quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Abram alas! Sua Excelência, a Pesca, está a chegar... Fresquinha!


Os dois "artistas" da foto acima, parecem ambos estar a rir... Será do título? Mas adiante!

Por estranho que pareça, estou a escrever a partir de Coimbra. O meu sogro vem fazer uma operação a uma vista e claro que o vim trazer e dar apoio até que o processo da dita intervenção se complete. Faz parte da vida... Momentos agradáveis e muitos outros... Nem tanto. Depende de nós aproveitar o melhor possível cada momento que ela nos traz.

Entretanto, já houve pesca e, consequentemente, espaço em aberto para a escrita.

O interregno foi grande, as informações que ficaram ao longo dele, pareciam-me por um lado, insuficientes e, por outro, pouco fidedignas. Por tal, recorri ao computador que tenho debaixo do cabelo e a algumas datas/pescarias documentadas aqui no blog, no sentido de determinar os locais de ataque para o início das hostilidades que se verificou no passado dia 20, prolongando-se por 21, 22 e 23.
A procura e testes de pesqueiros eram o que estava mais certo e, em equipa com o João Martins, iniciámos a primeira jornada, procurando os pesqueiros de terra - 20/22 mts - produtivos na última jornada, assim como em outros anos, nesta mesma época.

À chegada, tudo parecia ideal, a água estava um pouco tapada, o fundo marcava peixe, não em grande quantidade, havendo no entanto um pormenor que me deixou de sobreaviso... A temperatura da água, eventualmente por efeito da água quente que sai das turbinas da central térmica, frente a São Torpes, estava pelos 20º, coisa pouco habitual naquela zona, atendendo a que as correntes e ventos predominantes na zona, tendem a levar essas águas mais para Sul, sendo raro que andem por ali.
Não desarmámos e vá de fundeio e início da acção de pesca, verificando-se a ausência de sinais: tanto toques, quanto o habitual roubo de iscas. Insistimos durante uma meia hora mas, mantendo-se as mesmas condições, resolvemos levantar ferro e procurar outro pesqueiro na mesma zona, muito mais por teimosia com base em pescas anteriores que pelos sinais de sondagem verificados. Enquanto sondava apercebi-me entretanto que, num espaço de uns 100 metros a temperatura da água, assim como a côr desta, variavam significativamente: a temperatura, entre os 20 e os 17º; a côr, entre o azul esverdeado e o castanho escuro.
Tais variações fizeram-nos fundear na respectiva fronteira, onde parecia haver mais peixe na marcação de sonda. Certo é que, se no primeiro fundeio ainda se sentiram algumas mordidas na isca, neste, nem uma picada se verificou em mais uma meia hora efectiva de acção de pesca. Era hora de procurar outros mares e navegámos agora para os 33 metros de profundidade onde, salvo a inexistência de variações de temperatura ou côr, tudo de revelou idêntico após fundeio e quase mais uma hora de acção de pesca.
Já eram horas de almoço, não tínhamos um peixe a bordo e a coisa apresentava-se difícil, excepto o nosso entusiasmo em continuar na procura dos nossos interlocutores. Este entusiasmo fez-nos analisar e comentar sobre o que pode acontecer a muitos de nós, caso não nos mantenhamos crentes na nossa capacidade de dar com o peixe... O mais certo seria talvez ir comer e preparar a "grade". No nosso caso preferimos levantar ferro e procurar peixe mais fora, a comida viria a seu tempo; as horas é que passavam, o trabalho de fundear/levantar ferro repetia-se e peixe... Nada!

O próximo pesqueiro estava nos 50 metros, chegámos, sondámos e pessoalmente não amei a marcação de sonda, embora desconfiasse de uns pequenos sinais, muito agarrados ao fundo, por vezes indicadores de zona boa nesta época do ano. Fundeámos e iscas para baixo!

Os sorrisos começaram a delinear-se aos primeiros toques sentidos, abrindo-se de orelha a orelha quando, subidas as baixadas passados uns dois minutos, nem ponta de isca lá se encontrava. Parece que é aqui, comentámos entre nós.

O que era esperado aconteceu, Parguito daqui, mais Parguito dali, um Sargo dacolá, duas Douradas do outro lado, uma Moreia que também quis subir, as fotos adiadas para um dos grandes que haveriam de aparecer tanto a mim quanto ao João, nenhum de nós conseguindo trazê-los até ao poço do barco.
No caso do João, um eventual mau jogo entre nó demasiado apertado/embraiagem talvez com carga a mais, coadjuvados pelo esforço despendido em três ou quatro "arrochanços", precedendo rotura da madre com a ponteira de amortecimento. No meu caso, nó mal apertado no fluorcarbono, dando estralho desapertado. Em qualquer dos casos, principalmente no meu, erros pouco aceitáveis! Paciência!

A pesca terminou neste dia com um saldo de uns 8 Parguitos, ali pelo quilo; duas Douradas "aceitáveis", uma Moreia que se junto à festa e duas cabeças enormes pelos exemplares que podíamos mas não conseguimos capturar. A Sardinha, como isca, mais uma vez a provar a sua efectividade, entre Camarão e Lula. Cavalas... Nem vê-las! Onde andariam?

Como sempre a conversa sobre o dia finalizou mais esta jornada e já só pensava na que se avizinhava... Mais uma pescaria estava a preparar-se para o dia seguinte.

A campanha para o dia seguinte delineou-se ao jantar!
O Fernando Gomes, companheiro de conversas de pesca, do fórum do Porto de Abrigo, de jantares esporádicos e a quem já tinha prometido uma pescaria, juntou-se a mim para a pescaria que já estava em vistas para 21.

O dia acordou calmo, com brisa delineada de N/NW, indicadora de fundeio fácil ou quase. Saímos para o mar naquelas horas que gosto - 9.30/10.00 - procurando desta feita os mares de fora.
Questionarão os leitores: então e o pesqueiro do dia anterior? Porque não começar por aí?

As razões de não começar por aí, prendem-se com umas "manias" minhas, vejamos:

- O pesqueiro do dia anterior pode dizer-se que, devido aos resultados, passou a funcionar para mim como um eventual recurso, caso novas procuras não se verificassem positivas.
- Caso as novas procuras se registassem como positivas, os recursos de pesca aumentariam, assim como os resultados positivos para a estatística de época. Caso não funcionassem entrariam na estatística de época como resultados negativos.
- O que poderia perder? Algum combustível e algum tempo que talvez viessem a valer a pena mais tarde.

Assente nestes pressupostos; procurámos, fundeámos e pescámos fora, pelos 66 metros; tornámos a fazê-lo mais à terra e a Sul e acabámos por voltar ao pesqueiro do dia anterior que se verificou de facto um precioso recurso, adivinhando-se que qualquer dos outros não funcionou, embora tenhamos despendido à volta de uma hora de acção de pesca em cada um deles. Um, deu um Parguito e o outro um Sargo; entre muito tempo sem picadas ou com muito pouca actividade em termos de toques. Já o pesqueiro do dia anterior mostrou-se a funcionar em pleno, com todos os sinais que indiciam pesca frutuosa.

Assim que lá chegámos e após fundeio, iniciámos a acção de pesca com roubos contínuos de iscas, não se passando mais de dez minutos até à entrada do primeiro Parguito ao Fernando. Este que aqui se vê:


A coisa prometia e, embora espaçados, iam entrando uns Parguitos e alguns Sargos, cujo maior acabou por cair na minha baixada:


A coisa prometia, o peixe comia de tudo, muito rápido dando ideia que tínhamos de sofrer entre cada exemplar maior que entrava.
Iscavam-se Sardinhas à posta, às metades, rabinhos... Tudo se tentava, umas vezes pensando em apresentar a comida de forma diversa, outras, pensando em aumentar o tamanho das iscadas, tentando que se aguentassem a ponto de interessar algum exemplar maior.
Entretanto, a um interregno de roubos de isca mais demorados e em que quase não se sentia o peixe comer, capturei o que penso ter sido a causa dessa alteração, um Safio para aí com uns 5 kgs. Digo isto porque logo em seguida os roubos voltaram ao normal, mais agressivos e extremamente rápidos.

Isco com metade duma Sardinha, da cabeça para a barriga, no anzol de baixo e a metade restante, da barriga até ao rabo, no anzol de cima; a  baixada desce, chega ao fundo e tiro a folga até ao limite em que consigo dominar a sensação de estar com a chumbada no fundo, mantendo a ponteira da cana quase a direito. Sinto um pequeno toque, parecendo outro Safio, aguardo e ferro no toque seguinte, mais intenso; fico com algo preso que de imediato cabeceia e começa a fugir na direcção da aguagem que corria levemente em direcção à proa. Não à volta a dar, é um Pargo daqueles maiores, penso para comigo enquanto aguardo que o carreto comece a soltar linha o que não se faz esperar. Será que desta vez tenho tudo bem feito na montagem? Pelos vistos sim!
A luta desenvolve-se! A linha sai, depois pára, mas não o consigo tirar do fundo. Levanto a cana e ele não leva linha! Enrolo linha e ele leva outra vez, agora mais quantidade do que a já recuperada. Penso que será talvez a última vez que o faz com tanta intensidade e não me engano, pois consigo iniciar a recuperação e afasto-o finalmente do fundo. A partir daqui tudo se desenrola com mais rapidez e em pouco tempo tenho-o ao alcance do enxalavar manejado com mestria pelo Fernando. Cai no poço do barco, é contemplado e fotografado em seguida. Aqui está ele... Um lindo Pargo Dourado com 5,340grs (o mesmo da foto de abertura, mas mais sério):

Estava lá tudo: os sinais, as variações de iscas em conformidade com estes, o ritmo de pesca, o crer nas técnicas utilizadas e... com bons resultados.

No dia anterior tinham fugido dois, destes maiores, e, tanto eu quanto o Fernando, continuámos em grande ritmo, acreditando e esperando que algo mais acontecesse e... Aconteceu!

O Fernando atacou também nas iscadas grandes e, nem 15 minutos passados, foi a vez dele se entregar à luta demorada, enervante e dura, culminando com a entrada a bordo de outro Pargo, desta vez um legítimo com 3 kgs, dando origem a uma primeira foto... Para contemplação:


Seguindo-se a esta a foto - após recuperação de tanto gasto de adrenalina que acabou por transformar um homem que parece estar sempre a rir, neste pedaço de cara séria que até mete medo - esta outra, digamos, mais formal:


A pesca estava assegurada em qualidade, a quantidade interessava pouco e, mais importante ainda, tinha acontecido o que esperávamos mercê das acções que desenvolvemos. O que se pode pedir mais? Talvez exemplares ainda maiores... Esperemos que fique para a próxima.

Voltámos ao porto, não sem antes se terem capturado mais alguns peixes de bom tamanho mas cujo significado se tinha perdido por razões que nos pareceram óbvias. Maldito feitio este de se procurar sempre mais ou, no caso presente, melhor/maior.

O dia tinha sido cheio de tudo mas, algo ainda me fez sorrir e brilhar o olho... Já nem me lembrava que ainda tinha dois dias para pescar em Sines.
Mas quanto a esses, tendo em conta as variações significativas das condições de mar, no primeiro; e de técnica utilizada, no segundo; assim como, resultados pouco assinaláveis em termos de capturas, vou aproveitá-los para termo de comparação em futuras entradas.
Posso no entanto dizer-vos, ainda relativamente a estes dois dias, que talvez tenha pecado por insistência em locais e sinais cuja análise posterior, mais fria, parece revelar a necessidade da tomada de outras atitudes de procura mas, assim não aconteceu! Talvez para a próxima?!

Entretanto, fico-me por aqui, aguardando que tudo corra bem na intervenção do meu sogro e que  em breve possa tornar à conversa convosco e com aqueles exemplares que moram lá no mar.

Até lá, divirtam-se e tenham uma boa tarde.

13 comentários:

Anónimo disse...

Caro Ernesto.

Como sempre, mais uma narrativa brilhante.
Obrigado por partilhar as suas ideias
As melhoras do seu Sr. sogro.
Bem Haja.


Santos Pinto

Anónimo disse...

Viva Ernesto!
Antes de mais, o meu abraço com o sincero desejo que corra tudo bem com o teu sogro. E vai correr, vais ver que sim!
Parece que a pausa fez bem ao Makaira... Fico contente e folgo em ver que estás bem, e feliz, e que continuas a ser tu, o Homem do mar que partilha connosco o que sabe. Para quem, para além de ler tudo o que escreves, consegue ler as entrelinhas, esse pormenor da variação de iscadas para maiores, é delicioso e uma dica fantástica... Obrigado!
Tenho esperança que isso (boa maré) que afecta o Makaira seja contagioso, pois a minha casca de noz está perto dele... Ah ah
Abraço
João Carlos Silva

Jose Valle disse...

Seguis en linea Ernesto, preciosas capturas.
Enhorabuena y un saludo.

Ernesto Lima disse...

Viva Pessoal!

Ao santos Pinto: o meu obrigado!

Ao João Carlos: espero que sim, que seja contagioso! A tua maré também não tem andado má! Lol

Ola Jose!

Gracias por el cometario!

Un saluto

A todos vós deixo o meu abraço

Ernesto

João Martins disse...

Viva Ernesto
Foi mais um fim de semana de "pesca técnica" memorável
Parabéns a si, porque merece, e ao Fernando Fontes, porque soube entrar no jogo
Na sexta "eles" escaparam mas isso não importa. O gozo desta sua forma de pescar (e que tão bem relata) esteve sempre presente e, no meu caso, ela só, justifica a saída
Embora não seja o local mais apropriado para analisar o assunto, julgo que a ruptura do nó da ponteira de amortecimento (um 0.40) se deveu em grande parte a estiramentos sucessivos que antes sofreu quando a montagem ficou presa antes por 4 vezes no fundo
Menosprezei esse facto e saí-me mal

Um grande abraço e rápidas melhoras do seu sogro

João Martins
.

Ernesto Lima disse...

Viva João!

Grato pelo comentário e é verdade o que refere quanto ao esforço anteriormente sofrido pela sua baixada. Não tenho muitas dúvidas que tenha sido essa a principal razão de rotura.

Tantos pormenores com que tem de se lidar quando trabalhamos estes exemplares maiores. Pior que tudo é que qualquer deles que seja relegado, pode ser a diferença entre capturar ou não.

Abraço

Ernesto

Paulo Lourenço disse...

excelente pescaria com um belo troféu..o relato esta 5 estrelas..parabéns.

Ernesto Lima disse...

Viva Paulo!

Seja Bem Vindo e grato pelo comentário!

Abraço

Ernesto

Anónimo disse...

Ora viva bons dias,

Pois é amigo Ernesto, esta coisa de fotgenia não é definitivamente o meu forte, com efeito, eu que me julgo um "gajo" com algum sentido de humor e que gosta de rir, quando apareço naquele quadradinho, fico transformado,e neste caso mais pareço um guarda Pretoriano com um Fariseu agrrado pelo pescoço!!! vai lá vai!!!

Bem, mas o que mais interessa é que o dia foi excelente de pesca, de companhia e sobretudo de aprendizagem. Quando as lições são dadas por quem sabe, mas sobretudo por alguém que tem gosto em transmitir o que sabe, torna tudo muito mais fácil.

E para não me alongar mais quero deixar aqui o meu agradecimento ao Ernesto, primeiro, por me ter proporcionado esta experiencia enriquecedora no que á pesca diz respeito, e segundo por ter me dado a possibilidade de agarrar um "Fariseu" daqueles pelo gargalo.

Quanto ao resto vamo-nos encontrando, lá por Sines,à volta de um café ou de uma boa conversa.

Até lá, um abraço e.... boas iscadas!!!

Fernando F.

Sargus disse...

Em primeiro lugar desejo as melhoras e rápida recoperação do teu sogro.

Em segundo lugar, felicito pela narrativa que nos tens habituado sempre que colocas uma entrada no blog, parabéns.

Os sinais...

Os tais sinais...

Que pouco ou nada enganam...

Belos exemplares Ernesto.

Grande abraço e boa continuação de relatos, será sempre bom sinal...

;)

Ernesto Lima disse...

Viva Fernandos (Fontes e Encarnação)! Lol

Grato pelos comentários!

Ao Encarnação:

Pois é amigo! De que adianta escrever para não dizer o que julgo ser verdadeiro? Mais valeria estar caladinho e ir lendo o que outros escrevem, esperando que fosse verdade?! Digo eu... Sei lá? Lol

Quanto ao meu sogro a coisa parece ter corrido bem, assim como a recuperação que, até ao momento, dá indicações excelentes.
Obrigado pela atenção

Ao Fontes:

Pois é companheiro... Aquilo é muito stress... Estás desculpado da cara séria que, também eu o sei, nada tem a ver com o teu dia a dia!

A ambos envio aquele abraço

Ernesto

Anónimo disse...

Bom dia Professor!

não tenho intervindo nas suas aulas, mas não faltei a nenhuma! Sempre a absorver a matéria dada. Só o capitulo da manutenção do barco é que passo. Só de ler fiquei cansado! Eu não era capaz de ter um barco só se tivesse um botão mágico que ao ser pressionado o barco ficasse todo limpinho, motor incluído. lol

Um abraço do seu aluno
Pedro

Ernesto Lima disse...

Viva Pedro!

Grato pelo comentário!

Quanto à questão do barco... "Quem confessa o pecado não merece castigo" Lololololol.

Abraço

Ernesto