segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A Fuga!

Este fim de semana que passou, literalmente... Fugi!

Nada fazia esperar que fosse pescar! Tudo indicava que o Sábado seria de trabalho. A Travessia do Sado a Nado agendada e com as 19.00 horas como hora prevista para o seu término, acrescida de muito trabalho da escola, não previam nada de bom para a realização de mais uma pescaria e, mentalmente, já estava preparado para ver Sines passar ao lado, não fossem os banhos de multidão durante toda a semana, dos quais não sou fã e, possivelmente, teria passado o Domingo com a família.

Salas de professores apinhadas, não sei quantas reuniões, a confusão normal gerada por um milhar de alunos em cada intervalo lectivo, seguidos de um sábado com 130 nadadores, muitos voluntários, barcos de apoio, telefonemas para aqui, comunicações rádio VHF para ali... Acabaram por me decidir por uma fuga sem olhar a meios.

A meio da dita prova de Sábado, estava a telefonar para casa informando: vou à pesca!

Acho que o pessoal compreendeu!

Na minha mente estava unicamente presente que queria ir, sem dar cavaco a ninguém, sem me preocupar com pormenores, unicamente pensado em curtir cada momento que esta inesperada decisão me poderia proporcionar.

Acabou a prova, arrumei as bóias e ferros da montagem do percurso de natação, despedi-me da equipa organizadora e desandei para casa. Tomar um banho e pegar na mala e materiais de pesca, eternamente preparados, foi um ápice. Passar numa grande superfície e comprar umas sardinhas congeladas, um suplício, mas... Estava salvo! Já ia a caminho de Sines, pronto para os tais momentos, com o Bob Marley por companhia... Búfalo Soldier... lá, lá, lá, lá, lá lá, lá, lá...

O mundo era meu enquanto esta fuga durasse!

A viagem decorreu, na companhia já referida do Bob, seguindo-se o Mark dos Dire Straits, como convidados de honra na viatura. Sou sincero... Para além da fiabilidade, como isca, das sardinhas com mau aspecto que levava nem em pesca pensei. Fui ouvindo com agrado os convidados e deixei-me ir naquela de: "o que vier soará"!

Jantei no Zé Beicinho e segui para o barco, onde preparei as canas e as montagens da ordem, tudo em perfeito estado de graça, esquecido do mundo, para o que contribuiu significativamente, ter ficado sem bateria no telemóvel e nem o carregador trazer comigo, o que sucedeu por mero acaso mas certamente por obra dos deuses que mais uma vez me acompanharam.

O material a preparar era agora a minha companhia e a pesca o único pensamento que teimava em não me abandonar, tudo decorrendo no silêncio duma noite calma, sem vento e pouco húmida... Perfeito!
A concentração estava toda na montagem das canas, alinhando os passadores ao milímetro; na passagem dos fios, assegurando que nenhum deles era saltado; as montagens iam sendo colocadas, os nós perfeitos, testados, as pontas cortadas e a aplicação cuidada.
Depois os carretos... A verificação do funcionamento, a taragem das embraiagens para peixe maior, pensando já em evitar mexidas em acção de pesca. Assim foi com a cana de mão, a cana para isca morta e a cana para isca viva, às quais foram presas as montagens para a viagem, seguindo-se a sua acomodação, no poço do barco, onde passariam a noite enquanto o seu dono dormiria o sono dos justos. Quanto à isca... Nem olhei para ela, estava congelada e o dia seguinte logo diria de sua justiça.
Os trabalhos de preparação estavam terminados, gozei um pouco mais o tal silêncio, acabando por sentir aquela moleza típica que muitas vezes sucede a tarefas cumpridas, rabo lavado e barriga cheia, deixando-me levar para o vale dos lençois onde caí redondo, dormindo à bruta até às 9.00 da manhã de Domingo, sem dar em absoluto por qualquer dos barulhos que normalmente me acordam mais cedo. Não me levantei logo... Rolei para um lado, para o outro e estirei-me, esperando que as funções vitais se aproximassem do normal, enquanto ouvia o vento prometido para Domingo dizer: presente!
Mentalmente falei com ele: já sei... Estás aí! Não é preciso lembrares-me tão cedo que existes e que hoje vais estar por cá... Vê lá como te portas... Pelo menos deixa-me pescar!
Eram 10.30 e lá ia eu no Makaira, já comido e com a aviação acomodada, agora na companhia do vento que ainda se comportava àquela hora. Verdade seja dita que, ao longo do dia, nunca se portou francamente mal, mas bem... Também não se pode dizer que tenha estado. Coisas do vento... Fazer o quê?
Dirigi-me ao primeiro pesqueiro onde as probabilidades me pareciam fortes e onde a ocupação do mesmo, por um navio carregado de contentores fundeado, me surgiu como primeiro contratempo do dia. Não desarmei! Em vez de ficar chateado ou coisa que o valha, puz-me a sondar ali à volta. Por vezes, vamos a um determinado pesqueiro e esquecemo-nos que, em torno dele, poderão haver alguns outros... Lembrei-me disto e não corri logo para outro conhecido, pura e simplesmente resolvi sondar, investindo em novos locais para outros dias em que os conhecidos não correspondam.
Ao fim de uma hora e tal de sondagem, fiquei com mais três marcas que, não apresentando sinais merecedores de fundeio, indicaram pela configuração de fundo serem hipóteses a testar mais tarde ou em outro dia.
A coisa não estava a correr mal mas era hora de pescar e, sem correrias ou mais demora, lá fundeei em pesqueiro conhecido, pelos 48 metros de fundo e vá de montar canas e pescar. Isto por volta daquela hora em que muitos pescadores acham que o peixe respeita o nosso tempo de alimentação.
As baixadas desceram indicando que a aguagem era forte, a favor do vento e que os peixes que por lá se encontravam se estavam borrifando para a nossa hora do almoço... Comiam a uma velocidade impressionante e mal grado a qualidade da isca que não era das melhores, certo é que os sinais estavam lá, a aguagem ajudava a transportar "a palavra" e as condições estavam criadas para mais um dia cheio de hipóteses e de pesca muito dura, derivada do continuo roubo de isca e consequente subir e descer já que as cavalas não entravam e a sardinha era presa fácil para os meus engodadores ajudantes que, lá pelos fundos, trabalhavam com uma sofreguidão diabólica.
O tempo passava, a aguagem ora aumentava ora diminuía e, salvo uma ou outra Choupa, Boga ou Peixe Piça; nada mais entrava levando-me a fazer contas à vida... O que faço? Os sinais são bons, a isca não é grande coisa, peixe maior não entra... Mudo de sítio? Insisto por aqui?
Decidi-me por ficar! Ia testar aqueles sinais até ao fim mas precisava que a isca se aguentasse mais tempo; por tal, resolvi aumentar o tamanho dos anzóis e passei a iscar meias sardinhas, conforme a primeira forma de iscar à esquerda da foto que abre a entrada, já conhecida duma outra, mas a única que tenho como ilustração da iscada referida.
Estas iscadas sendo maiores, faziam mais atrito a descer, obrigando-me a aumentar o peso da chumbada assim como a dureza do trabalho a efectuar. Não me preocupei com isso... Dureza é coisa que faz bem ao corpo, alimenta a alma se tiver um objectivo definido e mantém-nos alerta enquanto se labuta.
Fui recompensado ao fim de uns dois lançamentos, não só pela maior agressividade do peixe sobre tão grande carnada, mas ainda pela captura de uma Choupa quase de quilo, da qual não tenho foto, muito por, nesta altura da pesca, estar ciente que algo iria acontecer e o certo é que aconteceu mesmo.
Sentia-se de facto diferença na agressividade do peixe perante esta nova iscada e o primeiro ataque sério e luta interessante deram-se daí a alguns momentos, convertendo-se na captura do pargo de 1,700 kgs que se vê na imagem abaixo.

Mas porque é que não comecei com isto mais cedo? "Ganda toino"!!! Pensei para comigo, com vontade de me dar uma tareia séria!
Voltei a trabalhar à posta, não fosse dar-se o caso de os artistas estarem lá em baixo a comandar tropas, mas não... Era mesmo necessário manter as iscadas grandes!
Continuei na labuta, com vento a aumentar e aguagem a manter-se na força mais baixa entre as diferentes ao longo do dia. Após uma das descidas que já tinha como últimas da jornada, senti um primeiro toque, deixei comer, aguardei o segundo e, logo que este se iniciou, ferrei alto por desconfiança que não sei explicar. A ferragem deu-se! o trabalho começou e o peixe fugiu para a aguagem lutando duro com esta a trabalhar contra mim e o material.
Percebi que não era nenhum monstro, mas vendeu cara a sua sorte este Pargo de 4,000 kgs que vos apresento a seguir, ao lado daquela tesoura que haveria de ajudar a amanhá-lo para que a sua cabeça fizesse as minhas delícias hoje à noite e que a respectiva digestão me inspirasse enquanto vos conto desta minha fuga.

A pesca não durou muito mais, o vento insistia em aumentar e encontrava-me também só para as lavagens e arrumações do barco. Levantei ferro com todos os cuidados, correu bem e vim para terra onde tudo fiz a pensar no dia e na mais valia de ter confiado nos sinais. Ah... Se tenho resolvido pensar mais cedo em iscar daquela forma... O que teria acontecido?

Outro dia experimento!

Até lá ou talvez antes, despeço-me desejando-vos uma boa noite!

7 comentários:

amorim disse...

Hehehe... dá para perceber o quanto ficas feliz quando vais á pesca, que relato!!!
Que dom é este homem !? Para além de curtires quem nem um desalmado, com um relato assim ainda nos consegues pôr,lá a pescar contigo!!

Vai fugindo sempre que possas,"todos" ganhamos com isso!!

Grande abraço

Amorim

Anónimo disse...

Viva Ernesto !

Parabéns pelas capturas e pela insistência na busca de novos pesqueiros!
Estou a apostar fortemente nisso.
Situação que já tinha-mos falado lá no Porto de Abrigo.

Os sinais relatados nesta entrada, fizeram recordar a minha pesca do último sábado, os sinais eram os mesmos dos aqui referidos. Será que eu estou a pescar com iscas demasiado pequenas? É que realmente os pargos não entraram mas estavam lá os sinais!!

Vamos ver quando é que há tempo e a meteorologia ajuda, para por iscas XXL e esperar pelos ditos cujos, sinceramente algo se passa? O raio dos pargos XXL andam lá mas não querem andar barco comigo! lol

Um abraço,

Rui Viegas
Ate Sines!

Anónimo disse...

Bela página para o livro, Ernesto
Começo a desconfiar que ainda lhe dá mais gozo tudo o que antecede a pesca que esta em si mesma!
A velha questão dos preliminares...

Quanto ao resto... consegue lembrar-se da última vez que gradou?

Venha outra fuga, faz favor

Abraço JM
.

Paulo karva disse...

Viva Ernesto.

Embora um pouco atrasado não quis deixar de vir aqui tomar um copo e apanhar uns pargos. Sim porque pelos teus relatos, é como se estivessemos lá.
Parabéns pelo resultado da fuga.

Abraço
Paulo karva

Ernesto Lima disse...

Viva Pessoal!

Grato pelos comentários!

Ao Amorim:

Não sei se é dom ou, pura e simplesmente, conseguir colocar por escrito os pensamentos e estados de espírito de cada momento.

Acho fácil, sinceramente... É tão só dizer o que me vai na alma quando escrevo.

Ao Rui:

Pois é Rui... Eu não te sei dizer se deves colocar maior ou menor tamanho de isca, o que sei é que em Sines pode acontecer qualquer coisa em qualquer lugar em variadas épocas do ano.
Penso que o nosso erro mais comum é ter comceitos do tipo: Ah... Isto é baixo... Aqui só iscas pequenas ou aqui é fundo só iscas grandes ou nesta época do ano tal isca não dá...

Temos de ir apetrechados e acreditar que só em nós e nas capacidades de variar, sentir, diversificar... Poderá estar sediado o sucesso de cada jornada.

Ao João Martins:

Oh João... Este comentário é mesmo para me puxar pela língua! Lol

Quanto a preferência dos "preliminares" ao acto de pesca em si, não se pode dizer que seja verdade!

Eu gozo é cada momento a partir do qual sinto que o tempo é meu.

Depois tem tanta coisa à volta da pesca... A preparação, a ida, a escolha, o sondar,o fundeio, a acção propriamente dita, o voltar de peito cheio ou nem tanto, o pensar no dia, o discutir o dia em boa companhia à frente de uns copos e petiscos, o Cacau... Sei lá!? Tanta coisa boa para alargar dias e aprender... Não me podia ficar só pelo relato da pesca.

Quanto à última vez que gradei, embora isso não seja fácil na embarcada, sinceramente... Não me lembro! LOl

Ao Paulo:

O pessoal que por aqui comenta nunca está atrasado! Ainda por cima se for amigo chegado como é o teu caso!

Abraço a todos

Ernesto

Anónimo disse...

Boa tarde ,sr Ernesto, uma boa pescaria no domingo e uma boa companhia, bom devertimento e para mim foi um recorde, venham mais pescarias como essa. Um abraço Luis Silvestre

Ernesto Lima disse...

Viva Luís!

Grato pelo comentário!

Aquela coisa do Sr. é que não está bem... Deixa lá isso para os gajos da gravata. Ehehehe

Abraço

Ernesto