sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Um Carnaval em que o peixe não se mascarou!


O Mar continua bravo, como que a dizer-nos: tenham calma que eu e os peixes precisamos descansar!

Embora nos custe, temos de acalmar e esperar que o "Soberano" nos deixe passear no seu reino. Ele é que manda! Não tem democracia por ali!

Resta-nos estar atentos aos sites a que nos habituámos, informação preciosa que os antigos não tinham, o que contribuía para muitos azares, mesmo quando dominavam bem os sinais do clima.

Pelo meio de tanta tormenta e mau humor, conseguimos um sorriso de El-Rei no passado Sábado. Quem aproveitou... Aproveitou! Quem não aproveitou... Aproveitasse!

Eu e os meus amigos: Raimundo, Vitor e Pedro; fomos dos que aproveitaram, e... A coisa compôs-se!

Fui na Sexta Feira, já noite, depois de um dia de trabalho mais prolongado que o habitual. A chuva miudinha e o frio húmido e desconfortável acompanharam-me em toda a viagem, durante o carrego dos materiais para o barco, a volta para um banho reparador e o recolher ao Zé Beicinho onde, só a Carne de Porco à Alentejana, o vinho de Pias e alguma conversa; repuseram o ânimo, após tão cinzenta tarde.
Saí já sem chuva e a sentir uma aragem fria de Nordeste, indicadora de mais frio mas também do dia solarengo que nasceria depois do meu sono reparador, permitindo-nos talvez algum sucesso na pesca.

Os pensamentos anteriores acompanhavam-me no caminho de volta ao barco, onde a maravilha tecnológica, chamada termoventilador, garantia o calorzinho agradável até que me enfiasse debaixo dos sacos-cama e sonhasse com peixes enormes, pesqueiros a "ferver", iscas deliciosas e ponteiras de canas, vergadas, beijando a água escura logo abaixo da amura onde gosto de pescar.

O sono iniciou-se... Necessário, pesado e rápido! Tão rápido que "daí a pouco", já tudo se tornava realidade, com a azáfama dos companheiros a bordo, os ditos matinais bem dispostos, motor a aquecer, materiais e iscas a preparem-se e os cheiros... Aqueles cheiros tão caraterísticos das manhãs em que saímos para pescar.

Enquanto o barco já atravessava a boca do porto de recreio, em direcção à barra, a minha cabeça fervilhava, indeciso entre pesqueiros a visitar primeiro. Isto porque a época é irregular, o mar mexeu muito e as últimas duas pescarias tinham sido, como sabem, bem complicadas.
Acabei por me decidir por um "pesqueiro seguro", denominação que tenho para aqueles pesqueiros nem muito profundos, nem muito baixos; com vários pontões, muitos limpos e entralhados entre estes, e onde, caso as marcações de peixe não sejam muito fortes, com trabalho e perseverança, quase sempre se conseguem alguns bons exemplares. Se a marcação de peixe for daquelas melhores, então sim... A coisa pode dar-se!

O fundo escolhido já estava debaixo do barco e a operação de sondagem iniciou-se... Pontão a pontão, entralhado a entralhado, limpos à volta e nada! Estava feio aquilo! Não conseguia encontrar uma marcação interessante.
Já pensava em mudar para outra zona quando me lembrei que há algum tempo, andando em prospecção, passei por cima dum limpo a uns 100 metros a Sul dali, cujas características me tinham despertado a atenção e onde nunca cheguei a pescar. Naveguei para lá e... Em boa hora tomei esse rumo!

Lembrava-me que, navegando para Sul do ponto onde estava, encontraria ainda um ou dois pontões, ao que seguiriam fundos entralhados e limpos entremeados, bons locais para encontrar as Douradas espalhadas, os Sargos legítimos e claro, os incontornáveis Parguinhos, Pargos e, quem sabe, Pargalhões!

Os contornos e texturas de fundo foram aparecendo conforme esperados, até que, ao passar a beirada do último pontão, lá surgiram as imagens de sonda de que tanto gosto: azuis, amarelos, verdes e alguns laranjas; encostadinhos ao fundo, espalhando-se por cima de entralhados e limpos, no fim da beirada e por espaços significativos para além da base do pontão. Senti os olhos a brilharem, o bigode a encaracolar e uma vontade enorme de fundear que controlei, dando mais uma volta, olhando bem o sentido da deriva e rumando ao pontão onde, com a maior das calmas larguei o ferro, dei algum cabo e aguardei que o barco aproasse ao vento para, finalmente fazer a correcção e parar o motor. Era chegada a hora de pescar!

A Sardinha tomou as rédeas da acção, entremeada com o Camarão inteiro, em iscadas grandes colocadas a preceito. Todas as canas estavam a pescar e aconteceu precisamente o que eu gostaria que acontecesse... Nem um toque nas iscas!
O gajo está louco! Exclamarão alguns de vós.

Calma que já me explico!

A relação, tipos de fundo/tipos de marcação de peixe na sonda/sinais dados pelos toques/consumo de iscas/resultados obtidos, diz-me que:
- Num fundo misto de terreno limpo e entralhados, isolado ou perto de um pontão ou entre pontões altos e algo afastado da base destes, com uma marcação de peixe rica e encostada ao fundo numa extensão de terreno significativa; as hipóteses de capturas de exemplares tendem a aumentar, sendo que, um dos melhores conjuntos de sinais tem sido estarmos para aí uns quinze ou mais minutos sem qualquer toque, seguindo-se, por ordem, pequenos "ratanços", boas capturas espaçadas só de peixe melhor e, finalmente, o ataque voraz de peixe miúdo com bons exemplares a entrarem espaçados ao longo da jornada. Isto, utilizando iscas grandes e trabalhando arduamente na sua reposição contínua.
Verdade também que, quando utilizava iscas e anzóis mais pequenos neste tipo de pesqueiros, a tendência era capturar um ou dois exemplares maiorzitos, ao que se seguiam Bogas e outros gaiatos, ficando normalmente por aí.

Pois é meus amigos... A pescaria que se seguiu enquadrou-se, quase à virgula, nos parâmetros acima delineados.

Nos primeiros quinze a vinte minutos, as iscas subiam e desciam praticamente intactas. Não fora acreditar nas imagens de sonda, nos conjuntos de material em acção, nas iscadas... Na volta, ainda se ouviria dizer: "ah e tal... O peixe está lá mas não come"!
Não comeu durante algum tempo, talvez enquanto os maiores não andaram por lá, ou estiveram indecisos até que os pequenos começassem a ratar e nada lhes acontecesse.

As iscas começaram a vir ratadas ao fim dos tais minutos, depois desaparecia uma, a seguir a outra, até que entrou o primeiro peixe... O Parguito que se vê abaixo:


A este seguiram-se mais, ora a um ora a outro, espaçados e já com as iscas a desaparecerem rapidamente, obrigando a esforços importantes e rápidos de reposição.

O peixe queria a linha bem junto ao fundo, no limite tensão/folga, onde o sentir era difícil tendo em conta algum vento e a aguagem a Norte que se fazia sentir. Um pequeno toque, mais seco, seguido de ferragem e... Dá-se melhor luta, com cana a dobrar bem e alguma linha a sair, não muita. O peixe luta forte, é um bom exemplar mas não parece Pargo. Chega à borda do barco, listado a castanho e prata... É uma Saima! Linda!


A pesca continua, tiro um Sargo legítimo para aí com um quilo, o Vitor tira outro e esquecemos de fazer as fotos. O trabalho é muito e adivinham-se outras capturas que vão acontecendo entremeadas com as Bogas que já sobem ferradas pela boca e por tantos outros lados, como é seu hábito.

O Vitor entretanto tira uma Choupa que ainda o enganou quando iniciou a luta. O peixe mais pequeno que levaríamos para terra, o que nesta altura ainda não sabíamos.


Entretanto saía um Parguito ao Pedro e outro ao Raimundo, o que acontecia espaçado, mas o certo é que ia acontecendo de quando em quando.

De repente, sinto outro toque idêntico ao da primeira saima, ferro e a luta é igual. Cá estão as duas, em foto que resolvi tirar ao par.


A acção de pesca continuava assim como o roubo de iscas e as Bogas que sempre intervalavam, em espaços prolongados, as lutas com melhores espécies. Mas não tinha ainda acabado e sentia-se isso mesmo!

A estrutura de fundo sobre a qual actuávamos era propícia a Douradas e eu sabia que não andariam longe, procurando alimentar-se após época de acasalamento e desova. Pena não ter conseguido trazer Caranguejo, mas... Elas também gostam de Sardinha e a coisa deu-se!

O toque veio curto e "manso", deu-se a ferradela e a luta não enganou! Aí está a primeira do dia, a vir ao poço do Makaira:


A azáfama aumentou a par com a sensação de ainda não termos terminado com as capturas que, ao longo do dia, entraram espaçadas e com reposições de iscas ao minuto. Quem esperasse mais algum tempo e não conseguisse perceber a diferença de peso entre montagem iscada e montagem sem isca, arriscava-se a estar demasiado tempo com os anzóis limpos e ineficazes junto ao fundo.

O tempo foi passando e mais uma luta se deu, a do Vitor e da Dourada que abaixo apresenta com a satisfação estampada no rosto.


A tensão sentia-se a bordo, em cada subida e descida das montagens, os olhos cravavam-se nas ponteiras aguardando o tal toque que em vez de representar uma subida para reposição de iscas se transformasse em mais uma luta, um exemplar, uma imagem! O Raimundo sentiu-o e, embora a luta e o exemplar não fossem os que gostaria, deu para pensar num jantar de qualidade. Eis a sua Douradita!


Durante a subida destas últimas Douradas, o Pedro foi tirando uns Parguitos, aqueles de quilo, os quais não tiveram direito a foto, tal a esperança, dada pelos sinais, de que maiores exemplares entrariam numa altura em que o Sol já beijava a linha do horizonte, indicando o fim de mais esta jornada.

O roubo de iscas era uma loucura! Os maiores teimavam em não entrar e começámos a arrumar o material e a dar uma limpeza no barco, preparando-nos para a partida. A única cana que ainda pescava era a minha, em "desespero de causa".
Decidi limpar mais um pouco, enquanto a montagem descia pela última vez, iscada agora com duas meias Sardinhas (da cabeça para a barriga), uma em cada anzol.
As iscas chegaram ao fundo, recolhi a linha excedente, mirei o Sol já escondido e olhei os toques pequenos que assolavam a ponteira da cana... Não reagi! Esperei um pouco e... Lá veio aquele toque diferente, mais seco... Ferrei!
A luta era inconfundível... Tinha outra Dourada, maiorzita, no outro lado da linha!
Espero que cá chegues e encerres este dia com "chave de ouro", pensei para comigo.
Ela chegou e completou um dia em que tudo bateu certo... Os fundos, os sinais, as montagens, as iscas e... A capacidade de resposta dos pescadores a bordo.

Cá está ela, já na penumbra.


A montagem foi retirada, a cana arrumada, assim como o poço do barco, para uma viagem de volta feita de conversa fácil sobre os acontecimentos do dia.

Um dia em que se pensou, encontrou, pescou e tudo funcionou conforme circunstâncias e resultados conhecidos.

Outros dias virão em que nada se parecerá... Nem os resultados!

Que venham os dias! O resto é pesca!

Boa noite a todos os leitores.

11 comentários:

Marco Aurélio disse...

Ernesto!
com estes dias dificiceis uma pescaria dessas e exelente.
cumprimentos

Anónimo disse...

Boas Ernesto,

É nestes "pequenos" pormenores que se faz a diferença , a maior parte dos pescadores desmotiva-se ao chegar a um pesqueiro e não ter toques , quando alguns acreditam que os peixes maiores hão-de entrar , baseados na sonda ou simplesmente por "acreditar". Por vezes têm-se resultados, outras nem por isso , mas à que experimentar e por vezes têm-se agradáveis surpresas, porque esses peixes não se apanham todos os dias.

Ab.

Luís Guerreiro

Anónimo disse...

Viva Ernesto
Ao fim de semana atípico anterior em que o pesqueiro "certo" demorou a localizar e as capturas ficaram aquém do que esperaria (para mim, domingo até acho que foi normal...), sucedeu agora este belo dia de pesca. E com ele a vivacidade da sua escrita e os excelentes pormenores do seu trabalho com a sonda.
É espantoso como se pode conhecer com tanto rigor toda aquela costa.
Abraço
João Martins
.

Ernesto Lima disse...

Viva Pessoal!

Grato pelos comentários!

O peixe tem de comer, a comida tem de estar nalgum lado, os tipos de fundo contam muito, as imagens de sonda, quando interpretadas, aumentam sigificativamente as hipóteses de estarmos no local ideal, depois... As iscas, iscadas, materiais e, muito importante, O COMPORTAMENTO dos pescadores,fazem o resto.

Quanto ao conhecimento rigoroso, referido pelo João Martins. O engraçado é que, tem lá tanto lugar e tanta coisa para descobrir, para além do jogo com espécies, técnicas, épocas que... Até me sinto pequenino quando penso nisso! Ehehehehe...

Abraço

Anónimo disse...

Voltou o bom e velho Ernesto!
Esta é uma pescaria e um escrito típico. Já tinha saudades.
Os peixes é que nem por isso devem sentir muito a tua falta...
Abraço

Nuno Paulino

Ernesto Lima disse...

Viva Nuno!

Grato pelo comentário!

Quanto ao Bom e Velho... Devo estar perto de ser, principalmente, velho!

Ehehehe

Abraço

Anónimo disse...

Bom dia Professor,

na aula de hoje o professor ensinou-nos a interpretar o mar, os fundos, as marcações da sonda, o trabalhar dos iscos, as reacções dos nossos amigos lá de baixo, etc. (É muita matéria junta!)
Utilizando um termo da linguagem vinícola, mostrou-nos como se deve ler o "terroir". Descrito como o Ernesto o faz até parece fácil!
Como diz o outro: São muitos anos a virar frangos!

Um abraço do seu aluno
Pedro

Kaywox disse...

já estou a algum tempo a olhar para o teu post li e reeli, e ponho-me a pensar.
será que algum dia vou ter a sorte de ter uma pesca como a tua????
espero bem que sim.
entretanto regalo-me a ler as festas de carnaval dos outros.
heheheheh

1 abraço ernesto.

Ernesto Lima disse...

Viva Pessoal!

Grato pelos comentários!

Ao Pedro:

Saltando a "história" do professor e relativamente a falar de muita coisa, a mensagem que gostaria de passar é, mais ou menos esta: "as capturas, para mim, valem pelo processo desenvolvido para chegar a elas e como evidência de que o processo foi bem escolhido para o dia, a época, as condições de mar, o pesqueiro, as espécies procuradas...
As capturas são de facto o objectivo mas... A diminuição da intervenção do factor sorte, só se vai conseguindo se olharmos, lermos e testarmos... Procurando para tal os nossos processos. Quando percebemos que o vamos conseguindo, as jornadas de pesca e as capturas têm um sabor diferente.

Ao Zé (Kaywox)

O que te posso dizer companheiro, é que, o que tu pensaste, também já eu pensei e continuo a pensar cada vez que abro uma revista e vejo a enormidade de possibilidades de capturas que há por esse mundo inteiro, tentando sempre ir mais longe, procurando como as conseguir.
Esta "carola" não pára de olhar para as escamas! Gosto! Vou fazer o quê? Ehehehe

Zé! Parece-me que é uma questão de gosto, atenção, tempo e algum dinheiro! Este último necessário, mas penso que não tão importante quanto parece.

Portanto... Para a frente é que é caminho!

Abraço

Ernesto

www.mtcidades.com.br disse...

Lindos peixes!!!
Muito boa sua pescaria.

Ernesto Lima disse...

Viva mtcidades!

Grato pelo comentário!

Abraço aí para o Brasil!

Ernesto