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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Material, resultados..., complicamos, simplificamos, ou nem por isso?


O Porto de Recreio de Sines, à popa, o motor a aquecer antes de acelerar em direcção ao pesqueiro previamente escolhido, e a minha consciência a moer-me sobre a escrita no blogue, os amigos, ou nem tanto, que há muito não me ouvem..., mas porque raio, logo agora que vou pescar, me fui lembrar disto?
Talvez porque se sente a falta do que se gosta, talvez porque se sentem algumas obrigações, talvez até, neste momento de descontracção, só meu, a escrita tenha sido um complemento em falta para que o estado de graça fosse completo!?

Não adianta, nem se justifica, começar a desfiar razões sobre tanto tempo sem escrever e, muito menos, desculpas. Tinha de vos contar a minha vida toda e não é para isso que me visitam. Portanto, vamos mas é falar de pesca.

O tema que escolhi, sendo importante, em termos de escrita e até de discussão presencial, não me é grato. Escolhi-o talvez por acontecimentos e conversas recentes, ou até por penitência.
Por tal, vou tentar ser breve e nem pensem que vou fazer uma entrada como aquela que mais se lê neste blogue - Material de Pesca..., uma dor de cabeça - e que, em termos de conceitos e processos, continua, na minha opinião, perfeitamente actual.

O principal objectivo desta entrada é tentar poupar passos a pescadores menos avisados, reflectindo sobre a influência do material nos nossos sucessos ou insucessos, face a outros factores que poderão ser tão mais importantes, mas cuja discussão me parece menos usual, podendo as mais habituais trocas de ideias sobre materiais em uso, de algum modo, escamotearem variáveis tão importantes como a escolha do pesqueiro, o fundeio correcto, as iscas e formas de iscar, ou, quanto a mim, bem mais influentes, os comportamentos dos pescadores em acção de pesca.

As reflexões vão iniciar-se pela escolha dos fios - multifilares e monofilares - essencialmente no que respeita a espessuras e qualidades a utilizar para determinadas técnicas de pesca embarcada, e também nos anzóis - tipos e tamanhos - situando-me essencialmente naquela que mais pratico: no mar, ao fundo, em embarcação fundeada.

Antes de avançar, importa referir que fios e anzóis participarão de uma montagem que, por sua vez, se aplicará num carreto e numa cana, ou pesca de mão, com uma chumbada no fim, formando o que defino como "Conjunto de Pesca"(CP). Por tal, não se poderá falar de fios e anzóis, sem abordar algumas características dos restantes materiais que complementam o conjunto, não esquecendo o factor mais importante: o homem, ou mulher, que vai usá-lo, suas preferências e comportamentos em acção de pesca..., complicado!?

Certo é que..., para podermos simplificar, teremos primeiro que complicar, se não muito, pelo menos um pouco.

A qualidade de um fio, seja ele mono ou multifilar, ou de qualquer anzol, deverá sempre ser a melhor possível face aos preços que cada um pode ou acha que deve pagar, exceptuando talvez os monos usados para base de enchimento de carretos, ou aqueles para servirem para fiel da chumbada.

No que respeita às escolhas de espessuras / resistências de fios, e dos tamanhos e formatos de anzóis, vejamos alguns fundamentos possíveis que, conjugados, proporcionem o equilíbrio dum CP, em acção, e minimizem as hipóteses de perder o peixe da vida.

Fundamentos relativos a escolhas de qualidades, espessuras / resistências de fios:

Os fios a adquirir deverão, quanto a elasticidade / rigidez, adequar-se ao CP, com o objectivo de cumprirem, o melhor possível, quatro funções:
- apresentar bem a isca;
- sentir;
- ferrar;
- lutar com o peixe até que o coloquemos no poço do barco.

Influência da elasticidade e da rigidez dos materiais no desempenho das funções do CP:

CP com mais elasticidade:
- tende a apresentar melhor a isca, tendo em conta que esta ficará sujeita a menos movimentos bruscos não controlados, tanto no que respeita aos movimentos de fundo que o mar sempre imprime, quanto aos do próprio barco, quando sujeito a vagas largas e altas, ou de cachão de vento;
- assegura uma luta mais equilibrada e segura com qualquer tipo de peixe, nomeadamente com exemplares de maior porte;
- diminui a capacidade de sentir os toques do peixe;
- diminui a capacidade de ferragem, ao aumentar o esforço para a efectuar, tendo em conta que a cana terá de ser elevada a altura superior, e por vezes, até coadjuvada com algum enrolamento prévio do carreto, para contrapor a elasticidade do fio;
- permite trabalhar com a embraiagem do carreto mais fechada, atendendo a que a elasticidade do conjunto colmatará melhor possíveis falhas do material, do pescador, ou de ambos, principalmente no que se refere a lutas com exemplares de maior porte.

CP mais rígido:
- nas mesmas condições de mar e vento, e pelas razões opostas à elasticidade, tende a não apresentar a isca tão bem, a dificultar a luta com um exemplar de maior porte, mas sem dúvida que sentirá muito melhor e ferrará com maior rapidez, e menos esforço, que um conjunto mais elástico. Verdade também que, no caso de determinados peixes, em determinados dias, e condições de mar e vento, embora este tipo de CP possa sentir e ferrar melhor, pode também acontecer a um pescador menos avisado que, ao sentir o primeiro toque, tente ferrar demasiado rápido e tire continuamente a isca da boca do peixe.
- Em oposição a um conjunto mais elástico, obrigará obviamente a diminuir a pressão da embraiagem do carreto.

Porque de fios se trata, relativamente à elasticidade ou rigidez destes, tenhamos ainda em conta outras reflexões:

- Um maior comprimento de um mesmo fio, fará com se sinta mais a sua elasticidade, mesmo que seja um fio rijo.
- Um menor comprimento de um mesmo fio, fará com que se sinta mais a sua rigidez, mesmo que seja um fio macio.
- Dois cortes de comprimentos iguais, de um determinado fio, da mesma marca, mas em diâmetros diferentes, será mais elástico o que tiver menor diâmetro.
- Em luta com um peixe, e com nós iguais, um maior comprimento de um determinado fio, tenderá a partir mais tarde que um menor comprimento do mesmo fio, devido ao aumento de tempo  necessário para que atinja o limite da sua elasticidade.

Importa também referir que as reflexões acima assumem a sua notoriedade, essencialmente nos monofilamentos, em nylon ou fluorocarbono, sendo muito menos perceptíveis nos multifilares.

Considerando a conversa desfiada, parece-me  importante que as escolhas dos materiais que vão compor os nossos conjuntos de pesca se direccionem na procura do equilíbrio entre elasticidade e rigidez, face às nossas opções de pesca. Para tal teremos em conta, não só os fios, seus comprimentos, diâmetros e potências, assim como as canas, e a forma como regulamos a embraiagem do carreto.

Um CP, para"diversos", ou maiores exemplares, ao fundo, em embarcação fundeada, é, hoje em dia,  normalmente composto pelos seguintes elementos:

Cana: mais rija, ou menos rija, com acção de ponteira, ou acção progressiva, telescópicas ou de encaixe, com comprimentos variando normalmente entre os 2,70 e os 4,00m.

Carreto: adequado ao que se pretende capturar, às profundidades em que se pretende pescar e à frequência com que se pesca, tendo em conta o dispêndio monetário a efectuar.
A regulação da embraiagem deverá ter em conta:
- a elasticidade / rigidez do CP;
- a potência do ponto de ligação mais fraco;
- os objectivos de captura, em termos dos tamanhos dos exemplares;
- as preferências do pescador;

Os fios a aplicar no carreto:

Base de enchimento: monofilamento, em nylon, que, iniciando o enchimento da bobina, tem com única função criar uma base segura de aplicação do fio principal, assim como, colmatar diferenças entre a capacidade da bobina e a quantidade de fio principal que temos disponível, sem emendas. Este primeiro fio não vai participar na acção de pesca, pelo que pode ser de fraca qualidade. Quanto ao diâmetro poderá ser maior que os que a seguir se aplicam, tendo em conta, algum aumento de potência face à rara possibilidade de um dia, um determinado peixe levar tanta linha que lá possa chegar.

Fio principal: multifilar entrançado, com a melhor qualidade possível e espessura / resistência adequadas, que será amarrado à ponta da base de enchimento e encherá, quase na totalidade, a bobina do carreto, assegurando a rigidez necessária às funções a que se destina.
Pela sua rigidez, este tipo de fio assegura o melhor desempenho no que respeita às funções sentir e ferrar, em oposição às funções apresentação da isca e luta.

Ponteira de amortecimento ou Chicote: Corte de monofilamento de boa qualidade, com diâmetro e potência suficientes que lhe permitam lutar com os peixes que procuramos.
Um comprimento adequado à elasticidade que pretendermos ter, face ao equilíbrio do CP, colmatará a rigidez do multifilar e contribuirá para uma melhor apresentação de isca e um bom desempenho em luta com um exemplar de maior porte. Tudo isto, colocando minimamente em causa as funções sentir e ferrar.

Madre da baixada: Corte de monofilamento de boa qualidade, de potência igual, ou inferior, à do fio da ponteira de amortecimento, com comprimento adequado ao conjunto de estralhos que vai levar, tendo em conta os comprimentos e intervalos necessários para que os anzóis de baixo não cheguem às inserções dos estralhos de cima, ou ao elemento de ligação com a ponteira de amortecimento.

Estralhos: Cortes de fio de boa qualidade, de potência igual ou inferior ao da madre da baixada, com comprimentos que se entendam serem os mais adequados.

Tendo por base o acima descrito, as técnicas que pratica, os exemplares que procura, a frequência com que pesca, as condições variadas de cada jornada e o investimento a que se dispuser, entre outros factores, um determinado pescador poderá então optar de várias formas:
- adquire e prepara um conjunto mais rígido;
- adquire e prepara um conjunto mais elástico;
- adquire e prepara um conjunto intermédio;
- adquire e prepara dois conjuntos, um, mais elástico, e outro, mais rígido;
- adquire e prepara conjuntos diversos, tantos, quantas os que achar necessários para cobrir, com eficácia, as variáveis descritas;

Independentemente do que decidirmos adquirir e preparar, qualquer conjunto pode ser adaptado, independentemente de alguns elementos fundamentais, mais ou menos rijos. Isto é:

- podemos colmatar a rigidez duma cana, usando tipos e comprimentos de monofilamentos que tornem o conjunto mais macio, ou seja: não esquecendo a potência necessária do monofilamento, se, por exemplo, aumentarmos o comprimento da ponteira de amortecimento, conseguimos amaciar o CP. Acção contrária, pelas mesmas razões, aumentará a rigidez de um conjunto elástico.

Se formos atrás de modas e comprarmos continuamente o que está na berra, todos estes factores tendem a complicar as aquisições e preparações de conjuntos. Podemos no entanto facilitar..., se entendermos adaptar o que já temos, recorrendo a materiais actuais, bem escolhidos, que pelas suas características, poderão resolver as nossa necessidades.
Não critico nenhuma das opções - complicar ou simplificar - vou limitar-me a falar das minhas, com base nas observações efectuadas e resultados obtidos.

Os anzóis..., tamanhos e características:

Se falar de fios é complicado, quando passamos aos anzóis, nem sei que diga.

A escolha dos anzóis dependerá sempre, entre outros possíveis, dos seguintes factores:

- Qualidade superior, procurando o menor peso para o mesmo efeito.
- Adequação aos exemplares que se procuram.
- Adequação à montagem em uso. Em montagens de anzol único num estralho, ou líder, o anzol tenderá a ser maior do que se montarmos dois anzóis em tandem no mesmo estralho, ou líder.
- Adequação à técnica em uso. A pescar à chumbadinha, atendendo ao tamanho das iscadas, com um anzol, ou dois, em tandem; anzóis direitos e mais abertos tendem a prestar melhores serviços no caso dos Pargos, quando iscando com sardinha ou cavala. Já no que se refere às Douradas, iscando com caranguejo, anzóis um pouco mais pequenos, tipo chinu tendem a melhorar resultados.
- Adequação às iscas e formatos de iscadas. Ter em conta as reflexões nos pontos anteriores.
- Adequação face à espessura / potência das linhas (estralho ou líder) em uso. Montar um anzol 5/0, ou maior, num estralho 0,30, ou mais fino, não tem grande lógica. Em fios mais grossos e rijos, os nós em anzóis de argola são mais fiáveis.
- Versatilidade face à maioria dos factores acima descritos. Parece difícil, mas existem anzóis no mercado que, pela variedade de tamanhos, formatos e resistências, se adequam a quase todas as situações. Tal permite-nos, eventualmente, reduzir o número de tipos e marcas a adquirir, garantindo a operacionalidade que pretendemos.

Face ao descrito, importa encontrar um equilíbrio entre fios e anzóis quanto a comprimentos e espessuras ou potências, no caso dos fios, e, entre formatos e tamanhos, no caso dos anzóis, não esquecendo a adequação aos conjuntos de pesca escolhidos, e aos nossos objectivos de captura. Depois, temos de pescar e adaptar o nosso comportamento às condições de pesca com que nos depararmos, em determinado dia. Quer isto dizer que:

1. Não existem conjuntos de pesca infalíveis.
2. Desde que tenhamos um conjunto de pesca actual, minimamente aconselhado, quando não capturamos, as razões raramente estarão sediadas no material, antes..., na nossa incapacidade de nos adaptarmos a ele, face às condições do dia; na escolha de pesqueiros; nas rotações que o barco dá, quando fundeado; na escolha das iscas e formatos de iscadas; ou até, na frustração de não sabermos como lidar com situações de insucesso. Por tal, na grande maioria dos casos, não valerá a pena culpar o material e ir à corrida comprar igual ao do fulano que capturou..., melhor será tentar perceber, com o nosso material, como lidar com situações idênticas.
O mesmo sucede em dias que tudo corre bem, capturamos, estamos felizes, tudo funcionou e o material que usámos é o melhor do mundo, ou..., terá unicamente ajudado, num dia em que todos os outros factores estiveram a nosso favor?

Penso que dá para entender que já testei muito material, gastei mais que o necessário e bati muitas vezes com a cabeça na parede, factos que me permitiram as reflexões produzidas, assim como ter, há algum tempo, um conjunto de opções de material, relativamente simples, que adequo, mas pouco altero.

Como fui alterando o material:

Levei o meu tempo a ir contra o que estava mais instituído..., fios finos e anzóis pequenos, mas:

- os peixes que se soltavam, tudo indicava, porque agarravam a isca e os anzóis, mas não se ferravam por falta de tamanho adequado;
- os dias de peixe miúdo que roubava iscas e também não ficava nos anzóis, ainda que pequenos;
- os peixes que se perdiam porque os fios finos, por mais que se trabalhasse a embraigem do carreto, ou partiam por falta de resistência, ou permitiam que o peixe se desferrasse por demasiadas hipóteses que o tempo de luta lhe dava;
- os embrulhos de linha que estralhos mais finos tendiam a provocar. mesmo com sistemas efectivos que tendiam a evitar estas torções;
- a escolha  de iscas maiores, que pediam anzóis de tamanhos acima e consequentemente fios que se lhes adequassem;
- a percepção de que com materiais mais pesados e iscas maiores e diversas, as capturas de peixe maior eram mais regulares e frequentes, mesmo face a outros pescadores a pescarem mais fino. Isto, sem exageros.
- a constatação de que estralhos mais compridos, para além de afastarem as iscas das madres e inserções de estralhos, tendem a acompanhar melhor os movimentos do mar e consequentemente a apresentarem melhor a isca, assim como permitirem que peixes mais desconfiados comam, sem sentirem as prisões iniciais dos iscos;
- a constatação de que mesmo os peixes, na gíria, mais "mafiosos", como sargos, douradas e até os famigerados besugos, caíam tão bem a anzóis e iscadas grandes, e linhas mais grossas, por vezes até melhor, comparativamente a quem decidia montar um conjunto de pesca, todo malandro, "especial besugo", ou o que lhe queiram chamar;
- a constatação de que, na maioria dos casos, a conjugação entre os comportamentos dos pescadores, em acção de pesca, e os posicionamentos no barco, face às condições de mar e vento, mais que os materiais em uso, eram nitidamente as variáveis mais influentes nas capturas...;

... portanto, entre outras observações, tudo o acima referido, coadjuvado pelos resultados que se foram obtendo, levaram a concluir que:

1. A introdução contínua de variáveis, ao nível de novos materiais, sem variações significativas de espessuras ou tamanhos, para além de não permitirem testes efectivos sobre as que se abandonavam, de algum modo escondiam a influência de outras variáveis tão, ou mais importantes.
2. As variáveis mais influentes nas capturas não estavam essencialmente centradas no material em uso.
3. Os fios e anzóis, respectivamente, mais grossos e maiores, com iscas adequadas, melhoraram nitidamente a qualidade de capturas.

Num exemplo extremo de adaptação, que, de algum modo, sempre tenho presente, deixo-vos saber o seguinte:

Os pescadores profissionais de Sines, de há muitos anos, e até aos dias de hoje, pescam às douradas nesta época, fundeados, com engodo de caranguejo, linhas de mão, em monofilamento de 0,80, madre de 0,60, um anzol em cima para peixe menor e, com um estralho de baixo, bem comprido, em 0,50/0,60, onde aplicam um anzol sempre maior que 4/0, iscado com caranguejo. E meus amigos, capturam douradas à séria, ao fundo e a meia água, usando chumbadas que, em muitos casos, chegam às 400g.

O material que usam é o mais adequado? Certamente que sim, face às adaptações aos seus hábitos, ao número de pescadores a bordo (1 a 2), aos barcos que usam, e à forma como escolhem, fundeiam e trabalham os pesqueiros eleitos.

Alguns de vós poderão questionar-se:

Olha o gajo..., então se aquela forma de pescar é assim tão produtiva, porque é que ele não faz o mesmo?

A quem tais dúvidas assolem, passo a explicar:

- não sou pescador profissional, pelo que não posso escolher um pesqueiro, fundear uma bóia, com três ferros e com o nome do barco que chega a ficar semanas no mesmo local, legalmente respeitada quanto a distâncias, por outros pescadores profissionais, ou lúdicos;
- não dá jeito nenhum, com 3 ou 4 pescadores a bordo, ter 100 metros de fio a passear dentro do barco, sujeito a ventos e consequentes embrulhadas, pelo que uso os meus conjuntos de pesca com cana, carreto e etc.;
- na qualidade de pescador lúdico, tenho de procurar os meus pesqueiros, fundear correctamente, e, no caso do barco rodar durante a jornada, se necessário, tornar a posicioná-lo de modo a que as minhas iscas actuem onde devem, devido à impossibilidade de, como os profissionais, bastar folgar um dos cabos e caçar dois dos outros, ou vice versa, para ficarem sempre posicionados no local mais quente.

De qualquer modo, tal não implica que ande sempre a mudar de material, só porque num dia ou outro, a coisa não me saiu bem. Na verdade, também a eles acontecem dias em que nada funciona, mas, regularmente, as capturas acontecem.

Tendo em conta a conversa desfiada, eis os materiais que actualmente, e já há alguns anos, uso:

Canas para fundo e chumbadinha:

- 7EVEN,  CARSON e BARROS Fundeado XB 3,30, todas entre os 3,30 e os 3,70 metros, de 3 partes com ponteiras, já descontinuadas, com acções progressivas mais para o lado do rijo.
A Stell Power, devido ao seu peso, uso-a essencialmente para pescar à chumbadinha, ou com isca viva, apoiada no caneiro.
A 7EVEN e a CARSON vão a todas e, destas 3 canas, nenhuma tem menos de 8 anos, e, não digam a ninguém, mas ainda tenho uma 7EVEN, igualzinha, oferecida por um amigo, quase a estrear. Já a BARROS é recente.

Carretos:

- Cabo 60 da Quantum, o que mais uso a pescar na mão, muito maltratado e capaz de tudo. O 1.º que apareceu à venda em Setúbal, penso que há mais de 8 anos.
- Banax Mighty 2000, também oferecido, uso para a Chumbadinha e nunca se queixou, tendo em conta a sua relação preço/qualidade.
- Daiwa BG 4500, faz parelha com o Cabo 60.
- Penn 8500 SS, uso essencialmente para pescar com isca viva, apoiado no caneiro. Tem 22 anos.

Multifilares:

- Corstrong da Cormoura, 0,27, o que mais tenho usado nos últimos anos, sem qualquer problema. Ultimamente, estou a mudar para fios com cores variadas, pelas vantagens que apresentam relativamente à percepção da quantidade de linha que está na água, e não devido a qualquer outra razão. Nestes fios coloridos tenho o Sufix 0,24, num carreto, e estou agora também a experimentar o Daiwa J-Braid x 8, em 0,24, muito devido à qualidade que parece ter e ao preço acessível. Se este fio se comportar, usá-lo-ei o máximo de anos possíveis.

Monofilares:

Ponteira de Amortecimento:

- Gorila da Tubertini UC-4 0,45, tanto para o fundo quanto para a chumbadinha.

Madre da baixada para pescar com dois estralhos:

- Gorila da Tubertini UC-4 0,45, ou 0,50. Isto porque, quando me falham as linhas dos estralhos, em fluorocarbono, faço estralhos com o Gorila 0,50 e capturo na mesma. Não faço com o 0,45 porque se embrulha com facilidade.

Estralhos:

- flurocarbono P-line 100%, 0,41, ou Asso 100% 0,45. Na falta destes, uso mesmo o Gorila UC-4, em 0,50.

Bases de enchimento de carretos e fiéis da chumbada:

- qualquer 0,40 da colecção de fios da treta que, em tempos, desnecessariamente experimentei e já não uso.

Comprimentos e adequações:

Ponteira de amortecimento: 12 a 15 metros, dependendo da profundidade a que pesco. Se pesco menos fundo, aumento o comprimento, porque é mais fácil sentir em menos profundidade e porque preciso de mais amortecimento em luta, atendendo a que menos profundo, as lutas são mais vivas e brutais.
Quando pesco mais fundo, diminuo o comprimento da ponteira de amortecimento, porque preciso de sentir melhor e porque as lutas são menos vivas e mais pesadas, levando-me, por vezes, a aumentar os diâmetros para 0,50, principalmente quando a pescar perto de estruturas altas.

Madre da baixada: entre 120 e 150cm, dependendo do tamanho dos estralhos.

Estralhos de cima: 60 a 80cm

Estralhos de baixo: 80 a 100, por vezes 120cm

Nota 1: Sobre as variações dos comprimentos dos estralhos, tendo cada vez mais a ir para os mais compridos, independentemente das condições que se apresentem e principalmente se houver aguagem.

Nota 2: Uso as mesmas espessuras e comprimentos, independentemente das profundidades a que pesco, desde os 20 até aos 100 ou mais. Por vezes, quando o peixe miúdo é muito e só sobem bogas e cavalas, corto o estralho de cima, aumento o comprimento do estralho de baixo para 150cm, ou mais. Aumento também o tamanho do anzol e isco com sardinhas inteiras ou outras iscas fortes, como Lula, Cavala..., etc., deixando comer à vontade. Nesta situação, tal adaptação tem resultado com regularidade.

Anzóis pesca ao fundo com dois estralhos, ou chumbadinha com montagem tandem:

- Hayabusa FKS 130, em uso há mais de 14 anos.
- Barros Gora-EN, uso recente, escolhido por ser de argola, barato, resistente e um pouco mais aberto que o Hayabusa,
- Asari ANOS, em uso também há bastante tempo.

Anzóis para chumbadinha, com montagem de anzol único:

- ainda uso os Kong da Hiro em tamanho 8/0. Quando acabarem tenho de procurar substitutos direitos, abertos e também grandes.

Tamanhos dos anzóis:

- Os tamanhos variam entre os 3/0 e 8/0. Os 3/0 e 4/0 para montagens em tandem; 5/0 e 6/0, para montagens de dois estralhos, com um anzol por estralho; e, maiores, para montagens de chumbadinha com anzol único.

Portanto, meus amigos, estes têm sido os materiais eleitos nos últimos anos, sendo que as marcas até podem mudar, mas os tipos e formatos vão-se mantendo.

Quando a pescar ao fundo, com estralhos, ou à chumbadinha, uso respectivamente as mesmas montagens para todo o tipo de peixe que procuro e, conforme os sinais dos toques e o que vai acontecendo ao longo do dia, vou adequando o meu comportamento aos conjuntos de pesca em uso, podendo também adequá-los, quanto a comprimentos, anzóis únicos, ou em tandem, pesos de chumbada, etc.. Desta forma, em conjunto com o tipo de materiais que ao longo do tempo elegi, adequo-me às restantes variáveis que são muitas, e quanto a mim, bem mais importantes, embora mais difíceis de entender e, consequentemente, dominar.

Certo é que, com base nas reflexões produzidas e nas escolhas efectuadas, a regularidade de capturas, mesmo neste ano da graça de 2016, em que a pouca frequência de pesca, por razões diversas, foi um caso nunca visto, ainda assim permitiu algum sucesso.

O Tózé, ali por alturas de Março:


Ainda o Tózé, no mesmo dia:


Douradas de verão, já ao lado do meu pé:


Pescarias pouco profundas de início de Verão:


Nem em Sines parei de trabalhar, raios partam isto:


Mais Douradas, ainda no Verão:


Olha..., Robalos também, ao fundo:


Parte de uma pescaria a solo:


Parte de outra acompanhado:


Mais outra..., no seu início:


Um Parguinho de fim de Verão:


Também um Robalito:


E por último, após um interregno de mais de um mês, com manutenção e arranjos de barco à mistura, eis, de 28 de Novembro, 2.ª feira, um moço mais crescido... 


..., acompanhado por outros, não muitos, nem do mesmo tamanho e qualidade.


É hora de voltar ao porto...


..., sem promessas de quando volto, mas com a vontade de que seja com a brevidade possível.

Sobre a presente entrada, não sei se demasiado comprida, espero ter-vos poupado algum tempo e dinheiro, assim como, ter passado a mensagem de que, para além do material que usamos, muitas outras variáveis poderão influir sobre as nossas desditas e os nossos sucessos, cabendo-nos talvez analisar melhor, antes de acharmos que o material nos faz pescadores, em vez de o olharmos como uma parte, que embora importante, não será certamente a panaceia para todos os nossos males, ou a principal razão dos nossos sucessos.

Os meus sinceros cumprimentos a todos os leitores

Abraço

Ernesto

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Material de Pesca... Uma dor de cabeça!


As condições climatéricas, decididamente, não são as melhores para a minha pesca!

Material de pesca, decididamente, não é um dos temas sobre o qual ame escrever. Falar sim! Preferencialmente, com o interlocutor presente e tendo sempre um cuidado extremo em não ferir as suas susceptibilidades, pois este assunto é coisa que costuma dar discussão acesa e não sou pessoa que a procure.

Além do mais, sempre que se aborda o tema em locais deste tipo, existe a tendência para se pensar que alguma marca estará por trás da conversa, atendendo a que alguns de nós (pescadores e outros...) usam e abusam dessa estratégia, de forma mais ou menos declarada.

Considerando o prólogo, vou-me atirar à tarefa tendo em conta a minha história abreviada de relações com o material, desde o início até aos dias de hoje, passando por alguns conceitos que fui desenvolvendo sobre razões, escolhas, aquisições e... Outras questões, direccionadas essencialmente para a pesca embarcada ao fundo, em barco fundeado.

O primeiro homem que pescou, penso eu, deve ter olhado em primeiro lugar o comportamento dos peixes e, após o despertar do interesse na sua captura, certamente olhou à volta e procurou algo que lhe servisse para o efeito, iniciando-se eventualmente nesse preciso momento a história do material de pesca. Este pescador teve de pensar e fazer tudo pela sua cabeça coisa que, como sabemos, não acontece nos nossos dias, nem sequer quando me iniciei... Não sou assim tão velho!

Na primeira vez que fui, emprestaram-me uma cana e mostraram-me como trabalhar com tudo aquilo, empatar anzóis, fazer a madre, primeiras iscadas, enfim... O mínimo essencial seguido do velho: "agora desenrrasca-te"!

A tudo isto, seguiram-se as primeiras experiências e claro, a consequente aquisição dos primeiros materiais... Algo parecidos com o que se encontra na imagem abaixo, sendo que o SOFI foi de facto o meu primeiro carreto, montado numa cana de fibra de 1,80 mts, de acção total e tão macia que qualquer Choupa, pouco maior que a actual medida mínima, a fazia vergar até ao cabo.

Fios aconselhados: 0,50, para o carreto; 0,45, para a madre; e, 0,40, para os estralhos que eram amarrados à madre pelas célebres voltas de fiel rematadas abaixo e acima. Em monofilamento, claro!

A montagem referida assegurava, segundo os "velhos", a quebra sucessiva de estralhos, madre e fio do carreto, em caso de "arrochanço" ou de peixe maior, na altura, uma miragem para mim! Já o "arrochanço"... Não tanto.

Quanto ao resto do material, anzóis, destorcedores, etc.; era tudo a condizer.

Verdade se diga que, já na altura, os "velhos" se pegavam em discussões sobre material, nós, montagens e eu não entendia muito bem... Como é que havia de entender? Ia numa traineira com mais 25, o dinheiro só chegava para o que tinha, até apanhava uns peixes... Queria lá saber!

Ainda assim, pergunto-me... Será que, actualmente, o início de um pescador será muito diferente?

Certamente, dependerá de quem o leve, de quem o oriente, de algum conhecimento anterior, em suma, de todo um conjunto de circunstâncias e motivações que o levem a decidir-se pela pesca. Uma coisa é certa, se for minimamente avisado, tem à sua disposição um conjunto de informação impensável para aquela época ou, se quisermos ser cépticos, um conjunto de desinformação originado pela quantidade de oferta, pela falta de seriedade de alguma dela e pela consequente dificuldade de discernir sobre a melhor relação preço/qualidade/adequação à técnica escolhida/etc.. Isto sem contar com os esclarecimentos de alguns lojistas que colocam por vezes a venda cega em primeiro lugar, esquecendo-se que mais tarde terão largas hipóteses de perder um cliente. Mas mais tarde... Quando? Porquê?

O quando, dependerá do tempo que esse pescador levar a evoluir na técnica que escolheu e o porquê, terá a ver com o momento em que essa evolução o faça entender que o tal lojista lhe vendeu um produto inadequado ao que pretendia, muito porque não o ouviu bem e só pensou em vender ou pura e simplesmente não sabia. Também acontece.

Outra questão pertinente tem a ver com outros pescadores a quem se solicite conselho que, por estarem num patamar mais avançado, poderão indicar-lhe materiais que, sendo ou parecendo adequados para os próprios, não se coadunarão com os conhecimentos e capacidades do nosso iniciado, podendo vir a significar o ditado Português: "colocar a carroça à frente dos bois".

Para todos os efeitos, parece poder dizer-se que a aprendizagem e consequente evolução dum pescador em determinada técnica ou técnicas, aliadas a uma carteira não muito recheada ou a alguma "sovinice", serão factores de diminuição dos "barretes" enfiados ou de escolhas inadequadas quando não péssimas. Isto porque, a aprendizagem e a evolução ensiná-lo-ão sobre as características dos materiais de que necessita e, o controlo monetário... A contenção em compras menos pensadas.

Neste percurso, estaremos sempre em luta com um inimigo, talvez o pior de todos... Nós!

Em algumas fases desta nossa evolução, por já termos alguns resultados e nos sentirmos com algum conhecimento; por querermos capturar mais e/ou melhor ou achando que alguém, por via do material, tem melhores resultados; tendemos a esticar-nos nas aquisições como se essa fosse a resposta real, o que muitas vezes pode não ser verdade. Penso que essa estará mais sediada no conhecimento e comportamento face à pesca, pesqueiros e espécies que no material utilizado; não pretendendo com esta afirmação colocar em causa a importância deste.

As anteriores considerações, como já devem ter percebido, decorrem de boas e más experiências porque passei nestas lides da pesca, levando-me a considerar um conjunto de conceitos que vão evoluindo e alterando conforme os resultados da prática vão sugerindo ou requerendo, lembrando-me que, talvez falando sobre eles, consiga que outros se precavenham, evitando um conjunto de situações já testemunhadas por mim e certamente por muitos outros de entre nós.

Como exemplo deste percurso, apresento-vos o meu "dossier de material de pesca":


Mas o que é isto? Também há pergaminhos por aí? Perguntarão alguns de vós!

Não! É um dossier A5, com umas 50 bolsinhas plásticas do mesmo formato, cada uma com uma montagem lá dentro; elaborado desta forma por não haver nada mais barato que contivesse tantas montagens. A seta indicava o sentido das aberturas, para evitar que o agarrasse ao contrário e as espalhasse; e, o "F", o lado por onde se devia abrir. O aspecto surrado e bafiento tem a ver com as "cacetadas" e os ambientes húmidos a que esteve sujeito durante a sua vida mais activa.

As baixadas eram elaboradas em casa, coisa que agora se torna difícil, em tanta quantidade e diversidade, quantas as perseguições a espécies que tentava fazer, consoante o tempo e os conhecimentos que ia adquirindo ainda na fase de pesca em Setúbal.

Abrindo o "livro", podem encontrar-se as baixadas para Gorazes, à esquerda e os anzóis para pesca grossa, à direita; montados em estralhos de aço pela abundância de várias espécies de Tubarões na zona. Ambas fazendo parte da fase em que procurava estas espécies e outras, habitantes de zonas profundas. As dos Gorazes, actualmente desactivadas devido às alterações do número de anzóis previstas na Lei.


Passando as "páginas", deparamo-nos com montagens para pescas profundas a Pargos, ainda sem anzóis, os quais seriam montados no momento ou assim se mantinham como suplentes. Chamo a atenção para a proliferação de missanguinhas, perolazinhas, tubinhos e coisas do género... O trabalhão que aquilo dava!


Nas "páginas" seguintes, as montagens para "diversos", com vários tipos de ligações dos estralhos à madre, testemunhando também estes a evolução procurada, testada, alterada... Na medida do material a que se tinha acesso e das necessidades que se sentiam no que a "destorcer" respeitava.

Este "livro", agora guardado em casa, encerra alguma da minha história relacionada com o material, contendo no entanto alguns materiais recentes e em uso, aguardando outros dias, principalmente no que respeita à pesca grossa lúdica, assim como o testemunho de que houve um percurso e uma evolução quando, ao folhear as últimas páginas, se encontram montagens com Cross Beads, um dos últimos tipos de ligação estralhos/madre considerados mais efectivos na actualidade, na pesca em barco fundeado, embora cada vez menos as use... Mas, lá chegaremos!

Ainda sobre as ligações dos estralhos à madre, lembro-me dos nós directos, das alças entrelaçadas partindo do nó de Barril; adequados quando bem feitos, mas pouco fiáveis para diâmetros mais pequenos na presença de maiores exemplares.

De todas as ligações efectuadas, lembro-me da primeira com bons resultados, a que se segue: constituída por destorcedor de barril, encaixado entre duas missangas, sendo os travamentos feitos por dois tubinhos de latão que se esmagavam, apertando o fio a seguir a cada missanga...

... Horas que se passavam a elaborar estas montagens, em que: a precisão do aperto, quanto à posição de ataque do alicate e à pressão aplicada, fazia a diferença entre capturar ou não, exemplares de maior porte. Também, nesta linha de travamento, se usaram multifilamentos finos, entrançados e aplicados através de nó, mais fiáveis mas muito trabalhosos por escorregarem em cada captura, também usados em substituição dos nós que se podem ver abaixo travando as actuais e, por enquanto, incontornáveis Cross Beads.


Quando iniciei a minha fase de pesca em Sines, comecei por usar a montagem dos tubinhos, depois as Cross Beads e chegaremos com toda esta conversa às razões porque quase as abandonei, adoptando os materiais que agora uso.

Comecemos por olhar para algumas questões práticas e reflectir sobre elas!

Não é raro dois pescadores irem pescar embarcados em MT, com montagens e até com canas e carretos idênticos. Um deles captura regularmente e o outro nem tanto, porquê? Do material não parece que seja... Será da isca, da forma de iscar, do posicionamento no barco, das formas de reagir ao toque, do comportamento de cada um deles face ao sucesso e insucesso...?

Na maioria dos casos, se os materiais forem idênticos, procuram-se outras razões. Caso os materiais de ambos os pescadores sejam diferentes, a tendência é não analisar para além do material. E se não for do material? Como vamos saber? E porque não olhar outros factores, talvez mais importantes, em vez de ir à corrida comprar as missangas, anzóis, fios, destorcedores, etc., supostamente factores influentes no sucesso do outro? De pouco nos valerão se de facto foi o comportamento do nosso companheiro a principal razão do seu sucesso naquele dia. Só que, parece-me mais fácil actuar sobre o factor material do que assumir que o nosso comportamento em acção de pesca pode não ter sido o ideal e... Alterá-lo!

Outras questões se colocam... Quanto mais alterações ao material, em curto espaço de tempo útil de pesca, para o mesmo tipo de pesca e pesqueiros, mais variáveis se introduzem e consequentemente mais difícil será ter a percepção das possíveis razões de sucesso/insucesso e ainda nem começámos a falar de monofilamentos em nylon ou fluorcarbono, multifilamentos, anzóis, canas, carretos... Dava para fazer uma "Bíblia" de pesca! Impossível de completar antes da chegada do bom tempo... Aquele em que temos de sair do PC e andar para o mar.

Discutível, não é?

E não o é tudo? Na pesca e etc.?

Às últimas questões colocadas, respondo sim!

A resposta, implica consequentemente que me limite a descrever os raciocínios que me levaram a optar por determinados materiais, sem os considerar os melhores em termos gerais, mas sim, os que mais gosto de utilizar na pesca a que me dedico, considerando manuseamento, resultados... Sem deixar de ter em conta que certamente existirão outros melhores que não conheço ou não testei, talvez por ainda não ter sentido essa necessidade.

Antes de passar às funções e características mais relevantes sobre material, importa relembrar algumas questões, testemunhos, conceitos... verificados durante o meu percurso histórico pela pesca.

Desde a aquisição dos primeiros materiais (a tal cana de acção total de 1,80 mts, o Sofi, anzóis nacionais e fio a condizer...) por volta de 78/79 e da prática de pesca embarcada durante estes mesmos anos, tinha-me iniciado entretanto na caça submarina que durou até 1992, ano em que adquiri o meu primeiro barco e reiniciei a pesca embarcada, verificando para meu espanto que os materiais que tinha adquirido, cana e carreto, estavam ainda em uso por muitos pescadores da zona de Setúbal. O mesmo não acontecia com os fios e os anzóis... Procuravam-se já, fios mais finos para as montagens e anzóis diversos, embora salvaguarde que talvez já antes acontecesse, mas não tinha tido tempo de me aperceber de tal.
A pesca, essa mantinha-se como antes!
As montagens eram as usuais: anzóis n.º 6 a 8, montados em dois ou três estralhos de 25 a 40 cm de comprimento, com 0,30 a 0,35 de diâmetro; amarrados, com voltas de fiel acima e abaixo, a uma madre de 0,40 ; e, como conceito: "... Vamos pescar aos diversos, talvez encontremos os Besugos ou Parguetes, enquanto esperamos o peixe da nossa vida..." Esta a única pesca que conhecia a partir de barco, para além da caça submarina.

Um "à parte"... Para além dos materiais utilizados, será que existem diferenças significativas entre as baixadas e os conceitos actuais, na pesca embarcada, para a grande maioria dos pescadores que a praticam em MTs, barco próprio ou até na competição? A zona de comentários aqui do blog está já aí ao fundo da página!

A minha pesca iniciou-se, o interesse foi aumentando entre sucessos e insucessos na pesca de "encher o balde", usando as iscas e materiais que todos usavam e conseguindo boas prestações, mais pela capacidade de colocar o barco no sítio certo que certamente pelo material que usava.
O hábito, adquirido na caça submarina, de procurar maiores exemplares, os sinais indicadores da sua presença que fui aprendendo a ler e que muitas vezes existiam, lutavam contra os conceitos de café: ah e tal... Não há peixe nenhum! As redes, os covos, os arrastões... Dão cabo de tudo!
Não digo que não fosse verdade ou ainda que não o seja hoje em dia mas, como acreditei tanto tempo naquilo que diziam pescadores que sempre pescavam nos mesmos pesqueiros, com as mesmas iscas, montagens e materiais? Umas vezes apanhavam e eram os maiores, outras não apanhavam e as razões eram sempre as mesmas: "... Hoje não há peixe!", "... O peixe estava lá e não queria comer!". Acredito agora que isso acontecia no pesqueiro ou pesqueiros onde tinham ido, com a mesma isca, montagem... De sempre. Mas, com um mar tão grande, porque frequentavam só aqueles pesqueiros? Em qualquer época do ano só lá estavam os "diversos"? E as iscas... O peixe só comia Lingueirão, Casulo e Ganso? Pelos vistos sim! Quem não levasse estas iscas para o mar, já nem acreditava na pesca! Que credibilidade poderiam ter os materiais e iscas usadas? Como poderíamos saber que eram esses os factores determinantes?
Era o que se conhecia, o que se aprendia, o que se praticava... Aqui pela minha zona, Setúbal!
Importava então: alterar!
Acreditar que era possível capturar melhores exemplares de forma mais assídua! Diversificar locais, iscas, baixadas, técnicas... Adequar materiais a estas alterações! Estes conceitos não surgiram na minha mente de um momento para o outro como erradamente pode indicar a forma como os descrevo; antes, foram-se desenvolvendo com a prática e o pensar continuamente a pesca, enquanto ia capturando Sarguetas, Choupas, Besugos e Parguetes nos locais habituais e em outros que fui descobrindo a solo ou com o apoio de outro pessoal como o Edmundo, o António Júlio, o Zé Carlos, entre outros... Ainda na fase de Setúbal, onde já começava a ler a carta de pesca e a tentar encontrar, por mim, novos pesqueiros e melhores exemplares. Fase esta, continuada em Sines e sempre em estudo teórico e prático que penso continuar enquanto a vida e a Lei o permitirem.

Analisando as reflexões produzidas até ao momento, dei comigo a pensar: a esta hora, estarão os leitores sem entender o porquê de tanta conversa para falar de material... Mas, a verdade é que não consigo falar de material sem continuamente pensar nas razões porque utilizo este ou aquele e essas enquadram-se com alguma história que sinto necessidade de contar, mais não seja, para justificar "porquês"!

Das práticas e experiências efectuadas na pesca ao fundo em barco fundeado, tentando ser mais prático, as principais funções do material de pesca tendo em conta: espécies procuradas, iscas utilizadas, estado do mar... Entre outros factores e por ordem de acção; parecem ser as seguintes:

- Apresentar a isca de forma natural;
- Sentir os toques;
- Ferrar;
- Lutar até à superfície;
- Subir, para trocar ou repôr iscas;
- Destorcer;
- Elevar peixe para o poço do barco.

Para cumprir com estas funções, os materiais utilizados, desde a cana até à chumbada, passando por carreto, fios, destorcedores, construção das baixadas, anzóis... Conceptualmente, deverão ser proporcionais e adequados entre si, apresentando consequentemente determinadas características sobre as quais passaremos a reflectir. Vejamos então!

Apresentar a isca de forma natural:

O comportamento natural da isca, atendendo a observações subaquáticas ou até ao senso comum, parece ser conseguido quando os pedaços acompanharem os movimentos imprimidos pela aguagem ou, na ausência desta, por aqueles de "vai e vem" que sempre existem no ambiente marinho. Para tal, haverá que adequar o tipo de fio do estralho e o comprimento deste, tendo em conta o tamanho das iscadas. Quanto ao fio, parece lógico que um mais fino e macio, em estralho mais comprido, deixará que a isca se movimente melhor; no entanto, um fio macio tenderá a resistir menos ao nó, a embrulhar-se com mais facilidade e a diminuir a capacidade de sentir, tendo em conta a sua elasticidade. Tudo se complicará ainda mais se a iscada for grande e o peixe que por lá ande for pequeno ou esteja a comer mordiscando pelas pontas. Ainda sobre a espessura, haverá que ter em conta as espécies que estamos a procurar.
As anteriores considerações parecem, quanto à dureza do fio, indicar que a escolha deverá recair sobre um fio mais para o lado do rijo que do macio, principalmente se o estralho for maior que 40/50 cm e a iscada for grande (posta de sardinha, bomboca ou camarão inteiros, caranguejo, cabeça+tripa de lula...). As iscas mais pequenas poderão ser bem apresentadas com fios mais finos, macios e em estralhos mais curtos, parecendo neste caso ser importante também considerar a leveza do anzol, o que, em iscadas mais pesadas, com fios mais grossos e em estralhos mais compridos, poderá ser um factor menos significativo.

Resumindo, a relação: leveza da montagem/comprimento dos estralhos/tamanho das iscadas, numa proporção adequada, tendo em conta as anteriores reflexões, parece poder influir significativamente na apresentação natural da isca, contribuíndo também para a melhoria da função "sentir".
Sobre o comprimento dos estralhos, importa ainda referir que a proximidade da isca com a madre da montagem, dificilmente assegurará uma apresentação natural da isca, nomeadamente para os maiores exemplares. Já os "pequenotes" não se ralam muito, atacando, zelosa e proficuamente, iscas em estralhos de 20/25 cm, em montagens que parecem autênticas árvores de Natal, parecendo até serem atraídos por tanta côr.

Como sugestão de fios para a baixada:
- Um Fluorcarbono de diâmetro adequado, dos menos rijos, atendendo à sua resistência ao nó, pouca memória e apregoada invisibilidade ou, para maiores profundidades (+ de 70 metros), um mono daqueles que esticamos e caem direitos, parecem ser escolhas adequadas para a elaboração das baixadas enquadradas nos parâmetros sugeridos.

Anzóis:

As reflexões sobre este importante elemento da nossa baixada, serão efectuadas desde já, tendo em conta a sua influência significativa em três funções:

- Na apresentação da isca, atendendo a que, por exemplo, um anzol pesado, embora pequeno, aplicado em estralhos curtos e finos e com uma isca leve, certamente não proporcionará uma apresentação adequada; tendendo a fazer afundar o estralho e encostando-o à madre ou aproximando-o da chumbada.
- Na ferragem, onde o tamanho, abertura, linha de tracção, penetração, inclinação do bico face à haste... Deverão ser mais ou menos adequados às espécies que se procuram.
- Na luta até à superfície, onde os factores tamanho, penetração, resistência e comprimento da barbela; influirão significativamente em boas ou más ferragens e manutenções das mesmas. Salvaguardo aqui que, para aqueles de entre nós que pratiquem o "pesca e liberta", a barbela terá um valor secundário e incoerente, obrigando-se estes, para colmatar a falta dela, a um apuramento técnico de luta onde qualquer perda de contacto com o peixe significará uma alta percentagem de a perder.

Se me dissessem para eleger o material de pesca onde a escolha e aquisição se torna mais difícil, acho que apontaria de imediato para os anzóis! Porquê?

São baratos, relativamente a todo o restante material. Os formatos, cores e apresentações são extremamente variados e, o mais engraçado de tudo... Senão todos, quase todos, ferram peixe em algum dia ou momento.

Pelas razões apresentadas, resolvi adquiri-los pelo seguinte raciocínio:

Tamanho:
- Olho para a boca duma determinada espécie em que estou interessado, calculo a olho qual o maior anzol que poderá capturar um Juvenil e adquiro anzóis com um ou dois tamanhos acima. Não será bem assim, mas penso que dá para ter uma ideia.

Formato:
- Abertura... Nem muito fechada, nem muito aberta.
- Comprimento da haste... Nem curta nem comprida.
- Tipo de bico... O mais aguçado que encontrar e "reversed" (inclinado face à haste... Nalgum sítio espetará!).
- Peso... O menor possível.
- Resistência... A maior possível, tendo em conta a espécie e o peso do anzol.
- Côr... Escuros ou prateados. Já tive bons resultados com dourados mas, para além de me gozarem por isso, são difíceis de encontrar em tamanhos maiores, pelo que desisti deles.

É caso para dizer: Tenho encontrado a felicidade no meio termo e na simplicidade!

Eis alguns dos eleitos:


Sobre os destorcedores, já falaremos!

Sentir, Ferrar e Lutar até à superfície:

Estas três funções, sendo diversas em cada um dos seus momentos, interligam-se por antagonismo de tipos de materiais; exigindo, para um bom desempenho do pescador, um conjunto pensado desde a mão até à isca, facilmente adaptável a profundidades e condições de mar diversas. Para iniciarmos a construção do nosso conjunto, algumas caraterísticas e interacções dos vários materiais parecem essenciais:

- Sensiblidade, para perceber os toques; Dureza, para a ferragem; e, alguma Maleabilidade do conjunto, para a luta.
- Adequação da interacção entre: profundidade/condições de mar/cana/fios/carreto/peso da chumbada.

Profundidade:

- Quanto mais fundo se pescar, mais difícil será sentir e ferrar o peixe!
- A luta oferecida por um peixe ferrado, em maior profundidade, tenderá a ser menos intensa e mais pesada, muito devido à pressão a que está sujeito. Já o mesmo peixe, em pouca profundidade, por razão inversa, poderá oferecer uma luta bem mais dura, ágil e por vezes mais longa. Se no primeiro caso a preocupação com o conjunto de material, deverá dirigir-se mais no sentido do "sentir" e da "ferragem" salvaguardando a "maleabilidade"; no segundo, as preocupações com a "maleabilidade" deverão aumentar significativamente no sentido de corresponder aos arranques súbitos e intensos a que este estará sujeito.

Condições de mar:

Quanto maior e/ou mais desencontrada for a vaga de fora com a vaga de vento, também as dificuldades de sentir e ferrar se agravarão quer pela continua subida e descida do barco face à linha de fundo, quer pelos movimentos laterias que tenderão a desiquilibrar o pescador e consequentemente desconcentrá-lo do acto de sentir e complicar-lhe o acto de ferrar.

Cana:

- Uma cana de acção parabólica macia, tenderá a oferecer boas condições quanto à maleabilidade na luta com o peixe e não tão boas, quanto ao sentir e ao ferrar.
- Uma cana rija de acção de ponteira, oferecerá certamente belíssimas condições quanto ao sentir e ao ferrar mas, deixará muito a desejar quanto a uma luta dura com um peixe maior, devido à sua falta de maleabilidade.
- As características das canas referidas serão tanto mais adequadas, quanto os comprimentos escolhidos, tendo em conta a necessidade de uma boa alavanca que tanto poderá influir positivamente no sentir e no ferrar, quanto na maleabilidade que o comprimento lhe poderá trazer em luta.
Olhando para os comprimentos, importa entender que uma cana de acção parabólica, macia e com 3,00 ou mais metros, poderá unicamente ser um excesso de peso, atendendo a que, parecendo o comprimento ser um factor essencialmente introduzido para aumentar a alavanca na ferragem, esta alavanca perder-se-á devido à curva que a cana previamente formará antes de levantar a pesca do fundo ao tentarmos ferrar, principalmente se estivermos a pescar fundo, com vaga alta e chumbada pesada.
O comprimento útil, para alavanca de ferragem, poderá aumentar em canas mais rijas, tendo em conta as proporções relacionadas com as consequentes variações de maleabilidade e peso.
Procurando a cana ideal, parecem-me ser as semi-parabólicas de acção progressiva com alguma rijeza, entre os 3,00 e os 3,60, as canas mais versáteis para pescar fundo ou baixo. Isto porque permitem sentir e ferrar muito perto das de acção de ponteira e, em luta, ganham maleabilidade conforme o peixe que lá vier. Relativamente a esta última característica, ela poderá ainda ser melhorada através dos fios usados, principalmente para pescar em menores profundidades e mares calmos.

Apresento-vos as que uso presentemente:


À esquerda, a First Edition 3,60 metros, de 3 partes, da 7even. Uma acção parabólica progressiva, bastante leve, sensível e eficaz em luta.
À direita, uma Steel Power, da NBS, com o mesmo tipo de acção, mesmo comprimento e partes, extremamente sensível, atendendo ao seu peso (quase o dobro da primeira) e potência que lhe permite adequar-se à luta com qualquer peixe, sobrando sempre força a esta "besta".

Fios:

O que vamos escolher? Como adequar ao conjunto sensivel, ferrador e maleável em luta?

Rijos para sentir e ferrar, certamente! E a maleabilidade como vamos consegui-la?

A procura de fios mais rijos era já uma preocupação antes do reinado dos multifilamentos finos que vieram colmatar a necessidade de melhor sentir e ferrar, instalando-se através de marcas diversas, com características variadas sendo, os tipos Dyneema e Spectra, mais utilizados actualmente, oferecidos com cores, texturas, diâmetros, resistências e preços, para todos os gostos, técnicas e bolsas.
No entanto, se como fios principais, em qualquer carreto, asseguram o sentir e a ferragem; maleabilidade é coisa que não têm, provocando, caso não se tomem outras medidas, uma luta extremamente violenta, por vezes difícil de controlar quando enfrentamos um exemplar de maiores proporções, mesmo pescando com uma cana mais macia e recorrendo ao carreto com a embraigem mais leve que, se por um lado, permitirá minimizar a dureza da luta; por outro, aumentará significativamente as hipóteses de fuga de tal peixe por deficiência na pressão contínua aplicada.

A forma encontrada para diminuir os efeitos da falta de elasticidade deste fio, para além de troços elásticos em silicone, com resistência e invisibilidade duvidosas; foi a denominada ponteira de amortecimento: um determinado comprimento de monofilamento, com diâmetro e dureza adequados aos objectivos da nossa pesca que, ligado ao multifilamento do carreto num extremo e à baixada no extremo oposto, poderá assegurar uma luta mais regular, mantendo pouco alteradas as capacidades de sentir e ferrar.

Como conceito, poderemos talvez dizer que: colocando uma ponteira de, por exemplo, 15 metros de monofilamento, num dia de mar calmo e sem aguagem, pescando a qualquer profundidade com peso de chumbada adequado, o sentir e o ferrar acontecerão, com variações pouco significativas, como se estivéssemos a pescar a 15 metros de profundidade só com o monofilamento em uso.
É claro que o conceito anterior não é assim tão linear e as coisas complicam-se havendo vaga e aguagem num pesqueiro fundo, assim como, numa luta com peixe maior a 15 ou 20 metros de profundidade; mas, nestes casos, para além de outros cuidados, poderemos sempre variar o comprimento da ponteira de amortecimento, encurtando-o em dias mais complicados e a pescar mais fundo; ou, aumentando-o em dias mais calmos e/ou em pescas de pouca profundidade.

Aqui vão alguns dos que estão a uso:


No canto superior esquerdo, o Extreme da Golden Fish 0,40, um mono normal, para o lado do rijo, actualmente em uso para ponteiras de amortecimento.
No canto superior direito, o Multifilamento da Sufix, penso que um 0,28, como fio base para o carreto, a par com o 7even e o Rapala Titatnium, também do meu gosto.
Em baixo, à esquerda, o fluorcarbono da Rapala 0,418 e, à direita, o da Golden Fish; um fluor bastante maleável, com 0,405, detentor de resistência admirável. Ambos para baixadas e estralhos.

Ainda sobre amortecimento, a luta até à superfície, as subidas para trocas e reposições de iscas e o respectivo "motor"...

... O Carreto!

As funções do carreto são diversas e todas importantes; pelo que vamos tentar arrumá-las, na perspectiva de tentarmos entender actuais ou futuras escolhas. Consideremos para tal, dois tipos de funções/capacidades:

As básicas:



  1. Armazenamento da linha de que necessitamos para a nossa pesca, em quantidade e qualidade suficientes, o que influirá a escolha do tamanho do carreto a utilizar ou adquirir.



  2. Deixar sair linha e recolhê-la, de forma livre, rápida e sem emaranhados ou outras complicações, o que influirá a escolha do formato mais adequado para a pesca a que nos dedicamos ou queremos dedicar. Alguns carretos, derivado do seu formato ou devido a "demasiados" pormenores mecânicos exteriores, tendem a prender a linha quando se deixa cair a baixada para o fundo ou, pior, enrolá-la para o veio interior quando se inicia o enrolamento ou a luta, após um intervalo em que possamos deixar a linha "bamba".

As de luta:


  1. A capacidade máxima para suportar tracção, com a embraiagem completamente travada. Esta, mais importante talvez para a Zagaia/Jigging, já que na embarcada ao fundo, em barco fundeado, muito raramente será utilizada num carreto de tamanho adequado.



  2. A fiabilidade ao deixar sair linha, amortecendo antes do ponto de ruptura de destorcedores, fios, nós... Em uso. Esta, dependente essencialmente do tipo de rodízio do braço do carreto (c/s rolamento), tipo de embraiagem, da taragem que lhe aplicarmos e dos materiais e cuidados de manutenção exigidos nestas áreas.

Considerando as reflexões sobre as funções em luta, na minha perspectiva, o carreto, tem de:

a) Assegurar o máximo de oposição possível perante o exemplar, intervindo através da libertação de linha antes da quebra do elo mais fraco de todo o conjunto. Para tal, a embraigem é tarada para mais ou menos 3/4 da resistência do tal elo mais fraco, normalmente as inserções dos estralhos na madre, com uma força que deixará sair linha, unicamente em presença de um exemplar de mais de dois quilos, considerando as resistências dos materiais que uso e as espécies a que me dedico.

b) Subir a baixada rapidamente para repôr ou substituir iscas.

As anteriores alíneas pressupõem por sua vez duas questões muito discutidas entre pescadores: força e velocidade! Duas capacidades indicadoras de usos diferentes mas ambas necessárias nos carretos que adquirirmos para a pesca em reflexão!

A força, para suportar lutas mais importantes!

A velocidade, para assegurar um ritmo sério em acção de pesca!

Sinceramente, a primeira preocupa-me; mas acho que a consigo colmatar através dos esforços requeridos a todo o conjunto (cana, fios, baixada, estralhos...), tarando bem um carreto e sendo calmo e frio em luta. A segunda preocupa-me mais, principalmente em dias de muito roubo de iscas e a pescar fundo. Neste caso, um carreto lento, colocará em causa o ritmo da acção de pesca e a energia por mim dispendida, talvez diminuíndo ou atrasando as hipóteses da entrada dos exemplares que sempre procuro.

Esta peça do nosso conjunto, sendo a formada por mais elementos mecânicos e, normalmente, a mais cara; é também a que necessita de mais manutenção e consequentemente maior gasto de tempo. Por isto deveremos ter o cuidado de escolher com base em materiais que exijam pouca manutenção, assegurem durabilidade e maximizem as funções/capacidades que pretendemos, com um preço suportável. Estes requisitos são normalmente inimigos de máquinas muito sofisticadas, parecendo-me ser exigível uma procura centrada em materiais de qualidade e na simplicidade mecânica.

Resumindo, um carreto para a minha pesca deverá ter as seguintes características:

- Alguma força
- Alguma velocidade
- Bons materiais
- Número de rolamentos essenciais
- Alguma leveza
- A melhor relação preço/qualidade adequada à minha bolsa.

Com as características que mais gosto e adequados à minha bolsa, encontrei estes fiéis amigos:

O PENN, nas versões 6500SS e 8500SS...


... E o Cabo da Quantum, nas versões 60 e 80 (o 40 não será de excluir para pescas mais ligeiras):


Nunca me faltaram quando os solicitei, certamente pelos materiais em que são construídas as suas peças fundamentais (inox e bronze), já que a quantidade de trabalho e o tratamento que lhes dou, não são do género de aumentar a sua vida útil.

Destorcer:

Aí está uma função do material que influirá em todas as outras, colocando-as em causa, caso não esteja assegurada! Vejamos:

A deslocação de objectos na água, ao implicarem directamente com o hidrodinamismo desta, estarão sujeitos a movimentos diversos relacionados com a sua forma, mais ou menos regular e, com a velocidade a que se deslocam, entre outros factores.
Considerando a anterior reflexão, podemos concluir que as nossas iscas ao descerem, estarão sujeitas a tais acções assim como ao subirmos a montagem, independentemente de trazermos ou não restos de isca, para além dos movimentos referidos, teremos ainda de contar com o movimento de rotação do fio, sobre o seu eixo, imprimido pelo trabalho dos nossos carretos de tambor fixo.
Para evitar os embrulhos dos estralhos com a madre, durante a descida e/ou subida, importa destorcer!
Refira-se ainda que qualquer elemento destorcedor terá acumulada a função de ligação entre partes a destorcer, sendo que qualquer falha poderá comprometer todas as funções principais do conjunto.

Imaginemos uma baixada que desce com iscadas lindas e pelo caminho vai-se embrulhando com a madre e com os destorcedores. Certamente ao chegar ao fundo já não conseguirá apresentar bem a isca. Mas, mesmo assim, aparece um Pargalhão esfomeado que esquecendo todos os medos, come a isca e é ferrado num anzol, ligado a um estralho já todo empachado na madre e com nós indesejáveis que se apertarão logo no início da luta. nesta altura tudo fica colocado em causa e só com muita sorte teremos sucesso com esta captura. Isto, para dar um exemplo possível entre muitos.

O destorcedor parece-me portanto um elemento essencial, com o qual tenho tido uma longa guerra, passando pelo de barril com missangas, apertado com tubinhos; pelas Cross Beads, conforme as fotos já apresentadas e até, por uma missangas que apareceram em tempos, em formato de "8", com um furo ao meio por onde entrava o fio da madre, das quais não tenho fotos. Esta missanga era travada com dois nós, acima e abaixo da madre, e, o estralho era amarrado na cintura do"8". Tudo isto funcionou e tudo isto, face a exemplares maiores, acabou por dar problemas, honra seja feita às Cross Beads, as menos falíveis!

Verdade seja dita que aumentando a grossura da madre ou fazendo travamentos com multifilamentos suplementares, certamente as Cross Beads aguentariam, mas, a solução encontrada parece-me mais simples, tem resolvido na perfeição e, não se embrulha mais que todas as outras soluções referidas, antes pelo contrário!

Apresento-vos os destorcedores de barril acoplados, tipo Crane no tamanho em que os uso na montagem aplicada na cana de mão:


Usei-os pela primeira vez, a conselho do meu amigo António Júlio, de Setúbal, e, nunca mais os larguei!

A madre é ligada à argola de baixo, a argola de cima é ligada directamente à ponteira de amortecimento que vem do carreto e o estralho de cima, ligado à argola mais afastada do destorcedor perpendicular acoplado.

No extremo oposto da madre, monto outro destorcedor igual que assegurará a ligação ao estralho de baixo e ao fio de suporte do destorcedor de alfinete que prende a chumbada; conforme foto abaixo:


Neste caso, o fio do estralho e da madre (vermelhos) ficarão ligados no mesmo destorcedor de barril, assegurando que não haverá folgas antes de sentir os toques, tudo indica, maximizando esta capacidade.
Ao destorcedor perpendicular será ligado então o fiel da chumbada, com um destorcedor de alfinete, destinado à troca rápida de peso, caso necessário.

Depois de tudo isto, não mais que "uma gota de água no oceano" no universo da pesca; um elemento importante, parece ter ficado esquecido, mas não é verdade! Cá estão elas...

As Chumbadas:

São normalmente fabricadas em chumbo, discretas, fala-se dos seus formatos, dos seus pesos; ligam-se à madre com fios mais finos, para se perderem caso se prendam mas têm, sem dúvida, um papel importantíssimo e alargado a várias funções relacionadas com o material, tanto ou mais importante que o que as fundamenta: serem um peso suficiente para apresentar as nossas baixadas e iscas no local onde cálculamos estarem os objectivos da nossa procura, de forma rápida e eficiente, sem se tornarem um pesadelo quando as quisermos subir.

Para que cumpram o seu papel, as chumbadas, deverão ter um formato que se movimente facilmente através do meio aquático, nos dois sentidos (subida e descida) e um peso adequado à profundidade, às condições de mar e aos materiais que constituem o conjunto com que pescamos num determinado dia.

O formato deverá, por razões actualmente óbvias, andar perto do de um torpedo, tanto mais quanto mais espaço tenha de ser percorrido.

O peso parece ser uma questão bem mais complexa e variável. Vejamos:

O peso da chumbada deverá assegurar que sintamos continuamente onde ela está... Assente no fundo,  ou a determinada altura deste, independentemente de: profundidade; existência ou não de vaga e/ou aguagem; materiais com que estamos a pescar; e, assegurando que as iscas maiores ou mais pequenas que vão nos nossos anzóis desçam a uma velocidade que lhes permita passar, mais ou menos intocadas, por eventuais cardumes de peixes que se encontrem a meia água e que as poderão consumir antes que cheguem ao fundo.

Que circunstâncias nos decidirão a adequar o peso da chumbada, aumentando-o?

A profundidade: quanto mais fundo, maior o peso necessário.
O tamanho das iscas: Quanto maiores, mais atrito e, consequentemente, factor de aumento de peso!
Material utilizado: canas e fios mais rijos, atendendo ao pouco tempo que levam a reagir ao peso, solicitarão também mais peso de chumbada.
Aguagem/corrente: Sem dúvida, outro factor de aumento do peso da chumbada.
Existência de vaga: a vaga afasta e aproxima continuamente o barco do fundo marinho o que, aliado a canas e fios rijos ou mais grossos poderá ser outro factor de aumento do peso da chumbada, tentando evitar que a baixada se eleve do fundo sem nos apercebermos.

As circunstâncias contrárias ou conjugadas, como tudo indica, serão factores de diminuição de peso.

As escolhas mais correctas, essas, só o tempo e a prática nos ensinarão.

Deixo-vos, da esquerda para a direita, algumas das chumbadas que utilizei e utilizo:

As duas da direita, são escolhas actuais, principalmente as coloridas, já bastante faladas por aqui.

Já temos o conjunto de pesca completo, largamos para o fundo com iscadas enormes e deliciosas, o peixe gosta e atira-se! Lutamos com ele e temos sucesso! Chega à superfície! É grande! Temos de subi-lo para o barco! Onde está o Enxalavar?

Este apetrecho, constante de um cabo e um aro com rede, cumpre a última função: elevar um peixe de maiores dimensões para o poço do barco.

As dimensões, o peso e os materiais, deverão estar adequados aos peixes maiores que esperamos, à distância entre borda do barco e água e a evitar emaranhados com os anzóis, chumbada e linha que trazem o peixe.

O aro, deverá ser em tubo de alumínio anodizado ou, de preferência, em tubo de inox, com um diâmetro nunca inferior a 50 cm.

A rede aplicada, deverá ter malha larga elaborada com um monofilamento grosso, atendendendo a que os cabos multifilares são um material onde os anzóis sempre se vão espetar, criando "empachanços" e consequentes perdas de tempo que influirão negativamente o ritmo na acção de pesca.

O cabo deverá ser leve, com comprimento adequado à distância à água, sendo a leveza tanto mais necessária, quanto maior o comprimento que tenha.
Os cabos em fibra de vidro têm-se revelado uma boa escolha.

O homem que colocar o enxalavar para subir o peixe, quando este estiver completamente à superfície, deverá ter o cuidado de afundar um pouco o aro com rede, afastado-o do peixe e aguardar que o pescador em luta coloque o peixe sobre o enxalavar. Durante esta acção deverá estar atento e atender às solicitações que o pescador for apresentando. Ele é o "dono" do peixe! Ele é que deve decidir sobre o desenrolar da acção!
Salvo algumas situações de improviso que só em presença poderemos resolver, estas serão talvez as melhores opções técnicas.

O peixe finalmente está capturado e a salvo! Posso então, em momento de despedida, deixar-vos algumas curiosidades relacionadas com outras aquisições ao longo dos tempos:

A primeira cana de ponteiras finas que adquiri, por volta de 95/96, na procura de mais sensibilidade, capacidade de ferragem e amortecimento em luta. Uma feeder da Browning, com 2,90 a 3,30 metros; comprimentos que se conseguiam conforme se usava um extensor que saía ou se retraía no cabo. Esta, já com acção parabólica quase progressiva.


Em seguida, uma Ultramar da Hiro, autêntica besta, para corrico ligeiro ou para pescar no caneiro com isca viva, adquirida por volta de 98.

Finalmente, alguns anzóis e destorcedores que utilizo actualmente para Zagaia/Jigging:

Sobre estes materiais falaremos eventualmente em próximas entradas, dependendo do desenrolar de acontecimentos que o futuro nos traga.

Muito fica por dizer acerca de material!

Muitos materiais ficam por dissecar, testar, discutir!

Espero no entanto ter deixado, suficientemente explicadas e fundamentadas, as razões centrais para a escolha de um conjunto sensível, ferrador e maleável em luta; adequado a peixe maiorzito!

Quanto a análises, dúvidas, discordâncias... A zona dos comentários é para usar!

Esta entrada, arrasta-se desde o início do mau tempo e eu com ela, certamente necessitarei do Vosso apoio para a completar. Enquanto isso não acontece...

Uma boa noite a todos os leitores!