sábado, 24 de janeiro de 2009

Pensamentos e... Moreia à Grega!

Olá boa gente!

Isto está em crise... Para não fugir à moda actual que tudo culpa com a dita cuja!

Ventos, frios, chuvas, vagas... Tudo contra nós, principalmente os que vão de barco, já que o pessoal das pescas a partir de terra lá se vai safando!

Fui pescar faz hoje quinze dias, mas, para além de umas Sarguetas e um Parguito, nada mais entrou, num dos dias mais frios das minhas idas ao mar, em que nenhuma lógica ou conhecimento adquirido funcionaram, fazendo-me pensar na enormidade de aprendizagens por desenvolver.

Quando acontecem jornadas destas, procuramos insistentemente os domínios em que não pensamos mas que, entretanto, afectam negativamente a nossa pesca. Nesta altura, deparamo-nos com uma quantidade de variáveis e hipóteses, cuja análise e sistematização implicariam um trabalho de casa monstruoso e quiçá infrutífero, tanto pelo desconhecimento científico, como pelas variações climáticas sucessivas, para não falar do pouco tempo que pescadores de fim de semana, como a maioria de nós, podem despender nesse sentido.

Então o que faço?

Aponto tudo! Tento pescar em locais fora das zonas habituais, continuo a tomar notas e espero que algo resulte, podendo mais tarde ter um termo de comparação, se é que tal possa vir a acontecer... Sem nunca parar ou desistir de procurar!

Entretanto outra questão se levanta! O tempo continua a não deixar pescar e as experiências ficam por realizar enquanto acontecem outras mexidas de mar importantes, pelo que tudo começa de novo e... Ainda bem!

Se dominássemos a pesca com tanta cientificidade, para além de perder a graça, dificultávamos seriamente a renovação!

Esta é a hora em que acalmo, evito opinar sobre técnicas, materiais, capturas..., deixo de pensar, limpo o material, vou ver o mar, o barco... Enfim, acho que já perceberam o "filme"!?

Foi o que fiz!

Desafiei a mulher e... Lá fomos até Sines!

Andámos por lá, entrámos no barco, com aquela sensação: será que foi desta que a água da chuva entrou? Mas não! Tudo sequinho!
Nível da água... Baterias... Nível do óleo do motor... Tudo bem!
Motor a trabalhar durante alguns minutos, limpeza daqui, limpeza dacolá, recolher tapetes para lavar, mais uns arrumos... Estão a ver!? Aquelas verificações e pequenas manutenções sempre necessárias!
A fome apertava e desandámos para o almoço, deitando uma última olhadela ao barquito, pensando na próxima pesca e antecipando a saudade que vai aumentando até que esse momento chegue.
Almoço no Zé Beicinho, conversa com gente que já não se via há algum tempo, crise para a esquerda, mau tempo para a direita e a pesca que temos combinada? Nunca mais chega o dia!?
Ao aconchego do almoço, sobreveio a vontade de dar uma volta junto ao mar, sentir-lhe o cheiro e pensar, entre outras coisas, sobre algum assunto para escrever por aqui. Não porque não haja, mas, quando pesco fico inspirado, quando não... A coisa fica mais difícil!
Fomos rolando até Porto Côvo, pela estrada junto ao mar, aquela de São Torpes!
As vagas eram altas e as grandes extensões de espuma branca não enganavam sobre as zangas do nosso "amigo"! Já sei! Vamos à Praia da Navalheira!
Chegámos e tirámos a foto que abre a entrada, depois, cais de pescadores de Porto Côvo cuja entrada estava assim:
Deambulámos por ali até resolver voltar devagar, passando pela Costa Norte de Sines, a caminho de casa, onde fomos presenteados com outro testemunho das vontades e humores daquele que nos dá peixe, calma e furor, mantendo-se, no entanto, um bom amigo desde que o respeitemos!
Aqui está ele! O aviso do mar que, não respeitado, nos pode castigar arrancando-nos à terra e levando-nos para as profundezas, onde encontraremos um túmulo, talvez macio e suave, após uma viagem que não queremos fazer.

A falta de pesca dá-me para isto... Mas não por muito tempo, volto á terra e lembro-me dos tempos em que andava por aqui, acampava com família e amigos e fazia caça submarina, percorrendo todos os acessos que me permitiam entrar, na busca de peixe fresco que cozinhávamos na brasa, à noite, antecedendo conversas à fogueira, enquanto os miúdos dormiam nas tendas.
Bons tempos... Também isso temos hoje limitado por uma série de leis promulgadas em nome da conservação e de não sei que mais, menos em nome da liberdade e todo um outro conjunto de direitos que tivemos, mas... Já não temos! Talvez por não os sabermos defender ou guardar!?
Conversámos sobre isso, eu e a minha mulher, lembrando os momentos, os peixes capturados, a alegria da miudagem quando participavam na preparação do braseiro e dos peixes para o jantar!
O que inventámos e o que testámos de conhecimentos culinários, onde as grelhadas e algumas fritadas fizeram as delícias de todos, miúdos e graúdos, assim como, algumas "azias" aos mais abusadores do garfo e do copo...
"As conversas são como as cerejas"... Diz o povo e tem razão!
Enquanto falávamos sobre os petiscos e inovações culinárias, talvez porque ainda no passado fim de semana preparámos o prato do qual resolvi falar-vos, lembrámo-nos da "Moreia à Grega"!
Pode ser um prato controverso, aqui pelos Alentejos, atendendo ao modo como as gentes o preparam; aberta pelo dorso, moura com ela, caninhas para a manter aberta enquanto seca até à meia cura e, em seguida, frita às postas! Muito bom... Admito-o sem quaisquer limitações!
Um gosto intenso, fora do comum e que nem todos os que a provam aceitam à primeira! Mas esse é um problema deles!
Em tempos, lá pelo ano de 1992, juntámos um grupo de amigos e fomos acampando por essa Europa fora, sem nos afastarmos muito do mar, até à Grécia, onde degustámos este peixe à moda local, ficando desde logo fãs de tal prato!
Melhor ainda! É que, para nós que acampávamos aqui pela Costa Alentejana e Algarvia, mudando de poiso de quando em quando, sempre que se capturava uma Moreia, não dava jeito nenhum prepará-la para secar, ou carregar a Moreia, de lado para lado, secando pendurada de um qualquer automóvel. Daí que resolviamos fritá-la fresca como os Gregos e também o pessoal de Cabo Verde o fazem, conforme viemos a saber mais tarde.
Então cá vai!
Moreia à Grega:
Espera-se capturar uma Moreia como a da foto abaixo (já conhecida) ou parecida!


Amarra-se a Moreia ali pela zona onde a estou a suspender e pendura-se num ponto à altura no nosso peito para que a possamos ter bem a jeito; Não sem antes a ter raspado daquele "sarro" que teima em não sair na totalidade!

Pega-se numa faca tão afiada que até arrepia e dá-se um corte à volta, logo abaixo da cabeça até atingir a carne!

Feito o corte anterior, vai-se descolando a pele da carne, formando um bordo de pele caída até que a mão consiga agarrar! Aí meus amigos, puxa-se a pele por ali abaixo dependendo, do corte e da separação inicial, a facilidade com que a "farda" do bicho possa ser retirada.

Fora com a pele e consequentemente com a grande maioria da gordura que não queremos ingerir, corta-se a cabeça, limpa-se a barriga das tripas, deitamos a hipótese de pitéu numa tábua à medida e cortamo-la em fatias finas, não mais grossas que o nosso dedo mindinho (da mão)! Excepto a zona do rabo, a qual poderá ser objecto de uma sopa de peixe deliciosa.

As postas, nesta altura, apresentam-se suculentas, sendo hora de preparar uma marinada a gosto!

Cá em casa, por orientação da "Patroa", fazemos assim:

Ao sumo espremido de uns três, quatro ou mais limões, dependendo da quantidade de Moreia, juntam-se bastantes alhos cortados à fatia, duas ou três folhas de louro, picante e sal a gosto. Tudo isto se coloca a banhar a Moreia, voltando tudo várias vezes, assegurando o envolvimento das postas pelos condimentos e liquidos referidos que assim se deverão manter durante umas três horas ou um pouco mais, tendo o cuidado de revirar tudo de vez em quando!

Enquanto as horas passam, podemos conversar, "picar daqui", "picar dali", regando a coisa também a gosto, conforme a capacidade de cada um e de maneira a que, quando chegar a hora de degustar a Moreia, ainda se consiga perceber o gosto!

Chegou a hora da fritada!

Frigideira ao lume, óleo bem quente, postas escorridas e, para dentro com elas!

Deixam-se fritar até que a cor fique um tudo nada mais escura que aquele dourado habitual, retiram-se e colocam-se a escorrer!

Depois pessoal... Com um arrozinho de tomate, umas batatas fritas, uma salada a preceito ou mesmo e só com um bom pão, regando com um vinho tinto novo, de boa qualidade ou com um branquinho leve, geladinho... Até me está a crescer água na boca! Já para não falar da companhia que, nestes momentos, devemos exigir que seja, no mínimo, boa!

Quanto a vocês... Experimentem! Vão ver que vale a pena!

Sei que esta receita pode não ser pacífica!

Por um lado temos os puristas da Moreia frita após seca que torcerão o nariz a tal pitéu. Por outro teremos os que já a provaram confecionada dessa maneira e que acharam ser o gosto demasiado agressivo para eles, decidindo que não gostam de tal peixe!

Como convenço uns e outros?

Bom... O gosto é menos agressivo que quando se frita o animal depois de seco, direi mesmo, mais refinado! As espinhas quase não se sentem e a carne, de tão suculenta, cola ao dente de quando em quando, sendo libertada quando mastigamos aqueles pedacitos de gordura que não foram com a pele, dando um toque final excelente que só provando poderão avaliar. Uma delícia!

Experimentem companheiros! Há coisas que parecem doer mais e que muita gente experimenta antes que o mar ou qualquer outra coisa os leve!

Enquanto pensam nisso e o tempo passa, pode ser que o São Pedro nos traga alguma paz, deixando-nos pescar e falar das capturas e de tudo o que as rodeou!?

Boa noite a todos os leitores!

8 comentários:

Anónimo disse...

OLá Ernesto. Sou leitor assíduo do teu blog... já estava com saudades de um post... tirando a parte da moreia, que acredito que fique deliciosa, a mensagem vai mesmo de encontro àquilo que estamos a sentir... respeito pelo mar mas ao mesmo tempo uma mistura de tédio e ansiedade de querer voltar rápido ao nosso "mundo".
Força e boas proas.
Atentamente, Luis Ramalho

Paulo karva disse...

Viva Ernesto
Mais um soberbo e desta vez soculento relato.
Não há fome que resista a essa ementa "Grega", temos que provar isso. Haja Moreias! LOL

Tenho de ir comer qualquer coisa, até já!!!!

Abraço
Paulo karva

Anónimo disse...

Viva
Pois é, até o mar nos aumenta a crise...
Quanto à Moreia à Grega, já tive a oportunidade de provar. Foi mesmo provar, porque quando me aprestava para voltar à travessa já lá não morava mais nenhuma posta.
Uma prova de que todos gostámos do pitéu.
Acerca das pescas, até a partir de terra, também está complicado.
Mas a crise há-de passar. E de certeza mais depressa que a(s) outra(s).
Abraço

Vira

Daniel Rodrigues disse...

Boas amigo Ernesto!

Quanto á moreia, é um dos peixes que mais gosto! deliciosa!
vou-lhe apontar um defeito na receita....lol, em vez da moreia ser frita no óleo, se for frita com o tal azeitinho... Fica do outro mundo!

Quanto á pesca de água doce... pode estar á vontade, quando passar pela zona do torrão ou álcacer, é só apitar!

Um grande abraço,

Daniel Rodrigues

Anónimo disse...

Pois é, o tempo de "sequeiro" faz-nos destas coisas, ficamos agri-doces...

Olha se foi á grega ou á turca não sei, mas que estava um espectáculo ninguém duvide. Tem um senão, aquando posta na mesa desaparece num ápice...

Amigo, tenhamos calma e vamos fazendo umas manutenções no material, umas montagens, afinar este ou aquele pormenor porque logo logo estaremos a meter máquina a fundo rumo ao combate.

Da Caparica, aquele abraço!

Mário Baptista

Bruno Mendes disse...

ora viva com qye entao queria pescar!!??? pois pois como eu o compreendo nao molho anzol desde final de Dezembro!!!! Melhores dias virao, ate la vamos respeitando o mar e pondo a leitura em dia.
Essa receita esta me a fazer crescer agua na boca. Tenho de exprimentar isso ai tenho, tenho!!!
um Abraço

Anónimo disse...

Viva Ernesto

Vinte dias sem post é uma eternidade!
E já faltou mais para que o mar volte aos tons de verde e de azul...
Sobre a moreia, provei e gostei, tal e qual como descreve. À grega o petisco já me convence

Um abraço

João Martins
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Ernesto Lima disse...

Viva Pessoal!

Em primeiro lugar, grato pelos Vossos comentários, sem eles ainda me sentia mais "agridoce", como refere o Mário Baptista!

Depois, o tempo que estive sem vos contemplar com alguma escrita... Não é habitual, mas pode acontecer, embora eu tente sempre que não!

Quanto à falta de pesca, já vi que estamos, senão todos, muitos a padecer do mesmo mal!

Quanto à Moreia, salvo a minha concordância com o Daniel sobre a questão do azeite (esqueci-me de levar), aquilo vale mesmo a pena! Lol!!!

Grande abraço!

Ernesto