe sucederam agora revogadas por esta, nomeadamente no que se refere aos limites de captura, já para não falar numa quantidade enorme de outras situações, algumas delas alteradas para melhor. Mas adiante!


Pontos positivos:

A - O documento integra vários outros, revogando, ao abrigo das alíneas a), b) e c), do seu artigo 18.º, os seguintes diplomas: Portaria n.º 1399/2006, de 15 de Dezembro; Portaria n.º 143/2009, de 5 de Fevereiro; e, Portaria n.º 144/2009, de 5 de Fevereiro. Estas últimas, já anteriormente alteradas por outras, decorrendo de tal, morosidade de consulta e dificuldade de entendimento para muitos de nós.

Considero o ponto positivo atendendo a que, em conjunto com o Decreto-Lei base que regulamenta (246/2000, de 29 de Setembro), melhora o entendimento e consulta da mesma, tanto por pescadores, quanto por autoridades, essencialmente por congregar o que foi alterado e mantido, ou quase, nos diplomas que revogou.
Esta alteração é ainda positiva por permitir, por omissão, que os pescadores apeados do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV), possam ter acesso a capturas diárias iguais a todos os outros, pescarem o mesmo número de dias e a que todos os Portugueses possam mariscar naquela zona, em pé de igualdade, nos termos descritos pelos números 2, 3 e 4, do artigo 12.º.
Importa ainda referir que o mesmo acontece em outras áreas protegidas que abrangem a faixa costeira nacional, considerando no entanto a legislação própria já existente que não foi revogada.
Sobre as áreas em causa, deveremos ter ainda em conta que em qualquer momento poderão ser aplicadas, pelos responsáveis que as controlam e coordenam, novas restrições ou defesos.

B - A abertura à pesca embarcada em áreas protegidas, conforme descrita nos números 2 e 3, do artigo 9.º.

Considero positiva esta reposição de direitos, atendendo à pouca pressão exercida por pescadores lúdicos e desportivos embarcados naquela faixa costeira de 2 km, sendo a pesca profissional local e a pesca submarina muito mais intensas nessa zona que a pesca embarcada de recreio que tende a afastar-se mais da costa.
Quanto à diferença de dias em que embarcações de pesca turística e embarcações de recreio lá podem pescar, é assunto para tratar durante a análise dos pontos negativos. Lá chegaremos.

C - Aumento de capturas diárias, de 10 kg e um exemplar para 15 kg e um exemplar, no caso daqueles de nós que praticam a Pesca Submarina, sabendo eu que, na maioria dos casos, estes nossos companheiros preferem que se chame Caça Submarina.
Sem dúvida que é positivo, assim como o seria para todos os outros que não sendo "caçadores", também pescam, pagam (e bem) e quando num dia excepcional, para não dizer raro, conseguiriam passar dos 10 kg e muito mais raro dos 15, não podem porque é proibido. Esta discrepância de direitos será claramente um dos pontos negativos em análise.

D - A diminuição significativa dos valores das licenças a adquirir por aqueles de nós que usufruem do meio aquático através da Pesca Submarina. Nem vale a pena comentar quão positivo é este ponto, em qualquer lugar ou momento, quanto mais na crise que se vive.

E - Uma outra alteração me parece positiva, embora com alguns pontos de interrogação ... O formato electrónico para aquisição de licenças e monitorização da Pesca Lúdica e Desportiva.
Eventualmente trará alguns problemas a quem não se relaciona muito bem com computadores (e não serão tão poucos como isso), o que obrigará a deslocamentos a balcões ou a pedir favores a quem o possa fazer.
Num estado que nitidamente não respeita súbditos mais velhos, promovendo até falhas de atendimento para que morram rápido e considerando que este será o grupo tendencialmente menos familiarizado com a informática, temo que se venham a verificar alguns problemas de acesso. Espero que não.

Antes de avançar para a análise dos pontos negativos e atendendo a que a maioria, senão quase a totalidade deles, na minha opinião, se situam na área da pesca embarcada, com maior incidência naquela praticada em embarcações de recreio, vou destacar o único que me parece não sei bem o quê, abrangente a todos os pescadores... o corte da barbatana caudal, conforme descrito no n.º 9, do Artigo 12.º!

Porquê? Para resolver o quê? Alguém me quer explicar?

A única coisa que isto me parece ter como objectivo é fazer-nos sentir aporreados, nada mais. Mas aguardo argumentação passível de alterar este meu sentir!?


Pontos negativos:

Não resisto a uma pequena introdução...
Dirão alguns de vós que sou suspeito, por a pesca embarcada ser a minha actividade de eleição, ou até eventualmente tenha a mania da perseguição, o que contestarei na medida em que vou tentar ser o mais frio possível na análise, mas, na verdade, acho tão evidente quanto levar um soco bem dado na cara, sentimento que conheço devido a actividades desportivas que pratiquei ou até outras menos desportivas e muito sinceramente foi o que senti quando caí em mim, após leitura do presente diploma.
Não sei bem por onde começar, mas vamos lá a isto.

A - A manutenção do peixe vivo em competições apeadas e embarcadas de mar ou estuário, conforme refere o n.º 7, do Artigo 12.º.
Gostaria que alguém me explicasse como manter vivo peixe de água salgada, durante 4 a 5 horas, sem ser num viveiro de isca viva devidamente oxigenado, mantendo água corrente e mesmo assim sujeito à morte de diversas espécies, algumas delas muito pouco resistentes. Ponto negativo, sem dúvida.

B - As capturas diárias permitidas por pescador - 10 kg para apeados e embarcados, 15 kg para pesca submarina, ambos com hipótese de mais um exemplar - conforme refere o n.º 1, do Artigo 12.º.
Não se trata de estar contra os pescadores submarinos poderem capturar os 15 kg, mas sim, contra a limitação de 10 kg para todos os outros. Ora analisemos.

A raridade para um pescador apeado no que respeita a conseguir atingir tal volume de capturas, ou chegar perto, mesmo que pesque assiduamente, não justifica de forma alguma que o não faça se num determinado dia tal hipótese lhe surgir porque tem conhecimentos para isso e/ou por obra e graça do Espírito Santo.
No que respeita à pesca embarcada, não sendo tão difícil conseguir atingir tais quantidades por cabeça, só uma minoria de pescadores mais assíduos e conhecedores conseguem atingir de vez em quando os 10 kg e dificilmente os 15.
No caso da pesca embarcada teremos ainda de observar que a grande maioria pesca uma a duas vezes por mês, nos meses em que o conseguem fazer, atendendo ao estado do tempo e aos valores a despender em gasóleo, iscas, deslocações e/ou pagamentos em barcos de pesca turística e à disponibilidade que o trabalho e família lhes permitem.
Portanto, qual o mal que vem ao mundo por também estes poderem capturar os 15 kg, quando tal se proporcionar?
Não me venham falar de oportunidades de pesca, porque sei muito bem que quando o tempo está acessível para a pesca embarcada, também está para a pesca submarina e tem muitos dias com ventos moderados dos quadrantes Norte e Leste que são quase impossíveis para a pesca embarcada, em determinadas épocas e no entanto possíveis para a pesca submarina, considerando os abrigos nas costas Oeste e Sul que permitem acessos a belíssimos pesqueiros, nomeadamente para aqueles que agora poderão desfrutar em pleno de áreas protegidas.
Mesmo em dias sem vento e com força de vaga que não permita aos pescadores submarinos pescarem encostados a terra, tem muito bons pesqueiros em baixas por fora que a determinados níveis destes nossos companheiros, lhes permitem excelentes capturas.
Não sei se preciso de acrescentar mais alguma coisa para justificar a negatividade deste ponto? Acho que não!?

C - As capturas diárias dos pescadores lúdicos em embarcação de recreio, estarem limitadas a 25 kg e um exemplar por cada pescador, quando no barco forem mais de 3 pescadores, em detrimento de tal não acontecer em embarcações de pesca turística e de pesca submarina, conforme refere o n.º 5, do Artigo 12.º.
Pelas razões já apontadas relativamente à dificuldade de conseguir as quantidades de capturas (10 a 15 kg) e repetindo-me quanto à questão de não se poder capturar essas quantidades num raro dia em que tal possa vir a proporcionar-se, considerando ainda que raramente uma embarcação de recreio leva mais de 3 a 4 pescadores, por quê e para quê mais esta nítida descriminação obviamente desnecessária?

D - Outro ponto negativo que, na minha opinião, tem sido recorrente em todos os diplomas produzidos desde o início, é a omissão quanto à hipótese de qualquer pescador poder optar entre o peso legal actual mais um exemplar, ou, por exemplo, só 3 exemplares de maior porte o que se adequaria à pesca com zagaia, entre outras.
Isto porque, caso num dia que, sendo excepcional, se capture um exemplar de peso superior a 10 kg e logo após se capture outro igual, ou de peso superior, estamos ilegais.
Se consultarem o Regime Jurídico da Pesca Lúdica nas Águas dos Açores e mesmo tendo em conta diferenças de técnicas e espécies possíveis, verifica-se que não seria inadequado fazer bem, bastando para tal perceber que o grupo que desenhou este regime, para além de saber do assunto, foi ouvido.

E - A limitação de 5 dias de pesca por semana nas áreas protegidas para pescadores lúdicos, em embarcações de recreio, quando tanto os pescadores submarinos, quanto os pescadores em embarcações de pesca turística podem lá pescar todos os dias, conforme referido no n.º 2, do Artigo 9.º. Neste caso, sendo positivo que se possa pescar nessa pequena faixa costeira (2 Km), embora não seja das mais frequentadas pelos pescadores embarcados em embarcação de recreio e pelas razões apontadas nos dois pontos anteriores (B e C), qual a razão de mais esta também nítida discriminação?

F - Os valores das licenças de pesca, conforme referidos no anexo IV da Portaria e segundo as designações dos vários tipos de licenças, constantes nas alíneas a), b), c) e d); do n.º 3, do Artigo 12.º, na republicação do Decreto-Lei n.º 246/2000, de 29 de Setembro, com a leitura já alterada pelo Decreto-Lei 101/2013, de 25 de Julho.

Depois de tudo o argumentado quanto às desigualdades nas quantidades legais das capturas diárias, o valor das licenças para a pesca embarcada, para além da diferença abismal face à pesca submarina, tem um aumento faraónico. Senão vejamos:

Considerando os quadros de dados estatísticos da DGRM  referentes ao ano de 2012 e ao 1.º semestre de 2013 que, numa análise relativamente rápida, se evidenciam proporcionais, verifica-se o seguinte:

a) As anteriores licenças locais, com periodicidade anual, eram as mais adquiridas, representando sensivelmente 90% do total de licenças na pesca embarcada.

b) Ainda segundo os quadros de dados estatísticos da DGRM, a tendência da maioria dos pescadores lúdicos embarcados para a aquisição da licença local anual mantinha-se de forma nítida e incontestável.

Considerando que a anterior licença local de periodicidade anual, custava 30 euros e que a agora obrigatória licença anual custa 50, pode concluir-se que:

- A eliminação das licenças locais e a obrigação legal de tirar a licença nacional representam, para 90% dos pescadores lúdicos embarcados, um aumento real na ordem dos 67%, atendendo a que vão certamente manter a embarcação na mesma zona, não beneficiando obviamente de qualquer usufruto em termos do uso territorial permitido. Esta obrigatoriedade configura-se nitidamente como um "presente envenenado".
Tal aumento verifica-se com a mesma percentagem na aquisição da licença diária que passou de 3 para 5 euros.
Ambos os aumentos, eliminam sem qualquer dúvida o que poderia ter de positivo o alargamento da licença diária à pesca em embarcação de recreio, antes só possível aos pescadores que iam em embarcações de pesca turística.

Considerando os dados estatísticos exibidos pela mesma fonte (DGRM), também a pesca apeada regista um aumento significativo tendo em conta que embora a licença anual tenha baixado, representa sensivelmente 40% das licenças tiradas a nível nacional. Ao verificarmos que a anterior licença local custava 6 euros e que a actual e obrigatória licença anual custa 8, isto quererá dizer que mais ou menos 60% dos pescadores apeados que tiravam licenças locais vão também pagar mais 30%, também sem retorno em termos de usufruto territorial, considerando a zona onde exclusivamente exercem a sua actividade, podendo tal afirmação verificar-se através do tipo de licença que antes tiravam.

Repetindo-me sobre a origem dos dados que permitem produzir estas afirmações , em ambos os casos - apeada e embarcada - os aumentos obrigatórios verificados, para além de contribuírem alarvemente para o aumento de entrada de dinheiro nos cofres do estado, colmatam largamente os valores retirados às evidentes minorias representadas por aqueles de nós que se encontram nas seguintes categorias:
- Os embarcados e apeados que tiravam licença nacional
- Os que usufruem da actividade, através da pesca submarina

Abençoados sejam e ainda bem que alguém consegue beneficiar com a "coisa". Porquê? Não faço a mínima ideia!?

G - A obrigatoriedade de manter os coletes de salvação ou AIF, vestidos em acção de pesca, conforme descrito no n.º 3, do Artigo 4.º da Portaria.

Sobre este assunto, conhecem os leitores a minha opinião, sobejamente clarificada em anteriores entradas, mas posso ainda pormenorizar um pouco mais.

A maioria dos acidentes, senão a totalidade, têm acontecido nas viagens, nomeadamente em entradas ou saídas de barras e não em acção de pesca.

Questões:

1 - Porquê exigirem que com quaisquer condições de mar e vento e em qualquer lugar, a partir do momento em que se evidencie que obviamente vamos pescar, teremos de ter os ditos meios de salvação envergados?

2 - Qual a diferença, em termos de risco, de eu estar a pescar ali por fora de São Torpes, em pleno Verão, num dia de mar raso, ou estar um veleiro fundeado a 200 metros de mim, com pessoal a tomar banho a partir do barco, sendo que eu terei de envergar um meio de salvação e eles nem pensar?

3 - Que culpa tenho eu e a maioria dos pescadores lúdicos embarcados que uns quantos não se respeitem.

4 - Para que me servem todos os meios de salvação e tele comunicações que tenho obrigatoriamente a bordo?

5 - Porquê o uso da palavra "tripulantes"?
O único tripulante a bordo do meu barco sou eu e em barcos de pesca turística, parece-me que são tripulantes... o mestre e o(s) marinheiro(s). O que quer isto dizer, quando no Decreto-Lei 246/2000, tal palavra não consta?
Vai dar confusão ou não?

Face às questões colocadas e no sentido de facilitar o legislador, poderia ainda concordar que me obrigassem a envergar os coletes ou AIFs, nas viagens de ida e volta, mas... a tempo inteiro?
Com todo o respeito, vou cumprir porque é de lei, mas não há autoridade marítima ou qualquer outra entidade que até ao momento me consiga fazer concordar com isso.


Conclusões:

Face às análises e reflexões produzidas, a pesca lúdica embarcada na generalidade e particularmente aquela que se realiza em embarcações de recreio, foi abusivamente desconsiderada e discriminada na actual legislação, tanto no que se refere às questões relacionadas com as quantidades de capturas diárias, quanto ao aumento das licenças.

Relativamente ao enquadramento legal, a portaria em análise viola nitidamente o princípio orientador constante da alínea b) do Artigo 1.º-A, do prevalecente Decreto-Lei 246/2000 que ao estabelecer os princípios orientadores que tem por base, refere o seguinte:  "b) Princípio do acesso equitativo aos recursos naturais, considerando o ambiente como bem de uso comum".

Como é que isto aconteceu e porquê? Não faço a mínima ideia!?


Comentários pessoais:

Não pretendo com as análises e reflexões produzidas promover clivagens entre pescadores seja qual for o tipo de pesca lúdica que pratiquem.

O texto pretende unicamente ser informativo e fonte de debate, na medida em que vem no seguimento de todo um processo que tenho vindo a comentar, para além de nitidamente contrapor a pouca correcção de certas notícias, como a que saiu no Correio da Manhã de 24 de Janeiro  passado, certamente "encomendada" e segundo a qual somos 500.000 na totalidade e estamos todos satisfeitos.

Sobre tudo isto e eventualmente sobre outras questões não abordadas, agradeço que comentem e me alertem face a possíveis incorrecções ou omissões.

Quanto à cor interior com que iniciei este artigo, mantêm-se e até enegreceu um pouco mais, sendo que a falta de pesca também ajuda.

Esperemos que o tempo dê uma aberta ou mais, para podermos pelo menos começar a usufruir, considerando os 50 euros da licença nacional e... para dar uso aos coletes!?

Boa tarde a todos