sábado, 13 de dezembro de 2008

Caça Submarina... Peripécias de outros tempos!


O fim de semana de pesca não tem remédio!
Vento, mar e chuva com fartura, aproximam-se a passos largos, sem margem para dúvidas quanto a hipóteses de pescar!
Sinceramente, prefiro assim! Pelo menos não fico indeciso, naquela do vou, não vou!?
O trabalho rola e guardo este tempo para "pescar" por aqui!
Pensei em escrever sobre uma quantidade de assuntos técnicos actuais, mas, não tendo fotos para ilustrar, deixei rolar o pensamento em direcção a memórias antigas que me levaram aos álbuns de fotos com a mesma idade, desenterrados de um armário em que há muito não vasculhava.
Se o pensamento já voava célere, a visualização das imagens fez-me sentar, nostálgico e com vontade de me lembrar de cada momento, cada pormenor... Também dos relacionamentos, das boas e não tão boas experiências e de sei lá mais o quê!?
Partilho, não partilho? Porque não? Vou Partilhar!
Iniciei-me na caça submarina, no ano de 1978, já casado e pai!
Verdade que tinha a mania das apneias e já tinha usado óculos e barbatanas, mas, mergulhar com fato, cinto de chumbos, respirador, barbatanas mais compridas, espingarda, bóias atrás e mais não sei quantos truques... Era, sem dúvida, uma aventura!
Nem vale a pena falar de técnica de apneia, era um mundo totalmente novo!
Tudo começou, em Setúbal, numa noite em que, após um dia de aulas, estando eu ao balcão de um bar onde trabalhava à noite para compôr o orçamento lá de casa, entraram uns marmanjos que eu conhecia de vista, embora não tivesse qualquer lidação com eles! Malta que tinha frequentado o Liceu!
Eu andei na Escola Industrial e as rivalidades da altura entre os alunos dos dois estabelecimentos não levavam a grandes lidações.
Os homens sentaram-se, pediram as bebidas, foram servidos e a conversa rolou!
O que vos posso dizer é que ainda a noite não tinha acabado, já eu estava convidado para uma caçada submarina, sem ter sequer que me preocupar com o material!
É caso para dizer que a noite, por vezes, pode ser mágica, dependendo muito da quantidade de "copos" e da qualidade de quem os bebe!
Certo é que, não me portei mal no baptismo, a coisa continuou, os moços do Liceu até nem eram más pessoas e, para aí à sexta ou sétima vez que cacei com eles, participei naquela caçada "monstruosa", que aparece na foto de entrada e até fui elogiado por ter apanhado um bom quinhão, embora nada que se comparasse com os dos meus companheiros, já batidos naquelas andanças.
Mas o "bicho" já cá estava, bem no fundo!
Esta caçada foi inesquecível! O peixe estava por todo o lado, a pouca profundidade, ali nas "baixas" do Malhão onde chegámos saídos do cais dos pescadores de Porto Côvo que, como devem calcular, não era nem de perto o que é hoje.
Já professor, na altura, mas sem esquecer as competências desenvolvidas no Curso de Formação de Serralheiros que tirei na Escola Industrial de Setúbal e com o apoio da oficina de serralharia do meu pai, onde trabalhava nas horas vagas, contribuia com arranjos de armas de caça, arpões de inox e até atrelados para barcos de borracha, que fazia manualmente, preparados para suportar o peso do barco com motor montado e todo o material de três ou quatro caçadores lá dentro. Sim, porque ao tempo, os carros eram pequenos, velhos e com pouco espaço interior, em suma, tudo à medida da capacidade monetária dos "atletas" envolvidos.
A aprendizagem foi-se realizando! O tempo foi rolando!
Tudo era difícil, trabalhoso! A maior parte dos acessos à água tinham poucas condições e o próprio material obrigava a trabalhos forçados, senão vejamos:
Chegávamos a um qualquer local, acampávamos, largávamos as tendas, dirigiamo-nos ao acesso à agua mais próximo e era desmontar motor, tirar todo o material que na viagem vinha acondicionado dentro do barco e carregá-lo até perto da água. Depois era o barco, carregado aos ombros, montar o motor, tornar a acondicionar todo o material e sair para o mar onde caçávamos de manhã até ao entardecer! Muito duro, mas muito bom!
Fizémo-lo muitas vezes, em Sagres, Porto Côvo, Arrifana... Quando havia dinheiro para ir tão longe. Quando não... Era mesmo ali em Setúbal, onde a caça na areia era a rainha, permitindo capturar marisco, Linguados, Chocos e as Raias como as que se veêm na foto abaixo!

Então, quando tudo se conjugava, lá íamos para os Alentejos e Algarves, onde Sargos, Robalos, Douradas e outras tantas ilusões eram procuradas, umas vezes encontradas e outras nem tanto!
Carros em segunda mão, barcos e motores recuperados até à exaustão, depois de adquiridos em leilões da Marinha, com horas infinitas de uso, ainda assim, capazes se prestar os serviços que lhes solicitávamos, permitindo-nos ir a lugares onde, hoje em dia, só se consegue chegar com semi rígidos com alguma qualidade e com papelada legal que leva 30 minutos a mostrar a um qualquer agente.
Veja-se o exemplo da foto abaixo, em 82, a preto e branco por descuido de quem comprou o rolo!
Um barco de borracha e um motor com as características referidas, montados em cima dum atrelado made by Ernesto e rebocados com uma carrinha a condizer, tudo propriedade do meu amigo Carlos Cruz, despesas a meias e dois artistas em pose, com a cabeça cheia de grandes peixes, ilusões e a quase certeza dos Sargos grelhados na fogueira do acampamento na Praia da Mareta, lá para Sagres.
A concretização das intenções que levávamos, pode verificar-se na imagem seguinte, tirada pela mesma máquina e com o tal rolo, comprado por engano, naquele fim de semana comprido em 82.
Aqui já com fatos decentes, os primeiros especiais de caça que por cá apareceram, da Beuchat, representados pelos então grandes caçadores submarinos, Bessone Basto, Valente Garcia e Vitor Cruz, as referências da altura, nesta actividade.

O tempo foi passando, as caçadas continuando, desvendando mais fundos, mais técnicas, outros materiais, enfim, tanta coisa... E as caçadas aconteciam, cada vez com mais segurança, como a que se segue, em novos locais da zona do Malhão, mais fundos e com técnica de apneia mais apurada, já em 87. Num dia em que os Sargos se mantiveram ao nosso dispôr sempre no mesmo buraco. Isto, depois de os entocarmos, caçando-os primeiro cá fora, qual nuvem de peixe que por força da calma, ponderação e cuidado, foi entocando numas frinchas estreitas e nos permitiu capturar o que se vê. Lindo, não é?

A história foi-se desenrolando, fui trabalhar para fora da terra, depois arranjei mais trabalho, não conseguindo manter-me no grupo de caça e pensando sempre que um dia viria a ter o meu próprio barco e caçaria até à exaustão, sem estar dependente deste ou daquele, mal sabendo que assim que o tivesse, o que aconteceu por volta dos 40 anos, me passaria, por circunstâncias da vida, para a prática da pesca embarcada com cana. Vá-se lá perceber o que está para vir!?
Não se pense que estou pesaroso ou até arrependido! Estou unicamente a divagar sobre o assunto, constatando factos e pensando no que fui conseguindo de sonho em sonho, de objectivo em objectivo.
Tenho 54 anos e não acho que tal seja um posto! Mas, por conversas com pessoal mais novo que têm sonhos que já tive e que pensam que nunca de tal passarão, apetece-me dizer: labutem, não percam a família de vista, pesquem o que puderem, como puderem e esperem só até que os Vossos sonhos se transformem em objectivos!
Quando menos esperarem, já os peixes grandes estão a saltar para dentro da Vossa embarcação! Certamente, antes dos 54 anos! E se for depois... Qual é o mal?
Boa noite a todos os leitores!

14 comentários:

Anónimo disse...

exelente post!
devias colocar mais posts sobre caça submarina recordando os velhos tempos e fotos,seria optimo.
um abraço

Bruno Mendes disse...

quem me dera apanhar metade daqueles sargos hoje numa saida embarcada. Hoje a lei nao permite abusos desses mas uma pesca dentro dos limites ja seria muito bom.
De resto é sempre bom relembrar aqueles tempos. De resto um um bom texto como ja nos habitou.
Alem disso so o facto de ver as coisas noutras prespectivas ja é muito bom.

Gonçalo disse...

boas

la esta as tais caçadas de raias que o amigo Ernesto dizia la naquele tal sitio mesmo pertinho de Setúbal, comentamos isso na feira do PD.PT, ja la vai o tempo em que se matava assim uma caixa desses sargos, quer dizer ainda ah alguns sítios onde se consegue apanhar, mas n esta a alcance de todos ;)

abraço
Gonçalo

Anónimo disse...

Viva Ernesto Lima

Num dia muito cinzento (...) saiu um texto carregado de memórias e de uma vida conquistada a pulso. Como deviam ser todas.
E grandes fotos, ajustadas à época.
Gosto particularmente da de 82, em plena estrada e da pose dos artistas!
Se falasse, imagino o que essa carrinha nos contaria...
Só faltou uma coisa, um fundo musical com os top de então

Um abraço

João Martins
.

Paulo karva disse...

Viva Ernesto
Belas recordações de grandes emoções. É o melhor que a vida nos trás.
Grandes pescarias nesse tempo.

Abraço
Paulo karva

Ernesto Lima disse...

Viva Pessoal!

Grato pelos comentários!

As minhas desculpas por só agora responder, mas esta altura é de actividades e avaliações e de tanto trabalho de computador que fica difícil chegar a todo o lado!

Este post foi uma forma de pensar e relembrar escrevendo. Pensar em outros tempos em que tudo era mais simples e na vida que para mim foi tão dura quanto para a maioria de nós e eu ainda fui tendo recompensas que muitos outros, trabalhando tanto ou mais, não conseguiram, muitas vezes porque aquele bocadinho de sorte não esteve presente! Não esqueço isso!

Dos Vossos comentários, ressalta a vontade de mais coisas de caça submarina que, sinceramente, irão aparecendo nestes tempos em que o mar é padrasto. Também, no caso do João Martins e do Karva, pessoal mais para a minha idade, a compreensão do que sentimos quando nos pomos a relembrar... É muito bonito!

Quanto ao comentário do Bruno Mendes, a palavra "abusos", na minha opinião não se aplica, por razões que passo a referir:

Aquela 1.ª caçada é excepcional e feita por cinco homens!

As outras que se mostram, são belissimas caçadas, espaçadas em anos, que não revelam os dias em que gastávamos tudo o que tinhamos e mal apanhávamos peixe para comer!

Claro que destas últimas reza a história, mas fotos de peixe... Não há! Como é óbvio!

Não se pense que aquilo era assim, todos os dias!

Daí que a palavra "abusos", não está enquadrada! Em determinado momento pensei que se referia a Arrastões, Redes de emalhar, Banqueiros, Políticos que saem e passam a administradores... Coisas assim! Mas não! Afinal aquilo era mesmo para mim! Lol

Estou a brincar, concerteza! Mas na época, na situação e depois do que referi, a "tal" palavra... Não se enquadra mesmo!

Grande abraço!

Ernesto

Daniel Rodrigues disse...

Bons tempos Amigo Ernesto.
Uma caixinha de Sargos de fazer inveja a qualquer Pescador ou caçador, neste caso!

Caça Submarina, um desporto que ainda nunca experimentei, mas gostaria. Há-de vir o dia.

Mas por agora, se o mar acalmar, temos de ir ver é das nossas amigas Douradas!!

Um grande Abraço e Até Breve,

Daniel Rodrigues

Daniel Pedro Silva disse...

Viva Ernesto.

Caça Sub, é das coisa mais Bonitas que se pode fazer dentro do mar. A ultima que fiz consegui um sargo com bom tamanho isto em agosto.

Mas desenganem-se quem pensa que ainda se fazem caçadas deste genero. Nem mesmo os senhores das competições.

Outro promenor é o facto da Dureza do desporto em Si mesmo. Se multiplicarem cada peixe por 2,3 ou mesmo 4 apneias cada um já podem imaginar o esforço exercido.

Mas é das "canseiras" que mais limpa a cabeça. é mesmo daquelas coisas que só quem experimentou ou já fez sabe o que proporciona.

Agora só mesmo nos Açores pode dar assim caixas de peixes.

Um abraço Ernesto, e, de pesca Sub ou Embarcada vá escrevendo que nós queremos é ler umas coisas de pescas neste dias de "mar padrasto" como voce lhe chamou.

Ernesto Lima disse...

Para os "Danieis"!

Viva Companheiros!

Grato pelos Vossos comentários!

Pois é! Caça Sub é um espectáculo!

Sempre que me lembrar, nos tempos que não deêm para a embarcada, vou colocando para aqui qualquer coisa!

Abraço!

Ernesto

Zebu44 disse...

Boas

Estive a reler com calma esta passagem e fiquei com saudades dos meus primos do Algarve. Entravam em Armação de Pêra e voltavam a sair com os cintos cheios de peixe, isto nos anos 80, era eu um pirralho.
A foto do Zebro á beira da estrada foi a que me deu mais prazer. Parece saida de um filme com o Steve Macqueen.
Belas passagens e belos "recuerdos" que ai tens companheiro.

Queremos mais, Queremos mais.....

Abração
Nuno

Ernesto Lima disse...

Viva Nuno!

Grato pelo comentário!

Quando der... Conto outras!

Steve Macqueen... Acho que me faltava a altura!? Lol

Abraço!

Ernesto

Azoresub-Bluewater disse...

Grande post! parabens gosto muito! ;)



http://azoresub-bluewater.blogspot.com/

Anónimo disse...

Que artigo e estoria legal! Gostei. Parabéns. http://dicaspescasubmarina.com.br

Ernesto Lima disse...

Grato pelo comentário Dicas...

Abraço para o Brasil