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terça-feira, 30 de outubro de 2007

Dei com Eles! - 30/Março/2007


Esta semana a coisa tem estado complicada... trabalho por todo o lado, e tudo para ontem, muito computador, pouco tempo dormido, enfim... a "escravatura" a que infelizmente nos vão habituando. É assim... não se pode ter tudo.


Mas cá estou eu, a falar pelos cotovelos e, porventura, a contar mais do que deveria. Mas também, se eu não contar nada, qualquer dia dá-me para aí qualquer coisa má e ninguém fica a saber o que, por cá, fiz na pesca.

Os "três cheirinhos" com que vos presenteei nas anteriores entradas, são resultado de muita procura, paciência e desaires anteriores, atendendo a que, nas épocas entre Maio e Dezembro, tenho conseguido boas capturas de peixe "crescido" (criado... como dizem em Sines), mas entre Janeiro e Maio para além dos Besugos, Sarguetas, Choupas e alguns Sargos; não tinha conseguido, até agora, capturas de nota, nomeadamente de Pargos, uma das espécies da minha eleição.

São lindos, lutam duro, não é fácil dar com eles, e, com a idade que os que mostrei têm, certamente já cá deixaram muita descendência.


Das experiências realizadas, resultados obtidos e leituras efectuadas sobre esta espécie, parece poder dizer-se que estes bichos procuram fundos onde exista comedia com fartura, comedia esta que se encontra, normalmente, em fundos ricos de pequenos seres que por sua vez constituem a alimentação dos pequenos peixes, crustáceos e moluscos que fazem as delícias deste nosso "amigo".
Sabe-se que as correntes marítimas trazem nutrientes de toda a espécie (plancton, ovas de posturas de outros peixes, pequenos crustáceos, peixes minúsculos...), ora, parece natural que grande quantidade, destes pequenos animais se deposite nos acidentes submarinos que se lhes deparem pelo caminho, onde encontram abrigo e comida, servindo também eles de pasto aos tais pequenos peixes que por sua vez alimentarão os exemplares que procuramos.

Decorrendo da prosa desfiada, que certamente estará incompleta, e para não tornar isto numa acção de formação para dormir, teremos que procurar os tais acidentes submarinos, de tamanho significativo, com entralhados à volta e com marcações de comedia cuja intensidade das cores, apresentada pela sonda, até façam doer a vista.

Calculando que a temperatura da água tenha alguma influência, entre outras (muitas) variáveis, convém procurar estes locais, nesta altura do ano, em profundidades para além dos 70 metros, visto que, em zonas menos profundas, não se têm verificado resultados significativos.
Encontrado um bom local (ver entrada "À Procura de Pesqueiros 1.ª Parte"), onde e como fundear?


Onde?


Após sondagem cuidada sobre e em torno do pontão ou pontões que formam o pesqueiro, devemos localizar a parede mais rica em comedia que, de preferência, deverá mostrar marcação de peixe desde o fundo.
Encontrada esta zona, deveremos fundear para que as nossas iscas se possam colocar ao fundo, relativamente perto da parede, ou em entralhados próximos, mesmo que estes mostrem um pouco menos de comedia.

Como?


Encontrado o local onde se quer colocar o barco e enquanto se prepara o ferro, deve-se tentar perceber o sentido para onde o vento e/ou a corrente nos levam (deriva), o que se pode fazer, marcando dois pontos em terra que alinhados com o barco formem um ângulo mais ou menos recto ou deixando o GPS aberto e, aumentando-lhe o zoom (caso tenha carta), verificando posteriormente qual o sentido da linha que traça.
Estamos agora prontos para largar ferro.

Vamos para cima do pontão, aproamos o barco no sentido contrário ao da deriva, procuramos fundo um pouco acidentado, para além dele, tendo sempre em conta o cabo que temos de dar e... ferro ao fundo!
Chegado o ferro, damos algum cabo, vamos-lhe colocando tensão e assim que prender corrigimos o fundeio, controlando a marcação de peixe e profundidade através da sonda.


Chegou a hora de pescar e o tempo de falar sobre iscas, canas e montagens.

As iscas:


- Sardinha fresca da noite anterior, de preferência;
- Cavala acabada de apanhar ou também da noite anterior;
- Bomboca e lula, se fosse fácil, era bom que fossem frescas mas congeladas também servem!
Estas foram as iscas que levámos, no entanto o caranguejo e a lula viva (ou muito fresca), são iscas com provas dadas neste tipo de pesca.


Relativamente a estas duas jornadas de pesca, foram a sardinha e a cavala que apanharam os melhores peixes, iscadas como mostra a foto que inicia esta entrada.


O maior Pargo foi apanhado na cana a pescar sozinha, com a 1.ª iscada à esquerda da foto.

A sardinha é cortada pelo início da barriga para que o peixe miúdo comece a criar movimento à volta da barriga (quando peixe maior não ia lá, a barriga vinha completamente limpa) e assim contribuir para a atracção. O anzol entra pela boca, sai totalmente através do olho e entra pelo lombo, envolvendo a espinha de forma a agarrar bem a isca.


O Pargo de 4,000 kgs e a Abrótea, foram apanhados pela 1.ª iscada de cavala à direita da foto.
Corta-se o filete inteiro de cada lado da cavala. Cada filete é cortado, longitudinalmente, a todo o comprimento, dividindo-se em quatro ou mais partes, dependendo do tamanho da cavala. Iscam-se estes bocados, cravando o anzol ao meio de cada um deles, uma única vez, enchendo-o o mais possível, ficando com aquele aspecto de espanador.

As duas iscadas do meio, apanharam doze pargos (nos dois dias) entre 1 e 2 kgs e uma Moreia com 3 kgs.

As iscadas de lula e bomboca, para além de Ganopas e Piças, apanharam algumas Sarguetas, Choupas e um Parguete para aí de 0,800 Kgs.

As montagens:


Uma cana de 3,00 metros, a pescar no caneiro, com um carreto 8500, equipado com monofilamento de 0,40, com uma baixada de dois estralhos de 0,40, com 50 a 60 cm de comprido, com anzóis 3/0.


Uma cana de 3,70, mais leve, a pescar na mão, com um carreto 6500, equipado com multifilamento 0,25 e ponteira de 15 metros de monofilamento 0,40, com montagem idêntica à anterior, variando os anzóis para 1/0.


A 1.ª iscada à esquerda da foto, foi usada na cana a pescar no caneiro; as outras iscadas foram usadas, em alternância, na cana a pescar à mão, por razões que se prendem com a facilidade do peixe miúdo roubar a isca que é muito inferior no primeiro caso.
Relativamente aos tipos de materiais, ver entrada "Os Materiais que Eu Uso".


Algumas considerações:


A existência de alguma aguagem parece ser positiva.
As canas mais tensas junto ao fundo, obtiveram melhores resultados.
Deixar o peixe comer durante algum tempo, sem ferrar, pareceu uma atitude favorável.


Alguns conceitos/comportamentos que limitam este tipo de pesca:


Ter demasiada pressa em fundear e iniciar a pesca.
Querer apanhar o peixe miúdo que lá está e desistir dos anzóis e iscadas grandes.
Irritar-se porque o parceiro do lado capturou um exemplar e ficar nervoso, mexendo muito a cana e alterando continuamente o modo de pescar.
Não ter paciência para esperar e mudar continuamente o tipo de iscas que foram roubadas.
Não acreditar no que está a fazer.
Reagir mal a azares, como fios emaranhados e coisas do género, entre outros...
Se o local tiver boas características e as iscas vierem comidas ou roubadas, dizem-me os resultados que é uma questão de tempo... nós estamos a caçar e o peixe tem de comer.
Finalmente, como última opinião desta entrada, fundear bem um barco deverá ser entendido como um acto de emboscada de um felino (atentamente, calmamente, lentamente), o resto acaba por vir.


O local:


Um monte submarino, alcantilado de um dos lados, que vem dos 90 para os 52 metros de profundidade, estando a comedia concentrada do lado alcantilado, desde o fundo quase até à superfície.
Já tinha vindo a este local várias vezes, sem nunca ter conseguido fundear bem, mas a teimosia de pescador é quase sempre frutífera.


Foi um dia para lembrar, em que se afirmaram os conceitos que tenho desenvolvido sobre a pesca, o que se verificou pelos resultados obtidos em duas jornadas consecutivas, num local que há algum tempo tinha como muito bom. Há que testá-lo em diferentes épocas, com diferentes técnicas, mas agora, vou ter que gozá-lo durante uns tempos.

 
Enfim... "Dei com Eles"!


Por agora fico por aqui, sempre disposto a responder às perguntas que possam fazer ou a receber dicas dos que as quiserem dar.

Depende só de quem estiver interessado e que queira aparecer por aqui.

Depois, é continuar a procurar, porque certamente este mesmo pesqueiro vai proporcionar-me derrotas inesquecíveis.

Um abraço a todos os leitores.




PS: a foto não está como eu gostaria, mas o tempo é pouco e, como se vê, foi feita posteriormente e um pouco à pressa. Espero que dê para perceber!?

Não conseguindo melhor! Viva o Besugo! - 12/Março/07


Mais um fim de semana de pesca.

Mais uma vez sem conseguir atingir os principais objectivos que tinha em mente: fundear em profundidades onde nesta altura se podem conseguir capturas assinaláveis de bons Pargos.

O vento Leste forte não me deixou pescar lá fora e tive que me aproximar de terra onde as capturas, nesta altura do ano, sendo interessantes, não serão, na minha óptica, as mais desejadas.
Mas pesca é pesca, e, sabendo procurar, sempre se poderá dirigir a atenção para outras espécies cuja acção de pesca e qualidade gastronómica podem colmatar as tristezas decorrentes de intenções adiadas.

Assim foi no Sábado e Domingo.

No Sábado, foram uns Sargos e Parguetes, entremeados com algumas Choupas e Sarguetas de bom porte, e, no Domingo, após alteração de planos devido à "lestada", encostámos à terra ali por Norte de Sines, na zona dos peguilhos da Caracola e fomos capturando uns Parguetes, uma boa Bica e algumas Choupas e Sarguetas, com o olho na diminuição do vento, sempre com a intenção de nos afastarmos para pescar ao Besugo que calculámos estar lá para os 80 metros por fora do local onde nos encontrávamos.

Sinceramente, se estiver sózinho, não é pesca que procure. Mas eu vou muitas vezes e os meus amigos, principalmente o Albino e o Zé Beicinho, que iam a bordo, só pescam de vez em quando, e que diabo, é muito chato andarem para ali a apanhar bonés.

Não se entendam estas palavras como presunção barata, mas na pesca ao Besugo, o que mais me dá prazer é escolher o fundo, sondando até ver uma das marcações mais usuais que identificam esta espécie e dizer: "ou eu me engano muito ou tá o Besugo a montes aqui debaixo do barco".
Depois, há que fundear a embarcação mesmo em cima deles, tendo em conta o calamento e as aguagens que possam existir e, finalmente, alguns segundos após as baixadas, devidamente iscadas, terem chegado lá abaixo, começar a ver aqueles toques de ponteira abaixo e acima, seguidos de alguma espera, com o primeiro já ferrado a ver se ficam mais que um. Hei-los que vêm para dentro do barco, compondo uma linda caixa de peixe com aquela cor rosada tão do meu agrado.

Quando vou atrás desta espécie, procuro dois tipos de fundo: "brandos e sujos", essencialmente constituídos por areia e lodo, conforme o indica o eco abaixo da linha de fundo, mostrado pela sonda; e, "entralhados", ou seja, fundos mistos de areia e pedra rasa com alguma extensão, com ou sem pedra alta por perto.

As marcações oferecidas pela sonda relativamente ao tipo de fundos, poderão descrever-se da seguinte forma:
- Em fundos "brandos e sujos", numa sonda a preto e branco, o eco por baixo da linha de fundo é mínimo, apresentando uma linha escura de pouca espessura que será aqui e ali salpicada de zonas um pouco mais altas ou com aspecto rugoso, caso este fundo tenha alguma riqueza de vida, ou, no caso de uma sonda a cores, este mesmo fundo, será representado também por uma linha e eco pouco espessos, com variações de cor entre o azul e os vermelhos desmaiados, caso a sonda esteja configurada para estas cores, significando os azuis os ecos mais fracos e os vermelhos os mais fortes.
- Em fundos "entralhados", as rugosidades e os ecos da linha de fundo, apresentam uma marcação com maior variação de espessuras na sonda a preto e branco e, na sonda a cores,uma maior variação da intensidade dos coloridos, sendo as zonas mais ricas do "entralhado" representadas por amarelos, laranjas ou até vermelhos, e, as mais pobres, por azuis e verdes claros.
Em ambos os casos, não se verificam grandes variações de profundidade.

Acontece, por vezes, estes tipos de fundo situarem-se numa encosta (cetomba) mais ou menos pronunciada. Tenho obtido bons resultados quando fundeio o barco um pouco acima do início destas encostas, no entanto, isso terá a ver com a sensibilidade de cada um relativamente à forma como se apresenta o fundo e a resultados anteriormente verificados.

Quanto às marcações que indicam a presença de Besugos, os resultados obtidos indicam três tipos:
- Em fundos "brandos e sujos", pequenos pontos aglomerados junto ao fundo, na sonda a preto e branco; e, tracinhos verticais minúsculos e separados, de cor azul, na sonda a cores.
- Em fundos "entralhados", acontecem normalmente dois tipos de marcação que na sonda a preto e branco são representados, num dos casos, por pontos separados logo a cima do início de cada zona mais rica ou por um aglomerado compacto de pontos completamente encostado no mesmo tipo de zonas. Na sonda a cores, estas duas marcações apresentam-se respectivamente, como pontos azuis separados ou na forma de uma bola compacta que do exterior para o interior vai colorida de amarelo, laranja e por vezes vermelho.

Falando de profundidades, já fiz boas pescas entre os 22 e os 130 metros, se bem que os fundos mais produtivos parecem situar-se entre os 40 e os 90.

Dos resultados obtidos pode ainda referir-se que, caso sejam poucos pescadores a bordo, é aconselhável engodar, ao fundo, nos fundos "brandos sujos", não parecendo ser o mesmo necessário nos entralhados, principalmente quando a marcação é do tipo bola compacta. Neste caso, acontece muitas vezes sairmos do pesqueiro sem que o peixe tenha deixado de picar e ser ferrado continuamente, o que aconteceu este fim de semana.

Quanto às iscas a utilizar, convém ter alguma variedade a bordo, essencialmente para o início da acção de pesca, porque após os Besugos começarem a comer a sério, o que for para baixo "morre"!
É uma questão de tempo.
Já por várias vezes isso me aconteceu, em Sines, em Lagos, no Espichel, em Setúbal e até em Vila Real de Santo António.

Este fim de semana, por exemplo, foi camarão, cavala do dia anterior, bomboca e lula. Iam a todas e só conseguiam roubar, sem ficarem presos, a bomboca.
Sobre a questão da engodagem e depois do que li numa revista de pesca nacional, do mês passado, sinto necessidade de falar sobre o assunto no que respeita à pesca em embarcação fundeada, o que farei em próxima conversa. Comigo próprio claro... já que os leitores, por aqui, falam pouco.
Quanto às montagens, acho que dá para ver qualquer coisa na foto acima!?

Até à próxima.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Eu e as Douradas - 24/Fev/2007

Boa noite leitores mais pacientes.

Iniciei-me com as pescas há já alguns anos, primeiro com a submarina onde ainda fiz alguns brilharetes, depois interrompi. Família, trabalho, formação contínua..., até que comprei o meu primeiro barquito, um semi-rígido, com intenções de recomeçar a pesca submarina a sério, mas acabei por me virar para a pesca embarcada que desenvolvo até hoje, muito devido ao meu hábito, já antigo, de me dedicar de alma e coração a uma actividade de cada vez, nas várias áreas em que me movimento.

Em todo este tempo, sempre me dediquei a observar tudo o que à minha volta acontece e a registar, ora mentalmente, ora por escrito, os acontecimentos e experiências mais significativas, para continuamente poder estudá-los, revivê-los e, quiçá, melhor os compreender.

Iniciei o meu primeiro contacto com as douradas, ainda na minha fase da caça submarina, na Praia da Cordoama, numa caçada excepcional, em conjunto com o meu amigo Carlos Cruz, num mês de Setembro de há tantos anos que até me custa dizer a data!

Estes contactos e aquisições, foram-se repetindo sempre na mesma época (Setembro) e em locais idênticos, não muito longe de terra, em fundos mistos com pedra alta e esburacada, no meio das laminárias pouco densas e perto de zonas de areia com comedia agarrada ao fundo.

Na minha fase de pesca embarcada, que iniciei em Setúbal, onde vivo, tive os primeiros encontros com este espárido (deixa cá pôr uma palavrita mais cara) no rio Sado, também entre fins de Agosto e início de Novembro, tornando-se difícil apanhá-las assim que caíam as primeiras chuvas e perdendo-lhes o rasto após esta altura, à excepção de uma ou outra que se apanhava na pesca de mar embarcada, do "tudo o que vem à rede é peixe", embora com a medida mínima, coisa que me prezo de sempre ter cumprido, não por ser legalista, mas porque de peixe frito, só gosto de carapau pelim.

Entretanto, nas minhas visitas habituais ao mercado de Setúbal e em conversas com os profissionais, apercebia-me que, entre fins de Setembro e inícios de Novembro, aconteciam capturas importantes desta espécie, pelos "rapas", em fundos limpos mais afastados da costa e acabava-se a história, excepto noutros locais do país, conforme vim a saber posteriormente.

Ainda em Setúbal, por volta do ano de 1998, as "moçoilas" foram descobertas, pelo Zé Carlos e o irmão, em quantidade assinalável, num local denominado "Vereda do Mar dos Pargos", cujo fundo é constituído por pedra forte e alta, rodeada e intervalada por fundos brandos e entralhados, onde para além de douradas, se apanham besugos e pargos de bom tamanho durante a época que decorre entre início de Novembro e fins de Janeiro, prolongando-se, em alguns anos, até Fevereiro.

Do acompanhamento, participação e resultados obtidos em várias pescarias direccionadas para esta espécie e da informação recolhida que apontava para capturas idênticas em vários locais do país e em pesqueiros diferenciados na zona de Setúbal, Espichel, Sines..., parece poder dizer-se que as Douradas, entre Setembro e Fevereiro se movimentam gradualmente da costa para fundos de 60 a 100 metros, seguindo os seus instintos de alimentação e procriação, primeiro numa fase de pequenos cardumes que se alimentam junto à costa e que, conforme vão aumentando, se dirigem para fora, originando concentrações importantes com o objectivo da procriação, atendendo a que a maior parte dos exemplares capturados na fase funda, estão gordos e a rebentar com ovas enormes.

Nesta digressão abrem-se, sucessivamente, hipóteses de boas capturas, começando no Surf Casting, passando pela pesca profissional e terminando na pesca embarcada em barco fundeado. Claro, que nada do que foi dito é assim tão linear, em termos de datas e das respectivas formas de pescar, mas não parece andar muito longe.

Declaro ainda, que tudo o que anteriormente referi se baseia na minha observação e acção de pesca, carecendo de fundamentação científica, embora os resultados obtidos, em Setúbal, Norte do Espichel e agora em Sines, possam permitir a informação desfiada.

Ficaria esta entrada incompleta, sem uma descrição técnica e de alguns pequenos truques que tenho utilizado, com sucesso, quando me dedico ao prazer constituído pela captura de peixe tão nobre e lutador, cuja posterior degustação acompanhada da conversa sobre as proezas/desaires do dia, tornará perfeita qualquer jornada de pesca.

Retornando à época de 98, em Setúbal, quando se deu com este "material", meus amigos... vou-vos contar.
Èramos 4 ou 5 barcos, numa área com um "diâmetro" para aí de 3/4 de milha, onde o fundo estava carregado de douradas, esfomeadas, penso eu, para ingerirem as calorias necessárias à desova que se aproximaria.

Fundeava-se o barco em cima de bicos a 68 metros de profundidade e dava-se cabo até que a sonda marcasse os 82 a 84 metros. Preparavam-se duas canas, uma mais rija e outra mais macia; nesta altura, ainda usava uma de 2,70 e outra de 3,30, com acções diferentes. Nestas canas montavam-se baixadas com dois estralhos de 0,40, com 45 a 50 cm de comprimento, onde se montavam anzóis n.º 1, dos tais "torcidos". Iscava-se com caranguejo e bomboca e deixavam-se as iscas chegar ao fundo, aumentavam-se as tensões às canas e, com elas nos caneiros, em dias de mar calmo, esperava-se ver um pequeno balançar da ponteira e era enrolar à pressa e levantar agressivamente as canas acima da cabeça (na altura não se pescava ainda com multifilamento).

Quando isto acontecia, era, como hei-de dizer... orgásmico.
Os bichos não tinham menos de 2 kgs, estávamos a lutar com uma e já víamos a outra cana a adquirir outro animal. A adrenalina envolvia-nos de tal forma que até se sentia o cheiro no ar. Já para não falar de quando entrava algum pargo com a sua forma característica de enfiar a ponteira da cana dentro de água, enfim... momentos inesquecíveis.
Claro que as notícias correm depressa e a cada pesca que lá se fazia, aumentavam o número de barcos e o número de pescadores, muitos, mais "apanhadores de peixe", e as coisas alteraram-se...!

Quem lá chegasse, procurasse o seu pesqueiro, fundeasse e começasse a apanhar douradas, sabia que de imediato teria companhia de quatro, cinco, ou mais embarcações, cheias de gente que de pesca sabia muito pouco, que largavam ferros à nossa volta, a distâncias que não lembra ao diabo, quase sendo necessário colocar defensas.

Isto não tinha nada a ver comigo e comecei a pensar que embora as douradas adorassem a "Vereda do Mar dos Pargos", naquela época do ano, elas não tinham chegado ali a voar e com certeza haveriam outros pesqueiros, com características idênticas e consequentemente apelativos para as "raparigas". Deitei-me à carta (AP5) estudei bem o tipo e enquadramento daquele fundo e procurei outros idênticos, que encontrei. Principalmente na zona do Cabo Espichel, onde aprendi que a pesca à dourada, nesta época, já se praticava há muito tempo noutros locais do país e que a facilidade inicial de captura, em Setúbal, parecia dever-se à ausência desta prática na zona.

Até 2000 pesquei por ali, conseguindo boas pescas, quer de douradas quer de outras espécies, até que adquiri este último barco e, em boa hora, me estabeleci pescador lúdico, no Porto de Recreio de Sines.

Na primeira época em que pesquei em Sines, posso dizer-vos: ouvi dizer tanta coisa diferente sobre as Douradas que parecia que nunca na minha vida tinha feito tal pesca. Cada terra com seu uso.
No entanto, a bicharada segue, por norma, os seus instintos e de facto elas fazem lá o mesmo percurso, diferindo as técnicas e formas de abordagem dos pescadores da zona, assim vejamos:

* Os pescadores profissionais de Sines são os primeiros a procurá-las e a encontrá-las, criando os seus próprios pesqueiros em zonas diversas e habituais, relativamente a diferentes momentos na mesma época.
* Montam bóias com vários ferros e asseguram-se que os pesqueiros estão sempre engodados. Isto cria condições adversas para os pescadores lúdicos que terão maior dificuldade em encontrar Douradas fora destas zonas, muito engodadas, e, terão de manter distâncias legais dos pesqueiros assinalados por bóias dos profissionais que a isso têm todo o direito. Caberá aos lúdicos procurar alternativas fora da "molhada".
* Estes homens, que muito respeito, põem constantemente em causa as técnicas que se apregoam, pois montam pescas de mão, com monofilamento de 0,80, estralhos de quase uma braça, de 0,40 a 0,50, chumbadas de 200/300 grs e apanham douradas ao anzol, com uma velocidade que faria corar de inveja os campeões de pesca de mar, embarcada, a apanharem "ganopas" e "piças", com materiais que custam os olhos da cara. Conseguem ainda manter a engodagem pelo método do "Pára Quedas", sobre o qual falarei em entrada específica.

As circunstâncias descritas, fizeram-me apanhar secas monumentais à procura de pesqueiros fora das aglomerações de barcos em acção de pesca, com consequentes insucessos que acabei por ultrapassar nas duas últimas épocas. Tendo sido, esta última, a mais rica quanto aos exemplares capturados.

Resumindo... queria pescar longe de outros barcos mas o peixe estava concentrado com a comedia originada pelo engodo e a coisa não funcionava por dificuldade em criar os níveis de engodagem próprios necessários, pelo que havia que aproveitar o que já estava feito.

Considerando que o engodo se espalha e que, havendo aguagem, ele se deslocará no sentido desta, começei por procurar fundos característicos a 100/200 metros dos grupos em acção de pesca e na direcção da aguagem, aproveitando assim os fluxos de engodo e capturando os exemplares que por ali vagueiam em busca de alimentação. Claro que, é por vezes necessário, ter paciência e aguardar, porque os exemplares levam algum tempo a aparecer, sendo normalmente de bom tamanho.

As montagens são parecidas com as dos pargos. Uso duas canas, neste caso com multifilamento nos carretos de ambas e com uma ponteira de 15/20 metros para o amortecimento em luta.

Os estralhos são de 0,35 e 0,40, respectivamente, na cana ao sentir e na cana a pescar sózinha cuja baixada costumo elevar do fundo a +/- 5 metros. Nos dois casos, os comprimentos dos estralhos variam entre 0,60 e 1,00 metros.

Quanto à isca, embora a bomboca funcione bem, é de facto o caranguejo que efectua, na generalidade, a maioria das capturas. Ora descascado, partindo o miolo em dois e iscando no mesmo anzol, ora inteiro, iscado por trás, enfiando o anzol entre o casco e o corpo, saindo ao meio do caranguejo, por baixo e ao centro das patas. Esta última maneira de iscar aplica-se mais na cana a pescar no caneiro ou quando vamos almoçar, pois assegura que peixe que lá vai é grande e interessado, abocando sem cerimónias, na maioria das vezes.

É uma pesca dura, pois estamos normalmente a profundidades médias de 80 metros e, ao mínimo toque, era uma vez a isca, obrigando a contínuas subidas e descidas do material. Toda esta acção, como se pode imaginar, se torna ainda mais complicada em dias de mar mais revolto.

Poder-se-á perguntar, então porque é que não se isca sempre o caranguejo inteiro?

A razão parece ter a ver com o "frenesim da comida".
Das experiências realizadas, fica-se com a ideia que o peixe miúdo que por ali anda não vai ao caranguejo inteiro, não criando a excitação necessária para o aparecimento dos maiores exemplares.
Importa ainda saber que se o caranguejo partido vier chupado, as douradas não estão lá. Se desaparecer rapidamente, a ferragem foi tardia. Se vier inteiro, mas completamente amassado, tentámos ferrar cedo demais. Experimentem e digam-me se não é assim.

Bom... esta é a minha história com as Douradas que espero não ter ainda acabado!

Eventualmente não terei sido muito explicito nalgumas matérias. Se criei dúvidas, sabem onde me encontrar. Perguntem que eu respondo, assim me seja possível!?

PS: deixo-vos com a foto acima, tirada nesta última época, no fim de semana antes do Natal. Já foi... ao Sal!
Desculpem lá os óculos da foto, eram os únicos que haviam à venda ali nos ciganos amigos, do Ferry Boat em Setúbal. E o Sol estava-me a incomodar!