domingo, 24 de janeiro de 2010

Mais 1 ano... E vão 3!



Ontem, dia 23 de Janeiro de 2010, completou-se mais um ano de existência deste espaço.

Não me esqueci! Unicamente, coincidiu com um dia de trabalho, cheio de actividades desportivas, impossibilitando que cá viesse falar convosco, mas, descansado e impossibilitado de pescar devido às condições meteorológicas que teimam em se mostrar avessas nos fins de semana, cá estou para assinalar a data.

Em cada aniversário tenho, de algum modo, feito um balanço do que para aqui escrevo, baseando-me nas Vossas visitas e comentários, assim como nos resultados que tenho obtido. Sinceramente, tendo hoje percorrido, muitas das entradas, comentários e fotos, senti-me bem! Senti-me numa casa com algum espaço, frequentada por amantes da mesma actividade: Pescadores! Um local onde me sinto cada vez melhor e quero manter em funcionamento!

Olhando melhor, sinto estar num sítio, tipo loja de pesca ou café de clube náutico, onde se mantém um grupo de companheiros habituais, conversando, procurando momentos em que calculam poder encontrar-se e falar de pesca, sem certezas ou verdades absolutas, dissecando ao pormenor resultados positivos ou negativos de cada pescaria e tentando entender como melhorar as condições da sua pesca.
Vêm também aqueles que entram, falando umas vezes e até juntando-se aos habituais, engrossando o grupo; assim como, muitos que olham para tudo o que está exposto, passam algum tempo e não se relacionam. Por vezes... Nem Bom Dia dizem!
Talvez por timidez, talvez por tantas outras razões mais ou menos conhecidas, normais e certamente discutíveis no universo desta nossa actividade.
Não me estou a queixar nem a fazer juízos de valor, unicamente a constactar o que me parecem ser factos.

Todos são Bem Vindos!

Quero agradecer, aos que me comentam: as críticas construtivas, questões colocadas e palavras de incentivo que me têm dirigido. Aos que me visitam, a assiduidade que consigo verificar e a preferência pela escolha. A todos os leitores por, no seu conjunto, formarem comigo esta pequena comunidade onde tão bem me sinto.

Em termos de futuro, o que posso afirmar "de boca cheia" é que me sinto bem aqui, quero continuar e, pelo menos, manterei a coerência com os pressupostos descritos na primeira entrada que aqui coloquei (http://aminhapesca.blogspot.com/2007/10/minha-pesca-23jan07.html.), não tendo em qualquer momento faltado às orientações que me impuz, principalmente no que respeita a reflectir e procurar, versus definir e afirmar, tendo por base os resultados por mim obtidos, verificados e expostos pelas formas mais claras que me tem sido possível.

Festejando o momento... Ergo o meu copo e desejo a todos vós o único bem que nos pode tirar a pesca e a vontade de conversar sobre ela: Saúde!!!

Abraço e continuação de um bom Domingo!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Material de Pesca... Uma dor de cabeça!



As condições climatéricas, decididamente, não são as melhores para a minha pesca!

Material de pesca, decididamente, não é um dos temas sobre o qual ame escrever. Falar sim! Preferencialmente, com o interlocutor presente e tendo sempre um cuidado extremo em não ferir as suas susceptibilidades, pois este assunto é coisa que costuma dar discussão acesa e não sou pessoa que a procure.

Além do mais, sempre que se aborda o tema em locais deste tipo, existe a tendência para se pensar que alguma marca estará por trás da conversa, atendendo a que alguns de nós (pescadores e outros...) usam e abusam dessa estratégia, de forma mais ou menos declarada.

Considerando o prólogo, vou-me atirar à tarefa tendo em conta a minha história abreviada de relações com o material, desde o início até aos dias de hoje, passando por alguns conceitos que fui desenvolvendo sobre razões, escolhas, aquisições e... Outras questões, direccionadas essencialmente para a pesca embarcada ao fundo, em barco fundeado.

O primeiro homem que pescou, penso eu, deve ter olhado em primeiro lugar o comportamento dos peixes e, após o despertar do interesse na sua captura, certamente olhou à volta e procurou algo que lhe servisse para o efeito, iniciando-se eventualmente nesse preciso momento a história do material de pesca. Este pescador teve de pensar e fazer tudo pela sua cabeça coisa que, como sabemos, não acontece nos nossos dias, nem sequer quando me iniciei... Não sou assim tão velho!

Na primeira vez que fui, emprestaram-me uma cana e mostraram-me como trabalhar com tudo aquilo, empatar anzóis, fazer a madre, primeiras iscadas, enfim... O mínimo essencial seguido do velho: "agora desenrrasca-te"!

A tudo isto, seguiram-se as primeiras experiências e claro, a consequente aquisição dos primeiros materiais... Algo parecidos com o que se encontra na imagem abaixo, sendo que o SOFI foi de facto o meu primeiro carreto, montado numa cana de fibra de 1,80 mts, de acção total e tão macia que qualquer Choupa, pouco maior que a actual medida mínima, a fazia vergar até ao cabo.

Fios aconselhados: 0,50, para o carreto; 0,45, para a madre; e, 0,40, para os estralhos que eram amarrados à madre pelas célebres voltas de fiel rematadas abaixo e acima. Em monofilamento, claro!

A montagem referida assegurava, segundo os "velhos", a quebra sucessiva de estralhos, madre e fio do carreto, em caso de "arrochanço" ou de peixe maior, na altura, uma miragem para mim! Já o "arrochanço"... Não tanto.

Quanto ao resto do material, anzóis, destorcedores, etc.; era tudo a condizer.

Verdade se diga que, já na altura, os "velhos" se pegavam em discussões sobre material, nós, montagens e eu não entendia muito bem... Como é que havia de entender? Ia numa traineira com mais 25, o dinheiro só chegava para o que tinha, até apanhava uns peixes... Queria lá saber!

Ainda assim, pergunto-me... Será que, actualmente, o início de um pescador será muito diferente?

Certamente, dependerá de quem o leve, de quem o oriente, de algum conhecimento anterior, em suma, de todo um conjunto de circunstâncias e motivações que o levem a decidir-se pela pesca. Uma coisa é certa, se for minimamente avisado, tem à sua disposição um conjunto de informação impensável para aquela época ou, se quisermos ser cépticos, um conjunto de desinformação originado pela quantidade de oferta, pela falta de seriedade de alguma dela e pela consequente dificuldade de discernir sobre a melhor relação preço/qualidade/adequação à técnica escolhida/etc.. Isto sem contar com os esclarecimentos de alguns lojistas que colocam por vezes a venda cega em primeiro lugar, esquecendo-se que mais tarde terão largas hipóteses de perder um cliente. Mas mais tarde... Quando? Porquê?

O quando, dependerá do tempo que esse pescador levar a evoluir na técnica que escolheu e o porquê, terá a ver com o momento em que essa evolução o faça entender que o tal lojista lhe vendeu um produto inadequado ao que pretendia, muito porque não o ouviu bem e só pensou em vender ou pura e simplesmente não sabia. Também acontece.

Outra questão pertinente tem a ver com outros pescadores a quem se solicite conselho que, por estarem num patamar mais avançado, poderão indicar-lhe materiais que, sendo ou parecendo adequados para os próprios, não se coadunarão com os conhecimentos e capacidades do nosso iniciado, podendo vir a significar o ditado Português: "colocar a carroça à frente dos bois".

Para todos os efeitos, parece poder dizer-se que a aprendizagem e consequente evolução dum pescador em determinada técnica ou técnicas, aliadas a uma carteira não muito recheada ou a alguma "sovinice", serão factores de diminuição dos "barretes" enfiados ou de escolhas inadequadas quando não péssimas. Isto porque, a aprendizagem e a evolução ensiná-lo-ão sobre as características dos materiais de que necessita e, o controlo monetário... A contenção em compras menos pensadas.

Neste percurso, estaremos sempre em luta com um inimigo, talvez o pior de todos... Nós!

Em algumas fases desta nossa evolução, por já termos alguns resultados e nos sentirmos com algum conhecimento; por querermos capturar mais e/ou melhor ou achando que alguém, por via do material, tem melhores resultados; tendemos a esticar-nos nas aquisições como se essa fosse a resposta real, o que muitas vezes pode não ser verdade. Penso que essa estará mais sediada no conhecimento e comportamento face à pesca, pesqueiros e espécies que no material utilizado; não pretendendo com esta afirmação colocar em causa a importância deste.

As anteriores considerações, como já devem ter percebido, decorrem de boas e más experiências porque passei nestas lides da pesca, levando-me a considerar um conjunto de conceitos que vão evoluindo e alterando conforme os resultados da prática vão sugerindo ou requerendo, lembrando-me que, talvez falando sobre eles, consiga que outros se precavenham, evitando um conjunto de situações já testemunhadas por mim e certamente por muitos outros de entre nós.

Como exemplo deste percurso, apresento-vos o meu "dossier de material de pesca":



Mas o que é isto? Também há pergaminhos por aí? Perguntarão alguns de vós!

Não! É um dossier A5, com umas 50 bolsinhas plásticas do mesmo formato, cada uma com uma montagem lá dentro; elaborado desta forma por não haver nada mais barato que contivesse tantas montagens. A seta indicava o sentido das aberturas, para evitar que o agarrasse ao contrário e as espalhasse; e, o "F", o lado por onde se devia abrir. O aspecto surrado e bafiento tem a ver com as "cacetadas" e os ambientes húmidos a que esteve sujeito durante a sua vida mais activa.

As baixadas eram elaboradas em casa, coisa que agora se torna difícil, em tanta quantidade e diversidade, quantas as perseguições a espécies que tentava fazer, consoante o tempo e os conhecimentos que ia adquirindo ainda na fase de pesca em Setúbal.

Abrindo o "livro", podem encontrar-se as baixadas para Gorazes, à esquerda e os anzóis para pesca grossa, à direita; montados em estralhos de aço pela abundância de várias espécies de Tubarões na zona. Ambas fazendo parte da fase em que procurava estas espécies e outras, habitantes de zonas profundas. As dos Gorazes, actualmente desactivadas devido às alterações do número de anzóis previstas na Lei.



Passando as "páginas", deparamo-nos com montagens para pescas profundas a Pargos, ainda sem anzóis, os quais seriam montados no momento ou assim se mantinham como suplentes. Chamo a atenção para a proliferação de missanguinhas, perolazinhas, tubinhos e coisas do género... O trabalhão que aquilo dava!



Nas "páginas" seguintes, as montagens para "diversos", com vários tipos de ligações dos estralhos à madre, testemunhando também estes a evolução procurada, testada, alterada... Na medida do material a que se tinha acesso e das necessidades que se sentiam no que a "destorcer" respeitava.


Este "livro", agora guardado em casa, encerra alguma da minha história relacionada com o material, contendo no entanto alguns materiais recentes e em uso, aguardando outros dias, principalmente no que respeita à pesca grossa lúdica, assim como o testemunho de que houve um percurso e uma evolução quando, ao folhear as últimas páginas, se encontram montagens com Cross Beads, um dos últimos tipos de ligação estralhos/madre considerados mais efectivos na actualidade, na pesca em barco fundeado, embora cada vez menos as use... Mas, lá chegaremos!

Ainda sobre as ligações dos estralhos à madre, lembro-me dos nós directos, das alças entrelaçadas partindo do nó de Barril; adequados quando bem feitos, mas pouco fiáveis para diâmetros mais pequenos na presença de maiores exemplares.

De todas as ligações efectuadas, lembro-me da primeira com bons resultados, a que se segue: constituída por destorcedor de barril, encaixado entre duas missangas, sendo os travamentos feitos por dois tubinhos de latão que se esmagavam, apertando o fio a seguir a cada missanga...


... Horas que se passavam a elaborar estas montagens, em que: a precisão do aperto, quanto à posição de ataque do alicate e à pressão aplicada, fazia a diferença entre capturar ou não, exemplares de maior porte. Também, nesta linha de travamento, se usaram multifilamentos finos, entrançados e aplicados através de nó, mais fiáveis mas muito trabalhosos por escorregarem em cada captura, também usados em substituição dos nós que se podem ver abaixo travando as actuais e, por enquanto, incontornáveis Cross Beads.



Quando iniciei a minha fase de pesca em Sines, comecei por usar a montagem dos tubinhos, depois as Cross Beads e chegaremos com toda esta conversa às razões porque quase as abandonei, adoptando os materiais que agora uso.

Comecemos por olhar para algumas questões práticas e reflectir sobre elas!

Não é raro dois pescadores irem pescar embarcados em MT, com montagens e até com canas e carretos idênticos. Um deles captura regularmente e o outro nem tanto, porquê? Do material não parece que seja... Será da isca, da forma de iscar, do posicionamento no barco, das formas de reagir ao toque, do comportamento de cada um deles face ao sucesso e insucesso...?

Na maioria dos casos, se os materiais forem idênticos, procuram-se outras razões. Caso os materiais de ambos os pescadores sejam diferentes, a tendência é não analisar para além do material. E se não for do material? Como vamos saber? E porque não olhar outros factores, talvez mais importantes, em vez de ir à corrida comprar as missangas, anzóis, fios, destorcedores, etc., supostamente factores influentes no sucesso do outro? De pouco nos valerão se de facto foi o comportamento do nosso companheiro a principal razão do seu sucesso naquele dia. Só que, parece-me mais fácil actuar sobre o factor material do que assumir que o nosso comportamento em acção de pesca pode não ter sido o ideal e... Alterá-lo!

Outras questões se colocam... Quanto mais alterações ao material, em curto espaço de tempo útil de pesca, para o mesmo tipo de pesca e pesqueiros, mais variáveis se introduzem e consequentemente mais difícil será ter a percepção das possíveis razões de sucesso/insucesso e ainda nem começámos a falar de monofilamentos em nylon ou fluorcarbono, multifilamentos, anzóis, canas, carretos... Dava para fazer uma "Bíblia" de pesca! Impossível de completar antes da chegada do bom tempo... Aquele em que temos de sair do PC e andar para o mar.

Discutível, não é?

E não o é tudo? Na pesca e etc.?

Às últimas questões colocadas, respondo sim!

A resposta, implica consequentemente que me limite a descrever os raciocínios que me levaram a optar por determinados materiais, sem os considerar os melhores em termos gerais, mas sim, os que mais gosto de utilizar na pesca a que me dedico, considerando manuseamento, resultados... Sem deixar de ter em conta que certamente existirão outros melhores que não conheço ou não testei, talvez por ainda não ter sentido essa necessidade.

Antes de passar às funções e características mais relevantes sobre material, importa relembrar algumas questões, testemunhos, conceitos... verificados durante o meu percurso histórico pela pesca.

Desde a aquisição dos primeiros materiais (a tal cana de acção total de 1,80 mts, o Sofi, anzóis nacionais e fio a condizer...) por volta de 78/79 e da prática de pesca embarcada durante estes mesmos anos, tinha-me iniciado entretanto na caça submarina que durou até 1992, ano em que adquiri o meu primeiro barco e reiniciei a pesca embarcada, verificando para meu espanto que os materiais que tinha adquirido, cana e carreto, estavam ainda em uso por muitos pescadores da zona de Setúbal. O mesmo não acontecia com os fios e os anzóis... Procuravam-se já, fios mais finos para as montagens e anzóis diversos, embora salvaguarde que talvez já antes acontecesse, mas não tinha tido tempo de me aperceber de tal.
A pesca, essa mantinha-se como antes!
As montagens eram as usuais: anzóis n.º 6 a 8, montados em dois ou três estralhos de 25 a 40 cm de comprimento, com 0,30 a 0,35 de diâmetro; amarrados, com voltas de fiel acima e abaixo, a uma madre de 0,40 ; e, como conceito: "... Vamos pescar aos diversos, talvez encontremos os Besugos ou Parguetes, enquanto esperamos o peixe da nossa vida..." Esta a única pesca que conhecia a partir de barco, para além da caça submarina.

Um "à parte"... Para além dos materiais utilizados, será que existem diferenças significativas entre as baixadas e os conceitos actuais, na pesca embarcada, para a grande maioria dos pescadores que a praticam em MTs, barco próprio ou até na competição? A zona de comentários aqui do blog está já aí ao fundo da página!

A minha pesca iniciou-se, o interesse foi aumentando entre sucessos e insucessos na pesca de "encher o balde", usando as iscas e materiais que todos usavam e conseguindo boas prestações, mais pela capacidade de colocar o barco no sítio certo que certamente pelo material que usava.
O hábito, adquirido na caça submarina, de procurar maiores exemplares, os sinais indicadores da sua presença que fui aprendendo a ler e que muitas vezes existiam, lutavam contra os conceitos de café: ah e tal... Não há peixe nenhum! As redes, os covos, os arrastões... Dão cabo de tudo!
Não digo que não fosse verdade ou ainda que não o seja hoje em dia mas, como acreditei tanto tempo naquilo que diziam pescadores que sempre pescavam nos mesmos pesqueiros, com as mesmas iscas, montagens e materiais? Umas vezes apanhavam e eram os maiores, outras não apanhavam e as razões eram sempre as mesmas: "... Hoje não há peixe!", "... O peixe estava lá e não queria comer!". Acredito agora que isso acontecia no pesqueiro ou pesqueiros onde tinham ido, com a mesma isca, montagem... De sempre. Mas, com um mar tão grande, porque frequentavam só aqueles pesqueiros? Em qualquer época do ano só lá estavam os "diversos"? E as iscas... O peixe só comia Lingueirão, Casulo e Ganso? Pelos vistos sim! Quem não levasse estas iscas para o mar, já nem acreditava na pesca! Que credibilidade poderiam ter os materiais e iscas usadas? Como poderíamos saber que eram esses os factores determinantes?
Era o que se conhecia, o que se aprendia, o que se praticava... Aqui pela minha zona, Setúbal!
Importava então: alterar!
Acreditar que era possível capturar melhores exemplares de forma mais assídua! Diversificar locais, iscas, baixadas, técnicas... Adequar materiais a estas alterações! Estes conceitos não surgiram na minha mente de um momento para o outro como erradamente pode indicar a forma como os descrevo; antes, foram-se desenvolvendo com a prática e o pensar continuamente a pesca, enquanto ia capturando Sarguetas, Choupas, Besugos e Parguetes nos locais habituais e em outros que fui descobrindo a solo ou com o apoio de outro pessoal como o Edmundo, o António Júlio, o Zé Carlos, entre outros... Ainda na fase de Setúbal, onde já começava a ler a carta de pesca e a tentar encontrar, por mim, novos pesqueiros e melhores exemplares. Fase esta, continuada em Sines e sempre em estudo teórico e prático que penso continuar enquanto a vida e a Lei o permitirem.

Analisando as reflexões produzidas até ao momento, dei comigo a pensar: a esta hora, estarão os leitores sem entender o porquê de tanta conversa para falar de material... Mas, a verdade é que não consigo falar de material sem continuamente pensar nas razões porque utilizo este ou aquele e essas enquadram-se com alguma história que sinto necessidade de contar, mais não seja, para justificar "porquês"!

Das práticas e experiências efectuadas na pesca ao fundo em barco fundeado, tentando ser mais prático, as principais funções do material de pesca tendo em conta: espécies procuradas, iscas utilizadas, estado do mar... Entre outros factores e por ordem de acção; parecem ser as seguintes:

- Apresentar a isca de forma natural;
- Sentir os toques;
- Ferrar;
- Lutar até à superfície;
- Subir, para trocar ou repôr iscas;
- Destorcer;
- Elevar peixe para o poço do barco.

Para cumprir com estas funções, os materiais utilizados, desde a cana até à chumbada, passando por carreto, fios, destorcedores, construção das baixadas, anzóis... Conceptualmente, deverão ser proporcionais e adequados entre si, apresentando consequentemente determinadas características sobre as quais passaremos a reflectir. Vejamos então!

Apresentar a isca de forma natural:

O comportamento natural da isca, atendendo a observações subaquáticas ou até ao senso comum, parece ser conseguido quando os pedaços acompanharem os movimentos imprimidos pela aguagem ou, na ausência desta, por aqueles de "vai e vem" que sempre existem no ambiente marinho. Para tal, haverá que adequar o tipo de fio do estralho e o comprimento deste, tendo em conta o tamanho das iscadas. Quanto ao fio, parece lógico que um mais fino e macio, em estralho mais comprido, deixará que a isca se movimente melhor; no entanto, um fio macio tenderá a resistir menos ao nó, a embrulhar-se com mais facilidade e a diminuir a capacidade de sentir, tendo em conta a sua elasticidade. Tudo se complicará ainda mais se a iscada for grande e o peixe que por lá ande for pequeno ou esteja a comer mordiscando pelas pontas. Ainda sobre a espessura, haverá que ter em conta as espécies que estamos a procurar.
As anteriores considerações parecem, quanto à dureza do fio, indicar que a escolha deverá recair sobre um fio mais para o lado do rijo que do macio, principalmente se o estralho for maior que 40/50 cm e a iscada for grande (posta de sardinha, bomboca ou camarão inteiros, caranguejo, cabeça+tripa de lula...). As iscas mais pequenas poderão ser bem apresentadas com fios mais finos, macios e em estralhos mais curtos, parecendo neste caso ser importante também considerar a leveza do anzol, o que, em iscadas mais pesadas, com fios mais grossos e em estralhos mais compridos, poderá ser um factor menos significativo.

Resumindo, a relação: leveza da montagem/comprimento dos estralhos/tamanho das iscadas, numa proporção adequada, tendo em conta as anteriores reflexões, parece poder influir significativamente na apresentação natural da isca, contribuíndo também para a melhoria da função "sentir".
Sobre o comprimento dos estralhos, importa ainda referir que a proximidade da isca com a madre da montagem, dificilmente assegurará uma apresentação natural da isca, nomeadamente para os maiores exemplares. Já os "pequenotes" não se ralam muito, atacando, zelosa e proficuamente, iscas em estralhos de 20/25 cm, em montagens que parecem autênticas árvores de Natal, parecendo até serem atraídos por tanta côr.

Como sugestão de fios para a baixada:
- Um Fluorcarbono de diâmetro adequado, dos menos rijos, atendendo à sua resistência ao nó, pouca memória e apregoada invisibilidade ou, para maiores profundidades (+ de 70 metros), um mono daqueles que esticamos e caem direitos, parecem ser escolhas adequadas para a elaboração das baixadas enquadradas nos parâmetros sugeridos.

Anzóis:

As reflexões sobre este importante elemento da nossa baixada, serão efectuadas desde já, tendo em conta a sua influência significativa em três funções:

- Na apresentação da isca, atendendo a que, por exemplo, um anzol pesado, embora pequeno, aplicado em estralhos curtos e finos e com uma isca leve, certamente não proporcionará uma apresentação adequada; tendendo a fazer afundar o estralho e encostando-o à madre ou aproximando-o da chumbada.
- Na ferragem, onde o tamanho, abertura, linha de tracção, penetração, inclinação do bico face à haste... Deverão ser mais ou menos adequados às espécies que se procuram.
- Na luta até à superfície, onde os factores tamanho, penetração, resistência e comprimento da barbela; influirão significativamente em boas ou más ferragens e manutenções das mesmas. Salvaguardo aqui que, para aqueles de entre nós que pratiquem o "pesca e liberta", a barbela terá um valor secundário e incoerente, obrigando-se estes, para colmatar a falta dela, a um apuramento técnico de luta onde qualquer perda de contacto com o peixe significará uma alta percentagem de a perder.

Se me dissessem para eleger o material de pesca onde a escolha e aquisição se torna mais difícil, acho que apontaria de imediato para os anzóis! Porquê?

São baratos, relativamente a todo o restante material. Os formatos, cores e apresentações são extremamente variados e, o mais engraçado de tudo... Senão todos, quase todos, ferram peixe em algum dia ou momento.

Pelas razões apresentadas, resolvi adquiri-los pelo seguinte raciocínio:

Tamanho:
- Olho para a boca duma determinada espécie em que estou interessado, calculo a olho qual o maior anzol que poderá capturar um Juvenil e adquiro anzóis com um ou dois tamanhos acima. Não será bem assim, mas penso que dá para ter uma ideia.

Formato:
- Abertura... Nem muito fechada, nem muito aberta.
- Comprimento da haste... Nem curta nem comprida.
- Tipo de bico... O mais aguçado que encontrar e "reversed" (inclinado face à haste... Nalgum sítio espetará!).
- Peso... O menor possível.
- Resistência... A maior possível, tendo em conta a espécie e o peso do anzol.
- Côr... Escuros ou prateados. Já tive bons resultados com dourados mas, para além de me gozarem por isso, são difíceis de encontrar em tamanhos maiores, pelo que desisti deles.

É caso para dizer: Tenho encontrado a felicidade no meio termo e na simplicidade!

Eis alguns dos eleitos:



Sobre os destorcedores, já falaremos!

Sentir, Ferrar e Lutar até à superfície:

Estas três funções, sendo diversas em cada um dos seus momentos, interligam-se por antagonismo de tipos de materiais; exigindo, para um bom desempenho do pescador, um conjunto pensado desde a mão até à isca, facilmente adaptável a profundidades e condições de mar diversas. Para iniciarmos a construção do nosso conjunto, algumas caraterísticas e interacções dos vários materiais parecem essenciais:

- Sensiblidade, para perceber os toques; Dureza, para a ferragem; e, alguma Maleabilidade do conjunto, para a luta.
- Adequação da interacção entre: profundidade/condições de mar/cana/fios/carreto/peso da chumbada.

Profundidade:

- Quanto mais fundo se pescar, mais difícil será sentir e ferrar o peixe!
- A luta oferecida por um peixe ferrado, em maior profundidade, tenderá a ser menos intensa e mais pesada, muito devido à pressão a que está sujeito. Já o mesmo peixe, em pouca profundidade, por razão inversa, poderá oferecer uma luta bem mais dura, ágil e por vezes mais longa. Se no primeiro caso a preocupação com o conjunto de material, deverá dirigir-se mais no sentido do "sentir" e da "ferragem" salvaguardando a "maleabilidade"; no segundo, as preocupações com a "maleabilidade" deverão aumentar significativamente no sentido de corresponder aos arranques súbitos e intensos a que este estará sujeito.

Condições de mar:

Quanto maior e/ou mais desencontrada for a vaga de fora com a vaga de vento, também as dificuldades de sentir e ferrar se agravarão quer pela continua subida e descida do barco face à linha de fundo, quer pelos movimentos laterias que tenderão a desiquilibrar o pescador e consequentemente desconcentrá-lo do acto de sentir e complicar-lhe o acto de ferrar.

Cana:

- Uma cana de acção parabólica macia, tenderá a oferecer boas condições quanto à maleabilidade na luta com o peixe e não tão boas, quanto ao sentir e ao ferrar.
- Uma cana rija de acção de ponteira, oferecerá certamente belíssimas condições quanto ao sentir e ao ferrar mas, deixará muito a desejar quanto a uma luta dura com um peixe maior, devido à sua falta de maleabilidade.
- As características das canas referidas serão tanto mais adequadas, quanto os comprimentos escolhidos, tendo em conta a necessidade de uma boa alavanca que tanto poderá influir positivamente no sentir e no ferrar, quanto na maleabilidade que o comprimento lhe poderá trazer em luta.
Olhando para os comprimentos, importa entender que uma cana de acção parabólica, macia e com 3,00 ou mais metros, poderá unicamente ser um excesso de peso, atendendo a que, parecendo o comprimento ser um factor essencialmente introduzido para aumentar a alavanca na ferragem, esta alavanca perder-se-à devido à curva que a cana formará antes de levantar a pesca do fundo ao tentarmos ferrar, principalmente se estivermos a pescar fundo, com vaga alta e chumbada pesada.
O comprimento útil, para alavanca de ferragem, poderá aumentar em canas mais rijas, tendo em conta as proporções relacionadas com as consequentes variações de maleabilidade e peso.
Procurando a cana ideal, parecem-me ser as semi-parabólicas de acção progressiva com alguma rijeza, entre os 3,00 e os 3,60, as canas mais versáteis para pescar fundo ou baixo. Isto porque permitem sentir e ferrar muito perto das de acção de ponteira e, em luta, ganham maleabilidade conforme o peixe que lá vier. Relativamente a esta última característica, ela poderá ainda ser melhorada através dos fios usados, principalmente para pescar em menores profundidades e mares calmos.

Apresento-vos as que uso presentemente:



À esquerda, a First Edition 3,60 metros, de 3 partes, da 7even. Uma acção parabólica progressiva, bastante leve, sensível e eficaz em luta.
À direita, uma Steel Power, da NBS, com o mesmo tipo de acção, mesmo comprimento e partes, extremamente sensível, atendendo ao seu peso (quase o dobro da primeira) e potência que lhe permite adequar-se à luta com qualquer peixe, sobrando sempre força a esta "besta".

Fios:

O que vamos escolher? Como adequar ao conjunto sensivel, ferrador e maleável em luta?

Rijos para sentir e ferrar, certamente! E a maleabilidade como vamos consegui-la?

A procura de fios mais rijos era já uma preocupação antes do reinado dos multifilamentos finos que vieram colmatar a necessidade de melhor sentir e ferrar, instalando-se através de marcas diversas, com características variadas sendo, os tipos Dyneema e Spectra, mais utilizados actualmente, oferecidos com cores, texturas, diâmetros, resistências e preços, para todos os gostos, técnicas e bolsas.
No entanto, se como fios principais, em qualquer carreto, asseguram o sentir e a ferragem; maleabilidade é coisa que não têm, provocando, caso não se tomem outras medidas, uma luta extremamente violenta, por vezes difícil de controlar quando enfrentamos um exemplar de maiores proporções, mesmo pescando com uma cana mais macia e recorrendo ao carreto com a embraigem mais leve que, se por um lado, permitirá minimizar a dureza da luta; por outro, aumentará significativamente as hipóteses de fuga de tal peixe por deficiência na pressão contínua aplicada.

A forma encontrada para diminuir os efeitos da falta de elasticidade deste fio, para além de troços elásticos em silicone, com resistência e invisibilidade duvidosas; foi a denominada ponteira de amortecimento: um determinado comprimento de monofilamento, com diâmetro e dureza adequados aos objectivos da nossa pesca que, ligado ao multifilamento do carreto num extremo e à baixada no extremo oposto, poderá assegurar uma luta mais regular, mantendo pouco alteradas as capacidades de sentir e ferrar.

Como conceito, poderemos talvez dizer que: colocando uma ponteira de, por exemplo, 15 metros de monofilamento, num dia de mar calmo e sem aguagem, pescando a qualquer profundidade com peso de chumbada adequado, o sentir e o ferrar acontecerão, com variações pouco significativas, como se estivéssemos a pescar a 15 metros de profundidade só com o monofilamento em uso.
É claro que o conceito anterior não é assim tão linear e as coisas complicam-se havendo vaga e aguagem num pesqueiro fundo, assim como, numa luta com peixe maior a 15 ou 20 metros de profundidade; mas, nestes casos, para além de outros cuidados, poderemos sempre variar o comprimento da ponteira de amortecimento, encurtando-o em dias mais complicados e a pescar mais fundo; ou, aumentando-o em dias mais calmos e/ou em pescas de pouca profundidade.

Aqui vão alguns dos que estão a uso:



No canto superior esquerdo, o Extreme da Golden Fish 0,40, um mono normal, para o lado do rijo, actualmente em uso para ponteiras de amortecimento.
No canto superior esquerdo, o Multifilamento da Sufix, penso que um 0,28, como fio base para o carreto, a par com o 7even e o Rapala Titatnium, também do meu gosto.
Em baixo, à esquerda, o fluorcarbono da Rapala 0,418 e, o da Golden Fish; um fluor bastante maleável, com 0,405, detentor de resistência admirável. Ambos para baixadas e estralhos.

Ainda sobre amortecimento, a luta até à superfície, as subidas para trocas e reposições de iscas e o respectivo "motor"...

... O Carreto!

As funções do carreto são diversas e todas importantes; pelo que vamos tentar arrumá-las, na perspectiva de tentarmos entender actuais ou futuras escolhas. Consideremos para tal, dois tipos de funções/capacidades:

As básicas:


  1. Armazenamento da linha de que necessitamos para a nossa pesca, em quantidade e qualidade suficientes, o que influirá a escolha do tamanho do carreto a utilizar ou adquirir.


  2. Deixar sair linha e recolhê-la, de forma livre, rápida e sem emaranhados ou outras complicações, o que influirá a escolha do formato mais adequado para a pesca a que nos dedicamos ou queremos dedicar. Alguns carretos, derivado do seu formato ou devido a "demasiados" pormenores mecânicos exteriores, tendem a prender a linha quando se deixa cair a baixada para o fundo ou, pior, enrolá-la para o veio interior quando se inicia o enrolamento ou a luta, após um intervalo em que possamos deixar a linha "bamba".

As de luta:

  1. A capacidade máxima para suportar tracção, com a embraiagem completamente travada. Esta, mais importante talvez para a Zagaia/Jigging, já que na embarcada ao fundo, em barco fundeado, muito raramente será utilizada num carreto de tamanho adequado.


  2. A fiabilidade ao deixar sair linha, amortecendo antes do ponto de ruptura de destorcedores, fios, nós... Em uso. Esta, dependente essencialmente do tipo de rodízio do braço do carreto (c/s rolamento), tipo de embraiagem, da taragem que lhe aplicarmos e dos materiais e cuidados de manutenção exigidos nestas áreas.

Considerando as reflexões sobre as funções em luta, na minha perspectiva, o carreto, tem de:

a) Assegurar o máximo de oposição possível perante o exemplar, intervindo através da libertação de linha antes da quebra do elo mais fraco de todo o conjunto. Para tal, a embraigem é tarada para mais ou menos 3/4 da resistência do tal elo mais fraco, normalmente as inserções dos estralhos na madre, com uma força que deixará sair linha, unicamente em presença de um exemplar de mais de dois quilos, considerando as resistências dos materiais que uso e as espécies a que me dedico.

b) Subir a baixada rapidamente para repôr ou substituir iscas.

As anteriores alíneas pressupõem por sua vez duas questões muito discutidas entre pescadores: força e velocidade! Duas capacidades indicadoras de usos diferentes mas ambas necessárias nos carretos que adquirirmos para a pesca em reflexão!

A força, para suportar lutas mais importantes!

A velocidade, para assegurar um ritmo sério em acção de pesca!

Sinceramente, a primeira preocupa-me; mas acho que a consigo colmatar através dos esforços requeridos a todo o conjunto (cana, fios, baixada, estralhos...), tarando bem um carreto e sendo calmo e frio em luta. A segunda preocupa-me mais, principalmente em dias de muito roubo de iscas e a pescar fundo. Neste caso, um carreto lento, colocará em causa o ritmo da acção de pesca e a energia por mim dispendida, talvez diminuíndo ou atrasando as hipóteses da entrada dos exemplares que sempre procuro.

Esta peça do nosso conjunto, sendo a formada por mais elementos mecânicos e, normalmente, a mais cara; é também a que necessita de mais manutenção e consequentemente maior gasto de tempo. Por isto deveremos ter o cuidado de escolher com base em materiais que exijam pouca manutenção, assegurem durabilidade e maximizem as funções/capacidades que pretendemos, com um preço suportável. Estes requisitos são normalmente inimigos de máquinas muito sofisticadas, parecendo-me ser exigível uma procura centrada em materiais de qualidade e na simplicidade mecânica.

Resumindo, um carreto para a minha pesca deverá ter as seguintes características:

- Alguma força
- Alguma velocidade
- Bons materiais
- Número de rolamentos essencias
- Alguma leveza
- A melhor relação preço/qualidade adequada à minha bolsa.

Com as características que mais gosto e adequados à minha bolsa, encontrei estes fiéis amigos:

O PENN, nas versões 6500SS e 8500SS...



... E o Cabo da Quantum, nas versões 60 e 80 (o 40 não será de excluir para pescas mais ligeiras):



Nunca me faltaram quando os solicitei, certamente pelos materiais em que são construídas as suas peças fundamentais (inox e bronze), já que a quantidade de trabalho e o tratamento que lhes dou, não são do género de aumentar a sua vida útil.

Destorcer:

Aí está uma função do material que influirá em todas as outras, colocando-as em causa, caso não esteja assegurada! Vejamos:

A deslocação de objectos na água, ao implicarem directamente com o hidrodinamismo desta, estarão sujeitos a movimentos diversos relacionados com a sua forma, mais ou menos regular e, com a velocidade a que se deslocam, entre outros factores.
Considerando a anterior reflexão, podemos concluir que as nossas iscas ao descerem, estarão sujeitas a tais acções assim como ao subirmos a montagem, independentemente de trazermos ou não restos de isca, para além dos movimentos referidos, teremos ainda de contar com o movimento de rotação do fio, sobre o seu eixo, imprimido pelo trabalho dos nossos carretos de tambor fixo.
Para evitar os embrulhos dos estralhos com a madre, durante a descida e/ou subida, importa destorcer!
Refira-se ainda que qualquer elemento destorcedor terá acumulada a função de ligação entre partes a destorcer, sendo que qualquer falha poderá comprometer todas as funções principais do conjunto.

Imaginemos uma baixada que desce com iscadas lindas e pelo caminho vai-se embrulhando com a madre e com os destorcedores. Certamente ao chegar ao fundo já não conseguirá apresentar bem a isca. Mas, mesmo assim, aparece um Pargalhão esfomeado que esquecendo todos os medos, come a isca e é ferrado num anzol, ligado a um estralho já todo empachado na madre e com nós indesejáveis que se apertarão logo no início da luta. nesta altura tudo fica colocado em causa e só com muita sorte teremos sucesso com esta captura. Isto, para dar um exemplo possível entre muitos.

O destorcedor parece-me portanto um elemento essencial, com o qual tenho tido uma longa guerra, passando pelo de barril com missangas, apertado com tubinhos; pelas Cross Beads, conforme as fotos já apresentadas e até, por uma missangas que apareceram em tempos, em formato de "8", com um furo ao meio por onde entrava o fio da madre, das quais não tenho fotos. Esta missanga era travada com dois nós, acima e abaixo da madre, e, o estralho era amarrado na cintura do"8". Tudo isto funcionou e tudo isto, face a exemplares maiores, acabou por dar problemas, honra seja feita às Cross Beads, as menos falíveis!

Verdade seja dita que aumentando a grossura da madre ou fazendo travamentos com multifilamentos suplementares, certamente as Cross Beads aguentariam, mas, a solução encontrada parece-me mais simples, tem resolvido na perfeição e, não se embrulha mais que todas as outras soluções referidas, antes pelo contrário!

Apresento-vos os destorcedores de barril acoplados, tipo Crane no tamanho em que os uso na montagem aplicada na cana de mão:



Usei-os pela primeira vez, a conselho do meu amigo António Júlio, de Setúbal, e, nunca mais os larguei!

A madre é ligada à argola de baixo, a argola de cima é ligada directamente à ponteira de amortecimento que vem do carreto e o estralho de cima, ligado à argola mais afastada do destorcedor perpendicular acoplado.

No extremo oposto da madre, monto outro destorcedor igual que assegurará a ligação ao estralho de baixo e ao fio de suporte do destorcedor de alfinete que prende a chumbada; conforme foto abaixo:



Neste caso, o fio do estralho e da madre (vermelhos) ficarão ligados no mesmo destorcedor de barril, assegurando que não haverá folgas antes de sentir os toques, tudo indica, maximizando esta capacidade.
Ao destorcedor perpendicular será ligado então o fiel da chumbada, com um destorcedor de alfinete, destinado à troca rápida de peso, caso necessário.

Depois de tudo isto, não mais que "uma gota de água no oceano" no universo da pesca; um elemento importante, parece ter ficado esquecido, mas não é verdade! Cá estão elas...

As Chumbadas:

São normalmente fabricadas em chumbo, discretas, fala-se dos seus formatos, dos seus pesos; ligam-se à madre com fios mais finos, para se perderem caso se prendam mas têm, sem dúvida, um papel importantíssimo e alargado a várias funções relacionadas com o material, tanto ou mais importante que o que as fundamenta: serem um peso suficiente para apresentar as nossas baixadas e iscas no local onde cálculamos estarem os objectivos da nossa procura, de forma rápida e eficiente, sem se tornarem um pesadelo quando as quisermos subir.

Para que cumpram o seu papel, as chumbadas, deverão ter um formato que se movimente facilmente através do meio aquático, nos dois sentidos (subida e descida) e um peso adequado à profundidade, às condições de mar e aos materiais que constituem o conjunto com que pescamos num determinado dia.

O formato deverá, por razões actualmente óbvias, andar perto do de um torpedo, tanto mais quanto mais espaço tenha de ser percorrido.

O peso parece ser uma questão bem mais complexa e variável. Vejamos:

O peso da chumbada deverá assegurar que sintamos continuamente onde ela está... Assente no fundo,  ou a determinada altura deste, independentemente de: profundidade; existência ou não de vaga e/ou aguagem; materiais com que estamos a pescar; e, assegurando que as iscas maiores ou mais pequenas que vão nos nossos anzóis desçam a uma velocidade que lhes permita passar, mais ou menos intocadas, por eventuais cardumes de peixes que se encontrem a meia água e que as poderão consumir antes que cheguem ao fundo.

Que circunstâncias nos decidirão a adequar o peso da chumbada, aumentando-o?

A profundidade: quanto mais fundo, maior o peso necessário.
O tamanho das iscas: Quanto maiores, mais atrito e, consequentemente, factor de aumento de peso!
Material utilizado: canas e fios mais rijos, atendendo ao pouco tempo que levam a reagir ao peso, solicitarão também mais peso de chumbada.
Aguagem/corrente: Sem dúvida, outro factor de aumento do peso da chumbada.
Existência de vaga: a vaga afasta e aproxima continuamente o barco do fundo marinho o que, aliado a canas e fios rijos ou mais grossos poderá ser outro factor de aumento do peso da chumbada, tentando evitar que a baixada se eleve do fundo sem nos apercebermos.

As circunstâncias contrárias ou conjugadas, como tudo indica, serão factores de diminuição de peso.

As escolhas mais correctas, essas, só o tempo e a prática nos ensinarão.

Deixo-vos, da esquerda para a direita, algumas das chumbadas que utilizei e utilizo:


As duas da direita, são escolhas actuais, principalmente as coloridas, já bastante faladas por aqui.

Já temos o conjunto de pesca completo, largamos para o fundo com iscadas enormes e deliciosas, o peixe gosta e atira-se! Lutamos com ele e temos sucesso! Chega à superfície! É grande! Temos de subi-lo para o barco! Onde está o Enxalavar?

Este apetrecho, constante de um cabo e um aro com rede, cumpre a última função: elevar um peixe de maiores dimensões para o poço do barco.

As dimensões, o peso e os materiais, deverão estar adequados aos peixes maiores que esperamos, à distância entre borda do barco e água e a evitar emaranhados com os anzóis, chumbada e linha que trazem o peixe.

O aro, deverá ser em tubo de alumínio anodizado ou, de preferência, em tubo de inox, com um diâmetro nunca inferior a 50 cm.

A rede aplicada, deverá ter malha larga elaborada com um monofilamento grosso, atendendendo a que os cabos multifilares são um material onde os anzóis sempre se vão espetar, criando "empachanços" e consequentes perdas de tempo que influirão negativamente o ritmo na acção de pesca.

O cabo deverá ser leve, com comprimento adequado à distância à água, sendo a leveza tanto mais necessária, quanto maior o comprimento que tenha.
Os cabos em fibra de vidro têm-se revelado uma boa escolha.

O homem que colocar o enxalavar para subir o peixe, quando este estiver completamente à superfície, deverá ter o cuidado de afundar um pouco o aro com rede, afastado-o do peixe e aguardar que o pescador em luta coloque o peixe sobre o enxalavar. Durante esta acção deverá estar atento e atender às solicitações que o pescador for apresentando. Ele é o "dono" do peixe! Ele é que deve decidir sobre o desenrolar da acção!
Salvo algumas situações de improviso que só em presença poderemos resolver, estas serão talvez as melhores opções técnicas.

O peixe finalmente está capturado e a salvo! Posso então, em momento de despedida, deixar-vos algumas curiosidades relacionadas com outras aquisições ao longo dos tempos:

A primeira cana de ponteiras finas que adquiri, por volta de 95/96, na procura de mais sensibilidade, capacidade de ferragem e amortecimento em luta. Uma feeder da Browning, com 2,90 a 3,30 metros; comprimentos que se conseguiam conforme se usava um extensor que saía ou se retraía no cabo. Esta, já com acção parabólica quase progressiva.


Em seguida, uma Ultramar da Hiro, autêntica besta, para corrico ligeiro ou para pescar no caneiro com isca viva, adquirida por volta de 98.


Finalmente, alguns anzóis e destorcedores que utilizo actualmente para Zagaia/Jigging:

Sobre estes materiais falaremos eventualmente em próximas entradas, dependendo do desenrolar de acontecimentos que o futuro nos traga.

Muito fica por dizer acerca de material!

Muitos materiais ficam por dissecar, testar, discutir!

Espero no entanto ter deixado, suficientemente explicadas e fundamentadas, as razões centrais para a escolha de um conjunto sensível, ferrador e maleável em luta; adequado a peixe maiorzito!

Quanto a análises, dúvidas, discordâncias... A zona dos comentários é para usar!

Esta entrada, arrasta-se desde o início do mau tempo e eu com ela, certamente necessitarei do Vosso apoio para a completar. Enquanto isso não acontece...

Uma boa noite a todos os leitores!

domingo, 10 de janeiro de 2010

As Douradas ainda lá estão, mas…

Dourada Ernesto 1

A ausência foi, mais uma vez,  longa!

As hipóteses de desculpas são inúmeras: as festas, a família, trabalho… Mas, as verdadeiras, dificilmente poderão ser consideradas como tal. Antes, aquela inércia por que sou assolado quando não pesco.
Não conseguindo exercer a actividade que mais gosto e exceptuando os trabalhos da área profissional, vou deixando rolar… É para hoje, é para amanhã…

Iniciei uma entrada sobre material que já era para ter colocado, mas, à medida que a vou escrevendo, vai-se complicando, ora por uma foto que falta, ora por mais uns pormenores que se acha serem importantes, obrigando a alterar sentidos de frases ou descrição de conceitos. O tempo vai passando e nem damos por ele, enquanto espiamos a oportunidade de ir ao mar que tarda em chegar.

Mas chegou! Qual ilha rodeada de mau tempo, em vez de mar, por todos os lados.

Sábado, 9 de Janeiro de 2010, a primeira hipótese de pescar desde 12 e 13 de Dezembro, do ano findo.
A saída para Sines aconteceu na Sexta, depois das aulas, sem perspectivas de pescar à tarde, atendendo ao vento frio que persistiu até à noite. O Sol, no entanto, brilhava e aquecia o interior do barco, permitindo a preparação das baixadas e a montagem das canas, em ambiente agradável, resguardado, à conversa com o amigo Joaquim que apareceu por ali.

Tudo tratado, liguei o termo ventilador para aquecer o habitáculo do barco, preparando a dormida e, respondendo ao estômago já a dar horas, fui procurar o jantar.

O Zé Beicinho já me aguardava, o Zeca, com quem iria pescar no dia seguinte, apareceu por lá e, como diz o meu amigo João Martins, estavam reunidas as condições para um “jantar técnico” ou seja, conversa de pesca até rebentar!

Às oito e meia da noite já estava no barco. Coisas do Inverno! O frio, não convidava a grandes voltas; o “cacau” que mais gosto, está de férias; tinha uns cabeçotes e vinis, para a Zagaia/Jigging, por montar; portanto, razões mais que suficientes, para não andar a inventar cá por fora!

O Sábado acordou frio e com Sol, seguimos para o mar à hora do costume, aquela em que alguns pescadores já têm a pesca feita e outros já mudaram de pesqueiro pelo menos uma vez. Chegámos à zona das Douradas e aquilo parecia um encontro de pescadores… Nunca tinha visto tal concentração de barcos em Sines.
Sou sincero… Estive quase para mudar de local!

Estas concentrações podem dificultar bastante a percepção do que possa estar a acontecer, atendendo a que serão certamente mais um factor a ter em conta nos resultados da nossa pesca.
Já lá estava e resolvi sondar por ali. Os fundos apresentavam-se ricos, direi mesmo: demasiado ricos!
As marcações de peixe eram densas, quer nos bicos dos pontões, quer nas beiradas e limpos que se lhes seguiam, indicando que, para além de Douradas, andariam por lá muitos daqueles peixes que não procuramos: Bogas, Cavalas e outros… Tipo isca. Resultado talvez do engodo, largado por todas as embarcações que pescavam a Sul de nós e trazido na nossa direcção pela aguagem que se fazia sentir. Pode ser bom ou… Nem por isso. Pensei para comigo.

Fundeámos! Tínhamos de testar aquilo!

A pesca iniciou-se com iscadas de Sardinha e Caranguejo, saindo-me um Pargo de quilo, logo à primeira. Será…?

Não foi!

As baixadas subiam limpas, os toques eram pouco perceptíveis, em determinados momentos os Caranguejos vinham amassados e parecia que as Douradas andavam por lá mas, nada acontecia.
A memória da última pescaria, em que só ao fim de umas duas horas houve entrada de exemplares, jogou contra nós, havendo no entanto outra variante: os sinais, oferecidos pela imagem de sonda; e, os toques sentidos; tinham sido muito mais claros na última pesca. Para além disso, algo mais se teria de ter em conta: a época deste tipo de pesca que, na passada pescaria, estaria no seu auge; supostamente, estaria agora perto do seu limiar.
Com tudo isto no pensamento, por volta das 13.00 horas, com um Parguito de quilo e uma ou duas Sarguetas a bordo, resolvemos mudar de local, tentando encontrar melhor pesqueiro.

Rumámos a Sul, passando para lá da concentração de barcos, nesta hora já significativamente diminuída e, desatámos a procurar pesqueiro em território totalmente desconhecido. Nunca por ali tinha sondado!
A sondagem iniciou-se, em rumo mais ou menos paralelo à terra, traçando linhas de mais ou menos 500 metros, ora para Norte, ora para Sul, também elas paralelas entre si. Nesta procura, acabámos por encontrar uma descida ligeira, com um fundo pouco rijo e com marcações de peixe interessantes, embora espaçadas. Fundeámos!

Os toques eram diferentes! Entrou-me um Pargo de quilo e pouco, seguido de outro capturado pelo Zeca.
O peixe ia entrando, intervalado com roubos de isca muito ao jeito das nossas “amigas” que acabaram por aparecer, não muitas, mas as suficientes para alegrarem a pesca e recompensarem a nossa procura.

Aqui está a primeira:

Dourada Ernesto 1

O Zeca, entretanto, tirou um Pargo com uns dois quilos que não fotografámos. Parece estranho… Então um Pargo com dois quilos já não merece foto? Merece com certeza! A questão prende-se talvez com o objectivo… As Douradas! Que loucura!

Fotos à parte, capturei outra, quase em seguida:

Dourada 2

Nesta altura, com alguma desconfiança, pensava-se que aquilo não ficaria por ali; de facto não ficou, mas a regularidade de capturas alterou-se, principalmente quanto a Douradas, já os Pargos, de um a dois quilos, iam entrando de vez em quando, mais ao Zeca, estando eu a tentar um exemplar maior, iscando grande e variado; e ele, muito assíduo com o Caranguejo.

O Zeca acabou por capturar a dele… Cá vai ela!

Dourada Zeca

Abrimos a arca do peixe, olhando os vermelhos e os prateados listados a ouro, pensando que não sendo a pesca brilhante de outras jornadas, era bonita e suficiente.

O Sol já se encostava à linha do horizonte. Este dia espectacular, entre tormentas, chegava ao fim. Tudo fizéssemos para o alongar, retornando ao porto já com as luzes do barco ligadas e fazendo o balanço dos resultados do dia, enquanto contemplávamos a esteira do barco, os últimos reflexos de claridade e as fugas das gaivotas que, poisadas na água à entrada do porto, sempre são incomodadas pelos barcos que entram, por mais que estes não o queiram fazer.
Quanto ao balanço da jornada de pesca, considerando a época e o respectivo objectivo, importa apontar o que gosto de denominar por: opções pouco correctas, para ser bonzinho para comigo; ou, opções erradas, para ser mauzinho. Não fora esta última denominação pecar por demasiada certeza, era sem dúvida a que escolheria.

Opções pouco correctas:

1. Atendendo ao momento e considerando a tendência desta época de Douradas, muito provavelmente estaremos no final da mesma, pelo que as visadas tenderão a alterar comportamentos, não sendo certamente, pescar perto de grandes concentrações de barcos e engodos, a opção que nos permita ter mais controlo sobre a veracidade dos sinais. Teria, eventualmente, sido preferível escolher pesqueiros com menos barcos, procurando e trabalhando o próprio pesqueiro.

2. Fundear o barco com as imagens de sonda encontradas no primeiro pesqueiro, prestava-se a que acontecesse o que de facto aconteceu: alguns sinais de peixe maior e depois só o peixe miúdo que lá se encontrava em grande quantidade a usufruir das nossas iscas. Possivelmente as “raparigas” tinham muito que comer, sem serem chateadas, ali bem perto.

3. O tempo gasto neste primeiro pesqueiro que, não se considerando perdido pelo que se aprendeu, certamente pecou por excesso se atender-mos aos sinais em que não quisemos acreditar, esperando sempre que a determinada hora os resultados se invertessem. Suposição pouco credível, tendo em conta a leitura de sonda efectuada.

Sobre montagens e material utilizado, posso dizer-vos que houve quem as capturasse, em maior quantidade, com pescas de mão e estralhos bem mais grossos, diferindo o pesqueiro, o acto de engodar, a hora de início da pesca e, certamente, anos de trabalho profissional neste tipo de pesca. A este pessoal, tiro o meu chapéu!

Tudo isto para aferir que dificilmente se situarão, no material e nas iscas que utilizámos, as razões da pouca produtividade matinal.

Resumindo e concluindo, parece-me poder afirmar que infringi várias regras e fui contra vários conceitos que sigo e tenho divulgado aqui pela Minha Pesca, nomeadamente:

- Fundeei, em época pouco propícia, perto de uma grande concentração de barcos em acção de pesca.
- Fundeei com sinais de sonda pouco credíveis.
- Levei demasiado tempo a reconhecer os factos anteriores.

Não tenho a certeza de tudo isto mas os sinais estiveram lá!

Resta saber o que aconteceria se a opção tivesse sido outra.

Boa noite a todos os leitores

sábado, 19 de dezembro de 2009

Feliz e "Dourado" Natal! Um Próspero Ano Novo!

A quadra está aí, na sua plenitude.

É tempo de cumprimentar e de desejar o bem, pena que não seja assim todo o ano mas, se fosse, certamente tornar-se-ia vulgar, perdendo-se talvez o misticismo e eventualmente a vontade de estar continuamente de bem com tudo e com todos, assim como a tolerância, características próprias do momento.

A todos os leitores, deixo os meus votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, oferecendo-vos a imagem simples de abertura, o presépio com as figuras inquebráveis que a minha neta terá como primeiras e poderá manusear à vontade, no primeiro Natal em que já algo percebe, podendo assim ouvir as histórias que lhe vou contando a partir de cada figura escolhida pela sua mão, aprendendo talvez a respeitá-las.

Mas não vos quero deixar sem prenda!

Por isso e atendendo a que, entre trabalho acrescido de final de período lectivo e condições climatéricas adversas, a nossa pesca parece estar longe; vou deixar-lhes o meu presente de Natal na forma de uma análise sobre as últimas quatro pescarias cujo objectivo foi: obviamente... Douradas!

Tudo começou no dia 28 de Novembro, com a pescaria contada na última entrada, da qual não resisto a colocar a foto abaixo, outra, da dupla tirada pelo João. Depois, seguiram-se outras, respectivamente nos dias 8, 12 e 13 de Dezembro; sempre com capturas no limite do peso legal mas com características diferentes, principalmente no que respeita às variáveis: pesqueiros, iscas mais produtivas, estado do mar, hora de maior intensidade de capturas e concentração de barcos em acção de pesca na zona.

Depois da pesca de dia 28 de Novembro, intensa constante e frutuosa, num pesqueiro onde só se encontravam três barcos, bastante afastados entre si e onde, quer a Sardinha quer o Caranguejo fizeram "estragos", talvez com preponderância para a Sardinha no que aos maiores exemplares respeitou; tudo se alterou nas pescas seguintes.

No dia 8 de Dezembro fui com o Zeca e o Vira, sabendo de antemão que o pesqueiro a Sul, onde tinha pescado na última vez, estava repleto de barcos; decidimos ir para Norte, para a calma e isolamento que também fazem parte da pesca.

A sonda trabalhou, o fundo rico apareceu com marcação conhecida e, depois dos trabalhos de fundeio, iniciámos a pesca sentindo de imediato roubos conhecidos.

Entraram os Pargos de quilo e logo a seguir as "Primas", escolhendo elas unicamente o Caranguejo enquanto a eles tudo servia... Caranguejo, Sardinha e Bomboca estavam em igualdade de circunstâncias para estes "Glutões".

O barco mexia-se um pouco com as variações de vento sendo que, quando se aproximava da pedra, entravam os Pargos; e, quando se afastava, entravam as Douradas com o aspecto desta que o Vira mostra.

Foi um dia sui generis nesta pesca. Entraram mais Pargos que Douradas, pensando eu que tal se deveu ao fundeio. Acho que ficámos demasiado perto da pedra forte mas, como o peixe subia continuamente, instalaram-se aquelas interrogações: mudo, não mudo? "Eles", estão sempre a entrar; "elas", entram de vez em quando. Será da hora? Vou mudar e depois... Como vou saber porque foi? E mesmo que não mude... Chegarei a saber as razões?
Acabámos por decidir ficar!
Entrou uma à minha pesca e logo a seguir outra ao Zeca... A coisa compunha-se!
A pesca chegou ao fim, com almoço pelo meio... Aquela Carne Frita, macia, com bocadinhos de pimentão, um toque de limão e uns camarõezitos pelo meio, tudo envolto na banha da fritada na quantidade certa e o pão... Obrigado à Rosinda, a mulher do Zeca que faz a melhor carne frita que alguma vez degustei!

Patuscada à parte, talvez se possa dizer que mudando de pesqueiro ou descaindo o barco mais para o limpo, talvez as capturas tendessem para o lado das Douradas, mas isso, só depois da pesca se pode alvitrar e, aconteceu... A tendência manteve-se, levando-me agora a pensar que talvez tenha sido mesmo do fundeio, muito pelos resultados das pescas seguintes.

O fim de semana de 12 e 13 aproximava-se e as notícias indicavam que para Norte os resultados eram fracos, sendo que a concentração quer de barcos quer de Douradas tinha encontrado o seu poiso na zona de Sul onde tinhamos feito a primeira pesca (a de 28/Nov.). Sou sincero! Se estivesse sózinho não ia para lá! Preferiria procurar um pesqueiro característico e com menos barcos em acção de pesca, apostando aí! Se apanhasse... Apanhava! Se não... Paciência!
Mas, estas experiências obrigam a gastar tempo, sondar, arriscar... Não gosto muito de o fazer quando levo pessoal amigo que tem poucas oportunidades de pescar, correndo o risco de, caso não dê, ficar tudo a pensar: ah e tal... Se temos ido para lá, onde todos estavam, na volta, até apanhávamos...

O que vos posso dizer é que: ainda bem que assim decidi! Não porque tivesse receio do insucesso em outro pesqueiro mais ao meu jeito mas, pelas características que envolveram o desenrolar da pesca nestes dois dias.
O 12 e o 13 de Dezembro revelaram-se quase idênticos: vaga alta, vento desencontrado com a vaga, incómodo de manhã e a acalmar para a tarde, no primeiro; quase sempre incómodo no segundo!
Uma coisa é certa, tanto num dia como no outro, "elas" só entraram às iscas por volta das onze e tal... Meio dia, aumentando o ritmo de capturas, em simultâneo com uma aguagem para SE que invariávelmente se iniciou por volta da uma hora.
O ritmo de capturas era intenso e, se no primeiro dia ainda deu para passar noutro pesqueiro procurando por exemplar maior, no segundo dia, às duas da tarde já o limite legal tinha sido atingido, obrigando-nos a tornar cedo ao porto.
O Letras a testemunhar os momentos mais intensos de dia 12:

Considerando o que atrás referi sobre o acerto na escolha do pesqueiro, quer num dia quer no outro, imagine-se que tinha ido para outro local, sondado e encontrado o que queria, fundeando... Se as Douradas também resolvessem cair às iscas só a partir das onze e tal, num pesqueiro sem ninguém, certamente o pessoal que ia comigo iria esmorecer e deixar de acreditar que "elas" andassem por ali, embora a sonda o indicasse. A acontecer, estava meio caminho andado para o insucesso da jornada, tendo em conta que, se não acreditamos, tendemos a perder o entusiasmo e consequentemente a minimizar o empenho e o ritmo da acção de pesca.

Nada que se pareça com as fotos que se seguem, indicadoras de actividade contínua e do sucesso da pescaria do segundo dia.

O Zé Beicinho, com uma das duplas:

O Zeca com outra Dourada:

E eu... Também a fazer o gosto ao dedo na fase mais intensa de pesca.

Com tudo isto, continuo a dizer que, pessoalmente e em caso de ter ido a solo, procuraria outro pesqueiro, longe da multidão; certificava-me que as características de fundo, correspondiam em dureza, profundidade, configuração e marcação de peixe; e, apostava! Ainda o quero fazer este ano! Vamos ver se as condições o permitem!?

Analisando estas quatro saídas, no que à pesca de Douradas diz respeito, fico a pensar:

1. As variáveis que se mantiveram constantes foram:

- O tipo de fundo, macio e encostado ao início de um pontão;

- A profundidade, sempre entre os 63 e 66 metros. Foi onde se encontraram, embora pudesse ser mais fundo. Em profundidades inferiores, nesta altura do ano, as probabilidades de "as" encontrar costumam diminuir significativamente.

- A marcação de peixe na sonda, uma linha aí com uns 3 mm de espessura, colorida a amarelos, verdes e laranjas, encostada ao fundo, partindo do fim do pontão e alongando-se pela embeirada e terreno limpo; e, as baixadas, sempre as que já por aí tenho descrito.

- A variação das formas de iscar sempre que existissem interrupções de capturas, em determinados momentos.

- A cooperação a bordo em termos de apoio nos momentos de "empachanços", "arrochanços", ponteiras partidas, iscadas mais produtivas... Versus, cada um tentar capturar mais peixe que o parceiro do lado.

- A quantidade e qualidade das capturas que, embora variando um pouco no 2.º dia, não me parece poderem retirar-lhe o sucesso.

- Os exemplares acima de dois quilos não se capturaram, embora os tivéssemos tentando variando iscadas, subindo a baixada acima do fundo ou atirando-a para mais longe. Se calhar estavam noutro lugar, mais calmo ou, quem sabe, estivessem por ali e preferissem qualquer outra coisa que por lá estivesse.

2. As variáveis inconstantes foram:

- Em nenhum dos dias fundeei no mesmo pesqueiro, embora nos 1.º, 3.º e 4.º tenha fundeado em pesqueiros na mesma zona muito por, aqueles em que antes tinha estado, estarem ocupados.

- O Caranguejo que, no 1.º dia, partilhou em pé de igualdade o sucesso com a Sardinha, tendo esta, em alguns momentos, capturado os maiores exemplares; revelou-se nos outros dias a única isca fiável.

- No 1.º e no 2.º dia, estivemos a pescar sem outras embarcações por perto; no 3.º e no 4.º aquilo parecia um encontro de embarcações, embora respeitando distâncias de fundeios da ordem dos 100 a 200 metros.

- As horas mais produtivas que nos primeiros dias não se evidenciaram, capturando-se com alguma regularidade ao longo de todo o tempo de pesca; revelaram-se após as onze horas, nos dois últimos dias sendo que, até a esta hora, só esporadicamente entraram uma ou duas Douradas.

- Nos dois últimos dias o mar esteve com mais vaga e mais incerto em termos da intensidade do vento que nos restantes, obrigando-nos a ter maior atenção aos toques sorrateiros, à manutenção da chumbada no fundo e obrigando para tal a que acompanhássemos os movimentos da vaga com o subir e baixar da cana, dificultando consequentemente os actos de sentir e ferrar.

- A aguagem que se fez sentir nos últimos dois dias e que correspondeu, em simultâneo, a um aumento de capturas, embora antes da sua entrada já se capturasse num ritmo interessante.

- As canas parabólicas mais macias que, nos dois primeiros dias, com menos vento e vaga, provaram bem; nos restantes, com o aumento da vaga e do vento, apresentaram grandes dificuldades nas capturas face às parabólicas progressivas mais rijas.

Acabei de produzir estas reflexões! É Domingo, dia 20 de Dezembro de 2009 e interrompi a escrita para irmos jantar, eu e a minha mulher. Comemos, conversámos e, enquanto fazia o café e olhava a chuva e o frio que fazem lá fora, pensava para comigo:

Agora vou "descascar" todas aquelas variáveis de que falei! Mas, enquanto a água fervia e pensava nelas, lembrei-me que as variáveis inconstantes podem ter tido muito pouca importância para os resultados obtidos... Senão vejamos:

Escolheram-se pesqueiros diversos, zonas diferentes, houve aguagem, o mar esteve diferente, pescámos no meio da multidão e isolados mas, com toda esta diversidade de condições... Tivémos sempre sucesso; mesmo com aguagens que levavam os engodos dos outros no sentido oposto ao local onde estávamos. Então o que importou afinal?

Inclino-me sinceramente para as variáveis constantes, ou seja:

1. A escolha do pesqueiro, considerando o que as Douradas procuram nesta época do ano. Não esqueçamos que, embora diferentes, as características dos pesqueiros foram sempre as mesmas ou muito parecidas.

2. A marcação de peixe visualizada na sonda, idêntica em qualquer dos pesqueiros escolhidos.

3. As baixadas, sempre efectivas em qualquer das condições existentes. Salvaguardo neste caso que outras pudessem obter melhores resultados, mas... Não experimentámos, nem tivémos ou arranjámos tempo!

4. As variações de iscadas quando as capturas se interropiam.

5. A contínua troca de informação sobre toques e iscadas de sucesso a par com a entreajuda em momentos em que as coisas não correram bem a algum de nós.

Considerando as reflexões produzidas, pode talvez dizer-se que o conhecimento dos fundos, o conhecimento sobre os hábitos das espécies, a escolha do material adequado, a cooperação a bordo, a leitura dos sinais em acção de pesca, a prática intensa, a confiança nestes conceitos e o contínuo colocar em causa de tudo isto, excepto a cooperação a bordo; são certamente conceitos de sucesso nesta nossa actividade espectacular, na generalidade, e, na pesca às Douradas, em particular.

A reflexão sobre estes quatro dias fica por aqui, embora com o receio de que algo tenha passado ao lado mas, se passou, só têm que conversar comigo... Certamente analisaremos o que estiver omisso e completaremos esta prenda que vos ofereço com aquela insegurança que sempre se apodera de nós quando esperamos que o nosso melhor amigo(a) goste daquilo que escolhemos para ele(a), no aniversário ou no Natal.

Boa noite a todos os leitores

domingo, 29 de novembro de 2009

Pesca às Douradas... Tudo bons rapazes!

Esta época Outono/Inverno está instalada com todas as suas características climatéricas que primam pela irregularidade... Chuva, vento, frio; mantendo-se estas por períodos indeterminados e só controláveis graças ao actual estado de desenvolvimento da meteorologia que nos dá acesso, com alguma segurança, à descoberta de abertas coincidentes com o nosso tempo livre, permitindo-nos então... Pescar!!!

Isso aconteceu este passado Sábado, após um interregno de três fins de semana em que a pesca não foi possível e a respectiva "azia", já para o final, acabou por se instalar!

Um dia com pesca... Precisava-se! Um dia com pesca se procurou! Um dia com pesca se encontrou!

Nem sempre é assim! Mas desta vez foi!

Sem grandes combinações prévias, juntámo-nos eu, o Mário Baptista e o João Martins, combinámos tudo e, às 8.00 da manhã de Sábado, estávamos a tomar o café lá perto do Mercado de Sines, onde fomos buscar a Sardinha para juntar ao Caranguejo que eu tinha trazido de Setúbal, ambas as iscas adquiridas em função de um objectivo principal: as Douradas de época e claro, com o pensamento nos Pargos que com elas costumam partilhar pesqueiros.

Agora que me lembro de nós três, cavaqueando calmamente à mesa do café, pergunto-me se a algum outro pescador que nos olhasse lhe passaria pela cabeça que em seguida partíriamos para o mar com tais objectivos? Isto porque, pura e simplesmente, conversávamos de tudo e de nada, disfrutando de cada momento como que, face ao dia que nos esperava, de preliminares se tratasse.

A calma reinou, enquanto descemos ao porto de recreio, transportámos, montámos e acomodámos os materiais e iscas, continuando durante a saída lenta para a baía de Sines, enquanto a máquina do Makaira atingia a temperatura ideal para a velocidade de cruzeiro e disfrutando uma manhã luminosa, com pouco vento, de temperatura amena e mar a condizer. As canas balançavam nos caneiros, com as baixadas já montadas e parecendo, pelos movimentos imprimidos pela navegação, estarem impacientes para chegarem ao pesqueiro e entrarem em acção de pesca ou seriam os seus donos, escondendo estes pensamentos debaixo daquela capa de calma e frieza que punham pelos ombros. Perfeito!

Escolhemos o pesqueiro, tendo em conta os pontões altos e entralhados próximos, escolhas habituais das "moças" nesta época, afastando-nos dos locais mais conhecidos onde se originam concentrações importantes de barcos e por vezes de alguns pequenos sarilhos.

A operação de sondagem iniciou-se à chegada, delineando os contornos do fundo e as concentrações de peixe que encontrámos ao fim de alguns minutos, precisamente à beirada dum pontão que descia, algo lentamente dos 59 para os 66 metros, parecendo quase uma cetomba com um declive pouco pronunciado. Então não é que a marcação de peixe, agarrado e um tudo nada acima do fundo, se prolongava numa distância considerável, ao longo da queda da cetomba, entre os 63 e os 66 metros de profundidade... Aquilo prometia e alguém no barco, olhando para a sonda e para a minha cara, proferiu algo parecido com: "até o bigode se encaracola..." Ou coisa do género!

É verdade! A coisa apresentava-se linda e a concentração no fundeio prolongou alguns momentos de silêncio a bordo, só interrompido quando o ferro ficou preso, o cabo esticado e o barco aproado à aragem de E/SE que se fazia sentir. A partir daqui só se ouviu: "passa a faca", tira as Sardinhas, enche o balde de água, f...-..! O Caranguejo mordeu-me e... Coisas do género; até ao momento em que as linhas desceram e os olhos se puseram com toda a atenção nas ponteiras das canas, para aí a uns três metros e tal de distância, sentindo-se o ambiente concentrado e algo tenso que costuma anteceder momentos, como direi... Daqueles como o que mostra a foto de abertura, com o João Martins em acção, pensando que trazia só uma e afinal eram duas, talvez porque só tinha dois anzóis? Mas já lá chegamos!

As pescas já estavam no fundo e nada se sentia o que parecia não corresponder aos sinais dados pela sonda... Ou correspondia!

Muitas vezes, quando o fundo tem concentrações de peixe maior, acontece as pescas chegarem e não serem atacadas, atendendo a que se pensa que estes "estudam melhor o assunto" que os mais pequenos que normalmente se atiram em massa e evidenciam uma total "falta de respeito" por qualquer tamanho ou tipo de iscada que se coloque à sua frente.

As iscadas de Sardinha e Caranguejo, foram poupadas durante duas ou três descidas e depois... Acabou-se!

O primeiro peixe a entrar foi um Pargo de quilo e tal que escolheu a minha baixada e, a partir daí, a acção acelerou! Tudo o que lá caía desaparecia num ápice, principalmente a Sardinha, sendo que por vezes subiam pequenos pedaços de Caranguejo, completamente amassados, prova quase certa que as Douradas estavam a actuar. Mais um sinal que não falhou!

Nem dez minutos passaram até o Mário tirar a primeira Dourada, com a cana dobrada quase até ao cabo e o carreto a trabalhar ao mílimetro, muito perto da perfeição. Esta que abaixo se vê!

Depois entrou um Pargo ao João, do mesmo lote e não mais parou!

As capturas sucediam-se de tal modo que, durante mais de uma hora, foi raro o momento em que um de nós não estivesse a recuperar linha, trabalhando um exemplar na outra extremidade sem que qualquer peixe para além de Dourada ou Pargo se atrevesse a tocar na isca. Impressionante e indicador de que aquele conceito de "o peixe miúdo anda lá e não deixa o grande chegar à isca", muito disseminado entre alguns pescadores, eventualmente terá de ser melhor explicado... Talvez dizendo: "se não estiver por lá peixe grande ou se este não se interessar pela isca que lhe propomos, o peixe miúdo rouba-nos indecentemente", sendo que, neste caso, talvez seja melhor precavermo-nos com iscadas maiores e supostamente mais difíceis de roubar ou... Mudar de pesqueiro!
Pessoalmente, prefiro a primeira opção, atendendo a que com toda a confusão que por lá haverá de peixe miúdo a roubar, mais cedo ou mais tarde, os grandes poderão visitar-nos e nessa altura teremos de estar preparados para eles.

Considerações à parte, a acção de pesca continuava em força e a dar frutos, cabendo-me também a parte devida tendo por exemplo a "Rapariga" que se sucede!

As capturas sucediam-se... Primeiro toque, segundo toque, ferragem e luta! Momentos houve em que parecia que um peixe maior tinha entrado e afinal, em vez de uma, vinham duas e não sei se com mais um anzol não viriam três, atendendo à concentração de bicharada desta no fundo que tinhamos por baixo.
Segue-se o João, com um exemplo destas duplas capturas, tendo esta foto sido precedida daquela primeira em que se vê o trabalho do pescador e da cana.

A cara do meu amigo não deixa dúvidas sobre o que a bordo se passava! Bonito de se ver!

Não estavam esquecidos os exemplares maiores, aqueles que vocês sabem... O peixe rondava o quilo e entravam, uma ou outra perto dos dois quilos, embora as alternâncias de iscas e iscadas quer em tamanho quer na forma, fossem uma tarefa contínua, discutida e analisada entre nós, aliás como toda a acção de pesca que desenvolvemos, não falando da entreajuda naqueles momentos em que acontecem pequenos contratempos como embaraços de linhas e outros.

Um problema se colocou bem cedo! O peso do peixe capturado aproximava-se perigosamente do limite legal e, para além de começarmos a libertar Douradas de 500 a 800 grs, tinhamos de alterar a estratégia, passando a iscar direcionados para exemplares maiores no sentido de emoldurar esta pescaria a ouro, não sem antes nos decidirmos por uma paragem técnica para degustação do frango assado e outros mimos com que o Márinho da Caparica decidiu brindar-nos!

A pesca continuou após o lanche, entrando os peixes suficientes para atingir um peso total de 24,930 kgs mais uma Dourada com dois quilos capturada pelo Mário sempre em pico de concentração durante todo o Santo dia.

Eram três da tarde, a pesca estava feita, o ventinho mais fresco indicando a mudança esperada de tempo já se fazia sentir quando decidimos terminar este dia com pesca! Digo "com" pesca e não "de" pesca porque, teve conversa, almoço, troca de ideias, brincadeira, amizade, entreajuda, lanche e mais conversa destes três bons rapazes... Já com peixe amanhado, tudo arrumado, junto aos carros onde nos despedimos com intenções sérias de repetir a coisa. Verdade se diga... Só pesca, porquê? Quando tanto se pode receber de um dia destes!


Fico por aqui! Perguntas e análises esperam-se!


Divirtam-se!


Boa noite a todos os leitores!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Zagaia/Jigging! O nosso material e... Outros!

O mundo da pesca tem destas coisas... Principalmente quando estamos de sequeiro, fazem reflectir, optar, decidir!

A conversa prende-se com amostras e respectivas montagens dos anzóis de assistência.

Como em qualquer técnica que pratiquemos e se já o fazemos há algum tempo, com resultados mais ou menos positivos/negativos, haverá na nossa "caixa dos pirolitos" uma luta sem tréguas entre continuar a usar as amostras que já adquirimos ou avançar para aquisições contínuas de outras, supostamente mais actuais e efectivas em termos de capturas.

Quando tais dúvidas nos assolam, antes de nos atirarmos de cabeça para as aquisições, caso a carteira permita, devemos reflectir sobre o que temos, resultados já obtidos e, se possível, tentar comparar com as novidades que enchem as revistas na boca de peixes enormes e à frente de pescadores vestidos a preceito pelas marcas respectivas.

Não quero com isso dizer que as marcas não o devam fazer ou que tais pescadores e materiais não sejam mesmo muito bons. Antes que, no universo de amostras que nos mostram, muitas terão sido lealmente produzidas e testadas, outras nem tanto e, quem sabe, muitas delas poderão não se adequar à nossa pesca, aos locais onde a praticamos, às espécies que procuramos ou até à forma como as trabalhamos em determinado dia ou momento. Uma outra questão... Quem nos diz que as amostras que temos, com algumas alterações ou diversificando o tipo de animação que lhes imprimimos, não nos venham a dar alegrias insperadas!? Complicado...

Verdade se diga... Se não aparecesse nada de novo, para além de corrermos sérios riscos de nos tornarmos "cinzentos", esta reflexão não teria qualquer hipótese de chegar a ser pertinente. Por tal, tiro o meu chapéu às marcas que estudam, desenvolvem, testam e divulgam os seus materiais. Gostaria de ter tempo e dinheiro para as testar todas em diversos mares do mundo e contar-vos das verdades ou nem tanto, mas... Isso é, para mim, algo de difícil senão de impossível execução.

Às reflexões dum fim de semana sem pesca que se acabam de descrever, sucederam-se outras, relacionadas com as amostras que já possuo, onde considerei alguns resultados já obtidos e dos quais já vos tenho falado, assim como, sobre as acções de cada uma delas decorrentes de alterações e animações diversas que tenho o cuidado de testar à vista antes do uso efectivo.

Em consequência, optei por continuar a usar as amostras que tenho, decidindo-me a montar as suplentes que ainda não estavam montadas ou cuja montagem, por razões diversas, me pareciam pouco satisfatórias e, também, a alterar outras no sentido de as aproximar daquilo que me parece pretenderem algumas das novidades do mercado que, eventualmente, se terão baseado em alterações já tentadas com sucesso por aqueles pescadores que andam, lá no mar, procurando continuamente a "verdade".

As montagens que vos apresentarei e que tentarei descrever, fundamentam-se em leituras de autores que sabem muito mais disto do que eu, em pescas feitas por amigos que conheço e que poderiam ter um blog muito mais rico de capturas, em alguns resultados obtidos pessoalmente e divulgados neste lugar, assim como, em algumas suposições que certamente carecem de teste.

Então vamos lá falar de comportamentos, cores, opções, opiniões, suposições e... Outras questões...

Relativamente a comportamentos, vamos reflectir sobre que tipos de situações poderão determinar o ataque de um predador, no sentido de tentarmos aferir que movimentos e consequentes animações poderemos imprimir às nossas amostras, considerando a relação animação/reacção de cada uma delas, por sua vez, determinada pelo respectivo formato, simples ou modificado.

Do que se lê e se vê sobre a vida selvagem, salvo as habituais excepções, pode entender-se que os ataques de predadores decorrem essencialmente do factor alimentação. No entanto, qualquer deles que esteja em pleno cortejamento, acto sexual ou cujo território seja invadido, certamente atacará quem quer que o incomode mesmo que, neste último caso, o alvo do ataque não seja habitual na sua dieta.

Considerando a última análise pode dizer-se que, se enquanto alimento, a presa despertará o ataque por via do movimento e/ou côr, quando invasora de "privacidade" estará tramada à chegada. Claro que os anzóis da amostra imitadora não respeitam as razões do ataque sendo que o predador incomodado poderá ser capturado independentemente delas e nós enganados, pensando que a animação imprimida funcionou muito bem num local em que a sonda nem mostrava muita comedia.

Das hipóteses de ataque referidas, é certamente a relacionada com alimentação que melhores condições de detecção do pesqueiro poderá oferecer ao pescador. Este, com a ajuda da carta de pesca, dicas de outros e trabalho de sondagem, procurará locais cujas características de fundo tendam à concentração de comedia e, consequentemente, de predadores interessados. Fundos com paredes ou pontões altos apresentam, entre outros, características preferenciais por reterem pequenos organismos que se elevam através de correntes ascendentes, alimentando os pequenos peixes de cardume ou outros habitantes das paredes, por sua vez, alimento daqueles que procuramos.

A descoberta da comedia será portanto um factor essencial na eleição do pesqueiro onde actuaremos, colocando-se então outra questão: como animar a nossa amostra para que um determinado predador a escolha entre tanta comida viva e habitual que por ali está?

Vamos nesta altura socorrer-nos de um conjunto de conhecimentos largamente divulgados na literatura e documentários televisivos ao nosso dispôr que, relacionados com a selecção natural e com a tendência animal para o máximo consumo de calorias ingeridas para um mínimo de esforço dispendido, indicam que um predador atacará preferencialmente um animal que se comporte indiciando doença ou incapacidade e que uma fuga próxima do alvo supostamente doente poderá maximizar a rapidez e agressividade com que o ataque se despolete.

As animações, tendo em conta a análise supra, deverão ser feitas de forma a que a nossa amostra imite o tal peixe em dificuldades, através de movimentos de subidas e descidas curtas que promovam posicionamentos pouco usuais num peixe, intervalados de fugas repentinas com paragens abruptas, sem qualquer tipo de regularidade de acção em todo este processo e em qualquer patamar da coluna de água. De preferência onde a sonda nos indique que está a comedia ou em cada subida para mudança de amostra, deriva ou pesqueiro. Nunca poderemos estar certos se ela vem ou não perseguida por um qualquer predador, como já me aconteceu com um Robalo que veio dos 50 metros, atacando a amostra por volta dos 15, sem que nada o fizesse esperar.

E o papel da côr... Qual será?

A maioria dos escritos sobre escolha da côr, tendem a defender, para além das amostras parecidas com peixes, o uso de amostras de côr clara, em águas e dias claros; de côr escura, em águas e dias tapados; e outras, em dias em que nada funciona. Resumindo, tudo indica podermos iniciar com uma determinada côr tendo em conta as regras mas só a experimentação, em dadas condições, nos poderá trazer a "luz".

Sobre este assunto lembro-me de dois exemplos que poderão fazer-nos pensar sobre as regras normalmente aplicadas à escolha da côr, vejamos:

Na última entrada, mostrei-vos dois Robalos capturados no espaço de +/- 30 minutos, na mesma profundidade, local e, à vista desarmada, em condições idênticas de claridade água/ar.

O primeiro foi capturado com aquela amostra velhota, cinzenta e artilhada com um polvinho do amarelo para o laranja, escolhida pensando nas regras; o segundo, com a Sea Rock côr de rosa, escolhida porque a primeira entretanto não capturou e, por experiências passadas em que já tinha resultado quer com Robalos quer com Pargos quando outras não funcionaram. Porquê? Talvez o movimento tenha sido factor determinante... Não sei ao certo.

Como segundo exemplo, lembro-me de um mergulho de garrafas que fiz há uns anos, na "Barca das 19", um cargueiro de carvão do tempo da II Guerra Mundial, afundado a 30 metros, ao largo da Praia do Barranco... Ali entre Sagres e a Praia da Ingrina. Iniciámos o mergulho com a água visivelmente tapada à superfície e, durante os primeiros 15 metros, sem perspectivas de um mergulho com visibilidade. De repente, ao passar os 15 metros, conseguimos vislumbrar a totalidade do barco, com uma visibilidade impensável para o local, o dia e as nossas águas.

Ora, caso estivéssemos à superfície pensando em zagaiar, atendendo ao que víamos e cumprindo as regras, teríamos talvez escolhido uma amostra escura!

Fica a pergunta... Teria funcionado?

Concluindo, pode dizer-se que as regras poderão ser tidas em conta no início da pesca mas, caso falhem, não será de todo disparatado atender a estes dois exemplos, entre outros que certamente muitos dos que têm mais experiência desta técnica poderão apresentar.

O trabalho de casa foi feito, seguimos para o mar, procuramos, sondamos e, finalmente, encontramos um pesqueiro daqueles cheio de comedia. Olhamos a água, olhamos o céu e enquanto determinamos o rumo da deriva, começamos a olhar as amostras tentando escolher a que mais se adeque, em termos de movimento possíveis, característicos e côr, para a pesca que vamos iniciar.

Apresento-vos então algumas das minhas amostras e respectivas "armas" montadas e remontadas neste passado fim de semana em que a pesca andou longe.

A Sea Rock, côr Cavala, de 200 grs:
No mesmo dia e na mesma passagem, capturou um Pargo na encosta dum pontão, pelos 37 metros e, logo a seguir, no bico do mesmo pontão que subia aos 29, um Robalo, para além de outras vitórias em outros dias. Versátil, não é?

Quando desce livremente, meneia-se e deita-se ora para um lado ora para outro. Em subidas longas, abana-se em pequenos "Ss" e roda sobre si, fazendo mexer os amarelos dos fios que amarram os anzóis. Junto ao fundo e na coluna de água, quando lhe damos pequenos toques, elevando a ponteira da cana aos soluços e subindo-a progressivamente aí a um metro ou dois do fundo, deita-se e apruma-se de forma irregular, caindo erraticamente quando a largamos de repente, ferrando peixe quase parada nos toques curtos, a descer e nas subidas longas com curtas paragens e arranques súbitos. Um espectáculo, esta amostra.

Depois, tem as irmãs mais novas e primas coloridas das quais sou fã!

A de 150 grs:
Esta só leva um anzol... Não tem comprimento para mais e não gosto de colocar anzol em baixo para evitar os "arrochanços".

Gosto dos fios amarelos, nesta côr. Perguntarão porquê... Foi com eles que capturei mais peixe, embora tenha testado com outros. Teria sido da côr ou simplesmente não estavam lá quando tentei? Não faço ideia mas, pelo sim pelo não, mantenho-a!

No que respeita à côr dos fios, o mesmo não se pode dizer das primas coloridas...

A Côr de Rosa de 150 grs:

Na última pesca, capturou um Robalo a estrebuchar junto ao fundo e mais tarde um Atum pequeno, numa paragem de "doente", entre os 5 e os 10 metros da superfície. Alguma coisa os peixes vêem nela que não a largam.

E esta? A que resolvi chamar Peixe Piça... Está em experiência!
Como esta... Quase branquinha, com fio, anzol e decoração a condizer:


Não há dúvida... Tenho as Sea Rocks no coração!

O formato de corpo e as montagens que se fazem, permitem animações variadas, fáceis e actuantes a subir, a descer e nos movimentos mais curtos que se imprimem. Quase se pode dizer que capturam peixe de qualquer maneira, assim demos com ele.

A amostra seguinte é uma outra, da qual nem me lembro o nome mas que... descendo rápido, trabalhando bem em pequenas animações curtas e subindo em meneios, fará, mais dia menos dia, as alegrias deste pescador. Penso até que ainda não o fez porque também não lhe dei a atenção devida.

E agora aí vêem outros alvos do meu carinho... As "Velhotas"

A de cima, tão antiga que me foram oferecidas uma série delas... Ninguém as comprava! Paciência...

Dei-lhes um jeito ao rabo, enfeitei-as um pouco, ensinei-as a fazer o pino e... Quer a de cima quer a de baixo, já me agradeceram conforme vos mostrei na entrada passada.


Quem não há-de caber em si de contente será quem as fez... O Zé Vicente! Nunca ele pensou que esta coisa aqui em baixo, cabeçuda e com ar abrutalhado capturasse alguma coisa... Ou terá pensado?
Certo é que estas duas "cinzentonas" e mais a de baixo, uma "Zé Vicente", já aperfeiçoada pelo meu amigo Carlos Cruz... Ficaram loucas!

Elas descem a pique, mudam de repente de direcção e começam a descer de lado, sendo tão irregulares às animações que mais "doente" que aquilo nunca vi. Quando sobem a toque de manivelada, abanam-se de tal modo que até fico tonto! Velhas gaiteiras... É o que são!

Esta aqui de baixo ainda não capturou nada, mas que raio... Também ainda não lhe dei tempo!

Depois... Sou sincero! Não resisti!

Se, como tudo indica, o cinzento funciona e sendo eu um fã das Sea Rocks, por razões óbvias; porque não tentar arranjar uma nessa côr?

O mercado não as tem mas o meu amigo Nuno, da 7even, atirou-se ao assunto e conseguiu desencantar quem as imitasse. Não são perfeitas, mas trabalham bem e agora, só falta experimentá-las... Vamos ver!

Cá está ela! Pronta a actuar! Não vejo a hora de a experimentar, talvez em zona mais profunda ou em dia de deriva mais rápida, já que o peso que se conseguiu, foram as 230 grs.


Ainda na onda das cores escuras, achei que alguma claridade mesclada poderá vir a prestar algum serviço quando a frieza da água me levar para maiores profundidades, onde algum brilho influirá talvez sobre as atenções de outras bocas, talvez maiores ou até as mesmas que andaram pelas águas baixas quando estiveram quentes... Só vendo!

O resultado destas reflexões originou a montagem desta Knife, cujas irmãs vestidas de rosa e azul já me deram alegrias, não se podendo dizer o mesmo desta negra, cinza e prata, com montagem a condizer.

O trabalho desta amostra é estranho!

Pequenas elevações progressivas (sobe... Sobe... Sobe...) da ponteira da cana, imprimem-lhe um movimento de pêndulo derivado da tendência a cair para um qualquer lado entre os movimentos de subida e, larga-se a seguir... Deixando que desça em queda livre, qual folha de Outono percorrendo uma linha irregular de aspecto... Como direi? Quase helicoidal... Os ataques têm acontecido todos durante a animação própria da descida, perceptíveis pela linha que fica a boiar, obrigando a recolhas de fio e elevações rápidas da cana para ferragens efectivas. Até agora, só capturei Pargos com as irmãs de que falei. Um assunto que parece sério!

Já chega de escuridão! Alegria... Precisa-se!

Aí está ela! A exuberância em formato de peixe!

Amarelo, laivos pretos, barriga esbranquiçada, envolvimento fluorescente das hastes dos anzóis que vinham montados de compra, à parte, sendo que ao testá-los antes de os colocar a assistir qualquer amostra o fio soltou-se, de imediato e com um mínimo de pressão, daquele envolvimento duro e fluorescente que envolve a haste. Ficaram em espera até à chegada desta amostra que vinha montada com um anzol triplo na "cauda" e que aqui o "engenheiro" resolveu alterar. Vamos ver o que dá... Num dia claro, num fundo escuro ou em qualquer situação em que a sonda mostre peixe com fartura e nada mais funcione... Outros testes para fazer. Não digam a ninguém, mas... O comportamento dela é muito parecido com o das velhotas cinzentas... Outra "doente" em potência!

A conversa está cada vez com um ar menos sério, mas também não estamos aqui para acender velas ao acto de pescar. Por isso, há que "parvejar" de vez em quando, embora com ar inteligente, mesmo que pouco...

Considero que a seriedade está sediada naqueles que investem para nos fazer pensar o material que usamos que, como atrás inferi, utilizando resultados de experiências frutuosas, estudando o movimento e comportamentos das espécies alvo, inovam continuamente em novas formas, novos materiais... Com o objectivo de comercialização que claramente se deverá fundamentar na qualidade e na melhoria de resultados procurados continuamente por qualquer pescador, cabendo a este não aceitar outra forma de ser tratado.

Da seriedade de trabalho referida, parecem-me poder ser um exemplo as amostras abaixo, recentes, mistas de materiais duros e macios, com formatos variados e cores para todos os gostos (peixe e pescador), indiciando animações extremamente versáteis e, segundo vários pescadores e documentos produzidos, com resultados muito bons.

As Inchiku, à esquerda e a Tai-Jig à direita, nomes tipo destas "feras", comercializadas por várias marcas, têm vindo a fazer furor. Um dia destes experimento!

No entanto, convenhamos... Não posso abandonar as minhas "meninas", sob pena de nunca chegar a saber da real efectividade da maioria delas. Tenho de testá-las em várias épocas, profundidades... Jogar com as cores e as condições dos dias em que fôr, fundamentando-me na necessidade de as trocar, caso me venham a falhar. Parece um bocado "saloio"...

Mas a "saloiada" ainda não acabou! Olhando para as Inchiku, pareceu-me que poderão ser a evolução do que vários pescadores já faziam, montando polvinhos de vinil nas fateixas triplas e duplas, aplicadas nas caudas ou cabeças de amostras mais compridas, como aliás já vos mostrei naquela primeira "Velhota". Nas Inchiku, os polvinhos trabalham fora da linha central da amostra, tudo indica, provocando movimentos ainda mais acentuados. Esta constatação, fez-me pensar e resolvi adaptar uma das minhas amostras, a sénior Intruder, bem conhecida dos pescadores de Capatões que há muito a usam ou usaram, com bons resultados, ali pelas zonas da Arrifana e Carrapateira, e... Resolvi dar-lhe um ar louco!

Este que aqui vêem!

Um Pargo, por exemplo, olha para isto e, enquanto os instintos de ataque se vão instalando em crescendo, pensará para com os seus botões: epá... Aquilo é um Carapau! Coitado... Deve estar mesmo mal ou aquelas hipóteses de polvos nem se chegavam a ele. Mas está ali muita comida?! Entretanto dá uma voltas e apercebe-se que o bicho nem consegue ir muito longe e estrebucha de forma "muito doente" fazendo com que os polvinhos mexam os raios incessantemente, também danadinhos para parar o que resta do desgraçado. O Pargo, quase decidido, dá mais uma volta rápida sem perder o pitéu de vista, tira-lhe mais uma vez as medidas e... Zás! Atira-se àquilo com tanta voracidade que quando se apercebe já se tramou, iniciando-se a partir deste momento a felicidade de um qualquer pescador, lá na superfície. Talvez "moi"...

"Filme" à parte... Esta amostra era oferecida pela marca, unicamente com uma fateixa tripla na cauda, mais tarde coberta com um polvinho por pescadores mais avisados, o que eu, neste devaneio e pensando nas Inchiku, resolvi alterar!

Troquei a fateixa tripla por uma dupla mais forte, supostamente menos fácil de se prender lá no fundo. Para lhe criar mais irregularidade de movimento resolvi cobrir cada haste da fateixa dupla com polvinhos de vinil montados em oposição. Não satisfeito e já a rir-me... Para dentro, não fosse a família pensar em "doideira repentina"; espetei-lhe com um anzol de assistência, com polvinho, na zona da cabeça; cobrindo a hipótese do tal predador resolver atacar por esse lado e, eventualmente, promovendo animações ainda mais loucas. Sinceramente... Não faço ideia do que vai dar, nem estou preocupado.

Possivelmente, a "Rambinha", nome com que resolvi baptizar o artefacto por razões óbvias, na primeira descida, toca o fundo e fica presa por excesso de armamento, terminando assim a sua carreira ou... Talvez não! Depois conto.

Bom... Entre seriedade e baboseira, já me diverti à grande enquanto estive para aqui a badalar e, podem crer, não vou ficar só com estas amostras; mais dia menos dia vou à procura de outras... Devagarinho e pensando em coisas mais macias, os vinis... Ando para aqui a magicar...

Logo ficaremos a saber...

Boa noite a todos os leitores!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Aproveitar o inesperado...

A vida é cheia de programações e... Inesperados!

Programamos isto e aquilo, pensamos que tudo vai correr de uma determinada forma, mesmo a curto prazo mas, de repente, por circunstâncias que não fomos capazes de prever ou que não dominamos, lá vão as programações ao ar o que, por norma, nos traz dissabores ou a necessidade de improvisar, alterar, modificar... Em curtos espaços de tempo. Nestas situações podemos aproveitar para nos testarmos quanto à capacidade de resolver e ganhar o que parecia perdido. Também, noutras situações em que o inesperado nos é vantajoso, certamente o devemos aproveitar, gozando-o ao máximo, atendendo a que estes são momentos mais raros que os primeiros, parecendo pouco aceitável que não os exploremos a preceito.

O passado fim de semana trouxe-me precisamente um destes momentos!

Tudo estava programado para um tempo de casa, de família, em que a pesca se limitaria ao teclado do PC... Também gosto!

Os Deuses, no entanto, foram favoráveis e, por razões boas que não importa descrever, fizeram com que a família me mandasse pescar!

Como devem calcular, sabendo de antemão que o tempo estava bom e a pesca me iria passar ao lado, quando tais condições se reuniram, em poucos momentos, arrumei, preparei, encomendei iscas, corri à loja de pesca para suprir faltas de última hora e, ainda sem pensar muito na sorte dei comigo a guiar em direcção a Sines, elaborando os pensamentos que até aqui descrevi. Belos pensamentos! Penso eu...

O relógio do carro mostrava-me as 14.30 e enquanto conduzia, ia elaborando as tácticas a seguir: zagaia assim que chegasse, em pesqueiro perto e conhecido que o tempo de luz não era muito; Procurar as Douradas no Sábado... Talvez com uns Pargos à mistura; e, Domingo, outra vez zagaia mas em pesqueiro novo e para mim inexplorado nesta técnica. Dei comigo a sorrir de orelha a orelha, pensando que se alguém me visse nestes propósitos acharia talvez estranho, embora tal não viesse a influir minimamente no sono reparador que certamente faria nessa noite.

Abreviando...

A primeira deriva, lenta, na zona quente encontrada na sondagem, aconteceu às 16.00 horas e o traçado do GPS por ela efectuado indicou-me que tinha acertado em cheio no rumo NW - SE que o vento indicava, ficando também a saber que não corria aguagem num mar calmo com vaga larga e maneira... Cheirava-me que alguma coisa se ia dar!

A zona quente já tinha passado e voltei para outra deriva iniciando-a a NW do pontão. A Zagaia caseira feita à mão pelo Zé Vicente, cinzenta como a tarde, trabalhava bem imitando um peixe em sérias dificuldades, ora junto ao fundo ora um pouco acima, mesmo ali onde a comedia controlada pela imagem de sonda se encontrava. Passei o bico aos 29 metros e trabalhei a amostra na queda abrupta de SE, caindo a tocar o fundo e subindo em estertores, qual peixe a lutar por réstea de vida, provocando um predador que não resistiu a coisa fácil, proporcionando-me um toque violento e afundante seguido de luta a condizer, terminada no poço do Makaira, onde peixe novo e amostra antiga permitiram a imagem de abertura com que vos brindo nesta partilha. A coisa prometia e atirei-me à labuta.

Derivas e mais derivas, trocas de amostra, naquele e em outros pontões ali próximos, sempre em tensão, sentidos alerta e a noite a querer fechar-se sem outra captura. Tudo bem! Queria mais o quê? Cheguei... Capturei 2,700 kgs de peixe duma assentada... Eram horas de andar que o Sábado já me sorria para além dos pequenos prazeres que me aguardavam até à hora de pescar outra vez. Ah! Esquecia-me... Ainda havia o Domingo.

O Sábado acordou calmo, cinzento e agradável. Já em direcção ao mar, percebia-se a ausência de vento e a vaga alta e larga anunciada que não incomodava, reflexões quase inconscientes na minha mente, à mistura com outras relacionadas com as opções que ainda tentava definir relativamente à escolha do primeiro pesqueiro.

O objectivo era a captura dos grandes como sempre mas, as Douradas atendendo à época, faziam sem dúvida parte dos planos. Perguntei-me: será que já estão perto dos pontões altos ou ainda andarão por aqueles entralhados e pontões mais rasos? Talvez procurar um pesqueiro não muito afastado de pontões altos mas com entralhados nas imediações?

Escolhi esta última opção antes que O GPS, à minha frente, me olhasse e dissesse: "vê lá se te decides"!

A zona era conhecida, sabendo eu que por fora dela, por aqui e por ali, existiam umas pequenas elevações, com entralhados ricos à volta onde o sucesso já tinha "batido à porta".

Sondei durante algum tempo, batendo a zona e acabei por encontrar o que queria... Uma elevação para aí com uns dois metros de altura que se estendia sensivelmente por uns 50 metros, não mostrando muito peixe no topo mas em torno dela e agarrado ao fundo, em extensões consideráveis. Era mesmo isto que eu queria!

Fundeei no cimo da elevação e deixei o barco derivar para a zona mais funda, sentindo que tudo funcionava.

As postas de Sardinha saltaram para os anzóis grandes e desceram cheias de fé. Ficaram por lá por alguns momentos, sem qualquer toque, fora a falsidade que a vaga larga apresenta para pescadores menos avisados, parecendo que algo está por lá para além dos pesos da chumbada e da isca. Mexi a isca várias vezes, elevando e baixando a cana mas... Nada! Subi as iscas, intactas, como se nenhum peixe por lá estivesse, mas estavam!

Isquei de novo, deixei cair e aconteceu precisamente a mesma coisa. Verifiquei a posição do barco... Era a mesma! Liguei a sonda e... A marcação de peixe era igual.

Mudei a isca, colocando Caranguejo no anzol de baixo e Sardinha em cima. As iscas chegaram ao fundo e senti o primeiro toque, não ferrei... Esperando um segundo. Ele veio, tão macio que o percebi tarde de mais. Levantei a cana e senti que o peso da isca já não era o mesmo. Subi a baixada e o Caranguejo tinha desandado com a rapidez característica usada normalmente por aquele espárido de que tanto gostamos: a Dourada!

A pulsação acelerou e resolvi iscar Carangueijo em cima e Sardinha em baixo. Não queria deixar a Sardinha de lado... Nunca se sabe! Mas, por vezes, a Dourada parece comer melhor em cima e pelos vistos só queria Caranguejo. Outra coisa que me pareceu, devido a não haver ataques de peixe miúdo à sardinha, foi que poderia haver concentração importante de Douradas e o peixe miúdo não se chegava à isca... Acho que não me enganei!

Enquanto reflectia sobre as razões acima, já a baixada descia, chegava e eu ali em alerta vermelho. Primeiro toque... Segundo e ferragem alta, brutal! Já está! Não enganava nada a luta que se seguiu... O peixe cabeceava intensamente e aos soluços, não como o Pargo que dá aquelas cabeçadas intensas e longas, só parando para descansar, repetindo-as até à exaustão.

A Dourada não era grande, para aí com um quilo, chegou, entrou no enxalavar e de seguida para a geleira. Não havia tempo para fotos, o ritmo tinha de se manter... Pescas para baixo e logo ferrei outra, com toque e peso idênticos. Não restavam dúvidas... As fulanas andavam por ali.

A Sardinha começou também a desaparecer, sinal de frenesim e promessa de outros peixes que poderiam entrar mais tarde... A coisa compunha-se!

O Caranguejo entretanto começou a subir chupado e de casca inteira, indicando que elas poderiam lá estar sem se fazerem à isca, tentando perceber a razão dos sinais de stress deixados pelas amigas capturadas... Seria? Vou insistir na Sardinha e daqui a pouco volto ao Caranguejo, pensei, enquanto sentia um ventinho a querer entrar mais fresco, fazendo-me olhar para a proa e deixando-me apreensivo pela faixa de nevoeiro que trazia com ele e que não tardou a envolver-me, de tal modo que só via a vaga que elevava e baixava a proa do barco.

Entraram, a terceira Dourada e um Pargo pequeno nas duas descidas seguintes, entre sensações de entusiasmo pelo que estaria para vir da pesca e, de apreensão, pelo que poderia vir do nevoeiro. Na zona onde estava, costuma haver tráfego de navios grandes e nunca lá teria fundeado se o nevoeiro já existisse quando cheguei mas agora já lá estava e o peixe "comia-me o fundo ao barco"... Deixei-me ficar atento a tudo... Ao peixe e aos sons por detrás do nevoeiro.

As Douradas continuavam por lá, entraram mais três, entremeadas com outro Pargo, maior que o primeiro, sinalizando que a pesca não ficaria por ali... A coisa ainda podia "inchar"!

Mirei as gaivotas, companheiras na redoma de nevoeiro e não resisti a uma foto, enquanto mordia uma bifana e deixava os peixes lá do fundo banquetearem-se com meias Sardinhas e Carangueijos inteiros, não funcionando nem uns nem outros mas garantindo a continuidade da actividade no pesqueiro.
O som de aviso, cavo e prolongado, de um navio em aproximação ao porto, veio de NW e provocou-me um pequeno arrepio na coluna dorsal, deixando-me em alerta e aguardando o seguinte que me indicaria melhor respectivos rumo e proximidade.
O que temia tinha acontecido... Vinha um navio a entrar e certamente não passaria muito longe do ponto onde eu estava, puz o motor em marcha, levantei e acomodei as canas, ficando em espera, completamente dependente dos sons que atravessariam o nevoeiro.

O segundo toque foi ainda mais próximo e mais prolongado indicando, sem grande margem de erro, quer a proximidade quer o rumo da "besta". Liguei o radar e "vi-o"... Estava a menos de meia milha do Makaira e o rumo dado pela deslocação não enganava... Era mesmo em direcção a ele.

Com toda a calma que a distância observada me permitia, rumei para desprender o ferro, afastando-me do rumo do "outro" e puxei o cabo para dentro. Estava livre e pronto para ver o que lá vinha. "Ele" apareceu, enorme... Passando precisamente onde tinha estado fundeado.

Enquanto observava a passagem lenta daquela "enormidade" reflecti sobre o assunto, concluindo que tomei as melhores atitudes atendendo aos acontecimentos mas, mais acertado e seguro, teria sido ter levantado ferro e procurado outro pesqueiro ou voltado para o porto na altura em que o nevoeiro invadiu a zona, mesmo com toda a electrónica disponível. Nunca se sabe o que pode correr mal e não vale a pena correr riscos.
Eram 15.30, o nevoeiro dava ares de querer andar dali para fora mas ainda persistia, procurar outro pesqueiro ou manter-me debaixo de nevoeiro não me pareceram boas opções e voltei para o porto, pensando por um lado que se tivesse ido para o mar em horas "decentes" talvez a pesca viesse a ser outra e, por outro, quero lá saber... Tenho jantar, peixe que chegue e amanhã é outro dia!
Cheguei ao porto arrumei, lavei e preparei os peixes para a pose antes de os amanhar e gelar, excepto aquela Dourada mais pequena que fez as minhas delícias, escaladinha na brasa, lá no Zé.

A incontornável conversa de pesca acompanhou o jantar e a zagaia programada para Domingo encerrou os temas de conversa, ficando unicamente a trabalhar nesta cabecinha, imaginando novos pesqueiros, outros peixes e, quem sabe, aquele... O tal... Talvez seja desta que entre ao chumbo.
O Domingo mostrou-se com menos vaga, de tecto tapado e sem vento, deixando-me testar os mares que queria... Estava decidido, iria para Norte do Cabo de Sines procurar pontões altos ou paredes onde correntes ascendentes, carregadas de nutrientes atraíssem comedia e os respectivos predadores.
Ao fim de algum tempo de sondagem que não medi, dei com o que queria: uma parede de pedra subindo dos 74 para os 50 metros de altura, ao longo da qual procurei comedia, encontrando-a farta no que me pareceu ser uma zona de reentrância.
Escolhi outra vez uma amostra cinzenta como o dia, com o anzol triplo tapado com um "polvinho" de vinil e vá de trabalhar em cima da bola, deixando-me derivar e animando o peixinho, dando-lhe o ar mais doente e irregular que achei. Passei uma vez, duas, três... Com rumos de deriva variados originados pelo vento que ora vinha de Oeste ora de Noroeste e a coisa acabou por se dar, através de um pequeno toque, seguido de fuga errática, diversa de qualquer Pargo que se preze e subindo o Robalo que se apresenta, ferrado naquela amostra estranha de outros tempos.
O peixe não era nada do outro mundo, mas garantia-me que o pesqueiro era interessante, a zona quente e a amostra bem escolhida... Ou seria que com qualquer outra faria maior captura? Insisti na zona com a mesma amostra, passando e tornando a passar sobre as comedias, sem que a questão de mudar de amostra me saísse da cabeça, acabando por trocá-la.
O dia tinha aberto um pouco e optei pela Sea Rock côr de rosa que, sem demora, capturou outro Robalo, gémeo do primeiro. O que se apresenta a seguir.
Um conjunto de questões ficam por responder. Vejamos:
Os Robalos foram capturados na mesma zona da parede, logo a seguir ao início da queda, pelos 57/60 metros, e... Os tamanhos eram idênticos. Então, o que é que influiu? As amostras ou o local de concentração? Inclino-me sinceramente para esta última mas, certezas... Quem quiser que as tenha.
E se tenho mudado de amostra quando as trabalhei até ao fundo da parede, será que teria interessado algum maior, por ali escondido, aguardando a sua oportunidade, preferindo talvez outro tipo de chumbo? Não sei! Para a próxima experimento, pois este raciocínio que agora faço, não o fiz lá onde poderia ter feito mais falta.
A hora de tornar ao porto e a casa aproximava-se a passos largos e só me lembrei de trabalhar a amostra em toda a coluna de água, ao reparar que a comedia se alongava até cá acima. Inesperadamente tive um ataque aí a uns cinco metros da superfície, seguido de tentativa rápida de fuga, superior à luta oferecida pelos Robalos mas diferente, indiciando outra espécie.
E era mesmo! Este atunzito aqui de baixo resolveu comer e ferrou-se na amostra, marcando-a com aqueles dentes que parecem serrilha.

Ah... Também cá andam? Pensei para comigo. E os vossos familiares mais crescidos... Será que não gostam também?

Devolvi-o à agua! Procurei outros! Mas nada mais se atirou!

Voltei ao porto, pensando no dia e concluindo satisfeito: o que aprendi hoje... O que tenho para explorar... O que tenho para aprender...

Dei comigo a sorrir largo e a pensar já na próxima saída onde certamente vou agarrar em mais estas gramas de conhecimento, mesclá-las com outras e tentar fazer melhor, mesmo que mais uma vez não acerte no alvo que procuro.

O fim de semana que aí vem não vai deixar pescar... Só se aparecer qualquer outro inesperado...

Pelo sim pelo não... Fica a leitura! Se a meteorologia tiver razão sempre haverá quem fique a "pescar" em casa.

Boa noite a todos os leitores.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Com o Astro Rei por companhia...

A saga continua... As costas ainda refilam comigo e o fim de semana passado trouxe outras pescas... Outras vivências...

Os dias e as horas passaram mornas, fui com o Zé Beicinho à zagaia na Sexta e acabei por ir a solo, no Sábado, pescar fundeado, atendendo a que o pessoal que estava para vir comigo acabou, por razões diversas, não o poder fazer. Acontece!

O Domingo ainda foi dia de dar uma fugida à zagaia, devido a querer voltar cedo para estar com a família.

Este ano só consigo chegar a Sines às 15.30 de Sexta, o que diminui significativamente o tempo útil de pesca, principalmente agora que a hora mudou... Uma chatice! Paciência...

As hostilidades iniciaram-se na Sexta, logo que chegámos ao pesqueiro eleito onde a sondagem mostrou a imagem que abre a entrada, indicando bolas de comedia alvoradas, em torno daquele pontão. A aguagem corria ao Sul com alguma intensidade, alinhada com o vento de força variável e com tendência a mudar continuamente de quadrante.

Procurei a deriva que me faria passar sobre a zona supostamente mais "quente" do pesqueiro, aquela que a sonda tinha mostrado, e, iniciei a primeira passagem largando a amostra que animei com gestos curtos e rápidos, intervalados com outros mais longos seguidos da queda errática da amostra escolhida que tanto trabalhava a subir como a descer, embora de formas diversas.

A passagem iniciou-se junto à beirada do pontão, obrigando-me a retirar a amostra, para que não se prendesse no início da parede, tornando a lançá-la no pico na perspectiva de explorar a beirada oposta enquanto o barco derivava.

Assim que a amostra terminou a descida já no início da beirada referida e logo que iniciei a animação um pouco acima do fundo, vi a linha "bamba", elevei um pouco a cana, senti um tremelicar e ferrei alto! Era "um"... Não havia dúvidas!

A luta deu-se! Nada do outro mundo mas fazendo-me pensar: Já... Isto começa bem!

O "artista" chegou cá acima com a "língua" de fora, passou ao estrelato e seguiu directamente para a geleira da ordem. Nem o pesei... Entretenham-se e façam cálculos!
Continuámos, com entusiasmo, a animar as amostras, mudando-as conforme a claridade se ia esvaindo e as passagens se sucediam sobre as zonas mais prometedoras, sem que qualquer outro peixe se conseguisse capturar.
É assim! Só lá estaria este ou não conseguimos acertar com as passagens e amostras seguintes? Não sabemos!
Voltámos ao porto e jantámos o Parguito cozido, com todos e regado a tinto. Ainda deu para quatro e sobrou qualquer coisa.
O dia seguinte prometia na pesca fundeada que, só para o fim da noite soube, faria a solo atendendo a que o pessoal amigo que era para vir, por razões diversas, não poderia fazer-me companhia. Convidar outro pessoal e deixá-los com água na boca por já terem outras coisas combinadas também não achei bem. Por tal, deixei rolar.
Certo era que tudo estava preparado, não constituindo tais circuntâncias impedimento para a minha pesca.
Fui para o mar ao sabor do tempo que o Astro Rei me indicava, desprezando por completo aquela máquina a que chamamos relógio. O peixe não quer saber dele e eu? Vou preocupar-me com tal artefacto para quê?
Fundeei perto, depois de ter pensado em não sei quantos pesqueiros e, atirei-me à pesca com todos os sinais a prometerem, até uma pequena aguagem a Sul, normalmente contribuinte para o sucesso.
As coisas correram de feição, os toques iam ficando mais agressivos e o habitual roubo de iscas sucedia-se, entrando primeiro um Parguito de quilo, depois uma maiorzito e a seguir o que aqui abaixo se apresenta, perto dos dois quilos.
A pesca prometia e não me fiz rogado, mantendo o ritmo e aguardando outra revoada deles.
A aguagem aumentou, variei iscadas em tamanho, forma e qualidade mas, meus amigos, nem mais um peixe entrou durante as duas a três horas que se seguiram.
Não faço ideia das razões... Talvez o local onde passou a cair a isca, talvez a aguagem os tenha afastado para outro lado, talvez a proximidade das mexidas de mar que aconteceram durante a semana, talvez tanta coisa... Até a minha teimosia em manter uma pesca activa correspondente aos sinais que se mantinham. Se tenho estado com companhia, possivelmente teria mudado de pesqueiro mas, fui ficando por ali e continuando até achar que tanto a insistência esgotante quanto a hora tardia, indicavam o caminho de terra para tratar do barco, de mim e dar descanso às costas que já refilavam, fazendo-me temer pela fugida à zagaia que pensava fazer Domingo antes de voltar cedo a casa para estar com a família.
Fui zagaiar talvez uma hora mais cedo... A mudança da hora foi certamente a culpada!
Preparei cana e carreto e espalhei as zagaias no tabuleiro das iscas, mirando-as e pensando em quais apostar, tentando adivinhar as cores de água, considerando todos os conselhos dos mestres, assim como alguns resultados por mim obtidos; e, desandei para o mar.
Escolhi pesqueiro sondando sempre. Os sinais não eram dos melhores mas apareciam comedias por aqui e por ali onde, lançava as zagaias e batia incessantemente. Não dava... Mudava de pesqueiro e recomeçava o trabalho, insistindo... palmilhando... Agitando as amostras sem qualquer outro sucesso para além da desgraça do Peixe Piça da foto abaixo que, eventualmente zangado pela invasão de território por animal tão feio, resolveu intimidá-lo e... Tramou-se!
É caso para dizer que até para ser Peixe Piça é preciso ter alguma sorte!

O Sol já tinha começado a descer do seu ponto mais alto, indicando-me serem horas de voltar procurando o aconchego de casa conforme prometido e voltei... Satisfeito com as decisões tomadas e com o fim de semana passado com o Astro Rei por companhia.

Até uma próxima, uma boa noite a todos os leitores!

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Breve história de... Uma grande ausência!

Era uma vez...

Epá! Acho que nunca tinha estado tanto tempo sem escrever por aqui... Mas, a verdade é que as razões que a tal levaram são mais que justificadas.

Tudo começou numa aula de Educação Física, no dia 2, Sexta Feira do corrente mês.

Estão lembrados que, para além destas facetas de "escrevinhador" e pescador de horas vagas, sou professor dessa disciplina... Para além disso, sou daqueles que, não olhando à idade, ainda insisto em mexer-me como se 30 anos tivesse, o que, não sendo mau, comporta riscos directamente proporcionais ao avanço dos anos sobre o respectivo esqueleto, normalmente traduzidos em lesões mais ou menos importantes, eventualmente agravadas pelos esforços que se vão fazendo na pesca. Desta vez foi tudo a somar e a coisa não esteve fácil.

No dia referido, após um aquecimento, senti como que um pequeno cansaço aqui ao fundo da coluna, nada que já não tivesse acontecido e que um sono reparador não costumasse resolver. Para além do mais, o pequeno incidente deu-se na última aula da manhã de Sexta. Estão a ver... Aquela aula a que se costuma suceder o momento mágico de largar tudo e rumar a Sines. Quais costas... Quais cansaços ao fim da coluna... Mais à noite logo se descansaria, depois de ir zagaiar nas duas ou três horitas de luz que ainda restassem quando chegasse a Sines.

Tudo correu bem! Fui zagaiar, não capturei nada e fiz os preparativos para a pesca de fundo carregando materiais, a saca com os Carangueijos, incontornáveis como isca nesta época do ano, seguindo-se uma volta na carta de pesca, procurando onde fundear no dia seguinte, tendo em conta a movimentação esperada das Douradas, nesta altura do ano, cuja tendência é estarem já a caminho dos locais de desova, sendo passível de as encontrarmos em entralhados e perto de pontões baixos aí pelos 40/50 metros. Tudo isto sempre sentindo o tal cansaço no fundo da coluna, mas sem lhe ligar grande coisa.

O Sábado chegou carregado de nevoeiro e lá seguimos para o mar: eu, o Raimundo, o Pedro e o Vitor, companheiros habituais, todos com a cabeça cheia de peixes grandes, vencendo a parede de névoa com o Radar e o GPS, em direcção ao pesqueiro que me pareceu mais lógico quanto a probabilidades de boas capturas.

A coisa não correu bem, considerando os, supostamente, bons sinais que se apresentaram com o peixe miúdo a comer desalmadamente, mas sem que as capturas de nota se manifestassem.

O dia correu com alguns Parguitos, muito poucos, outros peixes sem história e acabando na procura de besugos ali por fora do Molhe Oeste, mesmo estes muito escassos.

Sou sincero! Estranhei bastante os resultados deste dia, ficando sem saber como os explicar, mas achando que algo não tinha estado bem...

A possível explicação poderá talvez encontrar-se no dia seguinte em que o Brás e o Luís me fizaram companhia e resolvi voltar ao mesmo pesqueiro em que tinha iniciado a pesca no dia anterior.

Questionarão os leitores:

Então se não se apanhou lá nada de jeito, porquê insistir?

Ao que responderei:

Os sinais estavam lá, a marcação de sonda também dizia que "sim"... Não custava nada insistir e era mais uma experiência a realizar, passível de trazer mais conhecimento com peixe à mistura ou não.

Nunca se sabe se uma qualquer alteração técnica não trará novidades... E, na verdade, acabou por trazer!

Começámos a iscar com a Sardinha que desaparecia em um minuto e alternámos com o Carangueijo, cujo miolo era roubado mas não tão depressa e, num momento, as coisas alteraram-se!

O Luís, mais insistente com o Carangueijo, não tardou a ver a sua cana dobrar-se beijando a água. A luta foi dura e o Pargo de três quilos e tal que abre esta entrada, entrou a bordo iniciando o seu pescador na rota de outros peixes, por ser o primeiro da sua vida.

O entusiasmo generalizou-se, continuando eu a insistir em iscadas grandes de Sardinha e os meus companheiros a alternarem, com insistência nítida no Carangueijo.

Os peixes entraram espaçados, com umas Sarguetas, Choupas gradas e um ou outro Sargo pequeno à mistura.

Algum tempo depois foi a vez do Brás, com a Dourada de quilo que se apresenta aqui em baixo.

Eu, entretanto, tirei um Parguito pequeno e uma Dourada também pequena, respectivamente com Sardinha e Carangueijo, este último, sem dúvida, revelando-se a isca rainha do dia e assim se consagrando, ainda através do Luís, com a Dourada de dois quilos e pouco que culminou a jornada, ganhando ela e o seu pescador o direito de figurar na imagem seguinte. Bonito!

Pela minha parte, nada de nota aconteceu, para além do que se passava com as minhas costas que teimavam em incomodar-me de forma pouco usual, pensando eu ainda que uma noite de descanso sério e o feriado de 5 de Outubro, resolveriam a questão. Enganei-me!

Não vos vou maçar com descrições morosas de maleitas que muitos de vós já conhecem mas, até fui ao médico, coisa que já nem me lembrava como era. Pior que tudo, foi andar a dar aulas meio de rastos, não poder pensar em pesca e nem conseguir estar sentado ao computador o tempo suficiente para poder contar-vos deste fim de semana e de outras coisas que tenho em mente falar por aqui durante estes passados quinze dias. Mau... Francamente mau!

Verdade também seja dita... Se eu não escrever, o que por aqui já está escrito embora merecendo uma média de centena e meia de visitas diárias em páginas diferenciadas, não consegue fazer com que, para além do pessoal que costuma comentar, outros o façam e me permitam conversar com eles de forma mais curta, talvez respondendo a críticas ou dúvidas. Mas também não é coisa que me faça parar pela simples razão de gostar do que faço.

As costas já melhoraram sem estarem completamente boas e o apelo da pesca fez-me voltar a Sines este último fim de semana, culminando a paragem forçada e trazendo-me outras alegrias, tanto pela companhia como pelo resultados obtidos que passo a contar.
Com a saúde relativamente composta, programei as hostilidades tendo em conta os meus amigos e colegas Chico e Albino, os tais que só pescam comigo, sem serem de facto pescadores, conjunto habitual de comes e bebes com pesca à mistura, para Sábado; e, uma sincera disposição para ir à zagaia no Domingo, isto se as costas se comportassem.
Tudo funcionou... Até as costas!
No sábado lá fomos à hora habitual (10.00 horas... Um quarto para o meio dia), procurámos pesqueiro e vá de iscas para o fundo. Não foi um dia de muito peixe, só o suficiente para alegrar o pessoal, ver o Chico com medo que os Carangueijos o mordessem e a cortar a madre em vez das patas do Carangueijo, assim como o Albino, a partir-me a primeira cana de ponteiras finas que adquiri para aí há uns quinze anos, pensando que conseguia tirar a tampa do fundo com ela.
Coisas de "pescadores"...
Mesmo assim, ainda tiveram direito a umas fotos, vejamos!
O Parguito do Chico que se atirou à Sardinha, já com a montagem nova!
A Douradita do Albino, escolhendo o carangueijo, após substituição da cana!

A Abrótea também do Albino e ainda com a cana nova que conseguiu sobreviver até ao final do dia de pesca.

Eu continuei sem dar grandes ares da minha graça, entre montagens de madres e canas de substituição sem que tais acontecimentos me sirvam de desculpa e, pensando que tinha de poupar as costas para a pesca à zagaia que tinha programado para o dia seguinte.
Tudo isto, entremeado com o excepcional frango frito com alho que o Albino faz questão de trazer, obrigando-nos a consequente paragem técnica para degustação respectiva. Enfim... Tudo isto é pesca!
O jantar dos guerreiros sobreveio ao dia de pesca, assim como o copo do costume e o descanso merecido lá pela Pensão Carvalho, onde sempre somos bem recebidos pela D. Irene.
O Domingo surgiu ao abrir de olhos precedido pelo som cavo do roncar matinal do Chico e à normal actividade do Albino que acorda cedo e já não dorme, tendendo a acordar tudo o que se encontra à sua volta. Apreciei este acordar... Dirigindo-se a minha mente de imediato para o pequeno almoço, para as zagaias, canas e estratégias que iria utilizar na pesca que se avizinhava. É caso para dizer: esta cabecinha não pára!
Vai-se ver, não devia ser assim... Mas sou!
Despedimo-nos após o pequeno almoço lá pelos "Galegos", como é denominada a pastelaria Vela de Ouro, a mais antiga de Sines. Eles seguiram à vida deles e eu desandei para o porto de recreio, em felgas para preparar os materiais e sair para o mar, sentindo um pequeno incómodo nas costas, remanescente da lesão recente, avisando-me certamente para não abusar com as correrias.
O Makaira esperava por mim, lavadinho do dia anterior, com um ar de cavalo fresco que quer correr e eu não me fiz rogado, preparei uma cana rija e curta, feita por medida e oferecida pelo meu amigo Nuno da 7even, parecendo esta ser a ideal para me poupar as costas enquanto trabalhasse as amostras que dispuz no tabuleiro de iscas, de modo a poder chegar-lhes sem me dobrar, assim como vizualizá-las em conjunto, escolhendo as que mais hipóteses teriam de sucesso considerando experiências anteriores, estado do mar e do vento, cores da água... Etc..
Com tudo preparado, saí para o mar eram umas 10.30, dirigindo-me para uns pesqueiros onde no dia anterior a sonda me tinha mostrado comedias ao fundo e os pássaros andavam em grande actividade, o que não aconteceu no Domingo, como aliás é normal... Os peixes e os pássaros não costumam parar!?
Procurei por ali uns pontões altos conhecidos e, gostando dos sinais (já referidos em entradas lá para trás) atirei-me ao trabalho!
Passei e tornei a passar nos pontos supostamente mais quentes, mudando as amostras, as animações, os sentidos das derivas, trabalhando mais ao fundo, mais no cimo dos pontões e... nada!
Parei para comer e decidi visitar um local onde há dois anos tive algum sucesso que contei por aqui... Podia ser que a coisa se desse, pensei para comigo enquanto vencia a moleza originada pela paragem e punha o motor em marcha.
O novo pesqueiro apresentava-se com marcações razoáveis, nem boas nem más... Suficientes para me atirar ao trabalho, cheio de fé!
Identifiquei o sentido da deriva e vá de trabalhar! Passagem para a esquerda, passagem para a direita, mudança de amostras, as horas a passar e a decisão de voltar à terra a aproximar-se a olhos vistos, empurrando-me para a racionalidade, imposta por jornadas anteriores em que tive sucesso, como estratégia final.
Escolhi uma amostra vencedora e vá de derivar, animando-a com toques curtos e rápidos intervalados com outros mais longos e lentos, seguindo-se puxões rápidos após cada descida lenta, até que, à queda dum pontão, a coisa deu-se!
A linha não baixou quando a cana o fez e ferrei alto, enrolando carreto e elevando a cana com força! O puxão para o fundo não enganava... Estava com um "jeitoso" no outro lado da linha!
Lutámos... Venci... Fografei!
Mais um Dourado com 3 kgs e qualquer coisita, ali ao pé da Croc da ordem!
A pesca estava garantida e bela mas, achei que devia insistir, talvez andasse por lá mais qualquer coisa. A zona prometia e a hora era boa, considerando resultados anteriores.
Fiz mais duas passagens e não resultou! Troquei a amostra, mantendo o tipo mas mudando a côr de Cavala para Rosa, passei outra vez e... A coisa tornou a dar-se!
O peixe, mais pequeno, atirou-se mais uma vez quando a amostra descia... Aqui está ele, um Bandeireiro com um quilo e pouco.

Ainda passei mais umas vezes, mas a hora já era de andar para o porto e as passagens já se faziam à pressa, olhando para o relógio o que não me pareceu bom nem razoável. A indicação estava dada! Este local ainda vai dar que falar esta época! Vamos ver!
Voltei para casa, satisfeito com o Fim de semana, a companhia, a pesca e, por ter assunto para quebrar tão grande ausência da Vossa companhia neste local.
E aqui vos deixo a "Breve história desta minha ausência"! Espero estar perdoado...
Uma boa noite a todos os leitores.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A Fuga!

Este fim de semana que passou, literalmente... Fugi!

Nada fazia esperar que fosse pescar! Tudo indicava que o Sábado seria de trabalho. A Travessia do Sado a Nado agendada e com as 19.00 horas como hora prevista para o seu término, acrescida de muito trabalho da escola, não previam nada de bom para a realização de mais uma pescaria e, mentalmente, já estava preparado para ver Sines passar ao lado, não fossem os banhos de multidão durante toda a semana, dos quais não sou fã e, possivelmente, teria passado o Domingo com a família.

Salas de professores apinhadas, não sei quantas reuniões, a confusão normal gerada por um milhar de alunos em cada intervalo lectivo, seguidos de um sábado com 130 nadadores, muitos voluntários, barcos de apoio, telefonemas para aqui, comunicações rádio VHF para ali... Acabaram por me decidir por uma fuga sem olhar a meios.

A meio da dita prova de Sábado, estava a telefonar para casa informando: vou à pesca!

Acho que o pessoal compreendeu!

Na minha mente estava unicamente presente que queria ir, sem dar cavaco a ninguém, sem me preocupar com pormenores, unicamente pensado em curtir cada momento que esta inesperada decisão me poderia proporcionar.

Acabou a prova, arrumei as bóias e ferros da montagem do percurso de natação, despedi-me da equipa organizadora e desandei para casa. Tomar um banho e pegar na mala e materiais de pesca, eternamente preparados, foi um ápice. Passar numa grande superfície e comprar umas sardinhas congeladas, um suplício, mas... Estava salvo! Já ia a caminho de Sines, pronto para os tais momentos, com o Bob Marley por companhia... Búfalo Soldier... lá, lá, lá, lá, lá lá, lá, lá...

O mundo era meu enquanto esta fuga durasse!

A viagem decorreu, na companhia já referida do Bob, seguindo-se o Mark dos Dire Straits, como convidados de honra na viatura. Sou sincero... Para além da fiabilidade, como isca, das sardinhas com mau aspecto que levava nem em pesca pensei. Fui ouvindo com agrado os convidados e deixei-me ir naquela de: "o que vier soará"!

Jantei no Zé Beicinho e segui para o barco, onde preparei as canas e as montagens da ordem, tudo em perfeito estado de graça, esquecido do mundo, para o que contribuiu significativamente, ter ficado sem bateria no telemóvel e nem o carregador trazer comigo, o que sucedeu por mero acaso mas certamente por obra dos deuses que mais uma vez me acompanharam.

O material a preparar era agora a minha companhia e a pesca o único pensamento que teimava em não me abandonar, tudo decorrendo no silêncio duma noite calma, sem vento e pouco húmida... Perfeito!
A concentração estava toda na montagem das canas, alinhando os passadores ao milímetro; na passagem dos fios, assegurando que nenhum deles era saltado; as montagens iam sendo colocadas, os nós perfeitos, testados, as pontas cortadas e a aplicação cuidada.
Depois os carretos... A verificação do funcionamento, a taragem das embraiagens para peixe maior, pensando já em evitar mexidas em acção de pesca. Assim foi com a cana de mão, a cana para isca morta e a cana para isca viva, às quais foram presas as montagens para a viagem, seguindo-se a sua acomodação, no poço do barco, onde passariam a noite enquanto o seu dono dormiria o sono dos justos. Quanto à isca... Nem olhei para ela, estava congelada e o dia seguinte logo diria de sua justiça.
Os trabalhos de preparação estavam terminados, gozei um pouco mais o tal silêncio, acabando por sentir aquela moleza típica que muitas vezes sucede a tarefas cumpridas, rabo lavado e barriga cheia, deixando-me levar para o vale dos lençois onde caí redondo, dormindo à bruta até às 9.00 da manhã de Domingo, sem dar em absoluto por qualquer dos barulhos que normalmente me acordam mais cedo. Não me levantei logo... Rolei para um lado, para o outro e estirei-me, esperando que as funções vitais se aproximassem do normal, enquanto ouvia o vento prometido para Domingo dizer: presente!
Mentalmente falei com ele: já sei... Estás aí! Não é preciso lembrares-me tão cedo que existes e que hoje vais estar por cá... Vê lá como te portas... Pelo menos deixa-me pescar!
Eram 10.30 e lá ia eu no Makaira, já comido e com a aviação acomodada, agora na companhia do vento que ainda se comportava àquela hora. Verdade seja dita que, ao longo do dia, nunca se portou francamente mal, mas bem... Também não se pode dizer que tenha estado. Coisas do vento... Fazer o quê?
Dirigi-me ao primeiro pesqueiro onde as probabilidades me pareciam fortes e onde a ocupação do mesmo, por um navio carregado de contentores fundeado, me surgiu como primeiro contratempo do dia. Não desarmei! Em vez de ficar chateado ou coisa que o valha, puz-me a sondar ali à volta. Por vezes, vamos a um determinado pesqueiro e esquecemo-nos que, em torno dele, poderão haver alguns outros... Lembrei-me disto e não corri logo para outro conhecido, pura e simplesmente resolvi sondar, investindo em novos locais para outros dias em que os conhecidos não correspondam.
Ao fim de uma hora e tal de sondagem, fiquei com mais três marcas que, não apresentando sinais merecedores de fundeio, indicaram pela configuração de fundo serem hipóteses a testar mais tarde ou em outro dia.
A coisa não estava a correr mal mas era hora de pescar e, sem correrias ou mais demora, lá fundeei em pesqueiro conhecido, pelos 48 metros de fundo e vá de montar canas e pescar. Isto por volta daquela hora em que muitos pescadores acham que o peixe respeita o nosso tempo de alimentação.
As baixadas desceram indicando que a aguagem era forte, a favor do vento e que os peixes que por lá se encontravam se estavam borrifando para a nossa hora do almoço... Comiam a uma velocidade impressionante e mal grado a qualidade da isca que não era das melhores, certo é que os sinais estavam lá, a aguagem ajudava a transportar "a palavra" e as condições estavam criadas para mais um dia cheio de hipóteses e de pesca muito dura, derivada do continuo roubo de isca e consequente subir e descer já que as cavalas não entravam e a sardinha era presa fácil para os meus engodadores ajudantes que, lá pelos fundos, trabalhavam com uma sofreguidão diabólica.
O tempo passava, a aguagem ora aumentava ora diminuía e, salvo uma ou outra Choupa, Boga ou Peixe Piça; nada mais entrava levando-me a fazer contas à vida... O que faço? Os sinais são bons, a isca não é grande coisa, peixe maior não entra... Mudo de sítio? Insisto por aqui?
Decidi-me por ficar! Ia testar aqueles sinais até ao fim mas precisava que a isca se aguentasse mais tempo; por tal, resolvi aumentar o tamanho dos anzóis e passei a iscar meias sardinhas, conforme a primeira forma de iscar à esquerda da foto que abre a entrada, já conhecida duma outra, mas a única que tenho como ilustração da iscada referida.
Estas iscadas sendo maiores, faziam mais atrito a descer, obrigando-me a aumentar o peso da chumbada assim como a dureza do trabalho a efectuar. Não me preocupei com isso... Dureza é coisa que faz bem ao corpo, alimenta a alma se tiver um objectivo definido e mantém-nos alerta enquanto se labuta.
Fui recompensado ao fim de uns dois lançamentos, não só pela maior agressividade do peixe sobre tão grande carnada, mas ainda pela captura de uma Choupa quase de quilo, da qual não tenho foto, muito por, nesta altura da pesca, estar ciente que algo iria acontecer e o certo é que aconteceu mesmo.
Sentia-se de facto diferença na agressividade do peixe perante esta nova iscada e o primeiro ataque sério e luta interessante deram-se daí a alguns momentos, convertendo-se na captura do pargo de 1,700 kgs que se vê na imagem abaixo.

Mas porque é que não comecei com isto mais cedo? "Ganda toino"!!! Pensei para comigo, com vontade de me dar uma tareia séria!
Voltei a trabalhar à posta, não fosse dar-se o caso de os artistas estarem lá em baixo a comandar tropas, mas não... Era mesmo necessário manter as iscadas grandes!
Continuei na labuta, com vento a aumentar e aguagem a manter-se na força mais baixa entre as diferentes ao longo do dia. Após uma das descidas que já tinha como últimas da jornada, senti um primeiro toque, deixei comer, aguardei o segundo e, logo que este se iniciou, ferrei alto por desconfiança que não sei explicar. A ferragem deu-se! o trabalho começou e o peixe fugiu para a aguagem lutando duro com esta a trabalhar contra mim e o material.
Percebi que não era nenhum monstro, mas vendeu cara a sua sorte este Pargo de 4,000 kgs que vos apresento a seguir, ao lado daquela tesoura que haveria de ajudar a amanhá-lo para que a sua cabeça fizesse as minhas delícias hoje à noite e que a respectiva digestão me inspirasse enquanto vos conto desta minha fuga.

A pesca não durou muito mais, o vento insistia em aumentar e encontrava-me também só para as lavagens e arrumações do barco. Levantei ferro com todos os cuidados, correu bem e vim para terra onde tudo fiz a pensar no dia e na mais valia de ter confiado nos sinais. Ah... Se tenho resolvido pensar mais cedo em iscar daquela forma... O que teria acontecido?

Outro dia experimento!

Até lá ou talvez antes, despeço-me desejando-vos uma boa noite!