sexta-feira, 5 de junho de 2009

Descodificação de Termos...


Muita coisa se diz por aqui!

Ora, atendendo a algumas solicitações de leitores, parecem existir termos utilizados no meu código de conversação que carecem de identificação mais detalhada, nomeadamente quando me refiro a rumos tomados ou tipos de fundo constituintes de pesqueiros que escolho.

Esta pequena entrada, feita a bordo do Makaira, nesta Sexta Feira ventosa que nem uma "rapidinha" me deixa dar, vai no sentido de esclarecer alguns desses termos, a maior parte deles "bebidos" em conversas intermináveis com pescadores de muitos mares.

Não vou dizer que os termos que utilizo são os mais correctos e muito menos os únicos... Pura e simplesmente foram os que quase inconscientemente elegi, talvez de tanto os ouvir repetir.

Antes de mais quero desde já identificar o termo "rapidinha" que tendo significados variados também para mim (não nasci ontem!), é utilizado na escrita da "Minha Pesca" com o seguinte sentido:

- Pesca de pouca duração, feita normalmente em hora tardia, com capturas que por vezes não se conseguem num dia inteiro.

Brincadeiras à parte, passo a descodificar os termos que utilizo quando me refiro a rumos que sigo do porto para um pesqueiro ou entre estes, rumos esses que na maioria dos casos não têm correspondência totalmente verdadeira com a Rosa-dos-Ventos da imagem inicial.

Vejamos então:

Ir para a terra: aproximar de terra em linha perpendicular a esta.

Ir para fora: afastar de terra em linha perpendicular a esta.

Ir para Norte: rumar paralelo à terra para o lado de Norte sem ter em conta o Norte verdadeiro (0º).
Ir para Sul: rumar paralelo à terra para o lado de Sul sem ter em conta o Sul verdadeiro (180º).

Um exemplo utilizando estes termos poderá ser:

"Saí do pesqueiro que se apresentava pouco produtivo e rumei a um outro, onde há muito já não ia, mais a Sul e à terra".

Isto quererá dizer:

O novo pesqueiro procurado, encontra-se para os lados de Sul e mais perto de terra que aquele onde estava antes da decisão de mudança.

Os termos utilizados são uma forma de conversação que se destina essencialmente a dar uma ideia da zona para onde se rumou e não um rumo certo de bússola.

Os tipos de fundos que hipoteticamente constituem pesqueiros, têm também eles várias denominações, dependentes das vivências e hábitos das comunidades piscatórias profissionais e lúdicas, pelo que, como já referi, poderão ter variações significativas em cada zona.

Para melhor identificar a relação entre os termos e o tipo de fundo correspondente, vou tentar ilustrá-las com imagens de sonda, sendo para tal, talvez necessário falar um pouco sobre os sentidos figurados das imagens que se apresentam.

A que se segue representa o início dum pontão! Porquê?

Como podem ver, o ecran está verticalmente dividido ao meio, sendo que a metade do lado direito representa o fundo tal e qual a sonda o mostra e a do lado esquerdo, uma ampliação (zoom) do primeiro.

A zona que está por baixo do barco é a que se pode ver mais encostada a cada lado direito de ambas as partes divididas. Tudo o que está para a esquerda de cada parte é fundo sobre o qual já passámos.

Importa agora entender o que significam as pintas, linhas, cores e números que aparecem.

A linha castanho avermelhada, com alguma espessura, representa o fundo do mar e quanto mais grossa for, mais rochoso ou duro será o fundo sobre o qual estamos.

A zona por baixo dessa linha muito sarapintada de amarelos, com alguns azuis e uma ou outra pinta alaranjada, representa os ecos transmitidos que identificam a textura por baixo do fundo, sendo esta tanto mais rochosa quanto mais laranjas e até vermelhos aparecerem por baixo dela.

A zona azul por cima da linha de fundo representa a coluna de água, sendo esta a cor menos intensa, pelo que se aparecer por baixo da linha de fundo, representará um fundo macio.

As pintas em aglomerados que aparecem sobre a linha de fundo e encostadas à elevação que começou a aparecer, serão peixes ou outros organismos, indicando-nos que há vida por ali.

Quanto aos números que aparecem, vejamos:

- O número grande (46.4), no canto inferior direito do ecran, indica a profundidade em metros sobre a qual estamos no momento.

- Os números a branco que se vêem em cada uma das partes do ecran são a escala em metros ao longo da coluna de água.

Se retivermos os sentidos figurados descritos, ou seja, linha de fundo, zona que está por baixo do barco, profundidade, relação da intensidade das cores com o tamanho dos peixes ou aglomerados destes e a dureza dos fundos, poderemos então dizer:

A primeira imagem de sonda indica que navegámos sobre um fundo relativamente macio, a 50 metros de profundidade que veio endurecendo até chegar a uma elevação, neste momento a 46,4 metros, apresentando-se neste caminho alguma vida na zona de 50 metros onde passámos e a normalmente habitual intensidade de vida junto à elevação que denomino por "pontão".

Porque se pode afirmar isto?

Olhando da esquerda para a direita (sentido em que navegamos) de cada uma das partes divididas de ecran , pode ver-se:

- As cores por baixo da linha de fundo passaram do azul claro para o amarelo indicando aumento de dureza de fundo.

- Na zona sobre a linha de fundo coincidente com o aparecimento de amarelos por baixo desta, aparecem sinais pouco intensos (por serem azuis e verdes claros) de peixe ou vida que se interrompem até chegar ao pontão sobre cuja parede ou "beirada" nos encontramos.

- Viemos de um fundo de 50 metros e o "pontão" já mostra 46,4... Vamos ver até onde sobe!?

Parece poder dizer-se que, com base nas identificações anteriores, se poderão agora descodificar alguns dos termos utilizados por aqui, com menos palavreado.

Assim vejamos:

A imagem seguinte, quanto ao tipo de fundo, costuma ser denominada por "limpo". Porquê?

A linha de fundo não é muito espessa e por baixo dela é tudo azul clarinho o que indica um fundo macio e pouco interessante.

A próxima foto, identifica a "beirada" dum "pontão", sendo que o peixe que se mostra agarrado à parede e numa bola relativamente homogénea em termos das pintas que a coloram, por se encontrar disposto de forma muito regular e com cores pouco intensas, não costuma indiciar uma zona muito produtiva em termos de capturas. Podemos ainda ver que no fim da "beirada", junto ao fundo, os sinais de peixe interrompem-se. Este é um fundo onde eu não gastaria tempo, atendendo a experiências anteriores.

Ainda relativamente à foto acima, tudo seria diferente se os sinais de peixe continuassem, mesmo pouco intensos, junto ao fundo e após o fim da "beirada". Aí sim... Era para tentar!
Também, se fossem sinais mais espalhados, irregulares e de cores intensas junto ao fundo, para a pesca aos diversos ou para peixe maior, e, na "beirada", justificando zagaia ou isca viva; não querendo com isto dizer que não se deva tentar estas técnicas mesmo com sinais pouco intensos, sendo que as probabilidades de sucesso têm-se evidenciado menores.
Falemos agora de "entralhados"! O que são?
Costuma-se designar por "entralhado", um fundo misto de rocha ou detritos acumulados e areia, quase sem variação de profundidade, mas onde aparecem concentrações de peixe por vezes importantes.
Este tipo de fundo pode encontrar-se relativamente perto de "pontões", já na zona de algum "limpo" próximo ou completamente isolados no meio de um "limpo", sem pontões por perto. Neste caso, poderá indicar que algo se afundou por ali ou que esse limpo pode não ser tão limpo quanto parece, podendo acontecer estarmos sobre uma zona rochosa que areou muito e num local mais alto terá desareado.
A imagem abaixo identifica um desses tipos de fundo percebendo-se, pelos amarelos que vão dando lugar a azuis abaixo da linha de fundo, a passagem de uma zona mais dura para uma zona mais macia. Este é um fundo em que mesmo com sinais pouco intensos, deveremos testar, principalmente se os sinais estiverem muito encostados ao fundo.

O último termo de que hoje se falará é a "cetomba", do qual, infelizmente, não há ilustração por imagem mas algo se há-de arranjar! Vejamos!

Imaginem que vão a navegar por cima de um fundo de 50 metros (exemplo) sem variações de profundidade, sondando com toda a atenção... A cor por baixo da linha de fundo é azul e sinais de peixe ou vida, nem vê-los, estão a passar em cima dum "limpo"!

Continuam... E, de repente começam a aparecer, abaixo da linha de fundo, uns amarelos assim como algum sinal de vida acima da linha de fundo. Os amarelos aumentam e aparecem alguns laranjas que antecedem o surgimento de um "pontão" elevado aos 39 metros. Os sinais de peixe não são do Vosso agrado e querem ver o que está para o lado de lá... Passam o bico mais alto e vão vendo a "beirada" oposta sobre a qual navegam até atingir de novo os 50 metros. Continuam... Passam sobre uns "entralhados" que só reconhecem porque o aparecimento de azuis por baixo da linha de fundo já se mesclam com os amarelos de fundo mais rijo, mantendo-se assim durante algum tempo, com sinais de vida pouco intensos. A profundidade foi entretanto aumentando para os 51... 52... E, de repente, um fundo que parecia pouco interessante cai quase abruptamente para os 55 metros de profundidade e começa a mostrar sinais que já merecem fundear o barco, sinais estes que se mantém durante uns 50 ou mais metros de navegação, embora o fundo seja quase "limpo".

Meus amigos... A isto costumo chamar uma "cetomba"!

Uma queda mais ou menos abrupta em terreno limpo ou quase mas que, devido ao escolho que forma, tende a tornar-se um depósito de comedias, trazidas pelas correntes e marés, passíveis de formarem a base de uma cadeia alimentar que se concentra na zona e da qual só vamos querer capturar os Superpredadores!

Os termos utilizados e as descrições terão algumas variações mas, essencialmente, estas são as que utilizo aqui pela "Minha Pesca".

Importa ainda referir que as cores que se adoptam nas imagens de sonda dependem da configuração que cada um escolhe para a sua, sendo necessário que assegurem um contraste importante entre a água, as pintas identificadoras de peixe e o fundo, para melhor visualização de pormenores.

Quanto às sondas a preto e branco, as variações de cores vão de menos escuro para mais escuro, assim como os aglomerados e tamanho dos peixes que se podem verificar pelo amontoado ou dispersão de pontos.

Relativamente a pormenores técnicos mais profundos sobre sondas, sondagens, locais mais ou menos produtivos, tipos de pesqueiros, iscas, materiais... Caberão melhor num site novo que vai aparecer do que aqui onde, por vezes, me dá para entrar mais em devaneios sobre o que me apetece ou deixa de apetecer.

Brevemente explicarei melhor, esta coisa do "tal site"!

Abraço a todos.

15 comentários:

José Manuel Enderenço disse...

Viva Ernesto,

em boa hora te lembraste deste assunto, pois para além de melhor percebermos o que nos transmites nestas tuas conversas de amigos, acabas por nos dar uma bela aula prática de como entender a linguagem de uma sonda a trabalhar.
E é esse entendimento dos sinais, que poderá também ajudar ao sucesso de uma jornada, sabendo adapta-los ao momento e aliados aos outros factores, claro.

Mais uma vez, obrigado pela "aula"

Um grande abraço, amigo Ernesto

zend

Anónimo disse...

Viva Ernesto
Excelente tema e excelente documento!
O texto prende-nos do princípio ao fim... as leituras da sonda em particular!
E era tempo de começar a descodificar alguns termos

Abraço
João Martins

Anónimo disse...

Olá Ernesto

Mas que grande aula de sondagem!!! Fantástica!!!!Soberba!!!!
Os meus maiores agradecimentos pela pormenorizada resposta a este meu pedido.
Só tenho pena que não possamos interagir aqui no seu blog, ou seja, podia aqui colocar uma imagem da minha sonda para análise...mas já percebi que vêm aí novidades...e das boas!
Fica então por realizar a "prova" prática para ver a coisa ao vivo e cores, assim o tempo e a disposição lhe permitirem.
Uma ultima dúvida...qual é a potência do transdutor...1KWz? E presumo que está montado no casco.
A minha sonda é uma Furuno FCV-620 com transdutor de popa 600W da Airmar, mas tenho que lhe espremer toda a potência para ter leituras minimas...e estou em vias de lhe montar um de casco, mas também de 600W pois a sonda não suporta mais...

Um grande bem haja!

Paulo Benjamim

Anónimo disse...

Fim de semana em grande! Nem houve pesca, mas conheci(finalmete!) o Ernesto e levei uma lição de mar aqui o site. Muito obrigado ao Ernesto por estes ensinamentos, e todos os outros anteriores, e vou ficar ansioso por as últimas palavras, as do novo site... Os dias vão custar a passar até conhecer a "nossa nova casa". Um grande abraço,
João Carlos Silva

Paulo karva disse...

Viva Ernesto

Parabéns amigo, magnifica "aula", soberba explicação, está lá tudo a descodificação das imagens e os sentimentos.
Fiquei preso á sonda.LOL

Venha de lá o que falta que, apesar de estar quase, faz muita falta a todos.

Abraço

Paulo karva

amorim disse...

Boas companheiro, o "tal" já em contagem decrescente, vai sem duvida ser um sucesso para todos os que sentem a pesca de uma maneira profunda, honesta e divertida, mas...este "abrigo" que tem sido a "tua pesca" foi e será sempre o início de sentir a pesca de uma outra forma. A aprendizagem que daqui se leva como é exemplo este ultimo post, só são possiveis porque lidamos com um SENHOR.

Abraço

Amorim

Anónimo disse...

Viva Ernesto,

Que Fabulosa descrição sobre termos utilizados na Pesca já para não falar da aula de interpretação de imagens de sonda.
Fica aqui o meu agradecimento por tais ensinamentos!
Confesso que fiquei cheio de vontade de ir aplicar todo este novo saber, lá pelos mares de Sines.

Entretanto cá fico a espera “tal” site, onde terei todo o gosto de partilhar o que saiba e onde seguramente se continuará a falar de Pesca de forma tão honesta como é prática neste blog.

Um abraço,

Rui Viegas

Ernesto Lima disse...

Viva Pessoal!

A todos agradeço os comentários!

Mas vocês são uns exagerados... Lol

Eu sei que me desenrasco com a escrita e olho muito à volta, mas pronto, estou pouco habituado a elogios e depois tenho de carregar uma série de guardanapos de papel aqui para o pé do PC,quando há comentários! Lol

Quanto à honestidade naquilo que se escreve, neste caso, sobre pesca, penso que não há outra forma de o fazer ou então não valia a pena vir para aqui amontoar bites e cansar a "moleirinha"... Acho eu!

Quanto ao tal site, antes de abrir, ainda vou por aqui fazer uma pequena descrição do que pensamos fazer por lá. Pequena mesmo...

Respondendo ao Paulo Benjamim:

As suas questões, revelaram uma necessidade que, embora já sentida aqui há uns tempos atrás, acabou por se desvanecer no tempo. Ainda bem que me lembrou, pois pelos vistos era mesmo necessária.

Por vezes não nos apercebemos de como falamos, talvez porque a repetição de determinados termos, criam uma falsa sensação de que são utilizados por todos. Daí a necessidade continua de análise e troca de impressões.

Quanto às descrições de sonda, embora morosas, parece-me que, atendendo aos Vossos comentários, se revelaram interessantes para a identificação dos tipos de pesqueiros.

Quanto ao transdutor da minha sonda ele é também de 600W e está de facto montado no formato de passa-casco, mesmo por baixo do sítio onde conduzo!

Quanto à "aula" (prefiro chamar-lhe alguma informação) sobre sondagem, bom... Acho que foi uma pequena abordagem que poderemos vir a aprofundar lá mais para a frente, eventualmente através do "tal" site. Lol

Bruno disse...

olha eu a pensar querem ver que o Ernesto vai descrever a rosa dos ventos mas depois aquela imagem da sonda despertou -me atençao e nao consegui parar de ler, agora so falta ter a possibilidade de ver em loco esta informaçao e ver como sao as coisas na arte de sondar os fundos pois o exito da nossa pesca esta em funçao disso.
em relaçao aos ternos existem alguns bem giros ao longa da nossa costa e com significados diferentes
esperemos pela continuaçao e pelas novidades que pelos vistos sao bem grandes
eheheh
um abraço e ate breve

quimcool disse...

olá boa noite caro colega de pesca
eu presisava de uma informação inportante da sua parte tem a ver com os tubos que se usam nas montagens que travam as perolas e o destorcedor é que eu já a algum tempo que ando a procura desses tubos e não consigo encontra-los se me poder ajudar agradecia-lhe muito, o meu email é talhodoquim@talhodoquim.com
atentamente
quim

Ernesto Lima disse...

Viva Quim!

Já lhe respondi por mail, dizendo que já não uso esse tipo de ligação no estralho, antes os destorcedores triplos, tipo crane que também lhe enviei por foto.

Espero ter correspondido, caso não, disponha!

Ernesto

Carlos Filipe disse...

boa noite, encontrei o seu blogue há poucos dias e desde ai tenho tentado dedicar o tempo que posso a ler quase tudo o que contem
agradecia se me podia dizer se já há o tal site sobre sondas visto que não sei trabalhar mt bem com uma. tenho feito mts pesquisas, mas sinceramente o que aprendi mais foi nesta sua reflexão e explicação.
obrigado

Ernesto Lima disse...

Boa tarde Carlos Filipe

Grato pelo comentário.

Relativamente ao site de que se fala nesta entrada, era um fórum genérico de pesca que entretanto já não existe e eu referia-me a ele, por ser mais fácil trocar impressões, explicações, imagens e etc., em fórum do que aqui no blogue, cujo back office é limitado nesse aspecto.

No entanto, se tiver alguma dúvida pode contactar-me pelo móvel 963579132 ou pelo mail makaira53@gmail.com

Abraço

Ernesto

Anónimo disse...

Muito bem explicado.
Gostei muito da sua partilha.
Cumprimentos.

Ernesto Lima disse...

Boa tarde Sr. Anónimo

Grato pelo comentário

Cumprimentos

Ernesto