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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Era uma vez... um acidente de percurso


A foto que inicia esta entrada, corresponde a uma das últimas pescarias possíveis e decentes, realizada no dia 31 de Setembro passado, entre outras duas, respectivamente 30 do mesmo mês e 1 de Outubro... lá chegaremos.

O relato já vem tardio mas, num intervalo desta vida de reformado estranhamente ocupada, ao olhar para esta imagem e outras que colocarei mais à frente, recordei-me do meu percurso ligado à pesca e ao mar e de alguns acidentes que certamente contribuíram para as minhas aprendizagens nesta área e que constituem histórias, hoje, mais ou menos hilariantes, sendo que na altura nem tanto.
Por tal e antes de vos relatar estas últimas pescarias, permitidas talvez pelos ensinamentos retirados de sucessos, insucessos e outras peripécias, vou-vos contar a história do tal... acidente de percurso.

Estávamos no Inverno de 1979, quando um iniciado nas lides da Caça Submarina, na punjança dos seus quase 25 anitos, na companhia de mais seis companheiros, rolava de armas e bagagens em direcção a terras de Porto Côvo, preparado para fazer figurinhas idênticas às visíveis na imagem abaixo, preparatórias de qualquer saída para o mar nos tempos que corriam.  


Porto Côvo era nessa altura uma vila, não sei mesmo se uma aldeia, ainda não cantada pelo Rui Veloso.
Uma rua central, mais duas para cada lado, homens do mar e do campo, por aqui e por ali, olhando estes forasteiros que passavam com os "borracheiros" atrelados, ou em cima de carros de idade avançada e qualidade duvidosa, percorrendo o caminho para a praia dos pescadores onde se sabia descarregariam, montariam tudo e se fariam ao mar na procura dos Sargos, Robalos, Douradas...

Simpatizavam connosco? Tinha-se a sensação de que... nem por isso.

Os "borracheiros", eram os barcos que existiam na altura, com flutuadores, paneiros de madeira ou alumínio, mais tarde substituídos pela fibra, dando origem aos semi-rígidos que começaram a aparecer timidamente pouco tempo depois.

Os equipamentos nada tinham a ver com os actuais... fatos rijos que deixavam circular água e que gelavam, em pouco tempo, qualquer um que se desinteressasse e parasse de dar à barbatana, Barbatanas Super Jet Fin, da Beuchat, pesadas, embora o supra sumo da altura.
As armas, essas já com qualidade, também da Beuchat, as famosas Marlin, em tamanhos diversos.

Era uma azáfama... chegávamos, descarregávamos o material, o barco, o motor, montávamos estes últimos e, ao ombro, entre todos, lá colocávamos a embarcação junto à linha de água, voltando atrás para buscar caixas, armas e restantes acessórios, os quais após arrumados no barco, nos deixavam a postos para sair mar dentro.

Outra realidade muito diferente dos dias de hoje tinha a ver com as previsões meteorológicas... calculava-se que o tempo estava bom, considerando os dias anteriores, o que se dizia e dicas de algum conhecido da zona onde se ia caçar, mas na verdade nunca se sabia ao certo se conseguiríamos sair para o mar ou como voltávamos para terra... se a bem ou a mal!? Principalmente em zonas de mar aberto, como era o caso.

Considerando, as condições referidas, corriam-se riscos que hoje só corre quem quer, mas como se não bastasse, os barcos eram poucos, o dinheiro não abundava, sendo necessário um número de cabeças que pagasse as despesas e, por vezes, o número de caçadores por barco excedia obviamente o espaço e potência oferecidos por este, o que se verificou neste dia de que reza a história.

Aconteceu então que éramos sete a bordo, os quatro donos do barco, já com uns anos de caça largos e três convidados com pouca experiência, eu incluído.

Em termos de estratégia decidiu-se que em vez de entrarmos todos no barco a partir do porto de pescadores, o grosso de nós entraria na praia frente à Ilha do Pessegueiro, poupando assim alguma navegação, já que se pensava ir pescar, algo longe, para as baixas do Malhão, onde duas ou três semanas antes tínhamos conseguido, com menos pescadores (5) a quantidade de capturas que se vê na foto abaixo:


Assim pensado, dois dos donos do barco saíram para o mar em direcção à praia da ilha e todos os outros se transportaram nos carros para o mesmo local onde encheram o barco e mar com eles. Até aqui tudo bem, mal grado um aumento do vento e da vaga inesperados que entretanto se tinham começado a sentir.

O barco navegava, pesado, com os seus sete passageiros, as condições de mar e vento agravavam-se e, sensivelmente à frente da Praia dos Aivados, os companheiros donos do barco pararam para analisar a situação sugerindo que, devido às condições, que não estando más se evidenciavam difíceis para que fossemos todos até às baixas do Malhão, seria melhor que nós, os três novatos, ficássemos por ali a caçar que eles quando viessem nos recolheriam, sendo assim mais fácil e produtivo para todos, já que nos largariam numas baixas jeitosas de peixe que conheciam por ali.

Sinceramente, não me agradou e soube logo a seguir que aos meus companheiros de desdita também não, mas enfim... não quisemos estragar o dia aos donos dos carros e barco e a praia até nem era longe, pelo que colocámos os materiais suplentes nas bóias, mandámos tudo para dentro de água e lá ficámos no meio do mar, enquanto o barco se afastava com leveza.
Restava-nos dar com peixe e, talvez até, fazer uma pescaria razoável... mas o pior estava para vir.

Começámos a procurar peixe mas, na verdade, as supostas "baixas jeitosas", de jeitoso nada tinham... areia e mais areia, num deserto completamente desconhecido para nós, entretanto agitado, já que o mar e o vento continuavam a crescer sentindo-se cada vez mais a vaga que por estarmos em zona baixa já partia por aqui e por ali, levantando areia do fundo e fazendo-nos juntar, falar sobre o assunto e concluir que melhor seria optarmos pela segurança, decorrendo de tal decisão nadarmos juntos e procurar terra firme... a Praia dos Aivados mesmo ali em frente, embora a uma distância considerável.

Lá fomos nadando, levando cacetada da vaga que partia cada vez mais até nos fazer rolar sobre as lajes já muito perto da praia onde nos sentimos aliviados por chegar a salvo, à excepção de um ou outro corte no fato, seguido de arranhadela e uma ou outra peça de material perdido.
E agora, que fazer?

Ficar por ali não era solução, pois o barco não nos poderia recolher devido à vaga, optámos então por carregar com o material e ir a pé até à Praia da Ilha do Pessegueiro, onde estavam os carros, pensando esperar lá pelos outros que certamente calculariam o que teria acontecido quando vissem o estado do mar e não dessem connosco onde nos largaram.

O vento era de NW, naquele Fevereiro frio, fatos vestidos, material às costas, cintos de chumbo à cintura, onde menos incomodavam e vá de caminhar, assando as curvas das pernas do contacto com os tecidos molhados dos fatos, numa caminhada que não parecendo muito grande ainda demorou bem mais de uma hora, onde não se pouparam alguns impropérios em direcção aos fulanos que supostamente pescavam à séria nas baixas do Malhão.

Finalmente... chegámos, largámos os materiais no chão e vá de deitar na areia pensando que sem chaves dos carros, se tirássemos os fatos e nos lavássemos na água salgada, não nos poderíamos limpar e trocar de roupa, pois esta estava nos carros e o frio não era para brincar, obrigando-nos até a mexer mesmo com os fatos vestidos.

As horas foram passando, o mar não estava melhor e, mais cedo que o esperado, vimos o barco a aproximar-se para largar o mais perto da praia possível os condutores dos carros que teriam depois de nos levar e ir buscar os que levariam o barco para a praia dos pescadores em Porto Côvo, mas a coisa ainda não tinha terminado...

Estávamos tão incomodados com os fatos vestidos que assim que vimos o barco perto, fomos para a água, despimos os fatos e vá de nos lavarmos, contando que rápido teríamos os carros abertos, as toalhas à mão e roupa quente e confortável em cima dos nossos corpinhos, na hora tão maltratados, mas não!

As caras dos donos dos carros, logo que chegaram à praia, indicavam que algo tinha acontecido.

Contaram-nos então que, embora tivessem alguns Sargos, pouco tinham caçado, pois uma vaga tinha empinado o barco enquanto fundeado e atirado com tudo à água, sendo que passaram mais tempo a tentar recuperar todo o material do que em acção de caça e, pior que tudo, uma das coisas que não conseguiram recuperar tinha sido precisamente a chave do Fiat 127, aquele onde estava a minha roupinha.

Estão a ver aqui o vosso amigo, todo nu, em Fevereiro, com um frio desgraçado, de olhar incrédulo, a ouvir esta conversa depois de tudo o que se tinha passado...

Olhei para o dono do carro e disse-lhe: nem penses que vou tornar a vestir o fato e muito menos que vou ficar assim!

Fui-me à janelinha traseira do Fiat 127, aquelas que se abriam para o lado, e perante o olhar meio desconsolado, meio indeciso do seu dono, meti-lhe a faca de caça submarina, descolei-a, tirei a minha toalha, a roupinha e depois de confortavelmente vestido, proferi alguns "insultos amigos", do tipo se fossem para aqui e para ali, e fui à "reunião de resolução", onde ficou decidido que iríamos ao restaurante Cácome que nos confeccionaria os poucos peixes capturados para o jantar e eu e outro ficaríamos em Porto Côvo aguardando que fossem a Setúbal, no carro com chave, buscar a chave do 127 para nos virem buscar.

Resultado... eram quatro da manhã quando nos apanharam, a dormir na praia dos pescadores, frente a uma fogueira, meio anestesiados, tanto do frio, quanto por uns canecos a mais que nos fizeram aguentar a coisa.

Moral da história... decisões repentinas e mal pensadas, pagam-se por vezes caras, principalmente quando olhamos unicamente para o objectivo, tendo muito pouco em conta o processo para o atingir. Desta vez até pagámos barato e hoje em dia dá para rir, mas as hipóteses de consequências graves estiveram presentes em percentagens altas.

Certo é que o que não nos mata pode tornar-nos mais fortes e tudo indica que assim foi.

Depois disto nunca mais me meti em molhadas e passei a olhar para as saídas com outro sentir, pensando que mais vale não ir do que arriscar situações idênticas e considerando também que muitas vezes não são os mais experientes quem tem melhor cabeça para decisões, nomeadamente quando os mais experientes evidenciam sinais de excesso de confiança... um perigo!

Na altura não me passaria pela cabeça, estar um dia a escrever sobre isto e muito menos ter um barco, geri-lo, ir à pesca e geri-la, mas esta é uma das histórias de que me lembro quando sinto estar a facilitar em certas questões, normalmente as relacionadas com relações entre companheiros, segurança a bordo, objectivos e processos para os atingir.

E as coisas vão correndo razoavelmente bem, principalmente quando vou pescar, coisa que ultimamente não tem sido frequente, pelo que, como referi no início desta entrada, vos deixo um pequeno relato com as últimas capturas que acho válidas.

O Pargo com 3,800kg, de dia 30 de Setembro:


A caixa do mesmo dia, com mais alguns Parguitos e os Sargos que foram uma constante nos três dias:


Na foto de abertura, têm o Pargo de 4,915kg, de dia 31 de Setembro que foi acompanhado de outros dois mais pequenos e também de Sargos com fartura.

Finalmente a Dourada maior de dia 1 de Outubro, com 2,500kg...


... acompanhada por vários Sargos deste calibre...


... e também por outras quatro Douradas mais pequenas, como se vê na caixa do dia:


Estas pescarias foram todas conseguidas, a 32 metros de profundidade, numa zona de pedra rasa e entralhados e enquadraram-se perfeitamente nos comportamentos dessa zona de pesqueiros face à época do ano, embora no seu limite, deixando indícios de normalização tendo em conta as análises feitas na última entrada.

A isca mais usada, senão única, foi a sardinha à posta, meia e inteira.

A técnica mais produtiva foi ao fundo, com dois estralhos compridos e anzóis 4/0 a 6/0.
A chumbadinha capturou um único Pargo pequeno, não querendo com isto dizer que em condições mais favoráveis (maior profundidade e com aguagem), não se evidenciasse rainha. 

Ainda considerando a última entrada e tendo em conta os presentes resultados, parecem diluir-se, algumas dúvidas quanto ao comportamento dos pesqueiros, mas subsistem as relacionadas com a frequência de pesca, atendendo a que para além da manutenção anual do barco, ainda não consegui pescar outra vez.

Esperemos que as coisas normalizem... até lá, uma boa tarde a todos os leitores.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Histórias de Cabo Verde


O Pontão de Santa Maria do Sal, onde tudo acontecia e penso... deve continuar a acontecer!?
Não havia vivalma, habitante ou visitante desta zona da Ilha do Sal que não arriscasse uma visita a este local, mal-grado as hipóteses significativas de cair num dos muitos buracos que existiam nas madeiras que o formavam, desgastadas pelo mar, o vento, os pesos de pescadores, turistas, compradores de peixe, miúdos que fazem dali o seu parque infantil mergulhando ou pescando nas águas cristalinas e ajudando todos os que chegam na amanha do pescado... Atuns, Dourados, Serras (Woahoos ou Cavalas da Índia), Veleiros..., sei lá!? Tanta coisa deste tipo que por lá vi, quer nos dias em que fui pescar, quer naqueles em que o meu peso contribuiu unicamente para o desgaste das madeiras. Uma delícia!
Não sei ao certo se ainda é assim, mas se não for... é uma pena!

Pois é... já devem ter percebido que estou de sequeiro e vem aí história!? É verdade!

Esta é uma das que há muito quero contar, pelas experiências de pesca e pelo estado que mais gosto de atingir quando vou para, ou a qualquer local... fazer parte!

Por duas vezes lá estive; na primeira, com a família e amigos, apaixonei-me, usufrui e comecei a fazer parte; na segunda, fui só... posso no entanto afirmar perante vós que não me sentiria mais à vontade se estivesse na minha casa.

E, boa gente, posso ainda dizer-vos que deixei por lá uma boa parte de mim, assim como, trago sempre em algum cantinho a saudade daquela terra e daquelas gentes. Mas deixemo-nos de lamechices e vamos à história!

Corria o ano da graça de 1995, quando nos juntámos eu e os meus amigos, Eduardo e Adalberto, com as respectivas famílias e voámos para aquela terra que se verificou ter tanto de inóspito na sua paisagem, quando de viçoso nas suas gentes.
Não fomos para hotéis conhecidos ou da moda mas, através dum conhecimento dos meus sogros que são de Angola, para uma pensão, a Mar et L'Eau, mais conhecida pela nome da sua proprietária a D. Xia, mulher de luta, conhecedora da sua terra e habitantes e que nos recebeu de braços abertos, assim como os seus colaboradores, o António e o Kalu, não tardando a sermos uma família, participando em todos os acontecimentos que se foram desenrolando ao longo dos 15 dias que por lá estivemos.
Lembro-me como se fora hoje da nossa chegada, às 05.00 da manhã, com uma temperatura para calção e manga curta e com a Dona Xia ainda a pé, à nossa espera, oferecendo-nos de pronto um café do Fogo, questionando-nos sobre o que esperávamos das férias e dando-nos indicações sobre as instalações e hábitos da pensão que era também a sua casa.
Não me contive e, ainda de noite, fui tomar um banho na praia em frente, numa água cuja temperatura deveria rondar os 23/24º C.
Lembro-me também da nossa partida, em que lágrimas sentidas correram de todos os olhos, como não acreditando os respectivos cérebros que fosse possível tal separação. Como se criam tais laços em tão pouco tempo? Só mesmo entre gente que se sente a fazer parte.

Enfim... lembro-me de tudo... os jantares; a música e a dança sempre presentes; a praia, os passeios a satisfação de todos os que mergulharam e, deixei-a para o fim por razões óbvias..., a pesca!!!

Não gosto de me sentir turista e não era de forma alguma a minha vontade sair naqueles barcos de Big Game e tal... queria a coisa real, queria estar com aqueles que lá vão todos os dias, pescando artesanalmente para comer, e, com eles partilhar o mar e a pesca. Como o meu amigo Bruno no seu barco "PANDURU", assim baptizado em honra do jogador do mesmo nome que na altura defendia as cores do Sport Lisboa e Benfica, clube do qual era sócio e adepto incondicional.

Apresento-vos o meu amigo Bruno e o seu "PANDURU"...



... um barco de 5,50 m, em madeira, onde nada de essencial faltava para a pesca de qualquer dos peixes - Atuns, Esmoregais, Dourados, Serras, Veleiros..., - nem o saber deste homem que do mar vivia e penso ainda viverá!?

Ali está... encostado ao Pontão da Ilha do Sal, após descarregar as capturas do dia que, fazendo as delícias de quem por lá andava, de imediato desapareciam numa forma de negociação também supostamente artesanal, discreta e que nunca percebi, nem com tal me preocupei.

Foram dias inesquecíveis, durante os quais aprendi como fazer, respeitando e aprendendo a pesca do Bruno, assim como aprofundando laços de amizade, com ele e amigos, cujos desenvolvimentos se verificaram na minha segunda visita a esta terra.

Durante esta primeira vez, o melhor exemplar que me calhou foi este Dourado que, cozinhado pelo Kalu na pensão da D. Xia, alimentou todo o pessoal da casa.


 


O horário a percorrer nos dias em que havia pesca era, no meu sentir, algo de fabuloso e perfeitamente enquadrado no quotidiano familiar e do grupo, sem afectar ou limitar outras vontades! Ora vejam:

Por volta das oito da tarde jantava-se, sempre com música a acompanhar; seguia-se para a dança até perto das quatro da madrugada, por aqui e por ali. A esta hora a maioria dos corpos precisava descansar, rumando para a deita, enquanto eu e por vezes o Eduardo, vestíamos a roupa da pesca e calcorreávamos o caminho para o Pontão da Ilha do Sal, onde nos encontrávamos com o Bruno e seguíamos para o mar, raramente calmo, buscando os peixes e voltando pelas onze da manhã, hora limite para que o valor do peixe não baixasse devido à exposição ao calor. Nesta altura, ajudávamos o Bruno a descarregar as capturas, íamos beber umas cervejas os três e encontrar a família na praia, onde pairávamos por um bom bocado até às duas da tarde, hora de comer alguma coisa e fazer uma sesta, fugindo do calor e recuperando forças para iniciar o horário das 24 horas seguintes. Digam lá se não era um bom horário!?

Os dias passaram nesta calma irresponsável até à hora de dizer adeus à Ilha, ao pessoal da D. Xia, ao Bruno e à pesca, ficando a intenção de voltar, bem fixa nas nossas mentes. Era só esperar o dia!?

Mantivemos o contacto, alguns amigos meus de Setúbal chegaram a lá ir, por minha indicação, pescar com o Bruno e trazendo-me notícias, mas o certo é que não via forma de lá voltar; umas vezes, pelo tempo ($) que me faltava, outras, pelo trabalho que me sobrava. Até que, no Natal de 1997, tive uma das melhores prendas de que me lembro... a minha mulher e a filha, ofereceram-me um bilhete de bom preço para lá ir no Carnaval seguinte (1998). Nem queria acreditar!?

Após colocação dos pés em terra por tal surpresa, era hora de me organizar, contactar o Bruno e lembrar a pesca que ia fazer, agora com conhecimento de causa. Lembrei-me dos materiais necessários, caros por lá e por vezes difíceis de encontrar, ao contrário de cá, onde eram muito mais baratos e fáceis de adquirir. Era hora de contribuir com algo mais que amizade, embora tal não me fosse solicitado. O certo é que, quem não seja parvo de todo e observe, sabe o que poderá fazer falta.

Após informar o Bruno da decisão e de me aperceber da sua alegria e entusiasmo por tal facto, a memória começou a devolver-me imagens... do barco, dos materiais e de toda a acção de pesca, como se a tivesse vivido no dia anterior mas, para já, era preciso lembrar e adquirir os materiais.

As linhas, para pescar à mão, eram de meada. Começavam em diâmetro 120 e acabavam numa ponteira de 90 onde directamente se empatava um único anzol, daqueles nacionais, tamanho 20 e maior.
As meadas eram colocadas em enroladores, parecidos com este...

... de madeira pesada, cujo cabo teria uns 15/20 cm de comprimento e a zona de enrolamento de linha andaria pelos 40, com 25 de largura. Tudo com uma espessura de 2/3 cm... uns monstros!

A linha de 120 funcionava como madre, onde era feita uma alça que se apoiava no cabo do enrolador e sobre a qual se enrolavam uma ou duas meadas de 100 metros, sem apertar, aplicando-se no final, através de Nó de Barril, uns 20 metros de 0,90. Não se amarrava ao corpo do enrolador, porque nunca se sabia se o peixe que lá cairia não levaria a linha toda o que, prevendo-se pelo arranque inicial, permitiria ligar a tal alça a um cabo suplementar entrançado à mão e mais grosso que sempre jazia pronto num açafate próprio. Neste caso o enrolador ficaria liberto e a linha continuaria a sair até que o peixe em causa permitisse o início da contenda. Justificado está o tamanho e peso dos enroladores, assim como o pormenor de não apertar muito a linha, no sentido de facilitar a sua saída quando o peixe se ferrava e dava o primeiro arranque. Mas lá chegaremos.
Continuando no material, não poderia esquecer-me da preparação da pesca que começava na captura da isca - Carapaus e Cavalas - os primeiros, servindo de engodo e isca morta e as segundas, normalmente iscadas vivas.
Para a captura destas iscas, acção que se desenvolvia a caminho do pesqueiro, o Bruno usava anzóis nacionais, 10/12, em cuja haste aplicava fios de lã brancos para o Carapau e vermelhos para a Cavala, referindo no entanto que nós tínhamos cá no burgo aquelas pesquinhas já feitas que funcionavam melhor que as dele, o que se tinha revelado tendencialmente verdade.
Claro que, para além de várias meadas dos tamanhos referidos, equipei-me também destas tais pesquinhas e de todo o tipo de anzóis mencionados, em quantidades que ultrapassaram fortemente as necessidades de uma semana de pesca.
A cana e o carreto que também por indicação do Bruno deveria levar, pois na ida e na volta para o local mais quente de pesca, sempre se corricava e eram mais confortáveis que a linha de mão. Estes já estavam preparados, assim como algumas amostras para o efeito, nada de muito complicado, pois a acção de pesca decorreria essencialmente no sistema de barco fundeado, baixadas perto da superfície com isca e engodagem contínua.
Sentia-me preparado, o dia nunca mais chegava, mas gozava esta espera, passando mentalmente em revista as pessoas, as comidas, a música, as noites quentes, o mar, os materiais, a acção de pesca, os peixes, a roupa de pesca e a outra leve e fresca para levar..., enfim, aquilo que sabia ir encontrar e a simplicidade das necessidades, tudo ainda tão vivo na minha memória.
Nesta altura, só um pormenor estava ainda por resolver... não tinha alojamento! A pensão da D. Xia, por férias ou ausência da própria, estava encerrada e o Bruno é que andava à procura, confessando-me que não estava fácil, pois andavam por lá muitos surfistas e estavam a ocupar tudo, ao que lhe respondi: "durmo na praia, não tem problema"! Riu-se muito, retorquindo que alguma coisa se havia de arranjar e o certo é que, a dois dias da partida, já tinha um quarto só para mim, com chuveiro e casa de banho, quase no centro de Santa Maria. Melhor assim... tudo estava a postos!

Sábado antes do Carnaval de 98, pelas 20.00 horas, um fulano de bigode com uma mala e um tubo comprido, é largado nas partidas do aeroporto de Lisboa que percorre até ao Check-in, efectuando-o e aguardando a hora de entrar no avião para a Ilha do Sal, com a cabeça cheia de peixes, mar, música e evasão, observando outros passageiros para outros destinos ou quem sabe para o mesmo e pensando para com os seus botões: "será que estão tão felizes quanto eu". Não sei descrever melhor!?

A viagem de mais ou menos quatro horas, terminou às quatro e tal da manhã de Cabo Verde, no aeroporto de Espargos, a capital, onde assim que saí a porta do avião senti o ar quente e o sempre surpreendente cheiro a ilha, onde se entrecruzam os odores da terra seca com a humidade do mar, contrastando significativamente com o frio que se fazia sentir à partida de Lisboa. Tudo como era esperado, até o Bruno que me apareceu com o cumprimento habitual... "tud'ereto", assim cheguei ao edifício principal, já com o táxi que nos levaria a Santa Maria, local onde se escreveria a restante história.

Esta última etapa decorreu cheia de conversa, sobre como está este e aquele, a família, a pesca, o barco... mais história daqui... dali... lembrança dacolá. E... oh Amarelo, nome como me costumava tratar derivado do cabelo arruçado em época de Verão, "tás cansado ou ainda vamos beber umas Klebs"(marca de cerveja de Cabo Verde)?
Claro que vamos, qual cansado, qual carapuça!?

Já se sabia que o Domingo não teria pesca... a hora de chegada já não o permitia atendendo ao horário normalmente praticado pelos profissionais, mas coisa que eu não tinha era sono, a companhia era boa, só havia que curtir, logo faria uma sesta. Importante mesmo é que já lá estava, tinha conversa e garganta seca.

O quarto era singelo, mais que suficiente e, melhor que tudo, para além de estar perto do centro, estava afastado de folias e mesmo ao lado duma das melhores tascas de petiscos do Sal: "Os Bons Amigos". Comida e petiscos feitos na hora, donde se destacavam: o porco frito, os pastelinhos de Atum, a cachupa e outras comidas caseiras que faziam as delícias essencialmente dos locais, pois turista não andava muito por ali. Perfeito!!!

Como dizia o Bruno: Tu não és turista... és Português!

Já só faltava a pesca... mas não perdia pela demora! Enquanto a aguardava, fui relembrando o barco do Bruno, típico e fabricado como tantos outros para pescadores profissionais, diferindo no nome e na cor.

Cinco metros e meio de comprimento, perto de dois metros de boca, construído em madeira e com paneiros do meio para a popa, já que quem pescasse à proa teria de colocar os pés em cima das travessas, sob pena de descolar alguma tábua e fazer entrar quantidades de água, cuja "bomba", um bartedouro construído a partir de um garrafão de água de cinco litros, dificilmente conseguiria escoar antes do iminente afundanço.
A propulsão era feita por um motor Yamaha Enduro de 15 CV, a dois tempos, usado até à exaustão e cujas velas, não raramente, tinham de ser trocadas de noite, em mar aberto, com o motor em cima dos joelhos, por outras também já usadas, quando o dito se negava a trabalhar. Valia o grupo, pois a maioria dos profissionais percorriam os mesmos rumos para locais de pesca cujas distâncias entre eles permitiam perceber quando alguém precisava de ajuda e aí, ninguém ficava no mar.

Importa ainda realçar outros pormenores:

Um depósito de isca viva era instalado de raiz, construído em cimento e forrado a madeira, aplicado no centro do barco, sendo que a circulação de água se fazia através dum furo no centro do casco, orientado para a proa que, quando em movimento, fazia a água entrar por baixo, acabando por sair por um furo lateral, mais alto, na amura, assegurando assim a saída de água quando esta atingia altura para tal, assim como evitando uma possível inundação a bordo.
A foto que se segue, embora de qualidade suspeita, permite talvez dar uma ideia da coisa, vejamos:


Chamo a atenção para o depósito de isca viva, aquele quadrado, ao centro!
Outros pormenores, não menos importantes, como o ferro de fundear, aquela pedra enorme que se encordoava, amarrava ao cabo e borda fora com ela. Problema era levantá-la, não tanto pelo peso, mas pela resistência que fazia à água.
Outros materiais, como o cacete para tirar teimas a peixes mais difíceis ou o cabo em madeira onde se aplicava uma pequena ponta afiada amarrada com cabo de aço e que servia para arpoar peixes à superfície, com engodo, o caso dos Serras.
Enfim... tudo muito simples e extremamente funcional ou não o seja quase tudo o que é simples!?

Com tudo isto passaram horas e o momento tão esperado chega quase sem se dar por ele... são 4.30 da madrugada de Segunda Feira, encontrei-me com o Bruno no caminho, transportando o carrinho de mão onde se deitam o motor, o depósito de combustível, o cabo e os remos do barco; tudo o que tendencialmente poderia desaparecer se lá ficasse de um dia para o outro. Chegamos ao início do pontão, coloco-me atrás dele que já tem mais que decorado, o caminho em torno dos tais buracos que mal se vêem na escuridão e faço também eu por perceber onde se encontram, o que virei a conseguir ao terceiro dia, depois de duas noites e dois dias dando os mesmo passos. Lá estão todos... alguns já conheço, outros nem tanto, surgem sorrisos aqui e ali, conversas em Crioulo que não percebo. Sei que comentam sobre o que faço por ali, mas ainda é cedo para fazer parte. Antes terei de merecer confiança pois para alguns não passo ainda dum turista. É dar tempo ao tempo, pescando, conversando em cima de jornada feita, comendo e bebendo, tagarelando histórias, umas de cá, outras de lá... até que me aceitem como pescador e possa vir a tirar a foto abaixo, na Quinta Feira, em que todos já olhavam para mim, ora como o Português,  ora como Ernesto.


Nesta altura, já falo com toda a gente e rimos disto e daquilo, como o caso daquele homem que se vê de costas com chapéu branco de pala vermelha, compadre do Bruno, a quem trato por "compad orelha", assim como ele a mim, atendendo a brincadeiras relacionadas com os nossos pavilhões auriculares de tamanhos superiores à média e que, não raramente, eram mote de brincadeira entre nós.
À concentração matinal, seguiam-se os preparativos para a saída que começavam por ir buscar os barcos poitados na baía, algo que ficava normalmente a cargo de alguns miúdos. Depois, era descer toda a palamenta: remos, caixas, depósito de combustível e... o motor. Esta a tarefa de maior responsabilidade e atribuída unicamente a alguém fiável, pois o dono do barco sentava-se na popa e aguentava o barco junto ao pontão, o motor era descido contando com a vaga, guiado pelo dono do barco até ao painel de popa e apertado rapidamente, não fosse o diabo tecê-las. E porque conto isto? É simples caros leitores... nesta Quinta Feira, para espanto meu, do irmão do Bruno, o Luís que connosco ia também pescar e de outros presentes; o Bruno, após estar no barco, grita-me: Ernesto... amarra o motor e desce-o que já estamos atrasados.
Não pensei muito, amarrei o dito cujo, larguei-o para o vazio sustendo-o e baixando-o em seguida, dando desconto à vaga e permitindo que o Bruno o encaixasse e apertasse com a normalidade esperada. Depois, caí em mim... esta tarefa nunca se pedia a qualquer um... já fazia parte!


Todos os dias desta semana que lá estive foram muito bons, mas esta Quinta Feira foi soberba... por tudo... mar bom; isca capturada com fartura; brincadeiras de barco para barco, já ao raiar do dia; exemplares capturados; e, até o Bruno zangado comigo por no final da jornada eu não querer aceitar dinheiro da venda do peixe. Só me faltava casa em Santa Maria do Sal, de resto... já tinha muito!

Mas vamos à acção de pesca que se repetia jornada a jornada.

Saía-se ainda de noite e, após chegar à "Marca dos Carapaus", considerando caladores dados pelas luzes de terra, parava-se o barco, lançavam-se pescas de mão com madre de 0,60 e baixada de 3 estralhos, para aí de 30/35 cm de comprimento, empatando anzóis nacionais decorados na haste com fios de lã branca e, finalmente, a chumbada, feita de troços de ferro de construção, variando peso conforme a deriva do barco. Acenava-se a partir do fundo, procurando os Carapaus (Olho Largo, como lhes chamavam) na coluna de água, atirando-se estes com fervor ao branco das linhas de lã e enchendo o açafate aos saltos...  a isca para engodar e iscar, essencialmente morta, já ali estava!


Era hora de andar mais uns dez minutos e repetir o mesmo para capturar a isca viva... Cavala!
A única diferença estava na decoração das hastes dos anzóis, que passava de branco a vermelho. Destapava-se então o tubo que permitia que a água entrasse para o depósito de isca viva, assegurando vida mais longa às cavalas e que de imediato se taparia logo que o barco parasse, por razões que parecem óbvias.

Isca pronta e rumo ao local de fundeio, a zona quente onde sempre se esperavam as capturas pretendidas... Atuns, Serras, Esmoregais (tipo de Xaréu) e quem sabe outros maiores!?

Durante esta última fase da viagem que, no total, não ia além das 2/3 milhas, era tempo de corricar, cabendo-me fazê-lo com a cana e o carreto próprios que tinha levado por indicação do Bruno - cana Penn Senator e carreto da mesma marca, ambos de 50 libras - umas vezes capturava-se, outras nem tanto, mas no computo dos seis dias, usando o corrico, ainda entraram dois bons Serras e dois Atuns pequenos.

O Sol já nos sorria quando chegávamos ao local de fundeio onde, com afastamentos significativos, se viam todos os outros barcos que tinham partido à mesma hora do Pontão da Ilha do Sal também fundeados.

Largava-se a pedra já preparada para servir de ferro e enquanto o barco se fazia ao fundeio, preparavam-se os enroladores, normalmente 4, cada um com um único anzol, sendo que 3 (um por pescador) eram iscados com isca morta, tiras de Carapau cortadas em diagonal e iscadas entre a pele e a carne, tapando o anzol e, um com isca viva, Cavala, iscada pelo lombo.
As pescas eram lançadas à mão pelos bordos do barco, ficando a diferentes distâncias e consequentemente profundidades por vezes aumentadas com pequenas tiras de chumbo apertadas à linha com as mãos ou os dentes. A pesca com a Cavala viva era atirada para mais longe, evitando assim que se embaraçasse com as outras devido aos movimentos da Cavala.

Após lançadas, as linhas eram entaladas em pequenas fissuras, feitas à faca, na madeira da parte interior da borda do barco, sendo que o peixe, ao engolir a isca e fugir, era ferrado pela oposição proporcionada pelo desentalar da linha, o que acontecia com algum estrondo da madeira, substituindo assim, em simultâneo: a ferragem e o barulho da carraca do carreto. Só mesmo vendo... um espectáculo!

Linhas em acção de pesca e eis que se iniciava a engodagem de superfície, normalmente a cargo do Bruno.
Os Carapaus iam sendo cortados em pequenos pedaços e lançados ao mar em várias direcções, com um pormenor interessante nos lançamentos iniciais de engodo que por vezes se repetia noutras engodagens ao longo da jornada, caso não se estivesse a capturar.


Cá vai o pormenor interessante: para perceber se os Atuns andavam a comer na superfície, o Bruno, após cortar um Carapau inteiro e ficar só com a cabeça, retirava de uma placa de esferovite, um pequeno pedaço que introduzia através do olho, atirando-a para longe, ficando esta a boiar. Em seguida, lançava uns quantos pedaços, anteriormente cortados, de forma que caíssem em torno da cabeça. Neste momento todos parávamos para observar, sendo que muitas vezes, numa estocada rápida, algo a comia, desaparecendo de imediato e merecendo do Bruno o seguinte comentário: "os gajos estão aí e vêm comer cá acima...", seguido normalmente da atenção redobrada de todos nós sobre o comportamento das linhas. Suspense...

E então, se tudo corresse bem, a coisa dava-se!

De repente ouvia-se um estalo precedido de um pequeno ranger de madeira e a linha saía de um dos enroladores assentes no banco do barco, fazendo espirais tanto maiores, quanto maior a velocidade a que o desalmado fugia, fruto de sentir o anzol ferrado.
Quem fosse mais rápido ou estivesse mais perto, atirava-se ao enrolador agarrando-o pelo cabo com uma mão e seguindo a linha com a outra, colocando-lhe alguma pressão e tentando perceber o momento de dar luta ao bicho... normalmente quando este diminuía a velocidade da fuga. Nesta altura, já de pé, trancava-se a linha entre os dedos polegares e indicadores, estes protegidos com dedeiras, feitas a partir de câmaras de ar de bicicleta e mantendo as mãos afastadas, uma junto à cintura e a outra no limite do braço, mais forte e hábil, quase esticado. A partir daqui era hora de suar!!!

Começava-se a recuperar linha tentando as braçadas, sem nunca a enrolar em torno da mão para evitar ficar com as marcas que se viam em algumas mãos daqueles profissionais, provocadas por algum arranque rápido nessa situação e fazendo com que a linha cortasse fundo na carne. Tinha mesmo de ser com a pressão dos polegares e indicadores, sempre com a linha a fugir de vez em quando, molhada e escorregadia, tudo isto intervalando com alguma que se ia largando quando a luta a isso obrigava. Linha para lá... linha para cá, o bicho começava a dar sinais de cansaço e a descrever círculos, cabendo-nos saber quando recuperar. Normalmente, quando ao descrever o circulo se queria afastar, tentava-se aguentá-lo sem deixar sair linha, assim como, quando estava a descrevê-lo aproximando-se, era hora de recuperar as braçadas possíveis e assim sucessivamente até que se ia vencendo e se conseguia colocá-lo junto ao barco, à distância do comprimento do bicheiro que rapidamente lhe entrava pelo lombo e o encostava à borda, onde uma pancada seca do cacete, no sítio certo, permitia então subi-lo a bordo.

Estamos a falar de bichos que atingiram 40 e mais quilos, nesta Quinta Feira que quase me apetece qualificar de Santa. Isto porque ainda não eram 10.00 horas e já tínhamos capturado quatro deste tamanho, sendo que o Luís, irmão do Bruno, saltou com eles para bordo de outro barco que também já tinha uma boa conta, para rumar rápido de volta, pois quem mais cedo chegasse mais conseguiria pelo peixe, atendendo ao calor e à falta de meios de conservação do pescado.

Ficámos eu e o Bruno para continuar a luta na perspectiva de engrandecer um pouco mais este dia espectacular e profícuo. o que conseguimos com mais três bichos do mesmo quilate, antes de voltarmos à terra.

Aqui têm o Bruno com dois deles:


E chega a minha vez com o que me calhou nesta fase da pescaria, já de volta ao Pontão onde tudo acontece.


Assim que chegámos. lá estavam os gaiatos que de imediato amanharam os peixes, desaparecendo estes misteriosamente, como habitual, sem que olhos menos preocupados ou atentos a isso, se apercebessem como tal acontecia. Retiraram-lhes entretanto os buchos, limparam-nos e cortaram-nos para serem o nosso almoço, cozinhados à moda local, com arroz e picante qb. Tudo isto despertando a atenção de uns italianos que tinham ido pescar neste barco para turistas...

 

..., traziam dois Serras bebés e olhavam-nos com um misto de preocupação e não sei que mais!?

Mas isso não importava nada! Importante sim, era ir tomar um banho e seguir para o almoço de bucho de Atum... eu, o Bruno, o Compad Orelha e o Luís. Aí tagarelamos, falámos do dia, comparámos com outros, contámos histórias e bebemos cerveja como se não houvesse amanhã. Pois amanhã seria outro dia e nada nos fazia ter controlo sobre tal. Hoje que já uns anos passaram, penso que talvez a vida devesse mesmo ser assim... será que sim? Será que não? Não sei ao certo!? Mas que parece apelativo... lá isso parece!

A Sexta e o Sábado passaram a correr, arrumar tudo e voltar para Portugal, foi coisa que aconteceu rápido, muito mais do que eu gostaria.
Despedi-me do pessoal, pensando que não passaria muito tempo sem que voltássemos a pescar juntos, mas, na verdade, nunca mais nos vimos, nem nunca mais consegui voltar a Cabo Verde.
Amigos meus foram lá, pescaram com o Bruno, ainda trocámos uns telefonemas e uns escritos, mais tarde disseram-me que teria saído da Ilha do Sal rumando à Boa Vista, mas o certo é que nunca mais nos juntámos e há muito não contactamos.

Guardo todas as imagens e deixo-vos a mais importante... aquela da amizade que em tempos nos uniu e penso continuará a unir mal-grado as voltas da vida. Umas boas, outras nem tanto... é assim!


Forte abraço Bruno e amigos de Santa Maria do Sal ... onde quer que estejam!

A todos os leitores... uma boa noite enquanto espero por pescarias actuais que desvendem outros amigos, outras técnicas, outros relatos, outras histórias...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Conceitos de pesca, exemplares, regularidade de capturas... existirá uma relação?


Dia 4 de Setembro de 2011... olho o tabuleiro, ainda por lavar, onde tantos quilos de isca já foram cortados em formatos diversos e penso como vos vou falar das últimas seis jornadas, repartidas entre 25 a 28 de Agosto e 2 a 4 de Setembro.

Os amigos fizeram-me companhia, pescando comigo sempre em equipa... como gosto!
Os relatos destas jornadas, caso entendesse individualizá-los, dariam para outras tantas entradas, correndo-se os riscos de, por um lado, deixarem de ser oportunas; por outro, tornarem-se repetitivas; ou ainda, trazer às luzes da ribalta as capturas, deixando passar ao lado o que penso terem sido as razões que as proporcionaram, para mim muito mais interessantes que o acto isolado da captura, sem que se retire a este a importância devida enquanto objectivo principal e corolário de todo um trabalho anterior.
Considerando o referido, vou tentar realçar alguns conceitos nos quais me apoio e que vou tentando melhorar, suportando-me para tal nos resultados que vou conseguindo e divulgando.

Para complementar este pequeno périplo e no sentido de não cansar os mais atentos, enviá-los-ei em momentos que me parecerem próprios para consultas de outras páginas, por aqui existentes, onde penso existirem reflexões fundamentadas e explícitas sobre algumas das razões que apresentarei.

Em qualquer actividade em que entendamos iniciar-nos, tentamos programar tudo de forma a que esta se torne o mais positiva possível quanto aos objectivos que pretendemos atingir. Para tal, importa estudar  os melhores caminhos a percorrer, tendo por base o conhecimento relacionado que hoje em dia está disponível por excesso, e, praticar... praticar o máximo, tentando aprender com os erros, caso estes sejam identificados. Isto porque, por nosso desconhecimento, por informação mal entendida/prestada ou outras tantas razões, por vezes estamos a errar e nem nos apercebemos ou, pior ainda, fingimos que não vemos, porque dá trabalho, porque também há ao nosso lado quem faça o mesmo ou até por questões de ego.
Não se tenham dúvidas... quanto maior for o conhecimento na área em que nos movimentamos; o trabalho pensado que nela investimos; os melhoramentos que lhe fizermos; e, a abertura a outras  e/ou novas ideias; mais diminuímos a intervenção dos factores sorte e/ou azar nos resultados que pretendermos obter.

Sobre os conceitos que considero mais importantes, vou direccionar a reflexão para os seguintes:

1. O que penso relativamente ao comportamento do peixe

Os peixes grandes ou pequenos vivem no mar e, em algum lugar estarão activos, uns comendo os outros e estes fugindo e/ou alimentando-se como puderem, todos eles passíveis de se atirarem às nossas iscas!?
Se não consigo dar com eles e capturá-los o problema é meu e decorre normalmente de conhecimento insuficiente, discernimento inadequado em determinada época ou más escolhas no que respeita a timmings em determinado dia/hora, entre outros possíveis. Considero portanto que as razões de um qualquer insucesso estarão sempre sediadas na minha capacidade/incapacidade, desde que  os companheiros que me acompanham estejam a trabalhar em equipa comigo, quando em acção de pesca.
Para melhor me explicar sobre o que resumidamente aqui disse, aconselho a consulta da seguinte página: http://aminhapesca.blogspot.com/2007/10/hoje-no-h-peixe-uma-reflexo-9abril2007.html .

2. O tipo de zona/pesqueiro que vou seleccionar

Esta selecção terá sempre a ver com a relação: época do ano/profundidade/exemplares que se procuram. Isto é, se tento essencialmente o Pargo, em qualquer época, escolho beiradas de pontões altos, limpos e/ou entralhados, perto destes ou isolados no meio do nada; mais fundos, no Inverno e Primavera; e, menos fundos, a partir do fim desta, até bem dentro do Outono.
Caso procure Pargos e Douradas na época de concentração destas, já os resultados podem melhorar em zonas de pedra mais rija que se situem em cetombas pouco pronunciadas, para além dos incontornáveis entralhados ou limpos perto de pontões altos, talvez os melhores fundos em todas as épocas, independentemente da profundidade a que se pesque e no que à pesca embarcada em embarcação fundeada se refere, não tendo em conta a pesca de grande profundidade ao Goraz e Cherne, por exemplo, em que estes conceitos de pesqueiros sofrem alterações consideráveis.

Para melhor compreensão do que tenho em conta e o que faço relativamente à selecção de pesqueiros, aconselho a consulta, pela ordem colocada, das seguintes páginas: http://aminhapesca.blogspot.com/2007/10/procura-de-pesqueiros-1-parte-04fev07.html http://aminhapesca.blogspot.com/2007/10/c-estou-eu-outra-vez-para-continuar.html http://aminhapesca.blogspot.com/2009/06/descodificacao-de-termos.html#uds-search-results

3. Os cuidados para me manter na zona/pesqueiro eleito

A partir do momento em que acontece a selecção dum pesqueiro, num determinado dia, de uma determinada época, é por que se acredita que tal tipo de fundo, profundidade e sinais de sonda, formam o painel ideal para trabalhar o pesqueiro, mais ainda se os sinais dados pelos toques do peixe nas nossas iscas apontam para a actividade da bicharada, grande ou pequena que por lá anda.
Ora, tendo em conta que por vezes se sucedem intervalos de tempo significativos entre capturas dos exemplares procurados, assim como os sinais podem variar ao longo do dia; a pior coisa que nos pode acontecer é:
- Por sermos deslocados, por qualquer alteração de rumos de vento/aguagens ou soltar do ferro de fundeio, do que consideramos ser a zona quente, deixarmos de acreditar no pesqueiro e ficarmos sem entender se os intervalos entre capturas são os normais ou decorrem de alguma alteração de posicionamento, mesmo se os sinais de actividade sobre as nossas iscas se mantiverem. Se isto acontecer, o mais indicado será melhorar o fundeio, tendo em conta as novas condições de mar e vento, podendo assim continuar a acreditar na acção de pesca desenvolvida. Isto é o que sempre faço, salvo se a zona para onde fui deslocado não ficar muito afastada e mantiver a profundidade, as características de fundo e os sinais anteriores.

Para controlar continuamente o posicionamento no pesqueiro, importa ter alguns cuidados assim como alguma atenção aos sinais oferecidos e às capturas desinteressantes, como Bogas, Choupas e Sarguetas pequenas, Carapaus, Peixe-Piça e Ganopas.

Relativamente aos cuidados, devemos verificar, na Bússola, os graus a que estamos aproadas, sendo que desvios importantes, são indicadores de mudança de posicionamento que poderão ser ou não significativas.
Outro cuidado será tirar uma marca de terra, perpendicular ao posicionamento do barco proa-popa que nos permita verificar contínua e facilmente se o ferro está a ir à garra, o que por vezes pode não ser perceptível face a determinadas condições de mar e vento. Verdade que poderemos fazer o mesmo mantendo o GPS ligado, mas obriga-nos a deslocar várias vezes à cabine, para além de significar um gasto importante de bateria.

Relativamente aos sinais oferecidos pelas capturas desinteressantes, considere-se o seguinte:

Um pesqueiro que durante uma hora ou mais só nos dê Bogas, tem tendência a ser pouco produtivo, isto porque, mesmo apresentando uma qualidade de fundo assinalável, poderá estar numa zona fora da passagem do peixe que queremos. Já se às Bogas se vierem juntar Sarguetas, Choupas pequenas e um ou outro Carapau, a coisa, no que respeita a peixe maior, vai-se compor, quase de certeza!?
Umas quantas Ganopas no início da pesca... tudo bem! Mas, se ao fim de uma hora e tal de pesca, num fundo entralhado, em que já capturámos uns peixes de qualidade, nos surge num anzol uma Ganopa, é um fundamento suficiente para verificarmos o fundeio.

Dou-vos um exemplo vulgar, acontecido há poucos dias: estávamos a pescar nuns entralhados a 50 metros de profundidade, rodeados por pequenos pontões a 47, 46 e 48 metros, tínhamos tirado várias Douradas, uma Bica, um Sargo Veado e um Pargo com uns 4 kg, sendo que entravam um ou dois peixes e esperava-se quase meia hora até que entrassem mais um par deles, nisto entra uma Garoupa da Pedra (Ganopa), o que estranhei, atendendo a que, ou entram de início ou quando entram mais tarde podemos ter mudado de pesqueiro pois são muito territoriais. Abri a sonda e já não estava nos 50 metros mas sim nos 46 e o hiato de tempo sem capturas, sendo aceitável caso estivesse no entralhado aos 50 metros, já não o era em cima dos bicos em que nos encontrávamos. Em pouco tempo decidi-me pela melhoria do fundeio e as capturas de exemplares de bom porte tornaram à sua regularidade.

Ainda sobre os sinais, referindo-me agora ao Peixe-Piça, mais frequente quando se pesca muito perto das beiradas de pontões, será um mau sinal se durante muito tempo subirem, ferrados por aqui e por ali, sem qualquer entrada de peixe maior, possivelmente estaremos demasiado chegados à pedra ou os que queremos andam por outras bandas. Caso subam intervalados com exemplares maiores e ao fim de algum tempo só existam eles, melhor será verificarmos o fundeio, pode ter havido alteração de posicionamento.

Todos estes peixes a que chamo desinteressantes, são no entanto nossos amigos... por um lado, com o seu frenesim a despedaçarem as nossas iscas, criam vibrações e espalham sucos atraentes para qualquer predador que se preze e paire nas redondezas. Por outro lado, quando de repente param de comer iscadas enormes, ao minuto, dão-nos sinal importante da chegada de "alguém maior" eventualmente interessado neles ou nas nossas iscas.

4. O meu comportamento e dos meus companheiros em acção de pesca

O comportamento dos pescadores, em acção efectiva de pesca, deve adequar-se ao que se pretende capturar e aos sinais dados pelos toques, por sua vez indicadores do tipo de peixes que estão a comer e consequentemente do que ainda estará para vir. Importa portanto, para falar sobre este conceito, caracterizar os tipos mais importantes de sinais que têm estado na base de jornadas de sucesso e que arrisco dividir em três tipos, assim como, pronunciar-me sobre as reacções comportamentais a bordo, face a cada um deles. Ora vejamos...

Tipo A: O mais vulgar, em que, logo que se inicia a acção de pesca ou alguns minutos depois, os "gaiatos" comem que se fartam as iscadas enormes só de Sardinha e/ou de qualquer isca grande ou pequena que lá se coloque, em ataques trémulos, por vezes imperceptíveis, mas de uma eficiência a toda a prova no que a velocidade de gamanço se refere, só parando quando um dos maiores se aproxima, interessado neles ou na iscada que lá colocámos.

Uma jornada deste tipo, requer do pescador uma acção contínua, ininterrupta, física e psicologicamente esgotante, no que respeita à reposição de iscas, mantendo uma atenção constante sobre dois aspectos essenciais: um, perceber ao elevar a cana, a diferença de peso que indica ter ou não ter isca, repondo-a de imediato; outro, estar extremamente atento a paragens na roubalheira, normalmente indicadoras da entrada de peixe grande no pesqueiro. Não se tenham dúvidas... quem terá mais hipóteses de ferrar  mais e maior peixe, será aquele que mantenha durante mais tempo as iscas activas e também o que estiver mais atento; duas condições que com o passar das horas se tornam cada vez mais difíceis de manter.

Tipo B: Não tão vulgar como o anterior, mas acontecendo com alguma regularidade, principalmente quando, como tudo indica, os grandes já estão no pesqueiro. Neste caso, poitamos, iscamos, deixamos cair as iscas lá em baixo e nada. Nem um toque, nem uma mordida por pequena que seja. Espera-se por vezes meia hora, em que consultamos a sonda e continuamos a ver marcação interessante, assim como o mesmo fundo em que estávamos quando fundeámos, enquanto as iscas continuam intocadas, desafiando a nossa credibilidade no pesqueiro. Olhamos à volta procurando bandeiras indicadoras de redes que por vezes se mascaram na sonda como boas marcações, mas nada disso, nem perto.
De repente uma das canas verga-se e uma luta dura acontece, culminando na captura de um exemplar de 2, 3 ou mais quilos, logo seguido de outro de tamanho idêntico ou maior.
A partir deste momento, dois comportamentos diversos se têm observado: umas vezes, parece que rebentou um cano de peixe miúdo que começa a comer desalmadamente, só parando quando torna a entrar peixe maior e retornando após captura destes; outras vezes, mantém-se a calma podre com que iniciámos, interrompida aqui e ali por capturas de bons exemplares que acabam por compor excelentes pescarias em qualidade e até quantidade no fim da jornada.

Nas condições referidas o comportamento do pescador é essencialmente de manutenção da atenção por períodos, por vezes longos, intervalando com reposição de iscas quando se verifica a entrada de peixe miúdo ou, pura e simplesmente, aguardar calma e atentamente a sua vez de conseguir um exemplar a sério, por vezes diversificando iscas e formatos de iscadas.
Digo-vos sinceramente, são o tipo de jornadas que requerem grande confiança em quem poitou o barco, assim como nas características do fundo em que se pesca, muito pela ausência dos sinais dados pelos toques, neste caso com pouca frequência, significando um silêncio ensurdecedor e espectacular.

Tipo C: O mais invulgar, não sendo raro, mas uma bênção a bordo!
O pesqueiro aparece na sonda explodindo em sinais laranjas e vermelhos agarradinhos ao fundo. Poitamos, iniciamos a acção e, os toques surgem, agressivos e mais fortes que o habitual, intervalados com um ou outro roubo de isca aos pescadores mais descuidados que também acabam por capturar um pouco de tudo... ele é Sargos. Douradas, Pargos grandes pequenos e médios, Saimas, outros peixes pouco habituais como os Alfaquins, sei lá... uma festa!
Por vezes a pesca acaba cedo, para evitar excessos de peso e, os sorrisos a bordo substituem as caras atentas, as dores nos braços e a incerteza contínua dos Tipos anteriormente caracterizados.
Muitos principiantes ficam em estado de graça se têm a sorte de cair numa pesca destas que pode ser a melhor ou pior coisa que lhes aconteça, dependendo da capacidade de entenderem que este é o dia mais invulgar que lhes poderá suceder em toda a sua vida. Tudo fácil!

Quanto ao comportamento dos pescadores num destes invulgares dias, pois até dá para parar, curtir umas minies e tal... ou, tentar o maior exemplar aprimorando tamanhos e forma de iscar.
Para todos os efeitos é caso para dizer: gozem-no bem! Tão cedo não vos vai calhar coisa deste Tipo!

5. Materiais e iscas a utilizar, como e porquê

Sobre materiais, sabendo que vou danar um amigo ou outro, não me vou alongar em grandes explicações, antes vos envio para a página  http://aminhapesca.blogspot.com/2010/01/material-de-pesca-uma-dor-de-cabeca.html onde, de forma exaustiva, falo e fundamento as minhas escolhas. Escolhas estas que tendem cada vez mais para anzóis maiores (6/0) e estralhos mais compridos e grossos (1 metro, de 0,45/0,50), muito devido ao uso de iscadas cada vez maiores, assim como, a fugas de exemplares maiores derivadas de cortes em pedras e em bocas.

Sobre as iscas, usam-se lá a bordo as seguintes:

Sardinha: funciona como isca-mãe, pois tanto engoda, quanto captura qualquer das espécies procuradas.

Caranguejo: uma isca que pode ser rainha na altura da concentração de Douradas, muito procurada pelo Pargo, a partir de Setembro e com bons resultados quando encostada à sardinha.

Camarão: imprescindível para intervalar com a sardinha, iscado inteiro e com casca, em qualquer tipo de jornada.

Cavala, Lula e Choco: a primeira, podendo funcionar como a sardinha, mas com menos efeito de atracção e, as restantes, muito boas, quando encostadas a uma isca mãe. Confesso que o Choco tem sido esquecido ultimamente, mas pode fazer a diferença em dias de muito peixe miúdo.

Não coloco em causa as capacidades de outras iscas, mas estas são de facto as que se têm mostrado genericamente mais efectivas na minha pesca.
Sobre este assunto (iscas), está em preparação uma entrada mais exaustiva e documentada. Vão ter de aguardar com alguma paciência.

6. Acções de improvisação quando tudo se complica e/ou está a falhar

Todos os conceitos anteriormente analisados, no seu conjunto, muitas vezes não chegam! É verdade!

O vento aparece com mais intensidade que a esperada, aguagens adversas e atravessadas ao vento criam péssimas condições de pesca, diminuindo o seu tempo útil e é hora de tomar decisões!
Neste caso, duas coisas se podem fazer: voltar para o porto e esquecer o assunto, ou, improvisar... tendo sempre como principal objectivo maximizar o tempo útil em acção de pesca.
Optando pela última decisão, há que aproar a uma zona mais ou menos adequada à época e salvaguardada das condições agrestes, procurar um pesqueiro conhecido, de preferência com fiabilidade algo comprovada (ver em: http://aminhapesca.blogspot.com/2010/10/fiabilidade-comportamento-de-pesqueiros.html ) e, gastar tudo o que se sabe e o restante tempo de pesca da jornada. Isto porque, condições de mar e vento adversas, são más conselheiras para procura de novos pesqueiros e, neste tipo de pesca, não se captura peixe a andar de barco. Quem sabe, com tempo e paciência não se salva a pescaria!?

Com base nos conceitos e análises produzidas, pescou-se nos períodos referidos, em seis jornadas, todas com bons resultados, dos quais vos deixo, em registo fotográfico, alguns dos melhores exemplares capturados.

O  Luís Nascimento, com o seu melhor Pargo:


O Arménio, conseguiu este:


Acho que conhecem a Crock!?


A maior Dourada do Paulo:


Outra vez o Arménio, com um "Sarguito":


Ainda agora apareceu a Crock, agora aparece o chapéu e o bigode... quem será?


Olha o Arménio... também capturou Douradas!? Boa!


Serrajão? Boa António Amador!


Ora esta... também tu Pedro!?


Ele é Serrajão... ele é Dourada... há de tudo nesse mar!?


Outra vez o fulano do bigode... e o chapéu? Onde o deixaste?


Olha o Vitor... há muito que não se deixava ver! Desde o monte... aquele da gata!


E o Raimundo que não deixou os seus créditos por mãos alheias!


Olha o Paulo... vai Douradita!


O quê? Outra vez? Também há Sargos Veados nesse mar?


E o Martinho que se viu grego... mas acabou por trazer a sua!


Era bom que o meu amigo Carlos Jorge, não capturasse o seu quinhão... pena não termos tirado a foto da dupla! Fica para a próxima.


Este fulano não larga isto... Que raio! E o chapéu? Oh mastronço!!! Ainda te constipas!?


Uma das pescarias:


Os meus companheiros também em pose:


Fora brincadeiras e em resumo das análises e reflexões produzidas importa referir o seguinte: para que tudo isso funcione, é imprescidível que todos os pescadores a bordo estejam na mesma linha de actuação e motivados para o funcionamento em equipa. Caso contrário, o melhor mesmo é pescar a solo.
Aos amigos que comigo participaram nestas jornadas quero agradecer precisamente a camaradagem e o trabalho em equipa sempre presente a bordo!
Quanto à questão que coloco em título, deixo aos leitores o trabalho de, face à sua experiência, ao escrito e aos resultados; dizerem de sua justiça.
Espero que se divirtam ao percorrer estas páginas e... até uma próxima!

Boa tarde

terça-feira, 19 de abril de 2011

"Água na boca..."


Foi isso companheiros... as últimas jornadas em Sines deixaram-me "água na boca"!

Muita acção, muita procura, muita diversificação e peixe... muito pouco, embora de qualidade.

As tácticas funcionaram, mas pouco, as procuras e tudo o resto andaram pela mesma linha, valendo a pesca pelo seu todo e a constatação de que estes são mesmo aqueles tempos em que as dificuldades de capturar se tornam mais evidentes e em que, por vezes, num local e hora em que nada se espera se podem conseguir boas pescas.

A "água na boca" deixou um gosto amargo, muito pelas excelentes condições de mar e vento que se podem apreciar na foto de entrada que, tirada na Quinta Feira, se poderia ter repetido na Sexta e no Sábado, prenunciando procuras em mar inteiro e capturas a condizer que acabaram por não corresponder, principalmente em quantidade.
No entanto, o gozo dos dias passados em acção de pesca, das horas de preguiça que antecedem as saídas a solo, do completo descontrolo de horários, da companhia de malta amiga e dos jantares animados, suplantaram fortemente as poucas capturas, assim como adocicaram os sabores amargos. Mas adiante!

Na Quinta Feira saí já tarde, direi mesmo muito tarde... para variar; em completo estado de graça, apreciando o mar e verificando a disposição do material, enquanto percorria a baía às 1000 RPM, aquecendo o motor e dando-me ao desfrute de tirar fotos, como a da entrada, captando depois a do conjunto para pescar na mão...


... também a do conjunto para pescar no caneiro, com um estralho de 250 cm e anzol grande...


... e ainda o enxalavar, encaixado no caneiro central de popa, deixando-me ver a esteira certinha e abanando-se com os balanços do barco, como que lembrando-me que gostaria de entrar em acção.


Prometi-lhe que tudo faria para que tal acontecesse, antes de lhe virar costas e colocar o barco à velocidade de cruzeiro em direcção ao pesqueiro escolhido, ali perto. Isto porque as horas que a altura do Sol já indicavam, exigiam aproveitamento do tempo útil de pesca e o mínimo de mudanças de pesqueiro. Escolher bem, precisava-se!

Não estava preocupado! Este primeiro dia sempre funciona como aquecimento e base informativa para os que se seguem. Logo se veria!?
O fundeio deu-se com a sonda a mostrar peixe por todo o lado, talvez demasiado peixe!?
Era verdade! Aquilo era peixe a mais! As Bogas não davam descanso como tem sido habitual e momentos de pesca mais consistentes, em que se sente: é agora! Vai entrar peixe de jeito... nem um! Uma desilusão.

Não fora uma Dourada de quilo e o Sargo Veado que se mostra abaixo, entrados espaçada e completamente inesperados, para além de uma Choupa e dois Sargos pequenos, magros que nem cães; e, a desgraça seria completa!

O Sol já procurava o seu leito, as iscas continuavam a desaparecer, tanto a Sardinha das iscadas da pesca de mão, quanto a Cavala que, por ser mais rija, sempre cobriu o anzol da pesca no caneiro. O pesqueiro não dava outros sinais e o aquecimento estava feito. Era hora de tornar ao porto e pensar sobre o assunto, tentando perceber o que fazer no dia seguinte. Tudo indicava que tinha de procurar outros mares. Aqueles... estavam mal frequentados!

A Sexta Feira deu comigo a navegar para fora, procurando mares mais profundos, outros pesqueiros, de fundeio mais difícil, solicitando mais atenção e cuidado na manobra, com promessa de justificarem tais trabalhos!?
As marcações eram boas e, mal grado uma pequena aguagem contrária ao vento que com ele guerreava pela posição do barco, consegui fundear onde queria, preparando-me para roubos e lutas a 82 metros de profundidade, usando as mesmas canas e montagens idênticas às do dia anterior. A fé estava em alta, muito alicerçada nos sinais de sonda observados, na qualidade do fundeio e, em outros resultados, de outros anos, em época idêntica, neste mesmo pesqueiro!
Momentos deliciosos que antecedem o que quer que seja?!

A baixada da cana que ia pescar no caneiro, foi iscada com quatro generosos filetes de Cavala fresca, adquirida à saída dos barcos e gelada logo ali, na lota de Sines. A da cana de mão, com Sardinha congelada do Verão, por não haver da outra, fresca e que já mostra gordura suficiente para chamar  e/ou interessar quem queremos. Olhei para as iscadas e estupidamente pensei: "se fosse peixe não resistia a isto"! Coisas que se pensam... sei lá eu ao certo os gostos dos bichos!?

A baixada da cana que pescaria a solo, foi largada em primeiro lugar e deixada cair até meia água; depois, a da cana de mão para que tivesse tempo de fixar a primeira e chegar a esta a tempo de sentir o que por lá andasse, sem perder pitada. Fixei a primeira, recolhendo a linha de sobra e baixando o braço do carreto; agarrei na segunda, deixei chegar ao fundo e aguardei atento, mirando a ponteira e olhando de soslaio para a cana que pescava no caneiro que não me deixou tempo para nada... pura e simplesmente, deu um primeiro toque para aí de meio metro, afocinhando em seguida na direcção da água! Já!? Pensei, enquanto colocava no caneiro a que tinha na mão e com uma rapidez feita de calma me atirei à outra, sentindo a força necessária para a tirar do caneiro e iniciar a luta que, parecendo de peixe maior, terminou com a captura deste Pargo de 3,300 kg!


A coisa começava bem... teria pernas para andar? Tudo indicava que sim!

Fui-me à outra cana e levantei-a no ar, apercebendo-me que já não tinha isca. Subi-a! Repeti todo o processo e encontrei-me na mesma situação, atento a todos os pormenores e... bumba!!! Outra vez a cana do caneiro, com Cavala, mergulhando a ponteira, agora com menos intensidade, originando menor luta e dando origem à captura de outro Pargo, melhor dizendo... um Parguito com 1,200 kg. Nem foto lhe tirei! Para quê? O que se necessitava era rapidez para procurar o avô de um e de outro. Será que andaria por ali?
A sequência de capturas interrompeu-se, diga-se que sem surpresa, faltava trabalho e isso é coisa que não me mete impressão!

Atirei-me às canas, às iscas, atento, baixando e subindo ao ritmo dos roubos que aconteciam a curtos intervalos, mas, os resultados a partir daqui, esses sim, impressionaram-me, deixaram-me a pensar e até com algum amargo de boca... em mais de quatro horas de trabalho afincado, à excepção de alguns peixes sem interesse, só consegui mais uma captura... um Polvo para aí de dois quilos!? E agora... como explicar isto?
O ritmo de pesca foi intenso, tanto mais, quanto menos os resultados apareciam; o barco, manteve-se no mesmo local; a aguagem, com a mesma intensidade e rumo; o vento, quase não teve alterações; o peixe miúdo, sempre a comer ambas as iscas e supostamente a contribuir para a atracção de maiores exemplares; tudo isto, considerando ainda as qualidades deste pesqueiro e anteriores resultados, mais que afirmados; não consigo encontrar explicação lógica para o acontecido!?

Alguém com quem comentei o assunto, respondeu-me: só capturaste esses, porque eram os únicos que lá estavam!
Sinceramente, concordei... para o momento em que se deram as capturas. Mas, e todo o trabalho de atracção realizado posteriormente, como não trouxe resultados? O que é que não fiz? Do que é que não me apercebi? Será que a aguagem, por ir para Norte, não encaminhou a esteira de cheiros e vibrações na direcção certa? Talvez esta a razão mais lógica?
Tenho de lá voltar e tentar perceber. Caso esta tenha sido a razão, podia ter-se resolvido mudando o barco para uma ponta ou para o outro lado do pontão. Tarde de mais! Esta opção só me veio à ideia depois de estar em terra a pensar sobre o assunto.
Para todos os efeitos, só em próximas idas ao local se poderão talvez tirar ilações!?

O Sábado nasceu e os meus amigos: Nuno, Tózé e João; compareceram para me acompanharem em mais uma pescaria. Contei-lhes das maleitas e, não os querendo sujeitar às lutas do dia anterior e do outro, procurei outros mares, mais para Sul.
Uma vez mais, apareceram bons sinais quer de sonda quer de toques, mas resultados, nem por isso.
Muito trabalho, muita Sardinha, muito Camarão, mas peixe... salvou-se o Nuno, com esta Dourada...


... o João Maria, com este Parguito:


Quanto ao resto... um Safio e alguns Sargos e Sarguetas de pequeno porte que, já no fim do dia animaram a coisa. Talvez se temos ficado um pouco mais os acontecimentos fossem outros, mas a hora tardia, algum cansaço e a perspectiva das viagens de volta, já nos apoquentavam, indicando o caminho do porto.

E assim foi, ficando a "água na boca", tendo em conta o bom tempo, as hipóteses de procura, os sinais que se sentiram, versus os parcos resultados.

O mar está lá, nós não andamos longe e, como costuma dizer o Nuno... "queremos desforra"!

"Bendito e louvado... está mais um conto acabado"!

Boa noite a todos os leitores!