domingo, 27 de janeiro de 2013

Aquisição de barco... cuidados essenciais.


As condições climatéricas estão, como direi... miseráveis. Nada que se compare com a foto de abertura... infelizmente.

A montagens, anzóis e todo o resto do material, já nem sei que lhes hei-de fazer, depois de tanta preparação, manutenção, montagens, invenções e sei lá mais o quê. Portanto, venho aconchegar-me aqui, no quentinho do blogue, para tagarelar convosco, desta vez, sobre barcos, principalmente aqueles que são o meio de locomoção na prática da nossa actividade "mais que tudo".

O artigo que vos proponho, foi por mim escrito, em Junho de 2009, propositadamente para o site Porto de Abrigo e, na verdade, nunca o postei aqui. Lacuna que quero preencher, atendendo a que, segundo a informação prestada pelo serviço de estatística do blogue, tudo indica que muitos dos leitores desta página, não serão assíduos do site.

As opiniões que se transcrevem, decorrem da minha perspectiva de utilizador e da procura contínua de perceber como adquirir, tratar e usar uma embarcação, reduzindo ao mínimo os custos de manutenção e utilização, necessárias e correctas.

O momento, atendendo à crise porque se passa, é difícil para disponibilizar dinheiros. No entanto, um outro olhar, permite-nos afirmar que poderemos ter acesso a preços muito inferiores àqueles que se praticavam na altura em que o artigo foi escrito. Portanto, espero que vos sirva para procurar ou simplesmente sonhar.

O conjunto de informação que se vai desenvolver, não pretende ser um exaustivo documento sobre tipos de barcos, motores e formas de transmissão ou propulsão; antes uma informação inicial, da qual poderemos partir para questões mais profundas, podendo assim partilhar com aqueles outros que necessitarem de informação ou até aconselhamento nesta área, considerando aquisições, manutenções, licenciamentos… tendo para tal em conta as bolsas menos ou mais abonadas.
Vamos então falar de barcos!

Definição de Barco:

“Barco é um artefacto construído por um ser humano, capaz de flutuar e de se deslocar sobre a água que envolve vários princípios da física e da geometria…
Toda a construção feita em madeira, ferro, aço, fibra de vidro, alumínio ou da combinação desses e de outros materiais, com uma forma especial, servindo para transportar, pela água, pessoas ou coisas, é sinónimo de embarcação e designada de vários modos em diversas culturas. Adaptado a vários tipos de propulsão, cedo na história se percebeu que este meio de locomoção oferecia muitas vantagens”. (Wikipédia 2009)

A definição anterior precede uma evolução que permite hoje o acesso a embarcações dos mais variados tipos, propulsionadas de formas diferenciadas, com preços de conjunto variados, permitindo que, tendo uma tal opção na vida, muitos cidadãos possam aceder a um destes objectos em estado novo ou usado, mais pequeno ou maior, com mais ou menos motorização, construído com bons materiais ou nem por isso, mas que cumpra com os objectivos iniciais a que se destina.
Vamos lançar um olhar pelas características, tendo em conta tipos de cascos, motorizações, transmissões, consumos, manutenções, electrónica… um mundo complicado que tentaremos simplificar.

Tipos de Cascos:

Duma forma muito simples e sem entrar em pormenores tecnicamente mais profundos, os cascos podem caracterizar-se quanto a:

  • Tipo de deslocamento na água
  • Formato do casco.
Quanto ao tipo de deslocamento na água, podem considerar-se:

  • Cascos planantes, os que após arranque se deslocam planando sobre a água.
  • Cascos de deslizamento, os que deslizam afastando a água cuja parte do barco mergulhada empurra.
  • Deveremos ainda ter em conta os semi-planantes e de semi-deslizamento, com características intermédias das duas primeiras definições, sendo que o semi-planante, por vezes poderá andar muito perto do planante e o de semi-deslizamento, mantendo as características do casco, poderá conseguir velocidades ligeiramente superiores às do puro deslizador.
Para a caracterização seguinte, consideremos as figuras abaixo!



Quanto a formatos de cascos, temos:

  • Cascos planos ou com um V muito leve (fig. 1), principalmente utilizados em planos de águas calmas (barragens, rios…) e de características francamente planantes, rápidos e sem necessitarem de grandes motorizações.
  • Cascos em V profundo ou muito acentuado (fig. 2), ideais para mar aberto e necessitando de motorizações potentes para suportarem as suas características planantes ou semi-planantes e as velocidades que podem atingir.
  • Cascos arredondados (fig. 3), os deslizadores por natureza, sendo que  as altas motorizações só se justificarão no caso de traineiras ou barcos de trabalho normalmente transportadores de grandes cargas a velocidades reduzidas comparativamente aos outros formatos.
  • Multi-cascos, também denominados por catamarans ou trimarans (fig. 4), dependendo de possuírem 2 ou 3 cascos ligados entre si, sendo que no primeiro caso, pela oposição dos ângulos entre os cascos separados e iguais (catamarans), se poderão considerar planantes. Estes barcos são normalmente motorizados com um motor em cada casco, não necessitando de motorizações altas para atingirem velocidades significativas. Os trimarans são característicos normalmente em veleiros com um motor central, sendo que os cascos laterais têm dimensões diferentes do casco central (a imagem só dá uma ideia).

Que tipos de motores e transmissões para os cascos com deslocamentos e formatos diversos que mais nos interessam?

Vejamos as figuras seguintes:



As figuras acima representam os três tipos de motorização / transmissão mais usuais, podendo cada uma delas equipar qualquer um dos cascos referidos. Quem não viu já um bote com casco nitidamente de deslizamento ser propulsionado por um motor fora de borda (fig. A) de baixa potência ou um casco planante ou semi-planante ser propulsionado por um motor dentro de borda com transmissão por linha de veio (fig. C) que por sua vez é o mais usual em cascos de deslizamento? O mesmo já não se verifica com os motores dentro de borda com transmissão por coluna (fig. B), cuja utilização é essencialmente utilizada em cascos planantes ou, em alguns casos, semi-planantes.

Identificados minimamente os tipos de cascos e motorizações / transmissões, importa desenvolver algum raciocínio sobre as relações barco, motorização / transmissão, custos e consumos, considerando estes quatro factores como variáveis interdependentes.

Consideremos em primeiro lugar os quatro factores que parecem ser mais influentes quanto à decisão sobre a escolha/aquisição da embarcação que podemos ter, isto porque, aquela que queremos será sempre maior e melhor que a conseguida.

  • Fim a que se destina… Pesca!
  • Preço inicial do conjunto… Dependente da carteira de cada um ou de algum sacrifício superior, por amor à pesca.
  • Consumos… Compramos um barco novo ou usado, em conta, mas com uma motorização que nos obriga a andar com a bomba de combustível a reboque… E depois?
  • Custos de manutenção… Será que conseguimos suportar as manutenções anuais, os pequenos arranjos, as vistorias, os licenciamentos, os impostos…?

Reflectindo sobre os factores referidos, pode dizer-se que qualquer barco pequeno, com uma motorização mínima, permite pescar!
No entanto, num barco para a pesca e considerando a nossa evolução enquanto pescadores de embarcada, procuraremos certamente espaço para toda a tralha que necessitamos e para o desenrolar da acção de pesca, assim como, condições de segurança do casco e fiabilidade do motor, adequadas às características da zona onde queremos pescar. Estes serão os principais requisitos se o dinheiro disponível só der para pescar no estuário com um bote aberto de madeira ou fibra, para aí com uns 4 metros de comprimento e com um motor fora de borda, a 2 tempos, com uns 5 HP.
Olhamos para a bolsa e, reparando que afinal dá para mais, começamos a procurar mais velocidade, para as mudanças de pesqueiros; mais conforto, para a acção de pesca; mais comprimento e boca (largura máxima), para irmos mais longe; uma cabine, para abrigar do vento; uma caminha e uma casa de banho, para dormir e tal…; extras, para a pesca grossa, e… Em algum momento deste percurso, em que vamos percebendo o que nos é minimamente necessário versus a enormidade de oferta, o nosso olhar depara com um conjunto barco / motor com um preço ajustado.

O momento de pormenorizar chegou!

Saber o que consome o conjunto eleito… Precisa-se!

Para tal importa que continuemos na nossa linha de raciocínio, em termos genéricos, tendo em conta o seguinte:

  • Qualquer motor consome e desgasta-se tanto mais quanto maior for a rotação em que normalmente trabalhar.
  • Os factores que condicionam o trabalho contínuo em alta ou máxima rotação estão relacionados com: motorização abaixo da adequada para o barco e carga que normalmente transporte (sub-motorização) e/ou passo de hélice inadequado ao conjunto.
Para percebermos as razões, o ideal, será experimentar o barco com a carga média que normalmente transportará (pessoas, material, combustível e palamenta ou equivalente) e testar duas situações:

  • Dependendo do tipo de casco, ele atinge a velocidade de cruzeiro (velocidade em que se consegue a melhor relação entre mínimo tempo de navegação/máxima distância percorrida/mínimo gasto de combustível), no máximo, a 200 RPM antes das RPM máximas indicadas pelo fabricante ou de preferência menos.
  • Em aceleração máxima, atinge, sem ultrapassar, as RPM máximas indicadas pelo fabricante para o motor em teste.

Caso os testes descritos sejam positivos, saberemos através do primeiro que, com a carga que normalmente vamos transportar no nosso barco, ele atingirá uma velocidade de cruzeiro em rotação abaixo da máxima com alguma margem; e, através do segundo, que o peso, número de pás e passo do hélice, no seu conjunto, possibilitam explorar a melhor performance barco/motor, atendendo a que, atingem em aceleração máxima as RPM também máximas, indicadas pelo fabricante, podendo assim assegurar a adequação de potências também durante o funcionamento em RPM intermédias.
A conjugação destes resultados, sendo positivos, costuma assegurar, à partida, o melhor consumo e menor desgaste do conjunto. Não estão aqui consideradas as influências de ajudas à navegação do conjunto, como sejam o TRIM e os FLAPS, mas isso dará certamente para um outro artigo.

Considerando a análise anterior, lancemos um olhar aos consumos, mesmo parecendo óptimos!

Os consumos, em conjuntos barco/motor, costumam ser aferidos em litros/hora ou litros/milha náutica. Isto pode levar-nos a um outro raciocínio relacionado com o combustível que vamos gastar quando navegarmos com o nosso conjunto.

Suponhamos que temos um barco de casco semi-planante com um motor diesel de 200 HP e um amigo nosso tem um barco de casco de deslizamento, com um motor precisamente igual… Potência, marca, e ambos montados com transmissão por linha de veio. O tempo está bom e decidimos ir fazer o que gostamos no mesmo pesqueiro. Ambos nos deslocamos à velocidade de cruzeiro, e com os motores a trabalhar à mesma rotação, sendo que a nossa, devido ao tipo de casco, é de 18 nós (Nó ≈ Milha náutica/hora) e a dele de 12 nós, por o casco de deslizamento ser mais lento e pesado.

Sem que necessitemos de fazer contas, parece fácil concluir que embora, salvo pequenas variações, gastemos a mesma quantidade de combustível por hora, atendendo a que vamos a velocidade constante e com os motores iguais a trabalhar à mesma RPM, percorreremos o espaço em 2/3 do tempo dele. Podendo dizer-se que, gastando ambos os barcos o mesmo número de litros/hora, o nosso gastará menos 1/3 por milha que o dele, em condições de mar calmo.
Em caso de mar agreste, os consumos poderão aproximar-se, porque ele terá mais hipóteses, devido ao tipo de casco, em manter a mesma velocidade de cruzeiro e nós talvez nem tanto, embora também não trabalhemos em rotação tão alta, mas aumentando o tempo de navegação para o mesmo percurso, donde decorrerá a referida aproximação de consumos.
Os custos relacionados com consumos, considerando o raciocínio anterior poderão funcionar comparativamente, também, entre barcos que utilizem gasolina ou diesel, pela mesma razão; ou seja, embora a gasolina seja mais cara, se o barco a gasolina (normalmente com custo inicial mais baixo) for mais rápido que outro a diesel poderá, mesmo assim, ficar menos dispendioso ou com custos idênticos atendendo ao menor tempo de trabalho para os mesmos percursos.

Considerados os raciocínios quanto a consumos, numa análise simplista ao mercado de motores, duma forma muito geral, considerando potências iguais e para que possam comparar, deixamos algumas características de motores.

Preço inicial de aquisição de motores:

  • Fora de Borda a 2 tempos, o mais barato.
  • Diesel, o mais caro.
  • Fora de Borda a 4 tempos e Dentro de Borda também a 4 tempos, com coluna, a gasolina; preços intermédios, considerando os anteriores.
Duração/Desgaste:

  • Fora de Borda a 2 tempos, o menos durável.
  • Diesel, o mais durável.
  • Fora de Borda a 4 tempos e Dentro de Borda a gasolina, durações intermédias, embora com o actual avanço tecnológico, já se sinta uma aproximação aos Dentro de Borda, com linhas de veio ou coluna, a Diesel.
Custos de manutenção, por ordem crescente:

  • Foras de Borda a 4 tempos e 2 tempos.
  • Diesel com transmissão por linha de veio.
  • Dentro de Borda com transmissão por coluna, a diesel e a gasolina. Neste caso é a substituição dos foles e vedantes necessários a manter estanque o interior do barco, que encarecem bastante as manutenções. Também por estarem montados muito encostados ao fundo do barco, estes motores costumam sofrer mais com as humidades salgadas que por lá se instalam.
Importa referir que as características apontadas, boas ou menos boas, dependem muito do tratamento e cuidados que cada proprietário prestar ao seu conjunto.

Passemos então para a manutenção… Que custos para o nosso barco?

Para começar a somar terá o futuro comprador de se questionar sobre:

  • Tenho onde guardar o barco ou terei de o colocar na área do meu clube náutico ou num armazém de recolhas? Quanto custa?
  • Vou colocar na marina ou porto de recreio, qual o melhor preço?
  • Se o vou rebocar para um local meu e não tenho bola de reboque, quanto custa colocar uma?
  • Ainda no caso anterior, onde o desço e subo e a que preço?
  • Tenho o barco sempre dentro de água... qual o preço das manutenções anuais como a pintura de casco, revisão do motor, retirada e colocação na água, valor a pagar por estacionamento da área de serviço; no momento da manutenção… faço-a eu ou pago a quem faça?
  • Em que classe registo o meu barco? Quanto custa a palamenta para essa classe? Que ferros vou comprar e a que preço? E as vistorias? Vem tudo incluído no preço inicial ou pago eu? E mais tarde, quando for eu a tratar disso? Não será melhor ver o que é necessário e os respectivos preços?
  • Atendendo à pesca que faço, que electrónica vou colocar e qual o preço? Incluirá a montagem ou tenho de pagar à parte?
  • E o imposto municipal sobre veículos? Mais essa…
Caso seja um barco usado, deveremos questionar-nos da mesma forma e ver o que traz, quando foi comprado, quando foi feito ou legalizado e as condições em que se encontram todos os materiais necessários, incluindo o próprio conjunto, tentando perceber que custos ainda teremos por nossa conta.
Neste processo (compra de usado) importa ter ainda alguns cuidados:

Documentação e palamenta:

- Verificar se tudo está em ordem, assim como as datas das próximas vistorias / reposições, face à classe em que o barco está legalizado. Quanto mais próximas, mais cedo teremos dinheiro para gastar.
- Solicitar o livro do barco, caso exista, pois neste livro tem todas as indicações sobre os cuidados a ter, assim como, desenho do circuito eléctrico, diâmetros e passos de hélice, no caso das transmissões por linha de veios e outras indicações que certamente nos virão a fazer falta.

Circuito eléctrico:

- Verificar todas as inserções de cabos eléctricos, tentando descobrir verdetes e vendo se estão protegidas por vaselina ou silicone. Isto, incluíndo os cabos da bateria e as suas ligações aos bornes.
- Verificar o nível de água das baterias.
- Verificar o funcionamento do equipamento electrónico (rádio VHF, sonda, GPS, radar...) se tal equipamento existir.

Nota: caso se verifique que as ligações estão desprotegidas, com verdete e que o nível de água da bateria está baixo, aumentam significativamente as hipóteses de termos de gastar dinheiro em melhoramentos ou reparações do circuito, assim como, em baterias novas.

Outros circuitos:

- Verificar o funcionamento de bombas de água, considerando as obrigatórias por lei e outras de serventia que o barco tenha, como por exemplo: circuito de água doce, viveiro de isca viva, água salgada...
- Caso o barco tenha casa de banho mecânica ou eléctrica, verificar se funciona sem entradas de água ou, se tiver depósito de "águas negras", observar também o seu correcto funcionamento.
- Relativamente ao circuito de combustível, verificar: os pré-filtros e se possível os filtros. Se os pré-filtros estiverem sujos, importa verificar os depósitos de combustível, principalmente se o combustível for diesel, atendendo a que este cria rapidamente impurezas que poderão entupir o circuito e fazer parar o barco.
No caso de depósitos com gasóleo, deve questionar o proprietário sobre anteriores limpezas do depósito e saber quando foi a última.
Por (má) experiência própria, posso afirmar que se deve "visitar" o interior dos depósitos com diesel, pelo menos de dois em dois anos.
Não será um problema que invalide ou interfira significativamente na negociação mas, no caso do gasóleo, se não conseguir ver o interior do depósito, assim que o barco for para a sua mão, deve de imediato abrir uma "janela" no depósito, verificá-lo e limpá-lo, sob pena de, mais cedo ou mais tarde, ficar no mar sem alimentação do motor.

Casco:

- Observar o estado geral do casco. Nesta primeira observação, deverá ter-se em conta se o barco está parqueado em zona coberta ou a nado. Numa ou noutra das situações consegue-se perceber, numa primeira apreciação, os cuidados que o actual dono tem tido com a embarcação, analisando para tal vários tipo de sujidades: zonas com salitre agarrado, verdetes de algas ao longo da zona do casco que se encontra fora de água (obras mortas), ferrugens por aqui e por ali, nódoas de longa duração, enfim... aquele ar desmazelado; estas, as primeiras notas que o podem colocar de sobreaviso.
- Tirar informações do barco na zona onde é conhecido, tentando perceber se foi bem tratado, se há muito não é utilizado e quem é o mecânico que normalmente trata dele, com quem se deve tentar chegar à fala lendo, nas entrelinhas se necessário, as respostas dadas.
- Observar o casco fora de água, procurando falhas de gel, estaladelas e outras imperfeições.
- Caso o barco esteja habitualmente a nado, exigir a subida e limpeza do casco, quando não se consiga ver na totalidade, com o intuito de verificar toda a extensão com calma, atenção e tempo, procurando imperfeições, desníveis e outros defeitos na pintura. Importa saber quando foi feita a última aplicação, assim como a referência das tintas utilizadas, caso pensemos avançar com o negócio, no sentido de as podermos utilizar quando a manutenção estiver a nosso cargo. Neste processo e no caso de o barco estar continuamente parqueado a nado, considerar a possibilidade de ter de aplicar o tratamento total de pintura, caso tal não tenha sido feito entre os últimos 5 a 10 anos.
- Observar o interior do casco, olhando todos os compartimentos e zonas de arrumos, procurando marcas de entradas de água. Humidades, podem ser normais; entradas de água, nunca são. Excepto nos compartimentos do interior do casco e por baixo dos motores dentro de borda, onde por vezes tem entradas de água da chuva ou lavagem, portanto águas doces. Prove a água... se for salgada, vai ter de perceber como entrou, se é hábito que tal aconteça, em que situações e se tal se poderá resolver facilmente, através de cuidados de utilização ou de alguma pequena reparação.

Motor fora de borda:

- Um motor fora de borda num parqueamento ao ar livre, em terra ou a nado, pode estar com mau aspecto exterior mas por dentro tem de "brilhar", não ter escorridos ou depósitos de óleos e estar protegido com massas e lubrificantes protectores, assim como os cabos de direcção. Direcções muito pesadas, são normalmente sinal de montagem deficiente dos cabos de direcção, inadequação destes face ao conjunto ou falência próxima dos mesmos.
- Verifique o óleo, a valvolina da caixa e os estado dos zincos e do hélice.

Motor interior com transmissão por linha de veios:

- Ir preparado para se sujar, colocar-se dentro do compartimento do motor e observar este em toda a volta, por cima e por baixo, passando a mão onde não vê, na procura de "escorridos" de óleos, águas, combustível; actuais ou antigos, perguntando ao proprietário os porquês da sua existência, de modo a poder comentá-los e entendê-los.
- Sujidades várias no motor e/ou no seu compartimento, indicam normalmente ausência de verificações regulares e consequente despreocupação do proprietário.
- Ver níveis de água do radiador, óleo do motor, valvolina da caixa de velocidades e óleo da caixa de direcção, caso esta seja hidráulica, assim como os cabos da mesma e a facilidade em movê-la. Caso os níveis estejam baixos, fica mais uma indicação sobre o tratamento a que possivelmente o barco tem sido sujeito.
- Observar a zona onde o veio encontra a sua vedação ao interior do barco - Pocim - e verificar se está bem vedado, principalmente, depois de terminar teste (obrigatório) de navegação.

Motor interior com transmissão por coluna ou Z-Drive:

- As mesmas análises que se aconselharam para o anterior, excepto no que respeita ao pocim que neste caso não existe.
- Observar o estado dos foles da coluna, tentando perceber se a borracha  está ressequida, sendo neste caso essencial saber quando foram trocados pela última vez.
- Verificar a vedação da zona onde a coluna está aplicada no casco.

Outros cuidados obrigatórios:

Zincos e Hélices:

- Verificar os zincos que, no caso dos motores fora de borda e nos dentro de borda com coluna, estão à vista e no caso dos dentro de borda com transmissão por linha de veio obrigam, na maioria das situações, a tirar o barco da água para os ver. Se estiverem comidos, é bom sinal porque estão a actuar, no entanto se estiverem muito gastos terão de ser substituídos, aumentando os encargos de quem compra.
- Ainda sobre os zincos, muitos motores dentro de borda, dependendo da marca e referência, têm um zinco no interior do motor que deve ser verificado, pois caso tenha desaparecido por completo, pode indicar que existam partes essenciais do motor que possam estar corroídas.
- Verificar o estado dos hélices que também, no caso dos motores com transmissão por linha de veio, obrigam a subir o barco para verificação, o que neste caso é extremamente importante atendendo ao preço destes hélices, normalmente em bronze e de valor muito superior aos dos outros tipos de transmissão. Portanto se o hélice em bronze mostrar falhas ou corrosão do tipo de forçar à mão e partir, melhor mesmo é ajustar o valor da negociação tendo isso em conta.

- Navegar com o barco, tentando perceber se corresponde ao referido no que respeita a velocidade de cruzeiro, de modo a entender se esta será a mais adequada, face ao conjunto barco / motor, para o que pretendemos da embarcação. Evitar adquirir embarcações sub-motorizadas pois tenderão sempre a  diminuir a eficácia do conjunto; em alguns casos, a navegações deficientes; a gastar mais combustível e a diminuir a duração do motor.

Muito importante: leve um mecânico da sua confiança, tanto para analisar o conjunto em seco, quanto em navegação. Apontem o que vos pareceu, observem tudo, coloquem as questões que acharem pertinentes ao proprietário e comentem depois, entre vós, sem a presença dele. A conversa tenderá a ser mais franca e liberta de interrupções de quem, tendencialmente, tudo quererá justificar.

Importa ainda referir que quem vai procurar um barco usado, não pode esperar por um novo, pode sim, evitar adquirir uma dor de cabeça ou várias, caso o barco, mesmo barato, esteja em mau estado, ou antes, conseguir uma embarcação a bom preço e em boas condições, salvo um ou outro problema de fácil resolução.

Considerando tudo o que foi por aqui desenvolvido, temos agora uma base para começar a procurar e, eventualmente, tomar decisões.

No mercado nacional e nas embarcações que utilizamos na pesca lúdica, as relações barcos/motores mais adoptadas e possivelmente testadas, parecem ser as seguintes:

  • Barcos com características planantes ou semi-planantes até 6/6,5 metros, são normalmente montados com motores fora de borda a 2 ou 4 tempos, a gasolina.
  • Nos barcos maiores que 6,5 metros, com características semi-planantes ou até planantes, recorre-se normalmente a montagens de motores dentro de borda, normalmente a diesel, com transmissão por coluna ou linha de veio. Hoje em dia, com a evolução dos fora de borda a 4 tempos, a gasolina, já se vêem por cá barcos de 7,5 metros e até algo maiores equipados com estes, podendo tal opção não significar  um aumento da despesa, atendendo à diminuta manutenção destes motores, significativamente inferior às dos motores dentro de borda.
  • Nos cascos de deslizamento, sem dúvida que a motorização mais usual, para não dizer única, é mesmo o motor dentro de borda com transmissão por linha de veio. Excepção feita a botes entre os 4 e 6 metros ou até um pouco mais, onde se montam motores fora de borda de baixa potência.
Companheiros... é procurar, verificar e decidir!

Espera-se que o presente artigo permita, mais que não seja, dar aos leitores algumas ferramentas para uma primeira abordagem à aquisição deste meio de locomoção com o qual a nossa pesca ganhará outro sentido.

Muito fica por dizer e analisar no que a barcos e motores diz respeito. Em caso de dúvidas ou incorrecções, estou por aqui e o que não souber pergunto ou indico quem possa responder.

Revisão, melhoramento e actualização do artigo: "Barcos: o nosso meio de locomoção", escrito e publicado por Ernesto Lima, em 13 de Junho de 2009, no site Porto de Abrigo  actualmente desactivado.

10 comentários:

ntyper disse...

Boas amigo ernesto sem sombras de dúvidas outro exelente artigo,muito detalhado e definitivamente bem elaborado,só mesmo alguém com muito conheçimento tem capacidade para o fazer,realmente tem ai todas as condiçionantes e variantes para a mais certa opção da aquisição para uma embarcação,os meus parabéns por mais um exelente post,um grande abraço.

Ernesto Lima disse...

Viva Nuno!

Grato pelo comentário.

Muitos anos a procurar e a tentar perceber... deram nisto!

Abraço

Anónimo disse...

Espectáculo!! Obrigado Filipe

António Vinha disse...

Viva Ernesto
- Magnifico artigo.
Permite-me o reparo de um leigo... na menutenção não falta falar na "limpeza" do depósito de combustivel?

Ernesto Lima disse...

Viva Tózé!

Grato pelo comentário.

Um leigo é normalmente alguém que nada percebe de um determinado assunto, mas se ler sobre e quiser aprender, já assim não deve ser encarado, muito menos, se fala depois de ler com atenção e em cima de experiência que viveu. Ambas estas condições para não seres considerado um completo leigo, estão observadas... isto por teres detectado que faltava alguma coisa baseado numa experiência que viveste ao vivo e a cores.
Melhor ainda quando o comentário se revela fonte de melhoria para o que está escrito.

Vou dar um jeito nisso no corpo do artigo.

Obrigado

Abraço

Anónimo disse...

Viva Ernesto,

Mais um excelente artigo (mesmo já sendo conhecido lá do Porto), que ajuda bastante quem está a pensar nestas coisas. Nota-se, ao longe, que já te fartaste de procurar ao longa da vida. Obrigado por este "manual".
Abraço
João Carlos Silva

ZEN disse...

Parabéns Ernesto. Mas que ABC de excelência. Aproveito para lhe perguntar se tem em mente quanto custa pintar um barco e se me pode indicar alguém onde posso mandar pintar. Grande abraço

Ernesto Lima disse...

Boa tarde Zen.

Grato pelo comentário.

Sobre as questões que me coloca, importa, para uma resposta mais adequada, que me dê mais alguma informação...

Que dimensões tem o barco?

Que tipo de pintura? Pintura de casco para ficar na água? Pintura de todo o casco?

Em caso de pintura para protecção na água, quer tirar a tinta antiga e pintar de raiz, ou quer só aplicar anti vegetativo, em manutenção anual?
Finalmente... onde tem o barco? Se for em Sines ou Setúbal, tenho alguma facilidade em lhe indicar alguém, se não, terei de me informar junto de algum contacto.

Fico a aguardar a informação solicitada

Cumprimentos.

rfsimoes disse...

Caríssimo Sr. Ernesto

Estou a ponderar adquirir uma embarcação no estrangeiro (dentro do espaço económico europeu) e gostaria de saber o que é necessário para a registar em Portugal bem como quais taxas terei de pagar.

Cumprimentos

Ernesto Lima disse...

Boa tarde rfsimoes

Desculpe só agora responder, mas estive fora das lides da net uns dias.

Neste momento não sei muito bem como funciona, mas o meu barco, comprei-o novo, em Espanha, e até o IVA foi pago lá. Depois, é trazer a embarcação, marcar vistoria e registar na Capitania que quiser, pelos preços normais de registo.

Terá certamente de trazer o documento de compra, o livro com as características do barco e o livrete, caso seja uma compra de usado.

Consulte na net, os pavilhões Belga e Holandês, pois poderá ter vantagens de registo nesses países. Por enquanto é possível e a curto/médio prazo tem vantagens económicas.

Para todos os efeitos, aconselho vivamente uma visita à capitania da sua zona, ou da zona onde quer colocar o barco, e informar-se melhor por lá.

Para todos os efeitos, desde que o barco seja adquirido no espaço económico europeu, ao contrário dos carros, acho que não tem taxas para pagar, para além das referidas a vistorias e registo.

Cumprimentos

Ernesto